05 abril 2013

Dentro da Casa

Dans La Maison – François Ozon – 2012 (Cinemas)

Meu último fim de semana
Claude Garcia

No sábado fui estudar na casa do Rafael Artol. Tive essa idéia porque há algum tempo queria entrar em sua casa. No verão, todas as tardes, ia ao parque olhar sua casa sentado em um banco. Mas uma noite, sua mãe quase me viu espiando pela janela da frente.

Sexta-feita, aproveitando que o Rafa tinha ido mal em matemática, lhe propus ajuda nos trabalhos e exercícios. Claro, era apenas um pretexto, que aceito, se daria em sua casa porque moro em um bairro onde o Rafa nunca irá pisar.

Às 11hs apertei a campainha e a casa se abriu para mim, finalmente. Segui Rafa até seu quarto, que era exatamente como eu imaginava, deixei-o ocupado com um problema de trigonometria e com a desculpa de buscar uma coca, explorei a casa, essa casa onde eu estava após ter-me imaginado tantas vezes em seu interior. Ela é muito maior do que eu pensava. A minha caberia dentro 4 vezes, tudo é limpo e muito arrumado. “Bem, chega por hoje”, pensei comigo, mas no momento em que ia voltar ao quarto , um odor chamou minha atenção. O odor muito singular das mulheres de classe média. Me deixei guiar por esse odor até a sala. Ali, sentada ao sofá, folheando uma revista de decoração conheci a dona da casa, a mãe do Rafa. Fiquei olhando-a até que levantou os olhos, cuja cor combinava com a do sofá. “Ola, você é o Charles?” Que voz! Onde é que ensinam essas mulheres a falar assim? “Não, sou Claude”, respondi, sustentando seu ohar. “Está procurando o banheiro?” “Não, a cozinha.” Ela me acompanhou. “Quer gelo? Sirva-se do que quiser, sinta-se em casa”, disse ela e voltou ao sofá para ler sua revista de decoração. De volta ao quarto de Rafa, resolvi seu problema de trigonometria. Ele precisará de muita ajuda em matemática este ano. (Continua...)

E continua nos melhores cinemas do país, mais um filmão do cineasta François Ozón.

21 março 2013

Carros de Cinema

 
Alguns automóveis que apareceram nas telas dos cinemas ganharam status de estrelas, alguns deles são mais reconhecidos que muitos atores. O Museu do Cinema lista uma série de carros que se tornaram inesquecíveis.

1961 Ferrari 250GT California

Estrela do filme Curtindo a vida Adoidado (1986) essa Ferrari, que só existem 100 no mundo, precisou de dublês para as cenas de ação (para não estragar a preciosidade), só aparecia quando as tomadas eram com o carro parado e de close. Recentemente foi descoberta na Inglaterra onde foi leiloada a um preço milionário.

1968 390 V8 Ford Mustang GT

Depois dele nunca mais as cenas de perseguições com carros foram as mesmas na história do cinema. Em Bullit (1968) o astro Steve McQueen dividiu as telas com a belíssima Jacqueline Bisset e o novato Mustang GT. Ficou tão ligado ao filme que mais tarde a Ford lançou uma versão do carro com o nome Bullit.

1964 Martin, Aston Martin DB5

Esse já é um ator tarimbado, sua primeira aparição foi em Goldfinger (1964) contracenando com o primeiro Bond, Sean Connery, e depois se tornou uma espécie de participação especial. Em Skyfall (2012) sua presença atraiu até gritinhos das platéias. Diria que é, depois de James Bond é claro, o maior astro da franquia.

1970 Pontiac Firebird TransAm

Vestido de preto e carregando Burt Reynolds e Sally Field o TransAm foi praticamente o ator principal de Agarre-me se Puderes (1977) e Desta vez te Agarro (1980). Ficou tão famoso que o cantor norte-americano Bruce Springsteen homenageou-lhe com uma frase na canção Cadillac Ranch, do seu album The River.

1981 DeLorean DMC-12

Esse irlandês é o astro de 4 rodas mais famoso do cinema, foi dado como morto e ressucitou graças a Robert Zemeckis e a trilogia De Volta para o Futuro (1985). Essa máquina que abria suas portas para cima e recebeu o famoso capacitor de fluxo do Dr. Emmet Brown, realizava viagens no tempo com um charme que nunca mais superaram.

27 fevereiro 2013

Headhunters

Hodejegerne – Morten Tyldum – 2011 (DVD)

Meu nome é Roger Brown. Eu tenho 1,68m. Não é necessário um psicólogo para entender que preciso de compensações.

Dinheiro, objetos e uma loira alta que ilustra esse post são as compensações do headhunter Roger, especialista em encontrar executivos para empresas, e roubá-los obras-de-arte num esquema que beira a perfeição. 

Este quadro é composto de círculos e linhas. Coloração monótona, sem textura. A única coisa que faz valer 250 mil é o nome do artista, sua reputação.

Esse filme norueguês, um suspense que homenageia a trilogia sueca Millenium (2009), subverte o jogo corporativo seqüencialmente. É um Wall Street (1987) do recursos humanos, com mais ação.

14 fevereiro 2013

No

No – Pablo Larraín – 2012 (Cinemas)

Como tirar do poder um ditador criando uma campanha de marketing? A resposta mais óbvia, mais procurada, mais honesta, não seria a correta. Para o publicitário René Saavedra (Gael García Bernal), filho de um exilado da ditadura do general Pinochet do Chile, a campanha deve ter clima otimista, mesmo se tratando de um plebiscito armado por governos internacionais – onde a grande maioria da população crê que o general não sairá do poder.

O filme No, do chileno Pablo Larraín, encerra a trilogia do cineasta sobre os anos de ditadura de Pinochet, antes vieram Tony Manero (2008) e Post Mortem (2010). Foi filmado com uma câmera da época arrematada no e-Bay, e processado no antigo formato U-Matic que envelhece a película. O diretor utilizou-se muito de arquivos de televisão do plebiscito original.

Baseado livremente na peça do escritor chileno Antonio Skérmeta, El Plebiscito, No é um filme documental, mas com carga dramática cinematográfica. Mesmo sabendo o resultado não tem como passar sem tensão nas quase 2 horas de filme.

29 janeiro 2013

O Mestre

The Master – Paul Thomas Anderson – 2012 (nos melhores cinemas do país)

Se você descobrir um jeito de viver sem um mestre, qualquer mestre, certifique-se de deixar-nos a par disso, você será o primeiro na história da humanidade.

O PROCESSO

Quando se define o auge da carreira de um cineasta? E esse topo seria sobre o conteúdo ou sobre a forma? Qualquer discussão sobre isso é mera especulação. É só pegarmos a carreira de cineastas excepcionais e tentarmos rotular que a tarefa será ingrata e inapta.

Em O Mestre, sexto filme de Paul Thomas Anderson, são inúmeras cenas onde se pode notar a presença de Michelangelo Antonioni e seu Profissão: Repórter (1975), a começar pela cena que ilustra esse post, mãos abertas sob o mar, igual a Jack Nicholson. Outra que me recordo é quando Freddie vai à casa da namorada Doris, enquanto é entrevistado por Dodd e seu gravador trocando o áudio das cenas.

O PRIMEIRO MESTRE

Desafio você leitor a encontrar um texto sobre o filme em que não cite a brilhante atuação de Joaquim Phoenix e seu inclassificável Freddie Quell. È espetacularmente assustador.

O MESTRE

Vou me posicionar ao contrário da maré. Quem carrega o filme é Philip Seymour Hoffman. O Mestre é um filme polêmico que PTA resolveu amenizar para não causar uma verdadeira perseguição religiosa, e acredite seria uma guerra (lembrem-se que ninguém queria produzir esse filme), entretanto o diretor californiano preferiu jogar nas costas de seu ator que mais confia toda a carga de suas verdadeiras intenções. Lancaster Dodd é sério, bonachão, inteligente, manipulador, seguro, raivoso, planejador, intuitivo, sereno e artístico, enquanto Freddie é só louco.

Baseado no fundador da cientologia L. Ron Hubbard, a personagem de Hoffman cativa todos os tipos de sentimentos em nós. E não poderia ser diferente, afinal um homem como Hubbard que criou uma seita com milhões de seguidores, tem em sua personalidade características tanto que o atraem como o repulsam. E é isso que fazemos o tempo todo na interpretação de Philip Seymour Hoffman.

O LIVRO 2

Filmando pela primeira vez sem seu parceiro Robert Elswit, e usando filme 65mm que há 16 anos não é utilizado, manipulando a mão para combinar com a edição digital, o resultado é soberbo. Juntando a trilha de Jonny Greenwood temos mais uma obra-prima, somando as outras três, Boogie Nights (1997), magnólia (1999) e Sangue Negro (2007). O Mestre é dividido nas interpretações masculinas, e é correto afirmar que é um filme de homens, mas duas pontuações devem ser feitas, ou melhor, serem relembradas. Amy Adams com suas cenas em que tenta controlar a loucura de Freddie e manter seu marido no terreno materialista do casamento enquanto lhe masturba. E Laura Dern numa quase ponta de 2 ou 3 cenas, como uma seguidora estudiosa e colaboradora. É dela a cena que melhor representa a crítica de PTA à cientologia.

18 janeiro 2013

Django Livre


Django Unchained – Quentin Tarantino – 2012 (Cinemas)

Broomhilda (Kerry Washington) é o nome de uma personagem na mais popular de todas as lendas alemãs. Broomhilda foi uma princesa. Ela era filha de Wotan (Leonardo DiCaprio), o Deus de todos os Deuses. De qualquer forma, o pai dela está muito bravo com ela. Então, ele a coloca no topo de uma montanha, e coloca um dragão cuspidor de fogo (Samuel L. Jackson) lá para guardar a montanha, e ele a cerca em um circulo de fogo do inferno. E lá, Bromhilda deve permanecer, a menos que um herói surja, corajoso o suficiente para salvá-la. Surge então Sigfried (Jamie Foxx), ele escala a montanha porque não tem medo dela. Ele mata o dragão porque não tem medo dele. Ele atravessa o fogo do inferno porque Broomhilda vale à pena.

Quando Calvin Candie (Leo) explica, com um crânio a sua frente, os três buraquinhos que diferenciam a subserviência dos negros ao dos brancos. Quentin Tarantino cai na armadilha que lhe tornou gênio, a dos diálogos que entraram na história do cinema. Falamos respectivamente do diálogo do siciliano de Amor a Queima Roupa (1993), escrito pelo cineasta, e a conversa sobre ratos de Bastardos Inglórios (2009). Por alguma razão ela não funcionou aqui.
Tarantino segue com seu obstinado sonho de refazer – criar um material mais divertido – a história. Se em Bastardos ele mostrou que Hitler foi morto dentro do cinema por uma cinéfila por natureza vingadora. Em Django ele cria um justiceiro negro, bom no gatilho, para matar os escravocratas do sul dos Estados Unidos.

Na trilha sonora o diretor mantem a parceria com Luis Bacalov e Ennio Morricone, esse reeditado com músicas feitas para outros filmes. Ficou engraçado captar o momento em que Quentin usa as músicas do Maestro, é quase infalível.

Algumas curiosidades:

♣ Jamie Foxx usou seu próprio cavalo, Cheetah, no filme. Na cena final ele demonstra seu adestramento.

♣ O título e algumas passagens da película foram inspiradas em Django (1960), um western spaguetti com Franco Nero.

♣ Tarantino revelou que as personagens de Jamie Foxx e Kerry Washington foram escritas para serem tetravós da personagem John Shaft do filme Shaft. Uma referência a isso é o nome da personagem de Kerry, Broomhilda Von Shaft.

♣ Na cena em que DiCaprio confronta Christoph Waltz e Foxx ele realmente machuca a mão batendo na mesa. Leo continua representando e Tarantino resolveu usar a cena.

♣ A roupa azul de Django é baseada na famosa pintura “The Blue Boy”. Essa pintura já havia inspirado F. W. Murnau em uma película homônima. Murnau é conhecido como o criador da técnica de câmera “unchained”.

♣ Franco Nero faz uma participação especial no filme usando luvas, uma referência ao original Django onde a sua personagem, no final, tem a mão esmagada por mexicanos por ter se tornado ladrão.

♣ Nero interpreta um homem no bar da personagem de DiCaprio que pergunta o nome da personagem de Foxx que explica: “o D é mudo”, ao que ele responde: “Eu sei”.

07 janeiro 2013

Melhores de 2012


Pelo que vejo por ai minha lista não está muito diferente das demais que pipocam nesse inicio de ano.

Skyfall para mim não é surpresa nenhuma. Sou fã do agente britânico, mas tinha consciência que seus filmes eram bombas, bastou colocar um cineasta à altura da franquia que deu no que deu, de quebra trouxe a melhor brincadeira do ano protagonizada por Javier Bardem, o que fez com que fosse escolhida a atuação do ano.

A Separação é a surpresa do ano, num país onde pensar já não é bem visto pelas autoridades, um filme que discute o comportamento de um casal onde a mulher quer deixar sua pátria é um marco histórico, no mínimo, mas a película vai além disso, é muito bem filmada, possui diálogos sensacionais e abre as portas do Irã para o mundo.

O Artista me deixou mudo. É uma ode ao cinema.

Intocáveis. O que falar dele? Tem uma frase que coloquei no post sobre o filme que gosto muito: Quando o único movimento do corpo que você consegue fazer é balançar a cabeça, existe algo mais importante na vida que mexe-lá para dançar September do Earth, Wind & Fire? Confesso que antes de ver esse filme acharia uma heresia tal pensamento.

Amour talvez tenha recebido a maior análise para fulgurar aqui. Talvez vocês achem chato mais um filme de Michael Haneke ser escolhido o melhor do ano. Cannes também o fez, lembro vocês. Mas não tem como ser diferente. Atrevo-me a dizer que nunca o amor foi dissecado de tal forma pelas artes em geral.

03 janeiro 2013

Drive

Drive – Nicolas Winding Refn – 2011 (DVD)

Ao som da triste e melancólica música Oh My Love, do casal italiano Riz Ortolani e Katina Ranieri, nosso herói sem nome vela o corpo do seu chefe na oficina. Depois de pegar uma mochila seu destino é a Nino’s Pizzeria. Dentro do carro, parado, seu rosto em close ganha luz com os faróis de outros veículos, ele solta e vai até a mala, e o diretor corta para uma interna na pizzaria de Nino, a partir de agora em slow motion e se dirigindo a porta de vidro de entrada. Aos poucos vemos se aproximar alguém usando uma máscara de dublê e parando estrategicamente à frente do restaurante. É nesse momento que a canção ganha melodia de ópera com a orquestra de cordas, e – coincidentemente – a luz de um automóvel reflete-se no rosto mascarado que olha atentamente para Nino (foto do post). Corte do cineasta para homem (Nino) que gargalha euforicamente com uma loira impassível ao seu lado. É o momento que se tornou clichê de tiros, explosões e massacre. Não para esse diretor.

A grande lição que o mestre dos mestres Michelangelo Antonioni ensinou é a importância fundamental da estética cinematográfica. É até óbvio, e ai reside à genialidade do italiano – pois estamos lidando com imagens em movimento e sons – mas é algo raro e quase em desuso no cinema atualmente que, quando aparece algo, a cinéfilia fica alvoroçada, esse é o caso de Drive.

Com um roteiro simples, batido, falho até, mas uma estética deslumbrante, arrebatadora. A história do motorista e mecânico que faz serviços para criminosos dirigindo o carro da fuga e se apaixona por uma vizinha começa a encantar com o uso de slow motions, trilha B, fotografia artística e beleza estética com ângulos e closes que favorecem atores e cenários, e isso é total responsabilidade do diretor canadense Nicolas Winding Refn que encantou Cannes.

14 dezembro 2012

Amour

Amour – Michael Haneke – 2012

Pancada contra uma porta que é derrubada, ela se abre revelando bombeiros do outro lado. A casa parece estar abandonada, outra porta também precisará ser arrombada. O cheiro incomoda, abre-se as janelas para o ar entrar. O casal de zeladores do prédio dá entrevista, a outra porta foi aberta, a janela desse quarto também estava. Na cama, descansa o corpo de nossa protagonista coberta de pétalas de rosas.

AMOR

Michael Haneke é um estudioso da sociedade, é um psicólogo que trata seus filmes como terapia excluindo elementos que não agregam e evidenciando detalhes significativos. Portanto sinopse, resenha e fatos sobre as personagens são supérfluos e distraem o objetivo que é analisarmo-nas com os tons que o cineasta nos mostra. O filme é quase um monologo a dois com os maravilhosos Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva (as melhores interpretações do ano de longe).

Amour é sim uma história de amor. Bela, romântica, mas sem verniz irreal, sabe aquelas frases que terminam os contos de fadas: “...e viveram felizes para sempre”, pois é, já entendeu né?

Amor, segundo o dicionário é: (latim amor, -oris) s. m. Sentimento que induz a aproximar, a proteger ou a conservar a pessoa pela qual se sente afeição ou atração.

11 dezembro 2012

Heleno

Heleno – José Henrique Fonseca – 2011

Um esquálido Rodrigo Santoro é a primeira imagem da película em preto e branco. Ele olha uma parede repleta de noticias de jornais antigos sobre sua personagem, parece louco, doente, a cena termina com ele rasgando os jornais e comendo.

A história do Brasil passa invariavelmente pelo futebol. O país de chuteira, como já escreveu Nelson Rodrigues, estranhamente tem muito pouca história sobre esse tema, e o que não faltam são personagens e material.

Heleno é bem vindo nessa seara. Além de fazer um retrato bem feito do craque problemático (dizem que o 1º deles), o filme possuí qualidades técnicas indiscutíveis, além de atores tarimbados, em especial o trio Santoro, Alinne Moraes e Angie Cepeda.

O ídolo botafoguense que encantava a torcida como a mesma garra que corria atrás das mulheres, e foi interrompido por uma doença degenerativa, peca justamente onde outros poucos já erraram, no futebol. Imagens em close e escassas cenas fazem de Heleno um filme muito mais sobre a doença do que seu tema principal.

05 dezembro 2012

(fdp)

(fdp) – Kátia Lund – 2012 (HBO)

Eu tenho como roubar um jogo sem ninguém perceber.

Depois do escândalo do árbitro Edilson Pereira de Carvalho em 2005, ficou suspenso no ar uma nuvem de interrogações e suspeição sobre o futebol nacional, a verdade é que de lá para cá nada mudou, continua a coisa sendo feita amadoristicamente, e os apitadores os mesmos.

A série da HBO foca suas lentes sob essas pessoas que escolhem seguir esse caminho, em especial no famoso Juarez Gomes da Silva (Eucir de Souza) que passa por uma conturbada separação da sua esposa Manuela (Cyntia Falabella – irmã da global Débora), e seu relacionamento com o filho, os companheiros bandeirinhas, sua mãe e o namorado argentino.

Ao final da primeira temporada, a série parece sentir que as polêmicas dentro das 4 linhas, que acabam passando para os gabinetes dos cartolas, é que darão assunto para mais pano para manga. Só o fato de estarmos falando sobre isso, uma caixa preta do futebol brasileiro, já é um avanço bem vindo, mas (fdp) vai além, suas histórias mostram, para o mais crédulo torcedor, como as coisas funcionam nesse Brasil da população do jeitinho.

09 novembro 2012

Parábola do Mês

A ilha estava infestada de ratos. Como eliminá-los? Cavamos um buraco bem grande e caçamos todos os ratos, quando estavam todos dentro não jogamos nenhum produto químico, nenhum veneno, nada, apenas fechamos e deixamos eles sem comida.

Em pouco tempo os ratos passavam a comer um ao outro até restarem apenas dois deles. Ai abrimos o buraco e soltamos eles. O que fizemos foi mudar a natureza dos ratos, agora eles comiam ratos.

* Extraída do filme Skyfall (2012) de Sam Mendes, interpretada magistralmente por Javier Bardem.

30 outubro 2012

Skyfall

Skyfall – Sam Mendes – 2012 (Cinemas)

– Inglaterra? – 007
– Cinema? – Diretor.
– Ápice? – Bardem
– Impecável? – Craig.
- Skyfall? – Filmão.

Juventude não é garantia de inovações.

À primeira nota musical da famosa trilha ecoa enquanto um corpo deformado e irreconhecível aparece na tela. Porém, ao se aproximar lentamente da câmera, o mais desavisado dos humanos reconhecerá seus pequenos olhos azuis.

Eu nunca entendi a estratégia dos Broccoli. Eles tinham uma Ferrari nas mãos, mas colocava um piloto de testes para dirigir. Precisou Barbara, filha do lendário Albert R. Broccoli, entender que precisava chamar alguém a altura do agente mais imitado e conhecido do mundo.

Sam Mendes além de dar à franquia o aspecto de cinema, conseguiu inovar usando todas as regras que fazem de 007 um cinqüentão tradicional, mas cheio de charme. Mas não posso me furtar de comentar sobre Bardem, Javier Bardem. Afastando ao máximo o fã que sou do ator, e por mais que adore os filmes do espião, não esperava seriedade de um ator tarimbado como ele nesse projeto, e quer saber? Nem teve seriedade. Bardem brinca, sacaneia, é feio, é elegante, é desfigurado, é sarcástico, é imbecil, é genial, é indescritível. Sua primeira cena entra para os anais de James Bond.

15 outubro 2012

Além da Linha Vermelha

The Thin Red Line – Terrence Malick – 1998 (DVD)
 
Talvez a maior característica, o maior elemento da grife do cinema de Terrence Malick seja a narração em off, é também o mote principal usado por seus detratores que o acusam de pretensioso e soberbo.
  
O que significa esse conflito dentro da própria natureza? Porque a natureza se rivaliza consigo mesma? A terra combatendo o mar? Existe uma força vingadora na natureza? Não uma força, mas duas?
  
Os 10 primeiros minutos do filme de Malick são essenciais para ser transportado a Além da Linha Vermelha. Tudo começa com um ameaçador jacaré entrando na água ao som de trilha (clássica) de suspense, ai vem à frase que ilustra esse post, e então somos apresentados a um lugar paradisíaco onde as crianças só brigam quando brincam. É quando entra a voz do protagonista teorizando sobre vida após a morte, ele diz que a calma na hora da morte é que nos leva a imortalidade.
  
Simples, mas genial.
  
Além da Linha Vermelha tem tudo que um filme de guerra produz, todos os clichês que são dogmas hollywoodianos deste gênero você encontrará aqui. A diferença, e que transforma o filme, é Terrence Malick. A forma como o cineasta nos mostra o paraíso com a mesma tinta que nos mostra o inferno pode parecer piegas, mas na verdade é sublime, beira o transcendentalismo.
  
O ex-presidente norte-americano Richard Nixon, em seu discurso de renuncia, divagava: “...pois somente quem esteve no mais profundo do vales poderá conhecer a magnificência de estar na mais alta das montanhas”. No filme o soldado desertor interpretado por Jim Cavaziel parece carregar consigo essa frase.
  
Não posso deixar de comentar a perfeição da trilha sonora assinada por Hans Zimmer em parceria com The Melanesian Choirs. Essencial, arrebatadora e integrada a cada milímetro de filme é daquelas trilhas que se imortalizou na história do cinema.

18 setembro 2012

Intocáveis

Intouchables – Olivier Nakache e Eric Toledano – 2011 (Cinemas)
  
Enquanto assistimos ao filme, nossas almas se elevam em risos, enquanto nossos corações choram em emoção. 

Nos tornamos, com o passar dos anos, e essa vida absurda e desregrada da busca do dinheiro, cínicos e marginais de nossos sonhos. Posso afirmar, sem medo de parecer tolo, que esse filme não faria sucesso se não fosse baseado em fatos reais. 
 
Philippe (François Cluzet - soberbo) e Driss (Omar Sy - soberbo²) têm muito em comum. Enquanto o primeiro é tetraplégico, o segundo é negro, além disso, ainda possuem sorrisos arrebatadores. E pensar que ainda tem gente que não acham nem parecidos. Um é focinho do outro. 
 
Esquecemos as coisas mais importantes da vida, priorizamos outras. Quando o único movimento do  corpo que você consegue fazer é balançar a cabeça, existe algo  mais importante na vida que mexe-lá para dançar September de Earth, Wind & Fire? Numa sociedade onde ser piegas é considerado cretinice, é melhor começar a pensar de outra maneira. 
 
- Esses caras de rua não tem piedade.
- É exatamente isso que eu quero. Sem piedade.