20 março 2018

A Força do Destino

An Officer and a Gentleman - Taylor Hackford - 1982 (DVD)

Somente duas coisas vem de Oklahoma corno e viado. Qual dos dois é você? Não tô vendo chifre então deve ser viado.

Na década de 80 os jovens se comportavam com as regras que as mídias espalhavam. Era o auge do rock, das drogas e do hippie, e claro do sexo livre. Impor limites de direitos, colocar disciplina, ditar rotina e uma linha de conduta baseada na ética, na competitividade, na meritocracia e no estudo parecia coisa da era medieval.

Sargento Emil Foley (Louis Gossett Jr.) é o Officer do título, mas também pode ser o Gentleman, é o responsável em treinar os novos pilotos da aeronáutica. Zack Mayo (Richard Gere) é um jovem abandonado pelo pai e orfão de mãe que enxerga no exército sua única chance de ser alguém na vida. Ele é o Gentleman, mas também poderá ser o Officer.

O titulo original traz essa ambiguidade que foi ignorada por nossos tradutores. Enxergar em ambas personagens o oficial, e o cavalheiro é o que Taylor Hackford faz em toda a película.

Louis Gossett Jr. é uma força incontrolável em cena. Um dos grandes momentos da história do cinema é a sua cena final. Richard Gere também tem atuação marcante, mas suas brigas no set com Debra Winger, uma grande atriz de hollywood relegada ao segundo escalão, acabaram ganhando mais atenção que suas cenas. Ainda tem a belíssima canção Up Where We Belong personificada na voz inesquecível do grande Joe Cocker (uma das cinco melhores trilhas em qualquer lista).

A Força do Destino é uma relíquia. Uma fotografia de um momento marcante da humanidade. É também um filme conservador que nos prova que determinadas características necessitam serem preservadas, passadas e perpetuadas por todas as gerações.

22 fevereiro 2018

Trama Fantasma

Phantom Thread - Paul Thomas Anderson - 2017 (Cinemas)

Me beije, minha garota, antes que eu fique doente.

Enquanto estava enfermo na cama, sua esposa, a atriz Maya Rudolph, cuidou dele com tanto carinho e atenção que o fez perceber o quanto de amor ela sentia por ele. A partir desse dia, Paul Thomas Anderson começou a escrever o roteiro de Trama Fantasma.

O casamento me transformará num falso e eu não quero isso.

Daniel Day-Lewis é um ícone do insólito. É um ator extraordinário, e não há quem discorde, fez pouquíssimos filmes em sua carreira - menos de 25, raramente faz aparições públicas quando não está divulgando um filme, e aos 60 anos acaba de anunciar sua aposentadoria. Além do trabalho de pesquisa para o filme, Day-Lewis colaborou com o roteiro.

O chá está saindo, mas a interrupção permanece aqui comigo.

Da última vez que estiveram juntos, Daniel Day-Lewis e Paul Thomas Anderson entregaram ao mundo Sangue Negro (2007), em Trama Fantasma a narrativa se muda para Londres na década de 50 e o petróleo é trocado pelos tecidos, porém a grande mudança é que agora é um filme de amor ao se debruçar no relacionamento do singular Reynolds Woodcock (Lewis), levemente baseado na vida do estilista espanhol Cristóbal Balenciaga (1895 - 1972), com a garçonete Alma (Vicky Krieps).

E quem é essa adorável criatura fazendo a casa cheirar tão bem.

E quem é Lesley Manville? Que atriz esplêndida, eu não via uma interpretação feminina assim desde Louise Fletcher em Um Estranho no Ninho (1975). Sua presença em cena é como um raio que cai, por menos tempo, mesmo que seja no fundo, atrás de coadjuvantes, ela se sobressai. É daquelas performances que entram na história da 7ª arte, aliás, como Louise.

É reconfortante pensar que os mortos estão vigiando a vida. Eu não acho isso assustador de maneira alguma.

Acompanhar a carreira de um cineasta do quilate de Paul Thomas Anderson é um privilégio que só nós poderemos ter. Seu auge, agora aos 47 anos, demonstra um diretor contido, extremamente sensível, que privilegia os atores e suas performances, que não necessita exibir suas habilidades e conhecimentos cinematográficos, ele simplesmente põe a história no centro e deixa a câmera rolar, e isso nos presenteia com 2 horas e 10 minutos de um filme delicioso, linear, inteligente e, com o perdão do trocadilho, com Alma.

19 fevereiro 2018

Corpo e Alma


Teströl és lélekröl - Ildikó Enyedi - 2017 (Cinemas)

Numa floresta coberta de neve dois veados se acariciam, parecem tímidos, o macho (com chifres) toma a iniciativa, enquanto a fêmea (sem os chifres), mais recatada, demora em deixar-se seduzir pelo macho, que usa suas galhas para atrair a fêmea.

Não se trata de nenhum documentário sobre vida animal, é uma analogia e também um sonho que serão explorados no ótimo Corpo e Alma.

Mária (Alexandra Borbély) é a nova inspetora de qualidade num abatedouro, rígida e bastante tímida, ela começa uma amizade com o diretor financeiro Endre (o ótimo Géza Morcsányi). Essa amizade fica maior quando descobrem que partilham do mesmo sonho, constantemente.

Assistir a um filme de um outro país nos traz a mesma sensação que viajar a esse lugar. A língua, a cultura, a comida e o modo de agir dificilmente não fazem parte de uma película, nesse caso, a Hungria, suscita uma imagem muito positiva sobre essa nação.

06 fevereiro 2018

The Post

The Post - Steven Spielberg - 2017 (Cinemas)

10% foi ajuda dos vietnamitas do sul. 20% foi para deter os comunistas. 70% foi para evitar a humilhação de uma derrota norte-americana.

O mais distraído dos espectadores sabe que esse filme se trata de jornalismo, sobre o famoso jornal The Washington Post, apelidado de The Post, e sobre a relação entre mídia e políticos, mas Spielberg resolveu abrir o filme com uma cena de guerra - onde ele é mestre - mas a cena é tão superficial, tão manipulativa e com uma luz horrorosa que percebe-se logo se tratar de um estúdio. Depois disso, e atuando como charcuteiro, Steven Spielberg desata em querer contar a pré história da dona do Washignton Post, Kay Graham (Meryl Streep), e seu editor-chefe Ben Bradlee (Tom Hanks) e isso nos leva quase 40 minutos.

Mas quando o filme finalmente entra no enredo principal, vislumbra-se o cineasta que é quase uma unanimidade. A agilidade, os cortes rápidos, os selecionados locais onde a câmera nos mostra as cenas, tudo isso contribui para essa segunda parte - o resto da película - ser ágil a ponto de no final acharmos que passou rápido (imagina se deletassem os outros 40 minutos).

O fio que separa a ética da ideologia é transparente. É humanamente impossível você opinar sem defender suas crenças. A diferença no jornalismo são que as noticias não deve seguir ideologias, é como o próprio Ben, personagem de Tom Hanks, relata seu erro à sua chefe da amizade que nutria pelo democrata Kennedy. Para o Editor do Washington Post, o presidente nunca foi uma fonte, e isso JFK sabia o tempo todo.

The Post termina com uma cena bastante parecida com a abertura de Todos os Homens do Presidente (1976), filme que narra o escândalo watergate que finalmente derrubou o presidente.

26 janeiro 2018

Fortunata

Fortunata - Sergio Castellitto - 2017 (Cinemas)

Um rapaz africano está caminhando no deserto, ele está exausto, desidratado, então, na areia, vê a lâmpada do Aladim. Ele a pega, a esfrega, e então o gênio sai da lâmpada e diz: "Eu realizarei seus 3 desejos". Então ele diz: "Gênio, eu quero ser branco, quero muita água e também muitas vaginas." O gênio então o transforma numa latrina.

Fortunata em bom italiano significa sortudo. É também o nome da protagonista vivida por Jasmine Trinca, uma cabeleireira separada, mãe da pequena Barbara (Nicole Centanni) de 8 anos. Devido a separação turbulenta - o marido se nega a assinar o divórcio, e é violento, a pequena começa a cuspir e desobedecer a mãe sendo obrigada a levá-la a um psicólogo (Stefano Accorsi).

Fortunata é um filme leve, apesar da densidade da história, é uma poesia à vida e principalmente a aventura que é viver com os problemas que fazemos, e os percalços cotidianos que nos foge do controle. É uma película italiana em sua essência com todos os clichês que conhecemos e adoramos. Vale também pela trilha sonora.

Sabe porque gosto quando estou com um bilhete de loteria no bolso? Porque posso sonhar!

17 janeiro 2018

O Destino de uma Nação

Darkest Hour - Joe Wright - 2017 (Cinemas)

Após discutir com um amigo parlamentar sobre a escolha do novo primeiro ministro, o Rei George VI (Ben Mendelsohn - extraordinário no papel) recebe no palácio o novo chefe da nação inglesa. Um pouco antes da hora marcada, Winston Churchill (Gary Oldman) é anunciado para o Monarca. A figura do político logo se sobressai e o Rei tenta marcar uma reunião semanal com seu novo primeiro ministro como é praxe. Às 16hs então? Não. A essa hora estou dormindo. George, encabulado, pergunta: E pode? Não, mas é necessário. Responde Churchill.

A figura roliça, sempre com um charuto, poucos e ralos cabelos, branco, parecido com um bebê, rabugento, piadista, que acorda tomando um uísque, almoça com champagne e janta com um vinho não atrai a mínima confiança sobre sua pessoa, muitas vezes parece bêbado, e, em certos momentos, perdido, mas, arrisco-me a dizer, é o maior estadista que o mundo já conheceu.

Há uma máxima entre o funcionalismo público, principalmente o brasileiro, que é necessário tomar medidas que não agradam o povo. Essa é uma das maiores falácias do sistema político. Tratar os verdadeiros donos do poder como crianças é uma forma de manipulá-las e criar um Estado gigante que lhes tira a liberdade. Churchill era um conservador, aquele político que olha o passado e procura conservar o que esse trouxe de sucesso e melhoria à sociedade como um todo. O que tiver que mudar, mudará a partir dessa análise.

E isso foi essencial para o império britânico, enquanto a Europa se rendia a Hitler. Alguns em batalhas sangrentas, outros negociando tratados, e ainda outros sendo traídos, como foi o caso da Rússia de Stalin. Na Inglaterra, assustados com o poderio bélico dos nazistas, alguns poucos achavam que o melhor era a negociação. Churchill foi fundamental, mesmo quando tudo mostrava o contrário, em conservar a história britânica de não tolerar invasões, visto na 1ª guerra mundial. Dois filmes obrigatórios que corroboram isso é Círculo de Fogo (2001) e Dunkirk (2017), esse último é quase uma parte dentro do filme. Os ingleses venceram os alemães com a determinante participação dos civis como desenhou Winston Churchill.

Para finalizar é injuntivo, obrigatório, tecer alguns comentários sobre Gary Oldman e Kristin Scott Thomas. Oldman é a personificação de Churchill, além da maquiagem perfeita, sua voz, e maneirismos trazem ao filme uma reconstituição de época que nenhum cenário seria capaz de fornecer. Thomas é a antagonista à altura, apesar das poucas cenas, é impossível não enxergar no conservador a figura de Clementine que dá pito, reclama das bebidas e acarinha o marido com dedicação. Muitos atos do primeiro ministro são visíveis à esposa, mesmo ela não estando presente na cena.  

12 janeiro 2018

Melhores 2017

2017 foi um ano atípico para o cinema. Enquanto que para hollywood o ano ainda não terminou com denúncias de assédio, no cinema mundial poucas produções chamaram a atenção, uma delas estará em nossa lista. O festival de cannes continua sendo o principal holofote para filmes de fora dos EUA, duas películas que passaram por lá entraram em nossa relação. E por último outros dois filmes norte-americanos, um de uma lenda viva e outro de um cineasta que se encaminha nessa direção, finalizam nossos melhores de 2017.

Silêncio de Martin Scorsese apaga um pouco as características do diretor para nos contar uma história forte, real e sem lados. Uma aula de como transmitir uma verdade sem tomar partido, os professores "engajados" deveriam tomar nota.

Dunkirk de Christopher Nolan tem as mesmas características, é também um documento histórico. A ressalva é que Nolan parece cada vez mais impor seu estilo sem cair na armadilha de ser maior que a história que vai contar.

A Criada de Chan-wook Park é uma obra de detalhes, desde sua adaptação de um livro ocidental para a cultura oriental, às suas imagens e iconografia que parecem reviver um aspecto maravilhoso do cinema do oriente.

O Cidadão Ilustre de Gastón Duprat e Mariano Cohn foi o burburinho do ano, uma produção que alçou voo exclusivamente por causa de seus admiradores. Tem muitos aspectos do cinema argentino, a exceção de Ricardo Darín.

Toni Erdmann de Maren Ade é o filme de 2017. Cru, direto, objetivo, com performances que parecem ocorrer ao nosso lado, misturando humor, seriedade, crítica social sem ser chata ou apontando o dedo, Maren Ade também é a personalidade do ano. Que cineasta! 

30 dezembro 2017

A Criada


Ah-ga-ssi - Chan-wook Park - 2016

Baseado no livro Na Ponta dos Dedos, da britânica Sarah Waters, conhecida por seus romances da era vitoriana e protagonistas lésbicas. Em A Criada o tempo é levado para 1930 durante a ocupação japonesa da Coreia do Sul.

O filme começa mostrando o tio Kouzuki (Jin-woong Choo), que mantém uma biblioteca erótica nos porões de sua mansão. Ele faz a jovem sobrinha, ainda uma menina, ler o conteúdo dos livros a velhos tarados no intuito de ganhar a amizade dos japoneses. Acaba atraindo o inescrupuloso Conde Fujiwara (Jung-woo Ha) que elabora um plano para infiltrar uma criada, a trambiqueira Sookee (Tae-ri Kim) e roubar a herdeira Hideko (Min-hee Kim) fazendo ela se apaixonar pelo falso Conde. O plano começa a dar errado quando Sookee e Hideko começam uma relação além da amizade.

O clima constante de traição e ninguém sendo sincero, um detalhe característico do cinema de Chan-wook Park, cineasta do famoso Oldboy (2003), contrasta com cenas líricas, imagens deslumbrantes e cores fortes, que traz a paixão do diretor pelo grande Akira Kurosawa.

26 dezembro 2017

Dunkirk

Dunkirk - Christopher Nolan - 2017 (Cinemas)

Seis soldados vasculham uma rua reta com pequenas casas enquanto dos céus caem folhas de papel.

O INIMIGO IMPELIU OS EXÉRCITOS BRITÂNICO E FRANCÊS PARA O MAR.

Um deles resolve pegar um desses folhetos e ler. Nele há um desenho de um mapa com a descrição bem grande: VOCÊ, mostrando que estão encurralados e dando aviso: RENDER-SE é SOBREVIVER.

ENCURRALADOS EM DUNKIRK, ELES AGUARDAM SEU DESTINO.

Outro soldado busca água com certo desespero. Bebe o resto de uma mangueira abandonada na rua.

NA ESPERANÇA DE SEREM LIBERTADOS.

Outro soldado, Tommy (o novato Fionn Whitehead) recolhe algumas folhas que ainda voam com o objetivo de fazê-las de papel higiênico. Um outro recolhe cigarros em cinzeiros dentro das casas vazias quando vários tiros são disparados, rapidamente eles saem correndo pela rua buscando proteção. Um a um são mortos pelas costas durante a correria, apenas Tommy consegue pular um portão e fugir. Do outro lado da casa, ele passa a receber tiros vindos de uma barricada e começa a gritar: SOU INGLÊS. Os tiros cessam e ele é chamado para trás da barricada. O exército francês o recolhe com olhar pouco amistoso. Os tiros voltam a ecoar e Tommy foge em direção ao mar.

Na praia, uma multidão espera barcos e navios para fugirem daquele inferno.

Utilizando atores novatos e jovens, assim como foi nesse episódio da  2ª guerra conhecido como Batalha de Dunquerque, Nolan acerta em cheio em mostrar uma realidade, principalmente dos soldados, nua e crua. É possível enxergar em seus semblantes o medo que os verdadeiros militares sentiram.

(RISCO DE SPOILER) Christopher Nolan, que também escreveu o roteiro do filme, alega que essa batalha foi essencial para a vitória dos aliados contra o nazismo. Talvez o cineasta tenha razão, mas nesse caso não foram as estratégias, os soldados, ou o poder bélico que decidiram o triunfo. O patriotismo, a contribuição, e as decisões civis foram decisivas justificando a máxima que o poder emana do povo e deles saem as responsabilidades sociais, você concorde ou não.

27 novembro 2017

As Faces de Toni Erdmann

Toni Erdmann - Maren Ade - 2016 (iTunes)

Na 1ª cena do filme, um entregador de uma empresa de correio alemão leva uma caixa para Winfried (Peter Simonischek) e trava-se o seguinte diálogo:

- O que será que meu irmão comprou dessa vez? Toni! Você fez algum pedido? (gritando para dentro de casa). Ele acabou de sair da prisão, faz coisas estranhas. Foi preso por mandar um pacote-bomba. Ontem ele comeu uma lata de ração de cachorro. Espere um momento.

Ele entra na casa deixando a porta aberta e começa a falar com o "irmão", alto o bastante para o carteiro ouvir:

- Toni, venha aqui. Tire a bunda dessa rede. Vou te pôr para fora se continuar assim. Pediu outro catálogo de biquíni?
- Eu não, não seja tão maldoso.
- Ande, o carteiro está esperando.
- Onde?
- Na porta, claro!

E ai volta o "irmão", de óculos escuros, um roupão aberto, algemas e comendo uma banana:

- Meu irmão mente, não pedi nada de erótico.
- O conteúdo não me diz respeito. Responde o entregador.
- Ainda bem. Me dê aqui, estou louco para desmontar essa bomba.

Enquanto ele assina, chega um garoto, Lukkas, a quem ele apresenta como colega caçador de minas, para piorar o medidor de pressão apita assustando o carteiro desnorteado. Ai Winfried revela a sua brincadeira tirando o óculos e dizendo que não existe o "irmão".

Em tempos de politicamente correto, o professor de piano que adora se fantasiar e inventar histórias não é muito didático, mas o filme da cineasta alemã Maren Ade é de uma sensibilidade sem cair na pieguice que nos deixa atônitos.

O filme ainda guarda uma cena que demonstra toda habilidade artística de  Sandra Hüller - que interpreta a filha de Winfried, perseguida por ele durante toda a película - cantando Whitney Houston.

O figurino do animal, que também ilustra esse post, chama-se Kukeri, é uma fantasia comum na Bulgária onde acredita-se afasta espíritos ruins. 

27 setembro 2017

Mãe!

Mother! - Darren Aronofsky - 2017 (Cinemas)

Eu quero fazer um paraíso.

A estrutura de Mãe! é baseada na bíblia, a mãe do titulo refere-se a mãe natureza, representada pela atriz Jennifer Lawrence, Javier Bardem é creditado como Ele, em maiúsculo, Deus. Ed Harris é Adão e Michelle Pfeiffer Eva, portanto seus filhos são Caim e Abel.

Enquanto o filme vai se desenrolando num compasso gradual, vamos imaginando versões, tanto teatral como psicologicamente. E esse jogo de dicas e adivinhações é ignorado pelo cineasta, que prefere a poesia à manipulação. E talvez seja aqui, na metade da película, que há uma ruptura da proposição, e isso acaba gerando insatisfação em parte dos espectadores.

Porém toda essa analogia é criada por nós mesmos, nossa cultura cinematográfica de procurar as dicas, descobrir intenções, dialogar com o cineasta. Mas a arte não dialoga, a arte abre espaços, a arte gera questionamentos.

Darren Aronofsky escreveu o roteiro em menos de 5 dias numa visão pessimista do mundo. Foi durante as filmagens que ele e a atriz Jennifer Lawrence começaram a namorar. Uma das inspirações do diretor foi a artista plástica escocesa Jessica Harrison cuja obra foi copiada no pôster que ilustra essa matéria.

13 junho 2017

O Cidadão Ilustre

El Ciudadano Ilustre - Gastón Duprat e Mariano Cohn - 2016 (Cinemas)

Daniel Mantovani criou um universo poderoso em torno de sua terra natal. Apesar de ter vivido na Europa, seu trabalho aborda temas universais, contando a história intima da aldeia onde nasceu e passou a juventude: Salas, na província de Buenos Aires, Argentina.

Depois de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, o escritor argentino Daniel Mantovani (Oscar Martínez), um autor recluso e de forte personalidade, decide voltar a sua terra natal depois de 40 anos para receber o titulo de Cidadão Ilustre.

A melhor política cultural é não ter nenhuma. "Defender nossa cultura"? Sempre consideram a cultura algo frágil, esquálido que precisa ser salvaguardado, protegido, promovido e subsidiado. A cultura é indestrutível. Capaz de sobreviver aos piores massacres. Houve uma tribo africana cuja língua não tinha a palavra "liberdade". Sabem porque? Porque eles eram livres. Acredito que a palavra cultura é sempre pronunciada pelas pessoas mais ignorantes, estúpidas e perigosas. Pessoalmente, eu nunca a utilizo.

Gastón Duprat e Mariano Cohn conseguem exprimir o roteiro de Andrés Duprat de forma a entregar aos espectadores um filme dinâmico, pontual e intenso do inicio ao fim. É quase impossível se desligar um minuto sequer das cenas, mesmo sem usar recursos grandiosos de cinema. O Cidadão Ilustre é um filme direto, fantástico, completamente interligado, e talvez por isso que mantenha nossa expectativa sempre atenta. É como aquele livro que a gente começa a ler e só para quando chega a última palavra.

16 maio 2017

Vestidos de Cinema

Hollywood e a moda sempre andaram juntas. É comum vermos estilistas de renome assinando o figurino de grandes produções do cinema. Jean-Paul Gaultier é constante colaborador dos filmes de Pedro Almodóvar e ficou famosa a sua participação em O Quinto Elemento (1997) de Luc Besson. Tom Ford que se tornou um cineasta já assinava os ternos de James Bond antes de ir para trás das câmeras, Giorgio Armani esteve presente no filme La Grande Bellezza de Paolo Sorrentino.

Decidir os 5 vestidos que mais chamaram a atenção na história do cinema não foi tarefa das mais fáceis, mas algumas dicas aqui e ali, e principalmente o burburinho dessas peças anos após sua produções contaram em favor nessa escolha.

Em 1° o famoso vestido de Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo (1961), um ícone. O 2° Keira Knightley o usou em Desejo e Reparação (2007) e sua cor ainda é lembrada. Já o 3° fez o frio James Bond derreter o coração pela primeira vez ao vê-lo em Eva Green em Casino Royale (2006). O 4° foi um presente de Robert Redford a Demi Moore em Proposta Indecente (1993), e em 5° Nicole Kidman o usou em Moulin Rouge (2001).

03 abril 2017

Big Little Lies

Big Little Lies - David E. Kelley - HBO (2017)

Luzes policiais azuis e vermelhas se misturam num cenário que parece ter sido uma festa. Investigadores por todos os lados e convidados espantados denunciam ter havido algum tipo de crime. Não demora muito para informarem ter encontrado um corpo.

Após vários depoimentos rápidos (que se estenderá por toda a série) descobrimos se tratar de uma escola, ao mesmo tempo já somos apresentados à nossas protagonistas, Madeline Mackenzie (Reese Whiterspoon), Jane Chapman (Shailene Woodley) e Celeste Wright (Nicole Kidman). Em comum, mães de meninos de 6 anos colegas de colégio na Otter Bay.

Já no primeiro dia de aula, uma professora sem experiência e uma escola sem habilidade criam um ambiente ainda pior que as filas de carro na porta. No meio do pátio, quando todas as crianças já estavam com seus pais para irem embora, a docente acha certo anunciar que uma criança foi agredida, e não satisfeita pede a garotinha apontar o agressor que nega a agressão. Já com os pais revoltados uns com outros (nessa situação as amizades falam mais alto), a professora finalmente enxerga a bobagem que fez.

Depois de uma disputa de bastidores, a HBO venceu a Netflix para os direitos da série. A autora do livro, a australiana Liane Moriarty vendeu e deixou seu livro ser adaptado depois que sua conterrânea, Nicole Kidman, viajou até a Austrália e conversou com ela pessoalmente. Kidman é uma das produtoras da série, juntamente com Reese Whiterspoon.

O canadense Jean-Marc Vallée, diretor do ótimo Clube de Compras Dallas (2013) consegue imprimir nos capítulos um clima crescente de tensão fazendo com que a HBO se pareça com uma TV preta e branca de 1960. É impossível não querer ver os episódios um atrás do outro.

A música que abre a série, Cold Little Heart, de Michael Kiwanuka abre uma playlist inspiradíssima, ressaltando a importância da música em séries. Será impossível ouvi-la novamente sem lembrar a cena de abertura e os atores dessa grande produção.

25 março 2017

Fragmentado

Na década de 70, depois de sequestrar e violentar 3 mulheres, Billy Milligan, um jovem de 22 anos foi preso acusado dos crimes. Durante uma avaliação psiquiatra pedida por seus advogados, Billy foi diagnosticado com Transtorno Dissociativo de Identidade, descobriu-se que Billy tinha 24 personalidades diferentes, e duas delas, um iugoslavo chamado Ragen e uma lésbica chamada Adalana, tinham cometidos os crimes.

Split - M. Night Shyamalan - 2016 (Cinemas)

O cineasta indiano radicado na Philadelphia M. Night Shyamalan é um personagem de Hollywood. Ele surgiu para o mundo com o sucesso mundial O Sexto Sentido (1999), após isso ele fez o excelente Corpo Fechado (2000) que muitos consideram o melhor filme de super-heróis. Era praticamente uma unanimidade e um Midas - tudo que tocava virava ouro. Então ele faz 7 filmes entre medianos e ridículos e virou uma espécie de zuador de si mesmo.

Fragmentado é sua tentativa mais concreta de voltar ao patamar anterior. Possivelmente também seja uma questão de ter deixado de lado o ego, voltando ao inicio da carreira onde escrevia roteiros baseados em estudos severos sobre a trama do filme, e se preocupava em deixar seus atores entregar excelentes performances. E não em criar um gênero pra chamar de seu.

Shyamalan entrevistou muitos psiquiatras e se fundamentou no livro baseado em fatos reais, The Minds of Billy Milligan, que comentei acima. O que mais impressionou o diretor foi uma personalidade em particular, a de um lutador russo que brigava, e batia, em muita gente na prisão, mesmo Billy sendo magro e nem um pouco musculoso.

James McAvoy garante com seu talento todo o volume do calhamaço do script. Imagino a dificuldade do ator em interpretar uma cena no espelho como uma criança de 9 anos, e um adulto muito sério, mudando a voz e as expressões sem cortes.