03 abril 2017

Big Little Lies

Big Little Lies - David E. Kelley - HBO (2017)

Luzes policiais azuis e vermelhas se misturam num cenário que parece ter sido uma festa. Investigadores por todos os lados e convidados espantados denunciam ter havido algum tipo de crime. Não demora muito para informarem ter encontrado um corpo.

Após vários depoimentos rápidos (que se estenderá por toda a série) descobrimos se tratar de uma escola, ao mesmo tempo já somos apresentados à nossas protagonistas, Madeline Mackenzie (Reese Whiterspoon), Jane Chapman (Shailene Woodley) e Celeste Wright (Nicole Kidman). Em comum, mães de meninos de 6 anos colegas de colégio na Otter Bay.

Já no primeiro dia de aula, uma professora sem experiência e uma escola sem habilidade criam um ambiente ainda pior que as filas de carro na porta. No meio do pátio, quando todas as crianças já estavam com seus pais para irem embora, a docente acha certo anunciar que uma criança foi agredida, e não satisfeita pede a garotinha apontar o agressor que nega a agressão. Já com os pais revoltados uns com outros (nessa situação as amizades falam mais alto), a professora finalmente enxerga a bobagem que fez.

Depois de uma disputa de bastidores, a HBO venceu a Netflix para os direitos da série. A autora do livro, a australiana Liane Moriarty vendeu e deixou seu livro ser adaptado depois que sua conterrânea, Nicole Kidman, viajou até a Austrália e conversou com ela pessoalmente. Kidman é uma das produtoras da série, juntamente com Reese Whiterspoon.

O canadense Jean-Marc Vallée, diretor do ótimo Clube de Compras Dallas (2013) consegue imprimir nos capítulos um clima crescente de tensão fazendo com que a HBO se pareça com uma TV preta e branca de 1960. É impossível não querer ver os episódios um atrás do outro.

A música que abre a série, Cold Little Heart, de Michael Kiwanuka abre uma playlist inspiradíssima, ressaltando a importância da música em séries. Será impossível ouvi-la novamente sem lembrar a cena de abertura e os atores dessa grande produção.

25 março 2017

Fragmentado

Na década de 70, depois de sequestrar e violentar 3 mulheres, Billy Milligan, um jovem de 22 anos foi preso acusado dos crimes. Durante uma avaliação psiquiatra pedida por seus advogados, Billy foi diagnosticado com Transtorno Dissociativo de Identidade, descobriu-se que Billy tinha 24 personalidades diferentes, e duas delas, um iugoslavo chamado Ragen e uma lésbica chamada Adalana, tinham cometidos os crimes.

Split - M. Night Shyamalan - 2016 (Cinemas)

O cineasta indiano radicado na Philadelphia M. Night Shyamalan é um personagem de Hollywood. Ele surgiu para o mundo com o sucesso mundial O Sexto Sentido (1999), após isso ele fez o excelente Corpo Fechado (2000) que muitos consideram o melhor filme de super-heróis. Era praticamente uma unanimidade e um Midas - tudo que tocava virava ouro. Então ele faz 7 filmes entre medianos e ridículos e virou uma espécie de zuador de si mesmo.

Fragmentado é sua tentativa mais concreta de voltar ao patamar anterior. Possivelmente também seja uma questão de ter deixado de lado o ego, voltando ao inicio da carreira onde escrevia roteiros baseados em estudos severos sobre a trama do filme, e se preocupava em deixar seus atores entregar excelentes performances. E não em criar um gênero pra chamar de seu.

Shyamalan entrevistou muitos psiquiatras e se fundamentou no livro baseado em fatos reais, The Minds of Billy Milligan, que comentei acima. O que mais impressionou o diretor foi uma personalidade em particular, a de um lutador russo que brigava, e batia, em muita gente na prisão, mesmo Billy sendo magro e nem um pouco musculoso.

James McAvoy garante com seu talento todo o volume do calhamaço do script. Imagino a dificuldade do ator em interpretar uma cena no espelho como uma criança de 9 anos, e um adulto muito sério, mudando a voz e as expressões sem cortes.

21 março 2017

Silêncio

Silence - Martin Scorsese - 2016 (Cinemas)

Há uma história muito interessante sobre o tempo do Daiata Furud lá. Ele tinha quatro concubinas. Quatro. Todas eram muito belas, mas elas...Houve um tempo, em que as concubinas estavam com ciúmes, e lutaram e lutaram sem parar, por isso ele tirou-as do castelo. E a paz voltou de novo à sua vida.

Talvez o projeto mais pessoal do tarimbado Martin Scorsese, a adaptação do livro homônimo do japonês Shûsaku Endô se tornou uma odisseia na vida do renomado cineasta. O resultado, contra todas as expectativas e principalmente um estúdio em constante briga com o diretor, é uma belíssima história de fé, de cultura e de religião.

Intrigados com a apostasia, a renúncia aos votos religiosos do Padre jesuíta Ferreira (Liam Neeson) que partiu ao Japão para propagar o catolicismo no mundo oriental, dois de seus discípulos, Padre Rodrigues (Andrew Garfield - brilhante) e Garupe (Adam Driver) partem atrás dele e decidem continuar a levar sua religião a terra distantes, mesmo diante do pessimismo de seus superiores e cartas relatando torturas.

Scorsese capta com a sensibilidade que lhe é peculiar e os anos de trabalho doados à sétima arte, não só como cineasta, mas também como guardião de filmes, e faz um filme histórico do ponto de vista humano, e belíssimo, do ponto de vista cinematográfico. Sua câmera passeia pela história verídica do livro de 1966 do católico japonês Shûsaku Endô (hoje menos de 1% da população nipônica é católica) e nos entrega uma obra-prima sem retoques. Em tempos de opiniões tão antagônicas e extremadas, o velho Scorsa mais uma vez nos dá lição sem precisar fazê-lo.

17 março 2017

Parábola do Mês

Já adotamos o livre-arbítrio antes.  Depois de os levarmos a idade da pedra ao auge do império romano ai nos retiramos. Para ver como se sairiam sozinhos. Vocês nos deram a Idade das Trevas por 5 séculos. Ate que finalmente decidirmos intervir. O Presidente achou que tínhamos que caprichar mais ensinando vocês a andar de bicicleta antes de tirar as rodinhas de novo. Então lhes demos o Renascimento, o Iluminismo, a Revolução Cientifica. Durante 600 anos ensinamos a controlar seus impulsos usando a razão. Então em 1910 saímos de novo, mas em 50 anos vocês trouxeram a 1ª Guerra Mundial, a Depressão, o Fascismo, o Holocausto. E chegaram ao auge levando o planeta inteiro ao limiar da crise com Cuba. Naquele ponto foi decidido que devíamos intervir antes que fizessem algo que até mesmo nós não pudéssemos consertar. Você não tem livre-arbítrio. Tem apenas um aparente livre-arbítrio.

Extraída do filme Os Agentes do Destino (2011) dir. George Nolfi, interpretada por Terence Stamp.

02 fevereiro 2017

Até o Último Homem

Hacksaw Ridge - Mel Gibson - 2016 (Cinemas)

Na primeira cena do novo filme dirigido por Mel Gibson vemos as atrocidades que uma guerra é capaz de fazer: corpos explodindo, incendiados, membros voando ensanguentados, explosões a ermo, tudo isso graças aos dublês e aos efeitos visuais da sua equipe que não utilizou efeitos computadorizados. Dai vem a voz do nosso protagonista, calma e serena: "Você não ouviu? O Senhor é o Deus eterno, o Criador de toda a terra. Ele não se cansa nem fica exausto. Sua sabedoria é insondável, seu conhecimento incompreensível. Faz forte ao cansado e multiplica o vigor dos fatigados. Até os adolescentes se cansam e ficam exaustos, e os jovens tropeçam e caem, mas aqueles que esperam no Senhor, renovam suas forças. Voam altos como águias, correm e não ficam exaustos, caminham e não se cansam".

Lendo assim parece mais um ex-coroinha divagando, mas guarde bem esses versos, ao final de um pouco mais de 2 horas, essas palavras ganharão um significado poucas vezes visto na história do cinema.

Após um longo hiato, uma década pra ser preciso, o astro Mel Gibson retorna a direção. Seu ultimo trabalho como cineasta havia sido Apocalypto (2006). Até o Último Homem é seu momento mais maduro da carreira, é um filme excepcional sob quaisquer aspecto de uma produção cinematográfica, porém se sobressai nas belezas das cenas, na criação e olhar em determinados ângulos. Algo que só as grandes legendas do cinema possuem.

Agora, a autoridade mesmo do filme é a sua história, a História com H maiúsculo de Desmond Doss (o ótimo Andrew Garfield) o primeiro soldado norte-americano, objetor consciente da guerra, que foi autorizado pelo governo dos EUA a ir ao campo de batalha sem nenhuma arma. 

27 janeiro 2017

La La Land

La La Land - Damien Chazelle - Cinemas (2016)

"Aqui é Los Angeles. Onde eles veneram tudo, e não valorizam nada".

Numa das cenas de La La Land, o músico Sebastian (Ryan Gosling) fica inconformado quando a aspirante a atriz Mia (Emma Stone) confessa que não gosta de jazz. Podemos mudar, tranquilamente, o gênero musical (o jazz) pelo gênero musical (do cinema). Os famosos musicais hollywoodianos já tiveram seu tempo áureo, hoje é quase relíquia.

O pé atrás com musicais vem muito de seu principal elemento, a música, lembro aqui de Moulin Rouge (2001), um sucesso muito pela bela trilha sonora. E nesse quesito, La La Land passa com méritos, suas canções são deliciosas, em especial a já famosa City of Stars, e Start a Fire com o famoso profissional da área John Legend.

O cineasta Damien Chazelle, de Whiplash (2014) e o escritor e músico Justin Hurwitz tiveram a ideia do filme durante o ano de formatura em Harvard. Inicialmente, eles encontraram dois financiadores e um produtor para um orçamento de 1 milhão de dólares. No entanto, a demanda por um monte de alterações de script fez com que eles abandonassem o projeto. Depois que Whiplash foi um sucesso, ele retornaram com o projeto ao estúdio e receberam o sinal verde.

A saga da atriz em busca da fama e o músico de reconhecimento que se conhecem se esbarrando várias vezes na cidade dos sonhos, LA, ou Los Angeles, e começam um romance, pode não ser uma obra-prima, mas é um belíssimo filme. 

13 janeiro 2017

O Jovem Papa

The Young Pope - Paolo Sorrentino - 2016 (HBO - Estreia domingo dia 15)

Senhoras e senhores, venho aqui lhes dizer que estamos diante de uma obra-prima.

- Quem é o mais importante dos escritores dos últimos 20 anos? Cuidado, não é o melhor - virtuosismo é para os arrogantes - o mais importante? Alguém que despertou tanta curiosidade mórbida que virou o mais importante.
- Não faço ideia, talvez Philip Roth?
- Não. Salinger. O diretor de cinema mais importante?
- Spielberg
- Não. Kubrick.
- Artista Contemporâneo?
- Jeff Koons...Marina Abramovic.
- Banksy. Banda de música eletrônica?
- Não sei absolutamente nada sobre música eletrônica.
- Daft Punk.
- A melhor vocalista italiana?
- Mina?
- Ahh, Brava! Agora, você sabe dizer qual é a linha invisível que conecta todos eles? As figuras mais importantes em seus respectivos campos? Nenhum deles se deixam ser vistos! Nenhum deles se deixam ser fotografados.

The Young Pope, o jovem órfão norte-americano Lenny Bernardo, ou o Papa Pio XIII, foi eleito depois de um conclave politizado e tenso. A figura de um jovem renovaria a igreja, assim eles pensavam.

Porém Jude Law (O Papa) é um conservador de ideias próprias que pretende revolucionar o sistema e lutar com as armas podres para manter seu poder. E acredite, no Vaticano não é nada diferente do que em outros lugares digamos, menos sagrados.

Em O Poderoso Chefão (1972), Michael Corleone resolve na violência a desconfiança sobre sua ascensão ao poder da famiglia. Em House of Cards (2013) o desconhecido político Frank Underwood usa a chantagem para virar presidente.

O Papa Pio XIII tem o hábito de humilhar seus adversários, mas calma, com esse Papa nada é tão preto no branco, apesar das roupas - das mesmas alfaiatarias do Papa Francisco (leia Armani) - serem extraordinariamente de cores vividas, claro que com a ajuda preciosa do mago das imagens Luca Bigazzi. Com esse Papa tudo é mais denso, profundo. Ele mesmo ensina humilhação num dos episódios:

- Você não faz ideia de quantos objetivos podem ser alcançados humilhando terceiros. Mas há um segredo. O humilhado não pode perceber que foi humilhado.

Rodado em Roma e nos santuários estúdios de Cinecittà, onde foi construída uma réplica da capela sistina, a série é dirigida e roteirizada por Paolo Sorrentino que parece estar, em velocidade de cruzeiro, rumo ao hall dos melhores nomes do cinema. Ou seria o mais importante? Se cuida Kubrick!

Espere tudo que os já encaminhados ao cinema Sorrentiano costumam assistir. Imagens arrebatadoras e surreais, uma seleção musical de elevar a alma, diálogos e frases que fariam Quentin Tarantino ter inveja, e um elenco selecionado a dedo, e quanto a isso gostaria de fazer dois adendos: O primeiro chama-se Javier Cámara, um carismático e bom ator espanhol que está sempre nos filmes de Pedro Almodóvar, e que tem uma adoração por Paolo Sorrentino. Quando soube que ele estava fazendo a série, se ofereceu para um papel. O italiano lhe deu então o de Monsenhor Gutierrez que acredito ficará marcado para sempre em sua carreira. O segundo é David Jude Law, esse importante ator do primeiro escalão de hollywood é pura emoção, seus nuances e suas manias nos tomam de surpresas, suas pausas são perfeitas. É impossível ficar impassível diante de suas interpretações para rirmos ou chorarmos juntos, preparem-se.

07 janeiro 2017

Melhores 2016

"O cinema é um modo Divino de se contar a vida". Já dizia o genial Federico Fellini. Esse ano, cada um à sua maneira, tivemos 5 cineastas que fizeram dessa sentença fellinianesca um filme que contou a vida de forma Divina.

Primeiro temos os já consagrados Pedro Almódovar e Quentin Tarantino, dois habitues de premiações, e não por acaso, membros da Sala Vip do Museu. Temos um estreante na Sala Vip, Paolo Sorrentino ganhou sua titularidade esse ano, mas já um ganhador dos Melhores por A Grande Beleza. E por último, mas não menos importantes, e vocês vão ver, dois candidatos a adentrar nas nossas famosas retrospectivas, Denis Villeneuve e Kleber Mendonça Filho.

Em 5º podemos enumerar Julieta, de Pedro Almodóvar como o filme de bela história com um diretor que sabe nos entreter. No 4º, Os Oito Odiados de Quentin Tarantino com diálogos que só ele sabe fazer e um clima característico de seu cinema. O 3º é um filme sobre alienígenas que invadem a terra, mas apesar de trama B, o filme é simplesmente genial. A Chegada. Já o 2º resolveu, completamente errado, politizar e angariar mais espectadores com a polêmica, mas Aquarius, definitivamente, não nasceu para isso, longe das polêmicas, é um relicário delicioso de nostalgia com uma mão firme de cineasta-quase-estreante-que-parece-veterano.

O melhor filme de 2016 é uma canção de amor. Juventude é uma junção de imagens perfeitas, trilha sonora arrebatadora, e uma história maravilhosa. Aliás, como os outros 5, mas o que faz desse ítalo-americano o melhor chama-se Paolo Sorrentino. Ele é um dos gênios do cinema. Estamos vivenciando isso, e é uma honra.

A personalidade do ano, como gosto de chamar, a figura central da imagem, ficou com a sensacional atriz Amy Adams. Em 2002 ela se apresentou timidamente como Brenda em Prenda-me se for Capaz de Steven Spielberg, esse ano ela roubou qualquer cena em que participou.

Um leitor mais atento percebeu que cometi um pequeno deslize acima. Eu cito "outros 5" junto com Juventude, ficou faltando um. Esse não é um filme, mas podemos dizer que sim, ele é uma série, mas não é um seguimento. San Junipero pode, e DEVE, fazer parte dessa lista. Dirigido pelo desconhecido Owen Harris e criado e roteirizado por Charlie Brooker, San Junipero faz parte da séria Black Mirror e é uma história maravilhosa, dirigida com um toque dos anos 80 digna de grandes nomes. 

20 dezembro 2016

Elle

Elle - Paul Verhoeven - 2016 (Cinemas)

Quando o cineasta holandês Paul Verhoeven ganhou notoriedade no mundo com Robocop (1987) muitos críticos antenados diziam se tratar de um grande diretor, com filmes brilhantes feitos em seu país natal. Os anos se passaram, veio seu grande blockbuster, e elogiado também pela critica - Instinto Selvagem (1992), alguns fracassos e a conseqüente volta a sua terra.

Elle é baseado num romance do popular escritor Philippe Djian. E tinha como planejamento ser um filme norte-americano, mas a recusa de grandes atrizes assim que liam o roteiro - Nicole Kidman, Diane Lane, Kate Winslet e Sharon Stone, acabou levando a produção à França e a Isabelle Huppert.

Paul Verhoeven decidiu então estudar francês e contratar toda a equipe da terra da bastilha para Elle, exceto seu assistente Mita de Groot e o editor Job ter Burg.

Michèle (Huppert) é uma executiva de uma empresa de videogames violentos. Um dia ela é estuprada dentro de sua casa por um homem de máscara. Apesar do trauma, ela decide não dar queixa a polícia, e começa a desconfiar de pessoas que fazem parte de seu circulo social quando lhe enviam parte do jogo que desenvolve com seu rosto numa cena de estupro.

Elle traz um Paul Verhoeven mais maduro, menos norte-americano e mais europeu, brilha também a presença da grande atriz Isabelle Huppert que transforma a película em sua a partir do primeiro frame que ela entra. A certo ponto nos perguntamos: Será um filme do Verhoeven ou mais um protagonizado pela Huppert?

06 dezembro 2016

A Chegada

Arrival - Denis Villeneuve - 2016 (Cinemas)

A Linguagem é a primeira arma de negociação num conflito.

Ted Chiang, autor do conto que o filme é baseado, é um norte-americano que trabalha para Microsoft traduzindo linguagem massivamente tecnológica, para apenas tecnológica. Sua concepção do conto retrata bem a questão lingüística e isso é essencial para a mudança de patamar do filme, em vez de um filme sobre alienígenas, um filme sobre nós, humanos.

Uma lingüista (a incensada Amy Adams - ótima mesmo) é convocada pela forças armadas norte-americanas para traduzir alienígenas que, com 12 enormes conchas espalhadas pelo mundo, assustam todo o planeta terra.

Esqueça explosões, corridas desenfreadas, crianças chorando ou sustos fáceis com a aparência dos intrusos, até veremos algumas brigas, quase em flashs de segundos e bem longe do centro da trama (um quartel-general em Montana), mas o que o filme quer é ir muito além disso. A trama se concentra nessa poderosa arma que temos em nossas mãos, e que usamos diariamente fazendo coisas boas, ou provocando coisas negativas.

Jóhann Jóhannsson, o islandês autor da excelente trilha sonora, uma música estranha e poderosa, compôs a ultima delas em palindrômico, ou seja que tanto faz tocá-la de frente pra trás, ou de trás pra frente. Uma homenagem ao filme.

Em 1770 o navio do Capitão James Cook encontrou em terras australianas o povo aborígene. Um de seus navegadores apontava freneticamente para alguns animais que carregavam em sua barriga bebês perguntando o que eram, e os aborígenes diziam: Canguru! Só muito tempo depois que eles descobriram que na linguagem aborígene a palavra canguru significava: Não entendo!

16 novembro 2016

Black Mirror

Black Mirror - Charlie Brooker - 2011 (Netflix)

"Se a tecnologia é uma droga - e parece ser mesmo - então quais são precisamente os efeitos colaterais?" Com essa pergunta o produtor e criador Charlie Brooker justifica sua criação, o suspense tecnológico Black Mirror, novo vício mundial.

A série não tem uma continuidade, o tema é o mesmo, mas os atores, cenários e roteiros seguem uma independência. A inteligência permeia todos os filmes através da mão de Brooker em todas as histórias. Sim, podemos chamá-los de filmes visto que possui o tempo de duração de um.

Alguns já ganharam status de cult, como o sensacional e doce San Junipero, uma viagem ao tempo dos anos 80 e 90, e o Nosedive, uma crítica a nova sociedade dos likes e que ilustra esse post.

Black Mirror é um projeto britânico desenvolvido para a Endemol, a empresa por trás do Big Brother, foi criada em 2011 e produzido 6 capítulos e 1 especial de Natal. Em março desse ano, a Netflix pagou 40 milhões de dólares pelos direitos da série e lançou a terceira temporada no streaming.

Black Mirror é a tela preta do monitor e smartphones que reflete a imagem como se fosse um espelho.

08 novembro 2016

Julieta

Julieta - Pedro Almodóvar - 2016 (Cinemas)

Um vestido vermelho toma toda a tela, sua cor forte, apesar de vermelho, quase lembra um vinho. O vestido parece em movimento, um movimento cadenciado, repetitivo, uma respiração contínua e forte, aos poucos a câmera vai se afastando como se uma cortina fosse abrir o palco, mas antes dela revelar, uma escultura de um homem sem braços sentado com um parafuso em rosca entre as pernas invade a tela junto às mãos da protagonista (que usa o tal vestido vermelho) e um plástico bolha que enrola o artefato.

Julieta, a protagonista da trama, é, como manda o manual do roteiro-que-leva-o-nome da-personagem-no-título, uma pessoa em processo de transformação. Como na cena acima, a primeira do filme, Julieta empacota seus objetos numa mudança para acompanhar seu namorado a Portugal, mas ao encontrar na rua, por acaso, uma amiga da filha todo seu plano vai mudar.

O filme é baseado em 3 histórias da escritora canadense Alice Munro, porém foi adaptado para a cultura espanhola depois que Pedro Almodóvar e seu irmão e produtor Agustín estiveram no Canadá e se sentiram inseguros para filmar em um local que não conheciam, e numa língua que não eram bons.

Julieta é Almodóvar do inicio até o principio do fim, ele carece de uma reviravolta almodovariana justamente no momento em que a película mais necessita, mas mantém o ritmo característico do cineasta com aquela pitada de suspense e cores que eclodem aos olhos.

31 outubro 2016

Parábola do Mês

Charlie "Bird" Parker ainda era um garoto jovem, muito bom no sax. Conseguiu uma vaga numa sessão de Jazz, e fudeu tudo. E Jo Jones quase decapita ele por isso, jogando o prato da bateria. E depois ele riu de Parker fora do palco. Naquela noite Charlie dormiu chorando, mas na manhã seguinte, o que ele faz? Ele pratica. E ele pratica e ele pratica com um objetivo em mente, para nunca mais rirem dele novamente. E um ano mais tarde, ele volta a Reno e sobe no palco e interpreta o melhor solo que o mundo já ouviu. Então, imagine se Jones tivesse dito: "Bem, isso é bom, Charlie. Foi tudo bem. Bom trabalho." E então Charlie pensaria consigo mesmo: "Bem, merda, eu fiz um bom trabalho." Fim da história. Sem Bird, sem nada. Isso, para mim, é uma tragédia absoluta. Mas isso é apenas o que o mundo quer agora. As pessoas se perguntam por que o jazz está morrendo.

* Extraída do filme Whiplash (2014) de Damien Chazelle, interpretada por J. K. Simmons.

14 outubro 2016

Inferno


Inferno - Ron Howard - 2016 (nos melhores cinemas)

As aventuras do Professor Robert Langdon (Tom Hanks) se transformaram numa espécie de James Bond intelectual, e isso é um elogio. Já posso afirmar que a cinqüentenária franquia do espião mais famoso do mundo ganhou um rival de onde ele menos esperava surgir. Não sei se a estrutura  atual será mantida - Dan Brown publica e o sucesso editorial garante a produção, mas que o estúdio tem em mãos uma fábrica de dinheiro, não resta mais duvidas.

Essa terceira parte, na verdade é o quarto livro, O Símbolo Perdido não ganhou adaptação, se concentra na teoria do bilionário Bertrand Zobrist (Ben Foster) sobre superpopulação mundial, muito bem endossada por sinal, e onde Langdon acorda num hospital em Florença com a memória perdida e sem saber como foi parar ali, até encontrar um mapa codificado com a pintura Mapa do Inferno, de Sandro Botticelli, obra inspirada em A Divina Comédia, de Dante Alighieri, e então começa a surgir flashbacks explicando tudo.

Dan Brown é um amante das artes, para ele o sagrado está lá, em seus livros isso é mais que evidente, música, dança, pinturas, esculturas e arquitetura, teatro desembocam em sua literatura, a outra arte, e Ron Howard captou isso magistralmente desde O Código Da Vinci (2006). Parece irônico ou óbvio que a sétima arte, o cinema, que talvez seja a que menos o escritor comente, porém a única que consegue abraçar todas as outras, se torne a principal forma de comunicação de suas obras.

Portanto, temos em Inferno um herói, um vilão megalomaníaco, alguns objetos característicos (um relógio por exemplo), uma trilha sonora famosa (a linda melodia de Hans Zimmer), duas personagens femininas que esboçam um affair com nosso protagonista, e seqüências de tirar o fôlego e prender nossa respiração.

Espere, estamos falando de Langdon, Robert Langdon.

09 setembro 2016

Cães de Guerra

War Dogs - Todd Phillips - 2016 (Cinemas)

Todo dinheiro é feito nas entrelinhas.

A corrupção não é invenção, nem exclusividade nossa, durante o governo Bush, o seu vice-presidente, Dick Cheney, foi favorecido com a venda de armas ao exército norte-americano. Depois desse escândalo, o governo decidiu mudar as regras e permitir que todos pudessem concorrer as licitações dos produtos bélicos.  

Todo mundo quer uma fatia do bolo e ignoram as sobras. Eu vivo das sobras.

David Packouz é um massagista terapêutico em Miami, sem dinheiro e com a esposa grávida decide investir todo seu dinheiro em lençóis de seda para idosos, só que ninguém mais se preocupa com os velinhos.

Quando foi que dizer a verdade ajudou a alguém?

Efraim Diveroli é um judeu, mas também pode ser um católico, depende o quanto isso será favorável a ele. Fez dinheiro vendendo armas na internet até encontrar o filão "patrocinado" por Cheney. Em comum Efraim (Jonah Hill) e David (Miles Teller) são amigos de infância.

The World is Yours.

Um olhar mais atento a filmografia do diretor Todd Phillips vai encontrar uma evolução clara e continua. Especialista em besteirol, acabou criando a trilogia (parece que vem mais ai) Se Beber não Case! (2009), que também mostra crescimento entre os três, agora passa aos filmes mais "sérios" com algumas cenas hilárias e outras dignas de Scarface (1983), filme que é homenageado a toda hora. O roteiro, de sua autoria também, surgiu da leitura de um artigo sobre fatos verídicos na revista rolling stone. Além disso, nos premia com a melhor seleção de músicas do ano. Conheça os verdadeiros David Packouz e Efraim Diveroli aqui.