16 novembro 2016

Black Mirror

Black Mirror - Charlie Brooker - 2011 (Netflix)

"Se a tecnologia é uma droga - e parece ser mesmo - então quais são precisamente os efeitos colaterais?" Com essa pergunta o produtor e criador Charlie Brooker justifica sua criação, o suspense tecnológico Black Mirror, novo vício mundial.

A série não tem uma continuidade, o tema é o mesmo, mas os atores, cenários e roteiros seguem uma independência. A inteligência permeia todos os filmes através da mão de Brooker em todas as histórias. Sim, podemos chamá-los de filmes visto que possui o tempo de duração de um.

Alguns já ganharam status de cult, como o sensacional e doce San Junipero, uma viagem ao tempo dos anos 80 e 90, e o Nosedive, uma crítica a nova sociedade dos likes e que ilustra esse post.

Black Mirror é um projeto britânico desenvolvido para a Endemol, a empresa por trás do Big Brother, foi criada em 2011 e produzido 6 capítulos e 1 especial de Natal. Em março desse ano, a Netflix pagou 40 milhões de dólares pelos direitos da série e lançou a terceira temporada no streaming.

Black Mirror é a tela preta do monitor e smartphones que reflete a imagem como se fosse um espelho.

08 novembro 2016

Julieta

Julieta - Pedro Almodóvar - 2016 (Cinemas)

Um vestido vermelho toma toda a tela, sua cor forte, apesar de vermelho, quase lembra um vinho. O vestido parece em movimento, um movimento cadenciado, repetitivo, uma respiração contínua e forte, aos poucos a câmera vai se afastando como se uma cortina fosse abrir o palco, mas antes dela revelar, uma escultura de um homem sem braços sentado com um parafuso em rosca entre as pernas invade a tela junto às mãos da protagonista (que usa o tal vestido vermelho) e um plástico bolha que enrola o artefato.

Julieta, a protagonista da trama, é, como manda o manual do roteiro-que-leva-o-nome da-personagem-no-título, uma pessoa em processo de transformação. Como na cena acima, a primeira do filme, Julieta empacota seus objetos numa mudança para acompanhar seu namorado a Portugal, mas ao encontrar na rua, por acaso, uma amiga da filha todo seu plano vai mudar.

O filme é baseado em 3 histórias da escritora canadense Alice Munro, porém foi adaptado para a cultura espanhola depois que Pedro Almodóvar e seu irmão e produtor Agustín estiveram no Canadá e se sentiram inseguros para filmar em um local que não conheciam, e numa língua que não eram bons.

Julieta é Almodóvar do inicio até o principio do fim, ele carece de uma reviravolta almodovariana justamente no momento em que a película mais necessita, mas mantém o ritmo característico do cineasta com aquela pitada de suspense e cores que eclodem aos olhos.

31 outubro 2016

Parábola do Mês

Charlie "Bird" Parker ainda era um garoto jovem, muito bom no sax. Conseguiu uma vaga numa sessão de Jazz, e fudeu tudo. E Jo Jones quase decapita ele por isso, jogando o prato da bateria. E depois ele riu de Parker fora do palco. Naquela noite Charlie dormiu chorando, mas na manhã seguinte, o que ele faz? Ele pratica. E ele pratica e ele pratica com um objetivo em mente, para nunca mais rirem dele novamente. E um ano mais tarde, ele volta a Reno e sobe no palco e interpreta o melhor solo que o mundo já ouviu. Então, imagine se Jones tivesse dito: "Bem, isso é bom, Charlie. Foi tudo bem. Bom trabalho." E então Charlie pensaria consigo mesmo: "Bem, merda, eu fiz um bom trabalho." Fim da história. Sem Bird, sem nada. Isso, para mim, é uma tragédia absoluta. Mas isso é apenas o que o mundo quer agora. As pessoas se perguntam por que o jazz está morrendo.

* Extraída do filme Whiplash (2014) de Damien Chazelle, interpretada por J. K. Simmons.

14 outubro 2016

Inferno


Inferno - Ron Howard - 2016 (nos melhores cinemas)

As aventuras do Professor Robert Langdon (Tom Hanks) se transformaram numa espécie de James Bond intelectual, e isso é um elogio. Já posso afirmar que a cinqüentenária franquia do espião mais famoso do mundo ganhou um rival de onde ele menos esperava surgir. Não sei se a estrutura  atual será mantida - Dan Brown publica e o sucesso editorial garante a produção, mas que o estúdio tem em mãos uma fábrica de dinheiro, não resta mais duvidas.

Essa terceira parte, na verdade é o quarto livro, O Símbolo Perdido não ganhou adaptação, se concentra na teoria do bilionário Bertrand Zobrist (Ben Foster) sobre superpopulação mundial, muito bem endossada por sinal, e onde Langdon acorda num hospital em Florença com a memória perdida e sem saber como foi parar ali, até encontrar um mapa codificado com a pintura Mapa do Inferno, de Sandro Botticelli, obra inspirada em A Divina Comédia, de Dante Alighieri, e então começa a surgir flashbacks explicando tudo.

Dan Brown é um amante das artes, para ele o sagrado está lá, em seus livros isso é mais que evidente, música, dança, pinturas, esculturas e arquitetura, teatro desembocam em sua literatura, a outra arte, e Ron Howard captou isso magistralmente desde O Código Da Vinci (2006). Parece irônico ou óbvio que a sétima arte, o cinema, que talvez seja a que menos o escritor comente, porém a única que consegue abraçar todas as outras, se torne a principal forma de comunicação de suas obras.

Portanto, temos em Inferno um herói, um vilão megalomaníaco, alguns objetos característicos (um relógio por exemplo), uma trilha sonora famosa (a linda melodia de Hans Zimmer), duas personagens femininas que esboçam um affair com nosso protagonista, e seqüências de tirar o fôlego e prender nossa respiração.

Espere, estamos falando de Langdon, Robert Langdon.

09 setembro 2016

Cães de Guerra

War Dogs - Todd Phillips - 2016 (Cinemas)

Todo dinheiro é feito nas entrelinhas.

A corrupção não é invenção, nem exclusividade nossa, durante o governo Bush, o seu vice-presidente, Dick Cheney, foi favorecido com a venda de armas ao exército norte-americano. Depois desse escândalo, o governo decidiu mudar as regras e permitir que todos pudessem concorrer as licitações dos produtos bélicos.  

Todo mundo quer uma fatia do bolo e ignoram as sobras. Eu vivo das sobras.

David Packouz é um massagista terapêutico em Miami, sem dinheiro e com a esposa grávida decide investir todo seu dinheiro em lençóis de seda para idosos, só que ninguém mais se preocupa com os velinhos.

Quando foi que dizer a verdade ajudou a alguém?

Efraim Diveroli é um judeu, mas também pode ser um católico, depende o quanto isso será favorável a ele. Fez dinheiro vendendo armas na internet até encontrar o filão "patrocinado" por Cheney. Em comum Efraim (Jonah Hill) e David (Miles Teller) são amigos de infância.

The World is Yours.

Um olhar mais atento a filmografia do diretor Todd Phillips vai encontrar uma evolução clara e continua. Especialista em besteirol, acabou criando a trilogia (parece que vem mais ai) Se Beber não Case! (2009), que também mostra crescimento entre os três, agora passa aos filmes mais "sérios" com algumas cenas hilárias e outras dignas de Scarface (1983), filme que é homenageado a toda hora. O roteiro, de sua autoria também, surgiu da leitura de um artigo sobre fatos verídicos na revista rolling stone. Além disso, nos premia com a melhor seleção de músicas do ano. Conheça os verdadeiros David Packouz e Efraim Diveroli aqui.

02 setembro 2016

Aquarius

Aquarius - Kleber Mendonça Filho - 2016 (Cinemas)

No aniversário de 70 anos, enquanto ouve discursos exaltando sua idade, qualidades e momentos passados, Tia Lucia olha os móveis de sua casa e relembra as cenas de sexo que ali foram feitas com o amor de sua vida, um homem casado.

Na resenha de O Som ao Redor (2012) profetizei, sem falsas modéstias, que Kleber Mendonça era um grande nome do cinema nacional: "mostra uma caligrafia de cinéfilo..., é uma estréia digna de grandes nomes, e o cinema brasileiro anseia por eles".

Aquarius possui, tecnicamente falando, grandes qualidades, mas, sem duvidas, a melhor delas é o roteiro escrito pelo cineasta, a realidade dos diálogos, a interpretação visceral graças a essas falas, a divisão em capítulos "participantes" (sensacional), e a amarração da história são dignas de Quentin Tarantino, especialista no ramo.

Difícil encontrar alguém nesse filme fora do tom. Não sei se houve preparação de elenco, ensaios, ou outras técnicas, o que fica são interpretações extremamente convincentes e adequadas, de Sonia Braga ao filho do ex-vizinho da protagonista que se encontram na praia, passando por um sempre competente Irandhir Santos, habitué das películas do diretor e ao, vejam vocês, Humberto Carrão, ex-malhação. Todos, sem exceções, merecem menção equiparada a Sonia, a eterna Dama do Lotação (1978).

Porém Kleber peca em alguns momentos da edição, parecendo que foi finalizado às pressas, e na repetição, principalmente em arranjar motivos para a protagonista não aceitar sair e vender seu apartamento. É como um professor que repete achando que os alunos não entenderam e acabam se alongando desnecessariamente. Precisa confiar mais na inteligência do brasileiro!

27 julho 2016

As Consequências do Amor

Le Conseguenze dell'amore - Paolo Sorrentino - 2004

Azar não existe. É só uma invenção dos perdedores e pobres.

O italiano Titta Di Girolamo é uma pessoa de rotinas, ele vive num hotel na Suiça há quase 10 anos, evita contato com as pessoas e não demonstra qualquer tipo de emoção. Só uma coisa tira Titta de seus hábitos ortodoxos, a bonita garçonete do bar do hotel, Sofia. E será ela que, cansada daquela paquera indecisa, irá confrontar ele trazendo as consequências do título.

Toni Servillo vive o protagonista com expressões enfadonhas e blasé que, algumas vezes, lembra sua personagem em A Grande Beleza (2013), já a bolonhesa Olivia Magnani, que interpreta Sofia caracteriza a barmaid de forma sexy e tímida, e o ponto alto do filme é o interesse romântico dessa dupla.

Paolo Sorrentino começa, a partir dessa película, a traçar uma grafia peculiar, um modo de contar a história com elementos, principalmente visuais, que destoam do mainstream. As Consequências do Amor é um filme que consegue atrair e prender a atenção graças muito ao talento do cineasta italiano.

27 maio 2016

Paolo Sorrentino

Ao receber o Oscar de melhor filme estrangeiro para A Grande Beleza (2013) no palco do Teatro Dolby no Boulevard de Hollywood em Los Angeles, Paolo Sorrentino agradeceu a Maradona em seu discurso, muita gente não sabe o porque desse agradecimento. Em 1986, o Scudetto italiano (como eles chamam o título nacional de futebol), estava sendo decidido pelo sempre poderoso Juventus, La Vecchia Signora, e, inacreditavelmente pelo Napoli, um time que nunca havia estado nessa situação. Naquela rodada o time azul iria visitar o Empoli, e para um torcedor em especial, aquele fim de semana iria mudar sua vida para sempre.

Fã confesso de Federico Fellini, o cineasta Paolo Sorrentino apaixonou-se pelo cinema pelas mãos de um outro gênio italiano, Sergio Leone e seu Era uma Vez na América (1984), mas foi Giuseppe Tornatore, o gênio, desculpa a repetição, quem realmente influenciou e fez com que Sorrentino decidisse seguir carreira no cinema. Ou seja, as melhores referências possíveis.

Nascido em 31 de maio de 1970 em Nápoles, casado com Daniela D'Antonio com quem tem 2 filhos, Paolo Sorrentino nunca frequentou uma escola de cinema, mas tem entre suas paixões sempre rever filmes que lhe marcaram de diretores que idolatra, como os já citados acima, além de Martin Scorsese e Ang Lee. Isso lhe conferiu uma aura de cineasta de decisões rápidas e fértil.

O cineastas dos planos abertos, dos roteiros que vão se elucidando no decorrer da película, de imagens nonsense e ritmo lento ao som de músicas que tocam direto no coração. Sorrentino receberá a mais nova revisita a sua obra aqui no Museu, serão os já comentados Juventude (2015), A Grande Beleza (2013) e os inéditos Aqui é o Meu Lugar (2011), Il Divo (2008) e As Consequências do Amor (2004). 

Aquele final de semana seria como mais um outro, iria com os pais e os irmãos para a casa nas montanhas, se não fosse por um argentino de 1,66m de altura. Naquela época quem amava o futebol, amava o Napoli, e quem era torcedor do Napoli não fazia outra coisa se não acompanhar o time. E foi isso que o jovem Paolo Sorrentino fez, em vez das montanhas viajou para Empoli ver seu time jogar e, enquanto assistia o Napoli enfiar 4 X 0, seus pais, infelizmente, sofriam um terrível acidente com a calefação da casa e morreram.

31 março 2016

Juventude

Eu vi um filme seu. Aquele em que você é o pai que não conhece o filho, e o conhece numa lanchonete quando ele já tinha 14 anos. Tem um diálogo que gosto muito, quando seu filho diz: "Porque você não foi um pai para mim?" E você responde: "Não me achava capaz". Naquele momento entendi algo muito importante. Ninguém no mundo se sente capaz. Então não há razão para se preocupar.

Youth - Paolo Sorrentino - 2015 (Nos Melhores Cinemas do País)

Aposentado, o Maestro Fred Ballinger (Sir Michael Caine, soberbo) passa seus dias num spa na Suíça observando e conhecendo hóspedes e evitando qualquer tipo de trabalho. Até que um insistente produtor da Rainha da Inglaterra lhe convida para reger uma orquestra e a renomada soprano Sumi Jo no aniversário do Príncipe Philip, seu marido, um apaixonado pela obra do legendário músico, e ocasião também onde lhe dará a ordem de cavalheiro da coroa britânica.

O produtor do palácio de Buckingham só não sabe que o Maestro não trabalha mais por uma simples razão! Uma simples canção! Uma simples composição! Simple Song!

Paolo Sorrentino tem um ídolo. Quase uma obsessão chamada Federico Fellini, que qualquer bom dicionário mostrará que trata-se do sobrenome do cinema. Fellini morreu em 1993, mas por isso muitas pessoas o consideram imortal. O cinema de Fellini continua vivo nas obras de Sorrentino. Suas imagens, sua forma de conduzir, seus planos elegantes, suas imagens bizarras, seus "Felliniescos" e seu desenvolvimento para revelar uma história é toda devotada no surreal e genial cineasta italiano. Ver as obras de Sorrentino é muito mais que voltar ao passado, é saber, ter a certeza que os grandes continuam e continuará nos conduzindo por sonhos maravilhosos capazes de deixar qualquer coração cinéfilo permanentemente feliz.

Fellini tinha um jeito peculiar de fazer seus filmes, eles simplesmente brotavam de seus sonhos e eram desenhados logo ao acordar, num primeiro esboço. Paolo Sorrentino parece sonhar acordado. A cena em que o maestro Fred Ballinger rege uma orquestras de vacas ao som da trilha mágica, impecável e histórica de David Lang, parece ter saído de uma reencarnação espírita.

Juventude é uma odisseia, uma tecelagem de emoções que nos leva ao que parece ser o santo graal da vida, a busca eterna, como a própria personagem de Harvey Keitel (não menos soberbo), o cineasta Mick Boyle, em determinado momento profetiza: "Dizem que as emoções são supervalorizadas, mas isso é besteira. Emoções são tudo o que nós temos".

01 março 2016

Os Oito Odiados

The Hateful Eight - Quentin Tarantino - 2015 (Cinemas)

Uma conferida nos indicados ao Oscar de melhor filme desse ano nos mostrará uma tendência que vem sendo seguida pela academia e seus membros há alguns anos. Trata-se de filmes sem uma identidade artística de seu dono, ou seja, do cineasta. Nesse ano, o único dos 8 nominados que tem uma caligrafia reconhecida foi também o mais esnobado, na contagem dos votos deve ter ficado com o último lugar.

Atualmente em hollywood poucos são os diretores que possuem esse "kwan" artístico, e esses poucos parecem sofrer perseguição por assinarem obras.

Quentin Tarantino é facilmente um desses exemplos. Sua filmografia se não é perfeita, beira essa condição, mesmo para o mais crítico de seu trabalho. Mas é esnobado continuamente por membros que o ajudaram a ganhar fama. Num ano fraco, seu filme não ser indicado, beira a heresia.

Duas das qualidades do cineasta: criar cenas impecavelmente bem fotografadas, mas que sejam condizentes com o roteiro, e inventar diálogos originais e extremamente criativos parecem evoluir ao longo dos 8 filmes do seu currículo.

Os Oito Odiados ganha uma outra estética quando pensamos que a trilha sonora é assinada por Ennio Morricone, o gênio decidiu ceder aos apelos do fã declarado e compor mais uma de suas infinitas composições com seu toque de mestre. O filme é quase em tempo real, e também quase filmado num único cenário, isso possibilita Tarantino mostrar suas habilidades narrativas, desenvolvimento das personagens, e principalmente nas conversas travadas pelos atores.

1. John Ruth (Kurt Russell). Atravessa a neve para levar uma prisioneira e ganhar a recompensa por isso. Leva a capturada presa ao seu pulso com algemas.

2. Daisy Domergue (Jennifer Jason Lee). A prisioneira capturada por John. Louca e sem papas na língua fica o tempo todo irritando seu captor.

3. Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson). Falante e contador de histórias. Pega carona com John Ruth e se gaba de ter uma carta assinada por Abraham Lincoln.

4. Xerife Chris Mannix (Walton Goggins). Também pega carona na charrete de John Ruth, se diz indo a cidade para ser nomeado o novo Xerife.

5. Oswaldo Mobray (Tim Roth). Apresenta-se como o enforcador da cidade. Será o homem responsável em enforcar a prisioneira que Ruth carrega.

6. Joe Gage (Michael Madsen). Um vaqueiro que ia visitar a mãe quando foi obrigado a fugir da nevasca se refugiando ali.

7. Bob (Demián Bichir). Um mexicano que se diz amigo da dona. Está tomando conta do lugar enquanto a dona teve que ir visitar a mãe.

8. Sandy Smithers (Bruce Dern). General confederado, calado e sempre sentado no sofá, está ali passando o tempo. Teve uma história no exército norte-americano.

16 fevereiro 2016

Vinyl

Vinyl - Martin Scorsese - 2016 (HBO)

No fundo preto lemos: New York City 1973. Ainda sob o fundo escuro ouvimos uma respiração ofegante, ao abrir a imagem, nosso protagonista, Richie Finestra (Bobby Cannavale), suado e bebendo nervosamente uma garrafa de bourbon. A câmera se afasta para mostrar onde estamos, dentro de um carro numa rua deserta e perigosa da cidade. Richie quer "sugar", gíria para cocaína, está no lugar certo. Ele arranca o retrovisor do teto e prepara a carreira, enrola o dinheiro e pronto. Três cortes rápidos e a cheirada vai parar no teto solar do carro numa imagem que uma pessoa a tornou sua grife. Não necessita crédito de abertura.

Conta-se a história que há algumas décadas atrás, Mick Jagger teria contado uma idéia para uma série ao amigo cineasta sobre um executivo da industria musical na época áurea.

Com um piloto de quase 2 horas, Vinyl se apresenta ao melhor estilo de seu criador. Músicas potentes e antigas, blues, rock, soul, r&b, cortes magistrais, ritmo alucinante, narrações em off e tomadas perfeitas. É um filme completo que poderia muito bem ter seu final, mas o Mestre, numa ousadia juvenil, encerra com a competência do dever cumprido e o gostinho de quero mais.

Vinyl centra-se no empresário musical Richie Finestra, que anda na expectativa de vender seu selo para a poderosa empresa alemã Polygram. Dono de um ouvido espetacular para canções de sucesso, Finestra luta contra o alcoolismo e as drogas, enquanto vive entre as obrigações de seu trabalho e a família com a esposa Devon (Olivia Wilde).

29 janeiro 2016

Carol

Carol - Todd Haynes - 2015 (Cinemas)

Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata. Clarice Lispector

O amor é o sentimento mais poderoso, mais nobre, mas também o mais orgulhoso, o mais egoísta, senão vejamos: Carol (Cate Blanchett) nutre um amor pela filha, e por ela é capaz de abandonar qualquer outro. Harge (Kyle Chandler) ama Carol, e por ela é capaz de usar o amor da filha para mantê-la por perto. Therese (Rooney Mara) ama Carol e está disposta a fazer de tudo por este amor.

Essas 3 personagens intensas, elaboradas e ricas em emoções travarão uma luta por amor. O amor materno, o amor perdido e o amor incompreendido.

Como costumo dizer, filmes com o título do nome da personagem principal já traz em si a sinopse da obra. Trata-se de uma jornada em que ela irá viver emoções que a transformará para sempre. Carol não se excetua à regra.

A película é baseada no livro "The Price of Salt" publicado em 1952 por Patricia Highsmith (escritora de O Talentoso Ripley) sob o pseudônimo de Claire Morgan. Em 1990, quando o republicou na Inglaterra, Patricia deu novo título a obra, Carol, e usou seu verdadeiro nome como autora. Segundo Highsmith a publicação é baseada num encontro, que ela própria teve, quando observou uma loira de casaco de pele, enquanto trabalhava numa loja vendendo bonecas no natal de 1948, em Nova Iorque. Ela escreveu o esboço em apenas 2 horas na mesma noite do encontro, sob febre da catapora que ela descobriu ter pego no dia seguinte.

Há também vestígios de influência de um romance que a escritora norte-americana teve com Virginia Kent Catherwood, uma socialite casada da Philadelphia...Leia a segunda parte da crítica, publicada originalmente na revista Confesso, aqui.

07 janeiro 2016

Melhores 2015

O ano de 2015 é todo da Netflix. O streaming dominou todos os cinéfilos, é impossível hoje pensar em cinema excluindo ela, para melhorar ainda a situação já confortável, a empresa resolveu fazer filmes! E começou simplesmente com a película do ano. Beasts of no Nation prova, assim como ocorreu com a HBO alguns anos atrás, que uma produtora boa é sinônima de liberal e provocadora. Labirinto de Mentiras é o alemão da vez, mas dirigido por um italiano, mostra o nazismo sob o ponto de vista deles. Ponte de Espiões é o filme que nasceu para ganhar prêmios. Teoria de Tudo nasce de uma história maravilhosa e consegue exceder as expectativas. Mia Madre é a volta de Nanni Moretti aos filmes dramáticos com a sua grafia que consegue dar leveza e ritmo como só ele é capaz. Idris Elba vale por 2, primeiro sua interpretação selvagem no filme Beasts of no Nation, e segundo para homenagear a Netflix.

04 janeiro 2016

Labirinto de Mentiras

Im Labyrinth des Schweigens - Giulio Ricciarelli - 2014 (Cinemas)

Todos vocês eram nazistas. No setor oriental, agora vocês são comunistas. Jesus, você alemães! Se homenzinhos verdes de Marte aterrizarem amanhã, vocês iriam ficar todos verdes.

Stanley Milgram foi um psicólogo norte-americano que desenvolveu um estudo, e posteriormente uma experiência que provava que a maioria das pessoas eram capazes de obedecer ordens de autoridades, mesmo que machucasse outras. Seu objetivo era provar que os crimes cometidos por nazistas, por escravagistas, ou em períodos de guerra, eram executados por seres humanos como eu, como você, ou qualquer um que conhecemos.

Labirinto de Mentiras enriquece essa discussão tratando dos sádicos que, além de matar, faziam atrocidades em nome de um regime que cegava os alemães. O filme parte de 1958, treze anos após a derrota na guerra, centrando no promotor de justiça idealista, Johann Radmann (Alexander Fehling) que, após descobrir que um dos mais cruéis soldados do nazismo agora é professor primário, resolve caçar todos os alemães envolvidos com torturas. Em especial o famoso médico Josef Mangele que fazia experiências bizarras para o terceiro reich.

É engraçado, para não dizer assustador, ver cenas onde adolescentes e jovens nada sabem sobre esse período, como se todos tentassem esconder e varrer para debaixo do tapete essa nebulosa história alemã. Ou numa outra cena em que observamos um padeiro simpático e generoso que oferece com orgulho seu pão as pessoas, enquanto sabemos de seu passado sádico e assassino com soldado da SS.

O filme é baseado em fatos reais. É bom sempre ressaltar.