17 janeiro 2018

O Destino de uma Nação

Darkest Hour - Joe Wright - 2017 (Cinemas)

Após discutir com um amigo parlamentar sobre a escolha do novo primeiro ministro, o Rei George VI (Ben Mendelsohn - extraordinário no papel) recebe no palácio o novo chefe da nação inglesa. Um pouco antes da hora marcada, Winston Churchill (Gary Oldman) é anunciado para o Monarca. A figura do político logo se sobressai e o Rei tenta marcar uma reunião semanal com seu novo primeiro ministro como é praxe. Às 16hs então? Não. A essa hora estou dormindo. George, encabulado, pergunta: E pode? Não, mas é necessário. Responde Churchill.

A figura roliça, sempre com um charuto, poucos e ralos cabelos, branco, parecido com um bebê, rabugento, piadista, que acorda tomando um uísque, almoça com champagne e janta com um vinho não atrai a mínima confiança sobre sua pessoa, muitas vezes parece bêbado, e, em certos momentos, perdido, mas, arrisco-me a dizer, é o maior estadista que o mundo já conheceu.

Há uma máxima entre o funcionalismo público, principalmente o brasileiro, que é necessário tomar medidas que não agradam o povo. Essa é uma das maiores falácias do sistema político. Tratar os verdadeiros donos do poder como crianças é uma forma de manipulá-las e criar um Estado gigante que lhes tira a liberdade. Churchill era um conservador, aquele político que olha o passado e procura conservar o que esse trouxe de sucesso e melhoria à sociedade como um todo. O que tiver que mudar, mudará a partir dessa análise.

E isso foi essencial para o império britânico, enquanto a Europa se rendia a Hitler. Alguns em batalhas sangrentas, outros negociando tratados, e ainda outros sendo traídos, como foi o caso da Rússia de Stalin. Na Inglaterra, assustados com o poderio bélico dos nazistas, alguns poucos achavam que o melhor era a negociação. Churchill foi fundamental, mesmo quando tudo mostrava o contrário, em conservar a história britânica de não tolerar invasões, visto na 1ª guerra mundial. Dois filmes obrigatórios que corroboram isso é Círculo de Fogo (2001) e Dunkirk (2017), esse último é quase uma parte dentro do filme. Os ingleses venceram os alemães com a determinante participação dos civis como desenhou Winston Churchill.

Para finalizar é injuntivo, obrigatório, tecer alguns comentários sobre Gary Oldman e Kristin Scott Thomas. Oldman é a personificação de Churchill, além da maquiagem perfeita, sua voz, e maneirismos trazem ao filme uma reconstituição de época que nenhum cenário seria capaz de fornecer. Thomas é a antagonista à altura, apesar das poucas cenas, é impossível não enxergar no conservador a figura de Clementine que dá pito, reclama das bebidas e acarinha o marido com dedicação. Muitos atos do primeiro ministro são visíveis à esposa, mesmo ela não estando presente na cena.  

12 janeiro 2018

Melhores 2017

2017 foi um ano atípico para o cinema. Enquanto que para hollywood o ano ainda não terminou com denúncias de assédio, no cinema mundial poucas produções chamaram a atenção, uma delas estará em nossa lista. O festival de cannes continua sendo o principal holofote para filmes de fora dos EUA, duas películas que passaram por lá entraram em nossa relação. E por último outros dois filmes norte-americanos, um de uma lenda viva e outro de um cineasta que se encaminha nessa direção, finalizam nossos melhores de 2017.

Silêncio de Martin Scorsese apaga um pouco as características do diretor para nos contar uma história forte, real e sem lados. Uma aula de como transmitir uma verdade sem tomar partido, os professores "engajados" deveriam tomar nota.

Dunkirk de Christopher Nolan tem as mesmas características, é também um documento histórico. A ressalva é que Nolan parece cada vez mais impor seu estilo sem cair na armadilha de ser maior que a história que vai contar.

A Criada de Chan-wook Park é uma obra de detalhes, desde sua adaptação de um livro ocidental para a cultura oriental, às suas imagens e iconografia que parecem reviver um aspecto maravilhoso do cinema do oriente.

O Cidadão Ilustre de Gastón Duprat e Mariano Cohn foi o burburinho do ano, uma produção que alçou voo exclusivamente por causa de seus admiradores. Tem muitos aspectos do cinema argentino, a exceção de Ricardo Darín.

Toni Erdmann de Maren Ade é o filme de 2017. Cru, direto, objetivo, com performances que parecem ocorrer ao nosso lado, misturando humor, seriedade, crítica social sem ser chata ou apontando o dedo, Maren Ade também é a personalidade do ano. Que cineasta! 

30 dezembro 2017

A Criada


Ah-ga-ssi - Chan-wook Park - 2016

Baseado no livro Na Ponta dos Dedos, da britânica Sarah Waters, conhecida por seus romances da era vitoriana e protagonistas lésbicas. Em A Criada o tempo é levado para 1930 durante a ocupação japonesa da Coreia do Sul.

O filme começa mostrando o tio Kouzuki (Jin-woong Choo), que mantém uma biblioteca erótica nos porões de sua mansão. Ele faz a jovem sobrinha, ainda uma menina, ler o conteúdo dos livros a velhos tarados no intuito de ganhar a amizade dos japoneses. Acaba atraindo o inescrupuloso Conde Fujiwara (Jung-woo Ha) que elabora um plano para infiltrar uma criada, a trambiqueira Sookee (Tae-ri Kim) e roubar a herdeira Hideko (Min-hee Kim) fazendo ela se apaixonar pelo falso Conde. O plano começa a dar errado quando Sookee e Hideko começam uma relação além da amizade.

O clima constante de traição e ninguém sendo sincero, um detalhe característico do cinema de Chan-wook Park, cineasta do famoso Oldboy (2003), contrasta com cenas líricas, imagens deslumbrantes e cores fortes, que traz a paixão do diretor pelo grande Akira Kurosawa.

26 dezembro 2017

Dunkirk

Dunkirk - Christopher Nolan - 2017 (Cinemas)

Seis soldados vasculham uma rua reta com pequenas casas enquanto dos céus caem folhas de papel.

O INIMIGO IMPELIU OS EXÉRCITOS BRITÂNICO E FRANCÊS PARA O MAR.

Um deles resolve pegar um desses folhetos e ler. Nele há um desenho de um mapa com a descrição bem grande: VOCÊ, mostrando que estão encurralados e dando aviso: RENDER-SE é SOBREVIVER.

ENCURRALADOS EM DUNKIRK, ELES AGUARDAM SEU DESTINO.

Outro soldado busca água com certo desespero. Bebe o resto de uma mangueira abandonada na rua.

NA ESPERANÇA DE SEREM LIBERTADOS.

Outro soldado, Tommy (o novato Fionn Whitehead) recolhe algumas folhas que ainda voam com o objetivo de fazê-las de papel higiênico. Um outro recolhe cigarros em cinzeiros dentro das casas vazias quando vários tiros são disparados, rapidamente eles saem correndo pela rua buscando proteção. Um a um são mortos pelas costas durante a correria, apenas Tommy consegue pular um portão e fugir. Do outro lado da casa, ele passa a receber tiros vindos de uma barricada e começa a gritar: SOU INGLÊS. Os tiros cessam e ele é chamado para trás da barricada. O exército francês o recolhe com olhar pouco amistoso. Os tiros voltam a ecoar e Tommy foge em direção ao mar.

Na praia, uma multidão espera barcos e navios para fugirem daquele inferno.

Utilizando atores novatos e jovens, assim como foi nesse episódio da  2ª guerra conhecido como Batalha de Dunquerque, Nolan acerta em cheio em mostrar uma realidade, principalmente dos soldados, nua e crua. É possível enxergar em seus semblantes o medo que os verdadeiros militares sentiram.

(RISCO DE SPOILER) Christopher Nolan, que também escreveu o roteiro do filme, alega que essa batalha foi essencial para a vitória dos aliados contra o nazismo. Talvez o cineasta tenha razão, mas nesse caso não foram as estratégias, os soldados, ou o poder bélico que decidiram o triunfo. O patriotismo, a contribuição, e as decisões civis foram decisivas justificando a máxima que o poder emana do povo e deles saem as responsabilidades sociais, você concorde ou não.

27 novembro 2017

As Faces de Toni Erdmann

Toni Erdmann - Maren Ade - 2016 (iTunes)

Na 1ª cena do filme, um entregador de uma empresa de correio alemão leva uma caixa para Winfried (Peter Simonischek) e trava-se o seguinte diálogo:

- O que será que meu irmão comprou dessa vez? Toni! Você fez algum pedido? (gritando para dentro de casa). Ele acabou de sair da prisão, faz coisas estranhas. Foi preso por mandar um pacote-bomba. Ontem ele comeu uma lata de ração de cachorro. Espere um momento.

Ele entra na casa deixando a porta aberta e começa a falar com o "irmão", alto o bastante para o carteiro ouvir:

- Toni, venha aqui. Tire a bunda dessa rede. Vou te pôr para fora se continuar assim. Pediu outro catálogo de biquíni?
- Eu não, não seja tão maldoso.
- Ande, o carteiro está esperando.
- Onde?
- Na porta, claro!

E ai volta o "irmão", de óculos escuros, um roupão aberto, algemas e comendo uma banana:

- Meu irmão mente, não pedi nada de erótico.
- O conteúdo não me diz respeito. Responde o entregador.
- Ainda bem. Me dê aqui, estou louco para desmontar essa bomba.

Enquanto ele assina, chega um garoto, Lukkas, a quem ele apresenta como colega caçador de minas, para piorar o medidor de pressão apita assustando o carteiro desnorteado. Ai Winfried revela a sua brincadeira tirando o óculos e dizendo que não existe o "irmão".

Em tempos de politicamente correto, o professor de piano que adora se fantasiar e inventar histórias não é muito didático, mas o filme da cineasta alemã Maren Ade é de uma sensibilidade sem cair na pieguice que nos deixa atônitos.

O filme ainda guarda uma cena que demonstra toda habilidade artística de  Sandra Hüller - que interpreta a filha de Winfried, perseguida por ele durante toda a película - cantando Whitney Houston.

O figurino do animal, que também ilustra esse post, chama-se Kukeri, é uma fantasia comum na Bulgária onde acredita-se afasta espíritos ruins. 

27 setembro 2017

Mãe!

Mother! - Darren Aronofsky - 2017 (Cinemas)

Eu quero fazer um paraíso.

A estrutura de Mãe! é baseada na bíblia, a mãe do titulo refere-se a mãe natureza, representada pela atriz Jennifer Lawrence, Javier Bardem é creditado como Ele, em maiúsculo, Deus. Ed Harris é Adão e Michelle Pfeiffer Eva, portanto seus filhos são Caim e Abel.

Enquanto o filme vai se desenrolando num compasso gradual, vamos imaginando versões, tanto teatral como psicologicamente. E esse jogo de dicas e adivinhações é ignorado pelo cineasta, que prefere a poesia à manipulação. E talvez seja aqui, na metade da película, que há uma ruptura da proposição, e isso acaba gerando insatisfação em parte dos espectadores.

Porém toda essa analogia é criada por nós mesmos, nossa cultura cinematográfica de procurar as dicas, descobrir intenções, dialogar com o cineasta. Mas a arte não dialoga, a arte abre espaços, a arte gera questionamentos.

Darren Aronofsky escreveu o roteiro em menos de 5 dias numa visão pessimista do mundo. Foi durante as filmagens que ele e a atriz Jennifer Lawrence começaram a namorar. Uma das inspirações do diretor foi a artista plástica escocesa Jessica Harrison cuja obra foi copiada no pôster que ilustra essa matéria.

13 junho 2017

O Cidadão Ilustre

El Ciudadano Ilustre - Gastón Duprat e Mariano Cohn - 2016 (Cinemas)

Daniel Mantovani criou um universo poderoso em torno de sua terra natal. Apesar de ter vivido na Europa, seu trabalho aborda temas universais, contando a história intima da aldeia onde nasceu e passou a juventude: Salas, na província de Buenos Aires, Argentina.

Depois de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, o escritor argentino Daniel Mantovani (Oscar Martínez), um autor recluso e de forte personalidade, decide voltar a sua terra natal depois de 40 anos para receber o titulo de Cidadão Ilustre.

A melhor política cultural é não ter nenhuma. "Defender nossa cultura"? Sempre consideram a cultura algo frágil, esquálido que precisa ser salvaguardado, protegido, promovido e subsidiado. A cultura é indestrutível. Capaz de sobreviver aos piores massacres. Houve uma tribo africana cuja língua não tinha a palavra "liberdade". Sabem porque? Porque eles eram livres. Acredito que a palavra cultura é sempre pronunciada pelas pessoas mais ignorantes, estúpidas e perigosas. Pessoalmente, eu nunca a utilizo.

Gastón Duprat e Mariano Cohn conseguem exprimir o roteiro de Andrés Duprat de forma a entregar aos espectadores um filme dinâmico, pontual e intenso do inicio ao fim. É quase impossível se desligar um minuto sequer das cenas, mesmo sem usar recursos grandiosos de cinema. O Cidadão Ilustre é um filme direto, fantástico, completamente interligado, e talvez por isso que mantenha nossa expectativa sempre atenta. É como aquele livro que a gente começa a ler e só para quando chega a última palavra.

16 maio 2017

Vestidos de Cinema

Hollywood e a moda sempre andaram juntas. É comum vermos estilistas de renome assinando o figurino de grandes produções do cinema. Jean-Paul Gaultier é constante colaborador dos filmes de Pedro Almodóvar e ficou famosa a sua participação em O Quinto Elemento (1997) de Luc Besson. Tom Ford que se tornou um cineasta já assinava os ternos de James Bond antes de ir para trás das câmeras, Giorgio Armani esteve presente no filme La Grande Bellezza de Paolo Sorrentino.

Decidir os 5 vestidos que mais chamaram a atenção na história do cinema não foi tarefa das mais fáceis, mas algumas dicas aqui e ali, e principalmente o burburinho dessas peças anos após sua produções contaram em favor nessa escolha.

Em 1° o famoso vestido de Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo (1961), um ícone. O 2° Keira Knightley o usou em Desejo e Reparação (2007) e sua cor ainda é lembrada. Já o 3° fez o frio James Bond derreter o coração pela primeira vez ao vê-lo em Eva Green em Casino Royale (2006). O 4° foi um presente de Robert Redford a Demi Moore em Proposta Indecente (1993), e em 5° Nicole Kidman o usou em Moulin Rouge (2001).

03 abril 2017

Big Little Lies

Big Little Lies - David E. Kelley - HBO (2017)

Luzes policiais azuis e vermelhas se misturam num cenário que parece ter sido uma festa. Investigadores por todos os lados e convidados espantados denunciam ter havido algum tipo de crime. Não demora muito para informarem ter encontrado um corpo.

Após vários depoimentos rápidos (que se estenderá por toda a série) descobrimos se tratar de uma escola, ao mesmo tempo já somos apresentados à nossas protagonistas, Madeline Mackenzie (Reese Whiterspoon), Jane Chapman (Shailene Woodley) e Celeste Wright (Nicole Kidman). Em comum, mães de meninos de 6 anos colegas de colégio na Otter Bay.

Já no primeiro dia de aula, uma professora sem experiência e uma escola sem habilidade criam um ambiente ainda pior que as filas de carro na porta. No meio do pátio, quando todas as crianças já estavam com seus pais para irem embora, a docente acha certo anunciar que uma criança foi agredida, e não satisfeita pede a garotinha apontar o agressor que nega a agressão. Já com os pais revoltados uns com outros (nessa situação as amizades falam mais alto), a professora finalmente enxerga a bobagem que fez.

Depois de uma disputa de bastidores, a HBO venceu a Netflix para os direitos da série. A autora do livro, a australiana Liane Moriarty vendeu e deixou seu livro ser adaptado depois que sua conterrânea, Nicole Kidman, viajou até a Austrália e conversou com ela pessoalmente. Kidman é uma das produtoras da série, juntamente com Reese Whiterspoon.

O canadense Jean-Marc Vallée, diretor do ótimo Clube de Compras Dallas (2013) consegue imprimir nos capítulos um clima crescente de tensão fazendo com que a HBO se pareça com uma TV preta e branca de 1960. É impossível não querer ver os episódios um atrás do outro.

A música que abre a série, Cold Little Heart, de Michael Kiwanuka abre uma playlist inspiradíssima, ressaltando a importância da música em séries. Será impossível ouvi-la novamente sem lembrar a cena de abertura e os atores dessa grande produção.

25 março 2017

Fragmentado

Na década de 70, depois de sequestrar e violentar 3 mulheres, Billy Milligan, um jovem de 22 anos foi preso acusado dos crimes. Durante uma avaliação psiquiatra pedida por seus advogados, Billy foi diagnosticado com Transtorno Dissociativo de Identidade, descobriu-se que Billy tinha 24 personalidades diferentes, e duas delas, um iugoslavo chamado Ragen e uma lésbica chamada Adalana, tinham cometidos os crimes.

Split - M. Night Shyamalan - 2016 (Cinemas)

O cineasta indiano radicado na Philadelphia M. Night Shyamalan é um personagem de Hollywood. Ele surgiu para o mundo com o sucesso mundial O Sexto Sentido (1999), após isso ele fez o excelente Corpo Fechado (2000) que muitos consideram o melhor filme de super-heróis. Era praticamente uma unanimidade e um Midas - tudo que tocava virava ouro. Então ele faz 7 filmes entre medianos e ridículos e virou uma espécie de zuador de si mesmo.

Fragmentado é sua tentativa mais concreta de voltar ao patamar anterior. Possivelmente também seja uma questão de ter deixado de lado o ego, voltando ao inicio da carreira onde escrevia roteiros baseados em estudos severos sobre a trama do filme, e se preocupava em deixar seus atores entregar excelentes performances. E não em criar um gênero pra chamar de seu.

Shyamalan entrevistou muitos psiquiatras e se fundamentou no livro baseado em fatos reais, The Minds of Billy Milligan, que comentei acima. O que mais impressionou o diretor foi uma personalidade em particular, a de um lutador russo que brigava, e batia, em muita gente na prisão, mesmo Billy sendo magro e nem um pouco musculoso.

James McAvoy garante com seu talento todo o volume do calhamaço do script. Imagino a dificuldade do ator em interpretar uma cena no espelho como uma criança de 9 anos, e um adulto muito sério, mudando a voz e as expressões sem cortes.

21 março 2017

Silêncio

Silence - Martin Scorsese - 2016 (Cinemas)

Há uma história muito interessante sobre o tempo do Daiata Furud lá. Ele tinha quatro concubinas. Quatro. Todas eram muito belas, mas elas...Houve um tempo, em que as concubinas estavam com ciúmes, e lutaram e lutaram sem parar, por isso ele tirou-as do castelo. E a paz voltou de novo à sua vida.

Talvez o projeto mais pessoal do tarimbado Martin Scorsese, a adaptação do livro homônimo do japonês Shûsaku Endô se tornou uma odisseia na vida do renomado cineasta. O resultado, contra todas as expectativas e principalmente um estúdio em constante briga com o diretor, é uma belíssima história de fé, de cultura e de religião.

Intrigados com a apostasia, a renúncia aos votos religiosos do Padre jesuíta Ferreira (Liam Neeson) que partiu ao Japão para propagar o catolicismo no mundo oriental, dois de seus discípulos, Padre Rodrigues (Andrew Garfield - brilhante) e Garupe (Adam Driver) partem atrás dele e decidem continuar a levar sua religião a terra distantes, mesmo diante do pessimismo de seus superiores e cartas relatando torturas.

Scorsese capta com a sensibilidade que lhe é peculiar e os anos de trabalho doados à sétima arte, não só como cineasta, mas também como guardião de filmes, e faz um filme histórico do ponto de vista humano, e belíssimo, do ponto de vista cinematográfico. Sua câmera passeia pela história verídica do livro de 1966 do católico japonês Shûsaku Endô (hoje menos de 1% da população nipônica é católica) e nos entrega uma obra-prima sem retoques. Em tempos de opiniões tão antagônicas e extremadas, o velho Scorsa mais uma vez nos dá lição sem precisar fazê-lo.

17 março 2017

Parábola do Mês

Já adotamos o livre-arbítrio antes.  Depois de os levarmos a idade da pedra ao auge do império romano ai nos retiramos. Para ver como se sairiam sozinhos. Vocês nos deram a Idade das Trevas por 5 séculos. Ate que finalmente decidirmos intervir. O Presidente achou que tínhamos que caprichar mais ensinando vocês a andar de bicicleta antes de tirar as rodinhas de novo. Então lhes demos o Renascimento, o Iluminismo, a Revolução Cientifica. Durante 600 anos ensinamos a controlar seus impulsos usando a razão. Então em 1910 saímos de novo, mas em 50 anos vocês trouxeram a 1ª Guerra Mundial, a Depressão, o Fascismo, o Holocausto. E chegaram ao auge levando o planeta inteiro ao limiar da crise com Cuba. Naquele ponto foi decidido que devíamos intervir antes que fizessem algo que até mesmo nós não pudéssemos consertar. Você não tem livre-arbítrio. Tem apenas um aparente livre-arbítrio.

Extraída do filme Os Agentes do Destino (2011) dir. George Nolfi, interpretada por Terence Stamp.

02 fevereiro 2017

Até o Último Homem

Hacksaw Ridge - Mel Gibson - 2016 (Cinemas)

Na primeira cena do novo filme dirigido por Mel Gibson vemos as atrocidades que uma guerra é capaz de fazer: corpos explodindo, incendiados, membros voando ensanguentados, explosões a ermo, tudo isso graças aos dublês e aos efeitos visuais da sua equipe que não utilizou efeitos computadorizados. Dai vem a voz do nosso protagonista, calma e serena: "Você não ouviu? O Senhor é o Deus eterno, o Criador de toda a terra. Ele não se cansa nem fica exausto. Sua sabedoria é insondável, seu conhecimento incompreensível. Faz forte ao cansado e multiplica o vigor dos fatigados. Até os adolescentes se cansam e ficam exaustos, e os jovens tropeçam e caem, mas aqueles que esperam no Senhor, renovam suas forças. Voam altos como águias, correm e não ficam exaustos, caminham e não se cansam".

Lendo assim parece mais um ex-coroinha divagando, mas guarde bem esses versos, ao final de um pouco mais de 2 horas, essas palavras ganharão um significado poucas vezes visto na história do cinema.

Após um longo hiato, uma década pra ser preciso, o astro Mel Gibson retorna a direção. Seu ultimo trabalho como cineasta havia sido Apocalypto (2006). Até o Último Homem é seu momento mais maduro da carreira, é um filme excepcional sob quaisquer aspecto de uma produção cinematográfica, porém se sobressai nas belezas das cenas, na criação e olhar em determinados ângulos. Algo que só as grandes legendas do cinema possuem.

Agora, a autoridade mesmo do filme é a sua história, a História com H maiúsculo de Desmond Doss (o ótimo Andrew Garfield) o primeiro soldado norte-americano, objetor consciente da guerra, que foi autorizado pelo governo dos EUA a ir ao campo de batalha sem nenhuma arma. 

27 janeiro 2017

La La Land

La La Land - Damien Chazelle - Cinemas (2016)

"Aqui é Los Angeles. Onde eles veneram tudo, e não valorizam nada".

Numa das cenas de La La Land, o músico Sebastian (Ryan Gosling) fica inconformado quando a aspirante a atriz Mia (Emma Stone) confessa que não gosta de jazz. Podemos mudar, tranquilamente, o gênero musical (o jazz) pelo gênero musical (do cinema). Os famosos musicais hollywoodianos já tiveram seu tempo áureo, hoje é quase relíquia.

O pé atrás com musicais vem muito de seu principal elemento, a música, lembro aqui de Moulin Rouge (2001), um sucesso muito pela bela trilha sonora. E nesse quesito, La La Land passa com méritos, suas canções são deliciosas, em especial a já famosa City of Stars, e Start a Fire com o famoso profissional da área John Legend.

O cineasta Damien Chazelle, de Whiplash (2014) e o escritor e músico Justin Hurwitz tiveram a ideia do filme durante o ano de formatura em Harvard. Inicialmente, eles encontraram dois financiadores e um produtor para um orçamento de 1 milhão de dólares. No entanto, a demanda por um monte de alterações de script fez com que eles abandonassem o projeto. Depois que Whiplash foi um sucesso, ele retornaram com o projeto ao estúdio e receberam o sinal verde.

A saga da atriz em busca da fama e o músico de reconhecimento que se conhecem se esbarrando várias vezes na cidade dos sonhos, LA, ou Los Angeles, e começam um romance, pode não ser uma obra-prima, mas é um belíssimo filme. 

13 janeiro 2017

O Jovem Papa

The Young Pope - Paolo Sorrentino - 2016 (HBO - Estreia domingo dia 15)

Senhoras e senhores, venho aqui lhes dizer que estamos diante de uma obra-prima.

- Quem é o mais importante dos escritores dos últimos 20 anos? Cuidado, não é o melhor - virtuosismo é para os arrogantes - o mais importante? Alguém que despertou tanta curiosidade mórbida que virou o mais importante.
- Não faço ideia, talvez Philip Roth?
- Não. Salinger. O diretor de cinema mais importante?
- Spielberg
- Não. Kubrick.
- Artista Contemporâneo?
- Jeff Koons...Marina Abramovic.
- Banksy. Banda de música eletrônica?
- Não sei absolutamente nada sobre música eletrônica.
- Daft Punk.
- A melhor vocalista italiana?
- Mina?
- Ahh, Brava! Agora, você sabe dizer qual é a linha invisível que conecta todos eles? As figuras mais importantes em seus respectivos campos? Nenhum deles se deixam ser vistos! Nenhum deles se deixam ser fotografados.

The Young Pope, o jovem órfão norte-americano Lenny Bernardo, ou o Papa Pio XIII, foi eleito depois de um conclave politizado e tenso. A figura de um jovem renovaria a igreja, assim eles pensavam.

Porém Jude Law (O Papa) é um conservador de ideias próprias que pretende revolucionar o sistema e lutar com as armas podres para manter seu poder. E acredite, no Vaticano não é nada diferente do que em outros lugares digamos, menos sagrados.

Em O Poderoso Chefão (1972), Michael Corleone resolve na violência a desconfiança sobre sua ascensão ao poder da famiglia. Em House of Cards (2013) o desconhecido político Frank Underwood usa a chantagem para virar presidente.

O Papa Pio XIII tem o hábito de humilhar seus adversários, mas calma, com esse Papa nada é tão preto no branco, apesar das roupas - das mesmas alfaiatarias do Papa Francisco (leia Armani) - serem extraordinariamente de cores vividas, claro que com a ajuda preciosa do mago das imagens Luca Bigazzi. Com esse Papa tudo é mais denso, profundo. Ele mesmo ensina humilhação num dos episódios:

- Você não faz ideia de quantos objetivos podem ser alcançados humilhando terceiros. Mas há um segredo. O humilhado não pode perceber que foi humilhado.

Rodado em Roma e nos santuários estúdios de Cinecittà, onde foi construída uma réplica da capela sistina, a série é dirigida e roteirizada por Paolo Sorrentino que parece estar, em velocidade de cruzeiro, rumo ao hall dos melhores nomes do cinema. Ou seria o mais importante? Se cuida Kubrick!

Espere tudo que os já encaminhados ao cinema Sorrentiano costumam assistir. Imagens arrebatadoras e surreais, uma seleção musical de elevar a alma, diálogos e frases que fariam Quentin Tarantino ter inveja, e um elenco selecionado a dedo, e quanto a isso gostaria de fazer dois adendos: O primeiro chama-se Javier Cámara, um carismático e bom ator espanhol que está sempre nos filmes de Pedro Almodóvar, e que tem uma adoração por Paolo Sorrentino. Quando soube que ele estava fazendo a série, se ofereceu para um papel. O italiano lhe deu então o de Monsenhor Gutierrez que acredito ficará marcado para sempre em sua carreira. O segundo é David Jude Law, esse importante ator do primeiro escalão de hollywood é pura emoção, seus nuances e suas manias nos tomam de surpresas, suas pausas são perfeitas. É impossível ficar impassível diante de suas interpretações para rirmos ou chorarmos juntos, preparem-se.