27 maio 2016

Paolo Sorrentino

Ao receber o Oscar de melhor filme estrangeiro para A Grande Beleza (2013) no palco do Teatro Dolby no Boulevard de Hollywood em Los Angeles, Paolo Sorrentino agradeceu a Maradona em seu discurso, muita gente não sabe o porque desse agradecimento. Em 1986, o Scudetto italiano (como eles chamam o título nacional de futebol), estava sendo decidido pelo sempre poderoso Juventus, La Vecchia Signora, e, inacreditavelmente pelo Napoli, um time que nunca havia estado nessa situação. Naquela rodada o time azul iria visitar o Empoli, e para um torcedor em especial, aquele fim de semana iria mudar sua vida para sempre.

Fã confesso de Federico Fellini, o cineasta Paolo Sorrentino apaixonou-se pelo cinema pelas mãos de um outro gênio italiano, Sergio Leone e seu Era uma Vez na América (1984), mas foi Giuseppe Tornatore, o gênio, desculpa a repetição, quem realmente influenciou e fez com que Sorrentino decidisse seguir carreira no cinema. Ou seja, as melhores referências possíveis.

Nascido em 31 de maio de 1970 em Nápoles, casado com Daniela D'Antonio com quem tem 2 filhos, Paolo Sorrentino nunca frequentou uma escola de cinema, mas tem entre suas paixões sempre rever filmes que lhe marcaram de diretores que idolatra, como os já citados acima, além de Martin Scorsese e Ang Lee. Isso lhe conferiu uma aura de cineasta de decisões rápidas e fértil.

O cineastas dos planos abertos, dos roteiros que vão se elucidando no decorrer da película, de imagens nonsense e ritmo lento ao som de músicas que tocam direto no coração. Sorrentino receberá a mais nova revisita a sua obra aqui no Museu, serão os já comentados Juventude (2015), A Grande Beleza (2013) e os inéditos Aqui é o Meu Lugar (2011), Il Divo (2008) e As Consequências do Amor (2004). 

Aquele final de semana seria como mais um outro, iria com os pais e os irmãos para a casa nas montanhas, se não fosse por um argentino de 1,66m de altura. Naquela época quem amava o futebol, amava o Napoli, e quem era torcedor do Napoli não fazia outra coisa se não acompanhar o time. E foi isso que o jovem Paolo Sorrentino fez, em vez das montanhas viajou para Empoli ver seu time jogar e, enquanto assistia o Napoli enfiar 4 X 0, seus pais, infelizmente, sofriam um terrível acidente com a calefação da casa e morreram.

31 março 2016

Juventude

Eu vi um filme seu. Aquele em que você é o pai que não conhece o filho, e o conhece numa lanchonete quando ele já tinha 14 anos. Tem um diálogo que gosto muito, quando seu filho diz: "Porque você não foi um pai para mim?" E você responde: "Não me achava capaz". Naquele momento entendi algo muito importante. Ninguém no mundo se sente capaz. Então não há razão para se preocupar.

Youth - Paolo Sorrentino - 2015 (Nos Melhores Cinemas do País)

Aposentado, o Maestro Fred Ballinger (Sir Michael Caine, soberbo) passa seus dias num spa na Suíça observando e conhecendo hóspedes e evitando qualquer tipo de trabalho. Até que um insistente produtor da Rainha da Inglaterra lhe convida para reger uma orquestra e a renomada soprano Sumi Jo no aniversário do Príncipe Philip, seu marido, um apaixonado pela obra do legendário músico, e ocasião também onde lhe dará a ordem de cavalheiro da coroa britânica.

O produtor do palácio de Buckingham só não sabe que o Maestro não trabalha mais por uma simples razão! Uma simples canção! Uma simples composição! Simple Song!

Paolo Sorrentino tem um ídolo. Quase uma obsessão chamada Federico Fellini, que qualquer bom dicionário mostrará que trata-se do sobrenome do cinema. Fellini morreu em 1993, mas por isso muitas pessoas o consideram imortal. O cinema de Fellini continua vivo nas obras de Sorrentino. Suas imagens, sua forma de conduzir, seus planos elegantes, suas imagens bizarras, seus "Felliniescos" e seu desenvolvimento para revelar uma história é toda devotada no surreal e genial cineasta italiano. Ver as obras de Sorrentino é muito mais que voltar ao passado, é saber, ter a certeza que os grandes continuam e continuará nos conduzindo por sonhos maravilhosos capazes de deixar qualquer coração cinéfilo permanentemente feliz.

Fellini tinha um jeito peculiar de fazer seus filmes, eles simplesmente brotavam de seus sonhos e eram desenhados logo ao acordar, num primeiro esboço. Paolo Sorrentino parece sonhar acordado. A cena em que o maestro Fred Ballinger rege uma orquestras de vacas ao som da trilha mágica, impecável e histórica de David Lang, parece ter saído de uma reencarnação espírita.

Juventude é uma odisseia, uma tecelagem de emoções que nos leva ao que parece ser o santo graal da vida, a busca eterna, como a própria personagem de Harvey Keitel (não menos soberbo), o cineasta Mick Boyle, em determinado momento profetiza: "Dizem que as emoções são supervalorizadas, mas isso é besteira. Emoções são tudo o que nós temos".

01 março 2016

Os Oito Odiados

The Hateful Eight - Quentin Tarantino - 2015 (Cinemas)

Uma conferida nos indicados ao Oscar de melhor filme desse ano nos mostrará uma tendência que vem sendo seguida pela academia e seus membros há alguns anos. Trata-se de filmes sem uma identidade artística de seu dono, ou seja, do cineasta. Nesse ano, o único dos 8 nominados que tem uma caligrafia reconhecida foi também o mais esnobado, na contagem dos votos deve ter ficado com o último lugar.

Atualmente em hollywood poucos são os diretores que possuem esse "kwan" artístico, e esses poucos parecem sofrer perseguição por assinarem obras.

Quentin Tarantino é facilmente um desses exemplos. Sua filmografia se não é perfeita, beira essa condição, mesmo para o mais crítico de seu trabalho. Mas é esnobado continuamente por membros que o ajudaram a ganhar fama. Num ano fraco, seu filme não ser indicado, beira a heresia.

Duas das qualidades do cineasta: criar cenas impecavelmente bem fotografadas, mas que sejam condizentes com o roteiro, e inventar diálogos originais e extremamente criativos parecem evoluir ao longo dos 8 filmes do seu currículo.

Os Oito Odiados ganha uma outra estética quando pensamos que a trilha sonora é assinada por Ennio Morricone, o gênio decidiu ceder aos apelos do fã declarado e compor mais uma de suas infinitas composições com seu toque de mestre. O filme é quase em tempo real, e também quase filmado num único cenário, isso possibilita Tarantino mostrar suas habilidades narrativas, desenvolvimento das personagens, e principalmente nas conversas travadas pelos atores.

1. John Ruth (Kurt Russell). Atravessa a neve para levar uma prisioneira e ganhar a recompensa por isso. Leva a capturada presa ao seu pulso com algemas.

2. Daisy Domergue (Jennifer Jason Lee). A prisioneira capturada por John. Louca e sem papas na língua fica o tempo todo irritando seu captor.

3. Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson). Falante e contador de histórias. Pega carona com John Ruth e se gaba de ter uma carta assinada por Abraham Lincoln.

4. Xerife Chris Mannix (Walton Goggins). Também pega carona na charrete de John Ruth, se diz indo a cidade para ser nomeado o novo Xerife.

5. Oswaldo Mobray (Tim Roth). Apresenta-se como o enforcador da cidade. Será o homem responsável em enforcar a prisioneira que Ruth carrega.

6. Joe Gage (Michael Madsen). Um vaqueiro que ia visitar a mãe quando foi obrigado a fugir da nevasca se refugiando ali.

7. Bob (Demián Bichir). Um mexicano que se diz amigo da dona. Está tomando conta do lugar enquanto a dona teve que ir visitar a mãe.

8. Sandy Smithers (Bruce Dern). General confederado, calado e sempre sentado no sofá, está ali passando o tempo. Teve uma história no exército norte-americano.

16 fevereiro 2016

Vinyl

Vinyl - Martin Scorsese - 2016 (HBO)

No fundo preto lemos: New York City 1973. Ainda sob o fundo escuro ouvimos uma respiração ofegante, ao abrir a imagem, nosso protagonista, Richie Finestra (Bobby Cannavale), suado e bebendo nervosamente uma garrafa de bourbon. A câmera se afasta para mostrar onde estamos, dentro de um carro numa rua deserta e perigosa da cidade. Richie quer "sugar", gíria para cocaína, está no lugar certo. Ele arranca o retrovisor do teto e prepara a carreira, enrola o dinheiro e pronto. Três cortes rápidos e a cheirada vai parar no teto solar do carro numa imagem que uma pessoa a tornou sua grife. Não necessita crédito de abertura.

Conta-se a história que há algumas décadas atrás, Mick Jagger teria contado uma idéia para uma série ao amigo cineasta sobre um executivo da industria musical na época áurea.

Com um piloto de quase 2 horas, Vinyl se apresenta ao melhor estilo de seu criador. Músicas potentes e antigas, blues, rock, soul, r&b, cortes magistrais, ritmo alucinante, narrações em off e tomadas perfeitas. É um filme completo que poderia muito bem ter seu final, mas o Mestre, numa ousadia juvenil, encerra com a competência do dever cumprido e o gostinho de quero mais.

Vinyl centra-se no empresário musical Richie Finestra, que anda na expectativa de vender seu selo para a poderosa empresa alemã Polygram. Dono de um ouvido espetacular para canções de sucesso, Finestra luta contra o alcoolismo e as drogas, enquanto vive entre as obrigações de seu trabalho e a família com a esposa Devon (Olivia Wilde).

29 janeiro 2016

Carol

Carol - Todd Haynes - 2015 (Cinemas)

Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata. Clarice Lispector

O amor é o sentimento mais poderoso, mais nobre, mas também o mais orgulhoso, o mais egoísta, senão vejamos: Carol (Cate Blanchett) nutre um amor pela filha, e por ela é capaz de abandonar qualquer outro. Harge (Kyle Chandler) ama Carol, e por ela é capaz de usar o amor da filha para mantê-la por perto. Therese (Rooney Mara) ama Carol e está disposta a fazer de tudo por este amor.

Essas 3 personagens intensas, elaboradas e ricas em emoções travarão uma luta por amor. O amor materno, o amor perdido e o amor incompreendido.

Como costumo dizer, filmes com o título do nome da personagem principal já traz em si a sinopse da obra. Trata-se de uma jornada em que ela irá viver emoções que a transformará para sempre. Carol não se excetua à regra.

A película é baseada no livro "The Price of Salt" publicado em 1952 por Patricia Highsmith (escritora de O Talentoso Ripley) sob o pseudônimo de Claire Morgan. Em 1990, quando o republicou na Inglaterra, Patricia deu novo título a obra, Carol, e usou seu verdadeiro nome como autora. Segundo Highsmith a publicação é baseada num encontro, que ela própria teve, quando observou uma loira de casaco de pele, enquanto trabalhava numa loja vendendo bonecas no natal de 1948, em Nova Iorque. Ela escreveu o esboço em apenas 2 horas na mesma noite do encontro, sob febre da catapora que ela descobriu ter pego no dia seguinte.

Há também vestígios de influência de um romance que a escritora norte-americana teve com Virginia Kent Catherwood, uma socialite casada da Philadelphia...Leia a segunda parte da crítica, publicada originalmente na revista Confesso, aqui.

07 janeiro 2016

Melhores 2015

O ano de 2015 é todo da Netflix. O streaming dominou todos os cinéfilos, é impossível hoje pensar em cinema excluindo ela, para melhorar ainda a situação já confortável, a empresa resolveu fazer filmes! E começou simplesmente com a película do ano. Beasts of no Nation prova, assim como ocorreu com a HBO alguns anos atrás, que uma produtora boa é sinônima de liberal e provocadora. Labirinto de Mentiras é o alemão da vez, mas dirigido por um italiano, mostra o nazismo sob o ponto de vista deles. Ponte de Espiões é o filme que nasceu para ganhar prêmios. Teoria de Tudo nasce de uma história maravilhosa e consegue exceder as expectativas. Mia Madre é a volta de Nanni Moretti aos filmes dramáticos com a sua grafia que consegue dar leveza e ritmo como só ele é capaz. Idris Elba vale por 2, primeiro sua interpretação selvagem no filme Beasts of no Nation, e segundo para homenagear a Netflix.

04 janeiro 2016

Labirinto de Mentiras

Im Labyrinth des Schweigens - Giulio Ricciarelli - 2014 (Cinemas)

Todos vocês eram nazistas. No setor oriental, agora vocês são comunistas. Jesus, você alemães! Se homenzinhos verdes de Marte aterrizarem amanhã, vocês iriam ficar todos verdes.

Stanley Milgram foi um psicólogo norte-americano que desenvolveu um estudo, e posteriormente uma experiência que provava que a maioria das pessoas eram capazes de obedecer ordens de autoridades, mesmo que machucasse outras. Seu objetivo era provar que os crimes cometidos por nazistas, por escravagistas, ou em períodos de guerra, eram executados por seres humanos como eu, como você, ou qualquer um que conhecemos.

Labirinto de Mentiras enriquece essa discussão tratando dos sádicos que, além de matar, faziam atrocidades em nome de um regime que cegava os alemães. O filme parte de 1958, treze anos após a derrota na guerra, centrando no promotor de justiça idealista, Johann Radmann (Alexander Fehling) que, após descobrir que um dos mais cruéis soldados do nazismo agora é professor primário, resolve caçar todos os alemães envolvidos com torturas. Em especial o famoso médico Josef Mangele que fazia experiências bizarras para o terceiro reich.

É engraçado, para não dizer assustador, ver cenas onde adolescentes e jovens nada sabem sobre esse período, como se todos tentassem esconder e varrer para debaixo do tapete essa nebulosa história alemã. Ou numa outra cena em que observamos um padeiro simpático e generoso que oferece com orgulho seu pão as pessoas, enquanto sabemos de seu passado sádico e assassino com soldado da SS.

O filme é baseado em fatos reais. É bom sempre ressaltar.

26 dezembro 2015

Mia Madre

Mia Madre - Nanni Moretti - 2015  (Cinemas)

O cinema também pode ser um ótimo analista.

Em 2010, enquanto finalizava seu filme Habemus Papam (2011), onde satirizava justamente o aspecto emocional do Papa, o cineasta Nanni Moretti passava por um momento delicado de sua vida real. Sua mãe, Agata, estava hospitalizada. O roteiro de Mia Madre é justamente esse, só muda a protagonista, entrando a musa do diretor Marguerita Buy (interpretando Marguerita). Nanni, que costuma protagonizar suas películas, dessa vez ganha um papel secundário como irmão da diretora de cinema.

Além de receber uma salva de palmas durante um pouco menos de 8 minutos no Festival de Cannes, Mia Madre foi escolhido um dos filmes do ano segundo a bíblia da 7ª arte, Cahiers du Cinéma.

Nanni Moretti repete o resultado do trabalho de sua grande obra-prima O Quarto do Filho (2001). Sua sensibilidade, seu detalhismo, seus nuances de psicologia transformam sua película em algo belo, rico. Seus flashbacks servem como terapia não só para ele - o protagonista que prefere as sombras do holofote - como para nós, os espectadores que acham que Moretti faz algo pessoal inaplicável ao resto da humanidade.

Ada (a ótima Giulia Lazzarini) dirigi lentamente seu pequeno carro de 14 anos. Numa espaçosa vaga tenta manobrar para estaciona-lo quando é interrompida por uma nervosa e incrédula filha. Tentando explicar que estava cansada, e que por isso recorreu ao uso do automóvel, Ada discute com a filha sua capacidade de ainda poder realizar pequenos trajetos. Sua filha não a ouve e rasgando sua carteira, ainda válida, toma o volante do carro engata a ré e, mirando o muro, joga o carro contra ele, repetidas vezes. Numa outra cena podemos ver Marguerita ensinando pacientemente sua filha a andar de moto.

Mia Madre ainda vem com um bônus especial chamado John Turturro, incrível como um ator tarimbado, seletivo consegue em poucas cenas demonstrar um amadorismo (do termo amar) impressionante. Sua cena dançando com a figurinista é sensacional, impossível separar o real da ficção.

08 novembro 2015

Spectre

Spectre - Sam Mendes - 2015 (Cinemas)

O que houve James? Eles estão falando que esse é o último.
E o que você acha?
Que esse é só o começo.

Tudo é uma questão de perspectiva.

Atrevo-me a dizer que o espião James Bond, o famoso agente 007, é a maior tradição da história do cinema. Esperar pela próxima aventura do britânico já se tornou hábito de pelo menos 3 gerações. Atrevo-me mais ainda a dizer que o sucesso disso estão nos detalhes. Ir ao cinema assistir ao filme carrega a expectativa de encontrar muitas marcas, objetos e trejeitos que fulguram no imaginário e estão incutidas em nossas lembranças bondianas.

Spectre é mais uma vez dirigido por Sam Mendes, e atrevo-me a dizer que é o melhor cineasta que já dirigiu um filme baseado na personagem de Ian Flemming. Mendes é fiduciário de Barbara Broccoli, a dona de tudo e filha do lendário produtor que começou a lenda. Barbara sabe muito bem o que tem em mãos desde que assumiu a frente da produção. A cena inicial, filmada na Cidade do México, tem seu dedo, é sensacional e foi "vendida" depois de uma oferta não oficial do governo mexicano.

Agora, se você espera encontrar o famoso Aston Martin (produzido especialmente para a película) com os apetrechos de Q (Ben Whishaw), que James peça o dry martini (batido, nunca mexido), que esteja sempre vestido impecavelmente (Tom Ford assina as roupas), que as Bond Girls sejam lindas e misteriosas (Monica Bellucci, precisa dizer algo mais?), e que alguém pergunte seu nome e ele responda com o único e original, Bond, James Bond, você tem que correr para o primeiro cinema mais perto de você, pois estará tudo lá.

E atrevo-me a dizer que depois de ver Spectre você estará ansioso esperando o próximo.

28 outubro 2015

Ponte dos Espiões

Bridge of Spies - Steven Spielberg - Cinemas (2015)

Quando era pequeno, em Moscou, meu pai me pedia para observar um amigo seu, dizia: Observe ele. Ficava sempre olhando, mas nada via, até que um dia minha casa foi invadida por muitos policiais. Esse homem foi agredido. Toda vez que o espancavam, ele se levantava e ficava novamente em pé. Eles o batiam forte e mesmo assim ele voltava a se levantar. Eu penso que talvez por isso deixaram-no vivo. Era um homem perseverante.

Spielberg é um gênio. Soou repetitivo né? Mas é isso mesmo, ele é um cineasta que está no capítulo sobre os maiores nomes do cinema. Tá lá, na letra S. Steven tem uma habilidade única de desenvolver uma história da maneira mais simples possível. Se fosse um contador de piadas, seria sem emoções, sem inventar vozes, ele ia lá e contava, e encarregava a própria anedota de mexer com o ouvinte. Ele poderia até dar uma entonação mais forte em determinada passagem, mas sem nenhum arrobo emocional.

Emoldurar o diretor é tarefa ingrata. Se Steven Spielberg fosse um escritor, seria detalhista, mas sem prolixidade, quase um detalhista acidental. Seria tão blasé que até perceberíamos um merchandising da motorola numa determinada descrição, mesmo assim nos perguntaríamos se aquilo rendeu algum dinheiro (claro que rendeu, ninguém põe um logotipo num filme de milhões por acidente! É tudo pontuado).

Ponte dos Espiões é um roteiro pronto, mas ao ver a assinatura dos Irmãos Coen, ele ganha um upgrade mental automático. A história do advogado de seguradoras que defende um espião russo no meio da guerra fria, e depois trata de sua troca por um piloto norte-americano capturado pela antiga URSS é tão rica que uma pequena, minúscula falha, determinaria o fiasco do projeto, porém ao colocar talento do quilate de Spielberg, Tom Hanks e os Coen a equação se torna positiva.

- Você não está preocupado?
- Se estivesse, ajudaria?

23 outubro 2015

Beasts of No Nation

Beasts of No Nation - Cary Fukunaga - Netflix (2015)

Eu só quero ser feliz nessa vida.

No dia 2 de setembro de 2015, o mundo acordou chocado com a imagem de um garotinho morto numa praia na Turquia. Ele fugia de uma guerra na Síria. A hashtag #KiyiyaVuranInsanlik (humanidade levada com as águas), inundou o twitter em poucos minutos.

Beasts of No Nation é, como diz o nome, apátrida, sem pátria, é uma guerra que acertadamente não define local, mocinhos ou bandidos, aliás, define todos como bandidos, bestas, animais, selvagens. Nas cenas das batalhas ficamos sem saber quem é quem, sem "escolher" um lado para "torcer", ficamos perdidos, só contemplando onde nós chegamos, ou voltamos.

3 nomes definem a película, o cineasta californiano Cary Fukunaga que rege a história com equilíbrio, arte, mas sem retoques que poderiam glamorizar a guerra, mesmo sem nenhum aspecto documental durante a trama. O excelente menino ganês Abraham Attah, e seu expressivo rosto. E, claro, Idris Elba, um ator riquíssimo de recursos e de uma elegância singular (talvez dai o burburinho sobre ser o novo James Bond), profetizo que a depender dos projetos que vir a escolher será um dos grandes astros do mundo.

Também não poderia deixar de falar sobre a Netflix. A empresa de streaming que mudou a forma de vermos filmes e séries, começa com Beasts of No Nation a se aventurar na produção, e produção de conteúdo para cinema. Se voltassem no tempo não conseguiriam ser mais perfeitos.

29 setembro 2015

Michelangelo Antonioni - 103 anos


Há 103 anos, em 29/09, nascia Michelangelo Antonioni, o homem que mudou o cinema e o cineasta preferido desse blog, mas não estou sozinho nessa opinião, Antonioni é o queridinho de Martin Scorsese, é citado por alguns como o diretor mais copiado do mundo, sempre tem uma de suas obras-primas fulgurando em listas de melhores filmes da humanidade e já teve Jack Nicholson afirmando que o melhor filme de sua carreira (uma das mais brilhantes de Hollywood) foi o que justamente filmou com o gênio Michelangelo AntonioniO cineasta italiano é uma espécie de Leonardo Da Vinci da 7ª arte. Vejamos: Assim como o pintor, Antonioni tinha sempre um caderno nas mãos anotando as idéias que aparecia. Meticuloso e perfeccionista ele se metia em tudo no filme, Revolucionário soube transformar cenas em obras de arte. Curioso, aprendeu todas as técnicas de fotografia e filmagens. Essa comparação é justíssima, além da nacionalidade, Da Vinci e Antonioni mudaram para sempre seus ofícios. Por fim, queria que vissem o filme que o Museu preparou para Michelangelo à época de sua revisita aqui.

04 setembro 2015

Narcos


Narcos - José Padilha - 2015 (Netflix)

Ao contar uma piada, a pessoa tenta ao máximo ser engraçado, muitas vezes acontece da piada ser ótima, mas o contador péssimo. Ou, o contrário.

Um filme é exatamente assim, por isso a importância tão forte do diretor. José Padilha é um excelente diretor de ação, mas Narcos depende muito mais de outras coisas para contar a incrível história de Pablo Escobar.

Ficam de fora da série como um homem devotado a família, aos filhos e, vá lá, a esposa, se transforma num dos maiores vilões da história do mundo. Essa pincelada psicológica, tão característica do cinema de David Fincher, por exemplo, é nula para o cineasta brasileiro. Se em Tropa de Elite ele se especializou em cenas de torturas e violência, em Narcos ele se diverte - até o "põe no saco" do Cap. Nascimento, é traduzido pro "poner en la bolsa".

Também se peca por uma câmera medrosa e arredia nas cenas mais chocantes, parece que ao ver o que se aproxima, viramos os olhos para não enxergar, fiquei com essa sensação em alguns momentos.

Porém essas imperfeições não estragam o resultado final, Narcos é uma série acertada para o formato e brilhantemente bem produzida.

11 abril 2015

Sniper Americano

American Sniper – Clint Eastwood – 2014 

Ouvimos o som do gatilho sendo preparado. O atirador está há cerca de 1.000 metros de seu alvo. Frio e objetivo ele aponta seu rifle enquanto corrige a mira. A câmera focaliza seu rosto e seus olhos, precisamente eles.

A cena acima é de Clint Eastwood. Dirigido por Sergio Leone em Três Homens em Conflito (1966). O que muda dela para a outra de Eastwood, dessa vez dirigindo Bradley Cooper, é que o alvo é uma criança. Para quem aprendeu com os Mestres não era de se esperar nada menor.

Eu preciso de você… que seja humano novamente. Eu preciso de você aqui.

Eu sempre me situo a margem do Oscar. E, esse ano, não foi diferente. Os principais candidatos, Boyhood (2014) e Birdman (2014) são filmes menores. O primeiro tem como grande mote o tempo de filmagem – foram 16 anos – e só, já o segundo, para quem assistiu Holy Motors (2012) não enxerga nada novo.

Sniper Americano era o melhor do Oscar. Não por ser propagandista estadunidense, mas justamente por ser (sim, não errei). O sentimento negativo em relação aos EUA se tornou tão contundente que precisou Clint Eastwood levantar-se da cadeira e pegar sua câmera. Clint mostra que numa guerra não existem mocinhos nem bandidos, heróis ou vilões. A guerra é o fracasso da racionalidade humana, é quando a violência vence a palavra. Chris Kyle (Bradley Cooper), o sniper (atirador) mais letal da história, só é retratado como herói quando volta em definitivo da guerra. Uma cena em especial deixa isso claro quando Chris encontra um veterano numa oficina com seu filho.

A interpretação de Bradley é perfeita, ele retrata todas as angustias de um homem considerado herói, mas que teve que cometer atos nada heroicos. A frase que ele diz para o psicólogo moldura bem sua personalidade: “Quando eu encontrar meu Criador, responderei por cada um de meus disparos”.

Ao final o octogenário, elegante e inteligente Sr. Eastwood nos brinda com uma obra-prima, uma música do genial maestro Ennio Morricone, retirada do filme Ringo não Discute...Mata (1965).