10 julho 2020

Advogado do Diabo

The Devil's Advocate - Taylor Hackford - 1997

Advogado, que nunca perdeu um caso, se encontra num dilema: defender um cliente de abuso sexual de menor, mesmo sabendo que ele é culpado do crime.

Vaidade é, definitivamente, meu pecado favorito.

Advogado do Diabo é um dos melhores e mais bem estruturados roteiros da história de Hollywood. Baseado no livro homônimo de Andrew Neiderman, o filme ganha novos traços e um final diferente, porém mantendo a essência da luta do bem contra o mal.

A certa altura do filme, John Milton (Al Pacino, o diabo em pessoa, ou como ele mesmo se define, tenho tantos nomes), fala: quem poderia negar a evidência de que o século XX foi todo meu? E isso se explica justamente quando o homem atingiu sua glória, o período fértil artístico do renascimento (séc. XIV e XVI), quando o Teocentrismo, que colocava Deus acima de todos, aos poucos foi sendo substituído pelo humanismo, o homem no centro da criação. O próprio Milton diz: eu sou um humanista, talvez, o último humanista. E é essa vaidade que hoje controla o mundo, seja ela envolvida no marxismo político e cultural, seja ela nas artes. A vontade de uma minoria iluminada em mudar a sociedade, a seu modo, acaba desaguando no iluminismo, movimento da burguesia intelectual europeia, e que norteia a cabeça de muitos egocêntricos atualmente.

Estreita é a porta da salvação e larga a da tentação.

Al Pacino e suas minúcias nuances de interpretação, como uma língua passando entres os dentes, ou um risinho sarcástico é a personificação da personagem do Diabo. Sedutor, conquistador, de lábia aguçada e palavras insinuantes, ele consegue o que quer, inclusive mudar a cor e o corte de cabelo de uma mulher, ou fazer uma religiosa fervorosa ceder aos seus demoníacos encantos, explicitando a falta que a alta cultura faz a religiosidade pura. Uma interpretação maravilhosa que culmina com um discurso onde o ator parece brincar, ressaltando a palavra inglesa para interpretar, to play, brincar em bom português.

John Milton, seu nome, é uma menção ao escritor de Paraíso Perdido, poema do século XVII que narra a revolução de anjos caídos liderados por Lúcifer, que acabam perdendo o paraíso e, no inferno, descobrem que Deus planeja criar um novo mundo e uma nova criatura a sua imagem e semelhança. Os demônios, sob orientação de Lúcifer, agora chamado Satanás, decidem corromper esse novo ser. Melhor reinar no inferno do que servir no paraíso. É quando, o filho de Deus, se oferece em sacrifício pela redenção da humanidade.

Um comentário:

Kamila Azevedo disse...

Gosto muito desse filme. Acho inteligente e com uma excelente dinâmica entre as personagens de Al Pacino e Keanu Reeves. Deu vontade de rever, lendo a sua resenha crítica.