26 Fevereiro 2009

Pôster da Semana

Como não poderia deixar de ser, o Museu do Cinema está ligadíssimo no próximo filme de Pedro Almodóvar, Los Abrazos Rotos, o pôster já é um dos mais belos do ano. O filme vai mesclar abraços de todos os tipos, sejam de amor, amizade, ou dor, com um romance visto por quatro ângulos diferentes. Los Abrazos Rotos vai estrear na Espanha em 18 de março de 2009 e ainda não tem data definida para entrar em cartaz no Brasil. O trailer, que já foi divulgado no Cinéfila por Natureza, mostra um pouco da grife que conquistou o mundo.

De acordo com alguns sites, o trabalho é filmado no estilo das produções noir dos anos 50 de Hollywood, em especial nas obras de Nicholas Ray e Vincent Minelli.

Ninho Vazio

El Nido Vacío – Daniel Burman – 2008 (Cinemas)

A Síndrome do ninho vazio é um abatimento comum que alguns pais enfrentam quando os filhos deixam o lar. A mãe sente-se inútil por não precisar mais se portar diariamente no seu papel, e o pai teme que a vida do filho lá fora precise de sua proteção que estava acostumado a dar em casa.

O cineasta Daniel Burman, apesar de jovem, mostra uma incrível sensibilidade para tratar do tema, sua filmografia demonstra uma característica de aproximação das histórias familiares, com foro íntimo e psicológico, e Ninho Vazio é isso, com leve toque fantástico, como na cena em que o protagonista dança num shopping ao som do bolero de Ravel.

Leonardo (Oscar Martínez) e Martha (Cecilia Roth) formam o casal que passa pela síndrome, enquanto Leo, que é dramaturgo, se fecha mais com sua solidão, Martha encara a situação normalmente e se entrega mais ao trabalho como professora.

Mais um filme argentino bem feito e bem dirigido, a película ainda traz a talentosa atriz Inés Efron, de XXY (2007), e o nosso conhecido Jean Pierre Noher, que fez a novela A Favorita, e interpreta Fernando, um ex-namorado doido de Martha.

25 Fevereiro 2009

Comentários Oscar 2009

Um conselho? Quando o Oscar começar a influenciar suas escolhas de qualidade, comece a repensar seu nível de crítica. Serei mais elucidativo, esse ano, o cineasta vencedor do Oscar, Steven Soderbergh realizou uma pequena obra-prima local, chama-se Che (2008), e é dividido em duas partes. Para a população local, Cuba, o filme é mais que obrigatório. Ignorado completamente pela academia, nem eu acho que deveria ser indicado, a película é falada em sua língua original, ou seja, é em espanhol. O premiado pelo Oscar, Benicio Del Toro entrega uma versão visceral e espírita de Ernesto Che Guevara. Tanto Soderbergh quando Del Toro, que inclusive foi agraciado no festival de cannes por sua versão de alma do guerrilheiro, foram “esquecidos” pela academia. E eu quero pensar que se trata apenas de coincidências.

A foto que ilustra esse post nada tem a ver com a derrota do grande ator. O também grande ator (mostrando que é também um belíssimo ser humano), Sean Penn, tratou de passar uma borracha em cima desse crime, em seu discurso educado e visivelmente constrangido. Uma pena, o grande cineasta e soberbo ator não merecia passar por isso. Prêmio justo obviamente, talvez até escolhido a dedo para ser ‘a pessoa’ a fazer isso. Obrigado Sean Penn, estou muito orgulhoso de gostar de uma indústria sabendo que você faz parte dela.

Voltando a foto, ela retrata a manhã do fatídico domingo, quando Mickey Rourke, ao sair do hotel Four Season, em Beverly Hills, avistou o diretor Danny Boyle, o ator mostrou o dedo em gesto conhecidíssimo, para o diretor escocês. O ato significa a opinião de um cara honesto por conta da polêmica em torno do filme de Boyle, no qual o diretor teria pago quantias irrisórias a crianças carentes que integraram o elenco. Portanto meus amigos, o post abaixo não é de um padre no carnaval, é sim de um cinéfilo sincero cuja opiniões refletem seu sentimento puro, e será sempre assim nesse espaço.

22 Fevereiro 2009

Oscar 2009

And the Oscar goes to...

Como já virou tradição aqui no Museu, todo ano faço um apanhado do que deve ser a festa do Oscar. Hoje, sem a transmissão dos canais abertos, teremos uma premiação mudada, além do apresentador, o australiano Hugh Jackman, a academia resolveu fazer alterações, o que desagradou o principal concorrente ao cada vez menos interessante, oscar de canção original, Peter Gabriel, que achou pouco tempo para apresentar sua obra.

Esse ano talvez seja o mais previsível de todos (sei que vou receber bordoadas por isso), O Curioso Caso de Benjamim Button (2008) é o Titanic (1997) da vez, nomeado para 11 categorias, é bom o gênio David Fincher preparar seu discurso de entrada no hall dos grandes nomes de hollywood, até porque fora dos EUA ele já entrou, e quem conhece um pouco de sua filmografia sabe que ele merece, mas Benjamim Button é muito mais que um simples agradecimento, é um vinho raro de uma safra escassa. Apesar do Oscar premiar produções a curto prazo, a película de Fincher agrega todos os tempos, a curto prazo é uma obra-prima, e a longo-prazo será um clássico irretocável.

Claro que temos os exemplares do ano, aqueles de sabores a curto-prazo, O Leitor (2008), mais um filme sobre o holocausto, e a atração juvenil com uma bela história de amor de fundo, bem fundo, Slumdog Millionaire (2008). São produções que no próximo ano irão se avolumar nas cestas de promoções dos grandes magazines. A médio-prazo temos duas produções de rara inteligência do cinemão norte-americano, a saga de Milk (2008), que tem tudo a ver com o atual momento político estadunidense, e Frost/Nixon (2008), que não deixa o povo esquecer do passado.

Porém temos também os injustiçados, com que nenhuma festa do Oscar pode se furtar a ter, o esquecimento de O Lutador (2008) revela essa face imediatista do prêmio, Gran Torino (2008) ainda mostra resquícios de saturação de um mesmo nome, afinal Clint Eastwood já ganhou estatuetas demais. Mas esse ano foi também quando a academia resolveu manifestar-se contra o lobby dos grandes estúdios, se antigamente a Miramax inaugurou o assédio financeiro aos jornalistas, a Warner disse a que veio, com mais recursos e menos escrúpulos, tentou de todas as formas emplacar suas produções, conseguiu uma, e mesmo assim não se controlou e ontem foi divulgado um lamentável papel com a assinatura do presidente da academia e a lista dos premiados com as preferências do milionário estúdio, obviamente desmentido pela academia.

O momento mais esperado da noite, pelo menos para o Museu, será na categoria de melhor ator, a premiação marcará uma certeza antiga e um sonho adolescente, além claro de um inédito espaço na festa para um dos maiores críticos do establishment hollywoodiano.

...Mickey Rouke.

20 Fevereiro 2009

Quem quer ser um Milionário

Slumdog Millionaire – Danny Boyle – 2008 (pré-estreia nos cinemas)

Mumbai 2006.

Jamal Malik está a uma pergunta de ganhar 20 milhões de rúpias.

Como ele conseguiu?

A: Ele trapaceou
B: Ele é sortudo
C: Ele é um gênio
D: Está escrito

Não, não, o filme não tem nada a ver com o Big Brother, apesar do título nacional. Porém, outras duas coisas me incomodam em Slumdog, o filme se passa na Índia, e nós brasileiros fomos ensinados por Glória Perez que no país dos tecidos se fala português e não inglês como quer nos ensinar Boyle. E, como o filme é contado em flashbacks, poderiam arranjar um ator infantil mais parecido com o protagonista.

Tirando essas falhas, a primeira nem diria falha, chamaria de arranjos pro Oscar, O ex-independente Danny Boyle cria uma fábula sobre o amor, homenageando Bollywood, a maior indústria de cinema do mundo. Para isso ele escala a indiana Loveleen Tandan para co-dirigir a película com ele.

A fábula dos adolescentes Jamal Malik (Dev Patel) e Latika (Freida Pinto) é caricata, divertida e forçosamente dramática. O amor impossível sob o pano do submundo reforça a necessidade da língua original. A partir do momento que a película nos pergunta como Jamal conseguiu se tornar um milionário, a resposta, apesar de fabulosa e piegas, se torna o principal mote do filme, quando na verdade o que interessava é a finalidade daquele dinheiro.

Slumdog Millionaire é uma história de amor indiana, com a cultura daquela sociedade. É uma bela e romântica fábula baseada na novela Q & A de Vikas Swarup, e transportada para os cinemas pelas mãos de Simon Beaufoy. É uma belíssima história de amor que merecia mais cuidado técnico.

19 Fevereiro 2009

Frost/Nixon

Frost/Nixon – Ron Howard – 2008 (Cinemas)

(Atenção, silêncio no estúdio)
- Você teve uma noite agradável ontem?
- Sim, obrigado!


Em 1977, uma entrevista viria a transformar uma sociedade. Este evento atraiu a atenção do dramaturgo Peter Morgan, que transformou-o numa peça teatral em Londres, com Michael Sheen e Frank Langella como protagonistas, e dirigida por Michael Grandage em 2006 (foto acima). Morgan centralizou a trama no embate psicológico entre entrevistado e entrevistador, criando um filme com tensão continua – diferente do fato real cuja tensão só se formou mesmo no último dia de entrevista.

O maior mérito de Ron Howard, que dirige a versão cinematográfica da peça, com os mesmos protagonistas, foi a de transferir a tensão criada e comentada dos palcos teatrais londrinos, para o cinemão hollywoodiano, do qual ele talvez seja um dos maiores representantes, ao lado do fundador Steven Spielberg.

Frost/Nixon tem na relação do playboy-almofadinha-entrevistador, o britânico David Frost (Sheen), com o boçal-machista-entrevistado, o ex-presidente watergate Richard Nixon (Langella), seu maior trunfo. Enquanto o ex-todo poderoso da casa branca subestima o talento do rotulado show-man, Frost superestima a frieza e a franqueza do ex-presidente.

O dialogo que ilustra esse post, e por si só, já merecia estar no hall ai do lado dos melhores do cinema, revela muito um pouco desse lado. Frost, um lord inglês, vê aquela cotidiana pergunta como algo simpático para quebrar o gelo e relaxar um pouco a tensão, já Nixon, espera essa reação do britânico, para de supetão mandar o golpe final e começar a entrevista.

- Você fornicou?
(3, 2, 1...gravando!)

17 Fevereiro 2009

Milk

Milk – Gus Van Sant – 2008 (Cinemas)

Meu nome é Harvey Milk e estou aqui para recrutá-los.

Gus Van Sant se tornou uma espécie de Spike Lee dos gays. Não teria outro nome mais indicado para dirigir a verdadeira história de Harvey Milk, um ativista gay que se torna o primeiro homossexual assumido a ter um cargo eletivo nos EUA. Através do roteiro do jovem Dustin Lance Black, da comentada série da HBO, Big Love (2006), Vant Sant reconstrói a revolução sexual na cidade de São Francisco da década de 70 no epicentro do distrito de Castro, e da loja homônima de equipamento de fotografias pertencente a Milk.

A interpretação de Sean Penn é digna de aplausos, como não deveria deixar de ser, mas o principal trunfo da película são os coadjuvantes, no melhor elenco do ano disparado. Josh Brolin e James Franco são perfeitos em seus papéis, enquanto que Diego Luna e Emile Hirsch mantêm o altíssimo nível imposto por Penn. Só acho que Sean Penn tem em mãos uma personagem riquíssima, onde não desafia seu reconhecido talento.

Devo comentar também sobre a fotografia do filme, mais uma vez Harris Savides entrega um trabalho primoroso, a exemplo de Zodíaco (2007). Não foi a toa que sua capacidade técnica chamou a atenção de Martin Scorsese e Woody Allen.

Milk não recorre a sentimentalismos ou pieguices, é direto e autêntico, muitas vezes recorrendo às próprias encenações da vida real, que choca muito mais do que a melhor interpretação artística. É uma película que cai como uma luva ao atual momento político norte-americano, que mostra ao mundo que, apesar das barbaridades cometidas, são pioneiros em lutas contra o preconceito, enquanto outras nações preferem o tapete como a melhor saída.

16 Fevereiro 2009

Parábola do Mês

Uma mulher estava fazendo fofoca com uma amiga sobre um homem que ela mal conhecia. Naquela noite ela teve um sonho. Uma grande mão apareceu sobre ela e a apontou para baixo. Ela foi imediatamente apreendida com um esmagador sentimento de culpa. No dia seguinte ela foi para a confissão. Ela falou com o velho padre, Padre O´Rourke, e ela contou a coisa toda.
“Fofoca é um pecado?”
Perguntou ao velho.
“Foi à mão de Deus Todo Poderoso apontando um dedo em mim? Devo ficar pedindo a sua absolvição? Padre, me diga, eu fiz algo errado?”
“Sim!”
Padre O´Rourke responde para ela.
“Sim, sua ignorante feminina que eleva o mal. Tem feito falso testemunho contra seu vizinho! Tem jogado rápido e solto com a sua reputação, e deve se sentir duramente envergonhada!”
Então a mulher disse que lamentava e pediu perdão.
“Não tão rápido!” Disse o Padre O´Rourke.
“Eu quero que vá para casa, pegue um travesseiro e leve-o até seu telhado, corte-o abrindo-o com uma faca, e volte aqui!”
Então a mulher foi para casa, pegou um travesseiro de cima da cama, uma faca da gaveta, subiu a escada de incêndio até o telhado, e esfaqueou o travesseiro. Então ela voltou para o velho Padre da paróquia como a havia instruído.
“Você rasgou o travesseiro com a faca?” Perguntou ele.
“Sim Padre.”
“E qual foi o resultado?”
“Plumas”, disse ela.
“Plumas” ele repetiu.
“Plumas em todos os lugares Padre”.
“Agora eu quero que volte e reúna todas, até as últimas plumas que voou para fora com o vento!”
“Bem”, disse ela, “não pode ser feito. Eu não sei aonde elas foram. O vento levou-as para todos os lados.”
“E isso”, disse o Padre O´Rourke, “é fofoca!”

* Extraída do filme Dúvida (2008) de John Patrick Shanley, e interpretada por Philip Seymour Hoffman. Disponível nos cinemas.

13 Fevereiro 2009

O Lutador

The Wrestler – Darren Aronofsky – 2008 (Cinemas)

Você poderá notar, a partir do primeiro frame após os créditos iniciais, que uma personagem fica fora de foco e cortada na tela, enquanto que Mickey Rourke é focalizado e centralizado com cuidado. É a deixa de Aronofsky para entregar seu filme ao extraordinário ator. O Lutador é Mickey Rourke!

A saga de Randy ‘The Ram’ Robinson é contada em 1h e 55m, e para isso o cineasta não perde tempo, durante os créditos já ficamos sabendo da decadência da luta-livre, e quando voltamos ao presente (20 anos depois) já se vê Randy (sobre) vivendo de espetáculos da luta em locais para poucos fãs.

Imagino o que se dizia em 80 a época do lançamento de Touro Indomável (1980). Não tenho dúvidas que O Lutador entrará para o hall das obras-primas, assim como não tinha dúvidas que Mickey Rourke é um dos maiores atores do cinema. O filme é tão Rourke que já ouço suas palavras de agradecimento na festa do Oscar, são as últimas linhas de sua fala em O Lutador.

12 Fevereiro 2009

Mickey Rourke

Mickey Rourke – Philippe Durant – 1991 (Livro)

Sei que os meus filmes são apreciados na Europa, e sobretudo na França. Mas sou americano e, nesse país, tenho a sensação de ser ao mesmo tempo incompreendido e indesejado. Penso que o público e, principalmente, os profissionais só sabem apreciar tolices do tipo Uma Cilada para Roger Rabbit ou E.T. O Extraterrestre. É revoltante! Desde que me tornei Mickey Rourke, um ator popular e respeitado, perdi infelizmente o respeito pela minha profissão o que, para mim, é muito grave’. Mickey Rourke.

Em 1990, Philip Andrew Rourke Jr. era o cara. Tinha reconhecimento profissional e financeiro, era um dos galãs de Hollywood, e sua vida particular era perfeita. Foi nessa atmosfera que ele concedeu uma série de entrevistas ao jornalista francês Philippe Durant, que já havia feito a biografia de astros do quilate de Jean Paul Belmondo, Steve McQueen e Jack Nicholson, e que escreveu no preâmbulo: ‘Não, decididamente Mickey Rourke não era da mesma fibra que os outros. Parecia não ter nada a perder e afirmar-se preparado a sacrificar tudo para permanecer fiel às suas próprias idéias’.

Abandonado pelo pai, de uma família pobre de Nova Iorque, Mickey aprendeu a se virar sozinho na rua, foi o boxe sua primeira chance de ser alguém: ‘O boxe é um truque verdadeiro. É um contra um. Não existem terceiros nesse jogo, ninguém manipulando’. Mas a vida lhe ensinou o contrário e, lutando contra um adversário mais forte que nunca deveria ter lutado, Mickey foi obrigado a abandonar o esporte a conselho médico. Foi então que se sucederam empregos; vendedor, faxineiro, e lavador de pratos, até ir para Miami trabalhar como salva-vidas e reencontrar um velho colega que procurava alguém para interpretar um pequeno papel numa peça de Jean Genet. Pronto, Rourke havia sido mordido.

De volta a NY, pediu dinheiro emprestado a irmã e se instalou num hotel imundo em Greenwich Village, bairro onde se encontram artistas de todos os gêneros. Mas seu sonho mesmo era ingressar na agora famosa Actor’s Studio, fundada em 1947 por Lee Strasberg e Elia Kazan, onde se aplicava o método de Constantin Stanislavski. Acotovelando-se a porta da escola ele conseguiu, foi admitido. Nos corredores, Rourke cruzava por vezes com Lee Strasberg ‘Que homem!’.

Philippe Durant afirma que Mickey Rourke é uma pessoa cristalina, de sensibilidade apurada. E como todas as pessoas transparentes, ele é um rebelde, não suporta os subterfúgios, e as traições.

Mickey Rourke estreou, profissionalmente, com pequenos papéis na Broadway. Depois resolveu tentar a costa californiana e os papéis na televisão, em 1978 fez A Cidade do Medo, um telefilme que não fez sucesso, mas chamou a atenção de Steven Spielberg que preparava um filme maluco chamado 1941, Uma Guerra Muito Louca (1979). O filme foi um fracasso retumbante e quase arruinou a vida de Spielberg, só Rourke conseguiu alguma coisa, foi a sua carta para participar de outra bomba, agora maior, O Portal do Paraíso (1980), num papel secundário. Sua participação que já era mínima foi reduzida ainda mais com os cortes no filme que tinha 5 horas de duração.

Começando com nomes de pesos do cinema norte-americano, mas em seus fracassos, Mickey Rourke sentiu o baque de Hollywood. Voltou a Miami e, revendo os amigos na mesma situação, decidiu entrar no jogo pesado da indústria cinematográfica. Foi quando Lawrence Kasdan o convida para um pequeno papel em Corpos Ardentes (1981), seu pequeno papel rouba o filme, apesar das brigas com o diretor.

No mesmo ano, o estreante Barry Levinson o escala para Quando Jovens se Tornam Adultos (1982) juntamente a Steve Gutemberg, Daniel Stern e Kevin Bacon. O filme se torna cult e a crítica se rasga em elogios ao novato. Veio então Eureka (1983), um ótimo filme que foi esquecido pela imprensa, e o convite do nome do momento para um papel que lhe mudaria para sempre, O Selvagem da Motocicleta (1983).

Além do convite do próprio Coppola, no set ficou evidente a confiança do cineasta no futuro astro “Francis não me falou do aspecto psicológico da personagem, nem me deu indicações cênicas, o que me incutiu bastante confiança. Deixou que tomasse as minhas próprias opções”. O titulo original do filme é uma curiosa parábola. Rumble fish é o nome de um peixe (Beta), quando se coloca outro num aquário eles tentam se matar. Então se colocar ele de frente a um espelho, atacará o reflexo até seu crânio se esmigalhar.

O Selvagem da Motocicleta foi o início do fim. Cansado das promoções e viagens e a obrigação de dar autógrafos e atender jornalistas ignorantes, Mickey estourou. Passou a falar o que vinha na cabeça e bater em tudo e todos.

Durante a turnê de lançamento de Francesco (1989) sua melhor interpretação da carreira, que foi comercializada pela imprensa e pelos festivais, Rourke passou dos limites, disse que contribuíra financeiramente para o I.R.A, causando alvoroço na realeza britânica que até cogitou lhe proibir de pisar os pés naquele país. Obrigado a se retratar, Mickey Rourke disse que o dinheiro tinha sido destinado a crianças carentes da Irlanda.

Depois disso, passou a se envolver com filmes menos comerciais, e a considerar sua volta ao boxe; se desfigurou-se, foi a falência, se envolveu com todos os tipos de gente e, por três vezes tentou se reerguer, em O Homem que Fazia Chover (1997) com seu padrinho Coppola, A Promessa (2001) do amigo Sean Penn e Sin City (2005) do também amigo Robert Rodriguez.

Comprei esse livro há 17 anos atrás (para comprar agora só em sebos), quando achava Jack Nicholson e Mickey Rourke os melhores atores do cinema mundial, assisti a todos os filmes do Rourke, de sua fase áurea a sua fase marginal, sempre torcendo para seu comeback. Não resta dúvidas de que Hollywood se tornou melhor com sua presença novamente, mas não podemos esquecer que ele não mudou, ele apenas entrou no jogo.
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O Lutador (2008) estréia amanhã nos melhores cinemas do país.

11 Fevereiro 2009

Música: The Wrestler

Bruce Springsteen e Mickey Rourke se conheceram nos anos 80 no famoso Stone Pony. Eles se tornaram amigos e companheiros de estrada atravessando os EUA nas suas motos entre os anos de 1989 e 1990 quando Springsteen morava em LA.

Nessa época, Rourke era dono de um clube de música ao vivo chamado Rubber Club, e Bruce tocava lá de vez em quando. De acordo com o cineasta Darren Aronofsky, Springsteen é um grande fã de Mickey Rourke, mas não tinham contato ultimamente. Rourke mandou uma carta a Bruce com a cópia do roteiro do filme. Em maio de 2008, Springsteen chamou ele no meio da noite e contou que estava no meio de uma turnê pela Europa, e disse: “Não sei se serei capaz de fazer isso, mas se puder, eu tentarei alguma coisa”. The Wrestler é o nome do ‘alguma coisa’, e já está na lista das 10 melhores canções produzidas para a sétima arte. Tell me friend can you ask for anything more! Ouça aqui e leia a letra abaixo.

The Wrestler

Bruce Springsteen

Have you ever seen a one trick pony in the field so happy and free
If you've ever seen a one trick pony then you've seen me
Have you ever seen a one legged dog makin' his way down the street
If you've ever seen a one legged dog then you've seen me

(Then you've seen me) I come and stand at every door
(Then you've seen me) I always leave with less than I had before
(Then you've seen me) bet I can make you smile when the blood it hits the floor
Tell me friend can you ask for anything more
Tell me can you ask for anything more

Have you ever seen a scarecrow filled with nothing but dust and weeds
If you've ever seen that scarecrow then you've seen me
Have you ever seen a one armed man punchin' at nothing but the breeze
If you've ever seen a one armed man then you've seen me

(Then you've seen me) I come and stand at every door
(Then you've seen me) I always leave with less than I had before
(Then you've seen me) bet I can make you smile when the blood it hits the floor
Tell me friend can you ask for anything more
Tell me can you ask for anything more

These things that have comforted me I drive away (anything more)
This place that is my home I cannot stay (anything more)
My only faith is in the broken bones and bruises I display

Have you ever seen a one legged man tryin' to dance his way free
If you've ever seen a one legged man then you've seen me
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O Lutador (2008) estréia nessa sexta nos melhores cinemas do país.

09 Fevereiro 2009

Diálogos

Escrito por Robert D. Siegel – O Lutador – EUA (2008)

Começo hoje, até sexta, uma avant-première em posts de The Wrestler, que estréia dia 13/02 nos melhores cinemas do país. Lembro que os diálogos dessa seção foram retirados dos roteiros originais, portanto, sujeito as alterações devido à improvisação dos atores.

MÚSICA: DEF LEPPARD - “POUR SOME SUGAR ON ME
Randy escuta o som vindo da jukebox.
RANDY (CONTINUANDO)
Puts, é isso ai.
Ele se levanta, procurando a mão de Cassidy. Ela não dá.
RANDY (CONTI.)
Vamos. Vamos dançar.
CASSIDY
Onde?
RANDY
Aqui mesmo.
CASSIDY
Aqui não é lugar para dançar.
RANDY
E daí? É a porra do Def Lep!
CASSIDY (RINDO)
Minha dança não é essa.
RANDY
Tudo bem. Então danço para você.
Randy começa a dançar de frente para Cassidy, sentada na cadeira do bar. Ela ri.
CASSIDY
Isso é uma lapdance (dança do colo) que estou ganhando?
Randy dança se insinuando, seduzindo.
RANDY
Apenas assista e curta.
Ele vira e mexe o traseiro para ela. Ele passa as mãos pelos lados do corpo. Ele joga os longos cabelos pelos ombros. Ela ri, charmosa e vermelha. Ele a encara nos olhos intensamente.
RANDY (CONTI.)
A lapdance se tornou a ‘lapdancei’
Cassidy ri. Ele continua dançando, totalmente desembaraçado.
CASSIDY
Acho que você pode conseguir uns trocados.
A música entra no refrão. Randy canta junto.
RANDY
Take a bottle, shake it up/ Break
the bubble, break it u-up...
(chorus)
Pour some sugar on me! In the name
of love!
Cassidy, também não resisti à chamada de Lep e se junta.
CASSIDY E RANDY
Pour some sugar on me! C'mon fire
me up!

(apontando um para o outro)
Pour your sugar on me! I can't get
enough...

(olhos nos olhos)
I'm hot, sticky sweet/ From my head
to my feet yeah...

Agora a canção entra nos acordes da guitarra. Randy senta-se novamente, saboreando seu cabelo estilo metaleiro.
RANDY
Eles não fazem mais como costumavam fazer.
CASSIDY
Os anos 80 foram da porra.
RANDY
Def Lep, Gun´s and Roses...
CASSIDY
The Mötley Crüe...
RANDY
Ai vem o viadinho do Cobain e arruína com tudo.
CASSIDY
Como se tivesse problema em se divertir.
RANDY
Aquele idiota. ‘Ooh, olhe para mim! Eu uso flanelas! Estou deprimido!’
CASSIDY
Eu sou de Seattle! Eu gosto de chuva!
RANDY
Olhe, odiei a porra dos anos 90.

Pôster da Semana

A operária Katie (Alexandra Lamy) vive seu cotidiano regular com a filha pequena depois do abandono do marido. Na fábrica em que trabalha, conhece o simpático espanhol Paco (Sergi López) e passam a viver juntos até que ela engravida e a chegada do bebê Ricky desestrutura o casal. Paco vai embora quando a mulher o acusa de maltratar o bebê, que aparece com machucados no corpo. Mas não se trata de uma marca comum de maltratos. As marcas, na verdade, são sinais de asas que começam a nascer nas costas da criança. O filme é descrito como realismo fantástico, com um argumento um tanto arriscado, mas o diretor Ozón trata essa estranheza com delicadeza e conquista a platéia. Como François Ozón é um dos membros da Sala Vip do Museu, não poderíamos deixar de fora esse lindíssimo pôster, que deverá levar vários ignorantes as salas de cinema esperando ver outra coisa.

06 Fevereiro 2009

O Leitor

The Reader – Stephen Daldry – 2008 (Cinemas)

A nudez de Kate Winslet em O Leitor impressiona. Não pelo lado erótico, e também não pela polêmica dela estar ao lado de um adolescente, mas sim pela entrega de corpo e alma dessa excelente atriz a personagem Hanna Schmitz. E essa entrega é que faz do filme um dos belos trabalhos do ano.

Baseado na morna publicação do alemão Bernhard Schlink, e transportado para uma época em que os alemães falavam inglês, o cineasta Stephen Daldry, cujo currículo só traz filmes medianos; Billy Elliot (2000) e As Horas (2002), e é um queridinho da academia, filma com vigor, mas a história em alguns momentos não ajuda.

O adolescente Michael Berg (David Kross) passa mal na rua e é ajudado por Hanna Schmitz, ao voltar para agradecer os dois começam um romance regado a sexo e leituras de clássicos literários trazidos e lidos por Michael. Hanna, apesar de gostar do garoto, é sempre fria e fechada, mas as leituras de Michael parecem lhe trazer a vida, assim como as relações sexuais, já o adolescente se apaixona perdidamente por aquela mulher que lhe ensina o sexo. A segunda parte da película traz o adulto Michael, interpretado por Ralph Fiennes, que encarna um homem amargurado e silencioso.

O Leitor é burocrático em sua adaptação, enquanto seu concorrente ao Oscar, o agora clássico, O Curioso Caso de Benjamim Button (2008) traz uma robustez em relação ao conto que lhe serviu de molde, o roteirista David Hare, do bom Perdas e Danos (1992) resolveu ficar enquadrado dentro dos limites do autor do livro. Por isso o filme peca pela adaptação ipsis literis do romance.

04 Fevereiro 2009

Pôster da Semana

O cartaz é sensacional. Adorei, e espero demais desse filme, além da direção sempre ótima de Michael Mann, de Collateral (2004), o filme tem Johnny Depp, Christian Bale, Marion Cotillard, Giovanni Ribisi, e Stephen Dorff.

Segundo o Omelete, a história é uma adaptação do livro de não-ficção Public Enemies: America's Greatest Crime Wave and the Birth of the FBI, 1933-34, de Brian Burrough, sobre o período imediatamente posterior à quebra da Bolsa de Nova York em 1929. Bale vive Melvin Purvis, o lendário agente do FBI que lidera a caçada humana a John Dillinger (Depp) e seus vários comparsas.

O filme sobre os anos da Depressão está sediado na Universal Pictures e estréia ainda não foi agendada.

03 Fevereiro 2009

Um Dia de Cão

Dog Day Afternoon – Sidney Lumet – 1975 (DVD)

ATTICA! ATTICA! ATTICA! ATTICA!*

Em agosto de 1972, ele roubou um banco em Nova Iorque. 250 policiais, o F.B.I., 8 reféns, e 2.000 curiosos jamais vão esquecer porque ele fez isso. (Frase escrita no pôster do filme). Baseado na história real de John Wojtowicz, que tentou roubar o Chase Bank de Manhattan juntamente com Salvatore Naturille e fez reféns nove empregados do banco por mais de 14 horas, Um Dia de Cão é um representante legitimo do movimento new Hollywood. Possui a quebra do maniqueísmo reinante da era de ouro, trata de um assunto polêmico sem subterfúgios, e teve total liberdade artística.

Al Pacino brilha na pele de Sonny Wortzik, o assaltante que tem um problema nada convencional para resolver, parece ter sido feio sob encomenda para o ator, que tinha a oportunidade de provar seu talento após os dois primeiros The Godfather. Vale o mesmo para John Cazale, que infelizmente não teve tempo de vida para aproveitar.

Sidney Lumet dirige com maestria, utilizando recursos cinematográficos para aparentar um documentário, o cineasta consegue trazer o drama de Sonny às nossas emoções. E faz da cena em que Pacino relembra Attica, um momento inesquecível na história do cinema.

* No filme, a personagem de Al Pacino, Sonny, começa a gritar “Attica! Attica!” para os policiais que cercavam o banco. É uma lembrança da má sucedida invasão policial ao motim dos detentos da prisão de Attica, em NY, que resultou na morte de 39 pessoas incluindo presos, carcereiros e funcionários. É uma cena clássica e uma palavra que entrou para a das inesquecíveis do cinema.

02 Fevereiro 2009

New Hollywood

Reza a lenda que o cineasta Michael Cimino, ao terminar a segunda edição, com vários cortes, de Portal do Paraíso (1980), e vê que o filme não tinha mudado muito do original que foi arrasado pela crítica e pelo público, e por isso mesmo, voltado à sala de edição, liga para Dennis Hopper, diretor do clássico Sem Destino (1969) e lhe diz: Sepultei o que você começou Dennis.

Obviamente que essa história não passa de uma lenda, mas nem por isso é mentira. Entre os onze anos passados do clássico de Hopper ao fracasso comercial de Cimino, a história do cinema norte-americano tinha mudado integralmente. O movimento batizado new Hollywood foi o começo do que vemos hoje, o cinema dividido entre o comercial e o artístico. O blockbuster versus o filme de autor, passando por aqueles que conseguiram agregar, ou se dividir, entre ser comercial e ou artístico.

Nos anos 50 e comecinho dos anos 60, Hollywood era dominada por grandes épicos e musicais grandiosos, foi à fase de ouro do cinema estadunidense, mas o final dos anos 60 mostrou que o modelo tinha se esgotado e o público diminuíra consideravelmente. Era a época que o cinema francês dava as cartas, e filmes com apelo mais real, onde a nudez e o sexo não fossem apenas sugeridos, e tratasse de problemas do cotidiano das pessoas, atraia o público aos cinemas. Rapidamente os grandes estúdios, que estavam com os cofres cheios, entenderam que deveriam seguir esse caminho.

Foi quando a Warner deu sinal verde para Bonnie e Clyde (1967), que tentou chamar François Truffaut e Jean-Luc Godard para dirigir, naquela velha mania norte-americana de importar cultura. Como a contratação não deu certo, Arthur Penn foi escalado e o filme foi um sucesso mundial. Estava aberta a caixa registradora.


'Portal do Paraíso (1980) representou a morte do total controle artístico do cineasta sob a sua obra'.


Rapidamente os outros grandes estúdios de Hollywood abriram os olhos gananciosos e escalaram uma turma jovem vinda da Universidade da Califórnia – UCLA para fazerem seu dinheiro. Vieram A Primeira Noite de um Homem (1967), Perdidos na Noite (1969), Conexão França (1971) Sob o Domínio do Medo (1971), e o reconhecimento da academia.

A década de 70 viria reafirmar a new Hollywood, uma lista de peso de grandes cineastas: Michael Cimino, William Friedkin, Sidney Lumet, Sam Peckinpah, John Cassavetes, Paul Schrader e Mike Nichols, alguns deles gênios: Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Steven Spielberg, George Lucas, Brian De Palma, Woody Allen e Roman Polanski, se juntariam a uma das melhores safras de atores do cinema mundial: Al Pacino, Robert De Niro, Jack Nicholson, Warren Beatty, Elle Burstyn, John Cazale, Meryl Streep, Robert Redford, Barbra Streisand, Gene Hackman, Jill Clayburgh, Julie Christie, Faye Dunaway, Robert Duvall, Dustin Hoffman, Dennis Hopper, Diane Keaton, Harvey Keitel, Ryan O´Neal, Christopher Walkin e Mickey Rourke, e o método Lee Strasberg de interpretar.

Foi quando no meio da década, um jovem de 28 anos chamado Steven Spielberg lança Tubarão (1975). O sucesso comercial do filme é surpreendente, torna-se a primeira película a ultrapassar a marca de 100 milhões de dólares de bilheteria e inaugura uma nova fase no cinema norte-americano, a dos blockbusters.

O final da década de 70 e inicio dos anos 80 seria o equilíbrio entre as obras da new Hollywood e a fúria capitalista dos grandes estúdios pelos blockbusters. Até chegarmos ao fatídico dia do telefonema de Cimino a Hopper. Portal do Paraíso (1980) representou a morte do total controle artístico do cineasta sob a sua obra. Agora nada mais chegava as telas sem uma dura pressão e intervenção dos executivos, sempre visando o lucro.
É Incrível como o próprio talento do homem é capaz de sabotar suas idéias.