12 fevereiro 2009

Mickey Rourke

Mickey Rourke – Philippe Durant – 1991 (Livro)

Sei que os meus filmes são apreciados na Europa, e sobretudo na França. Mas sou americano e, nesse país, tenho a sensação de ser ao mesmo tempo incompreendido e indesejado. Penso que o público e, principalmente, os profissionais só sabem apreciar tolices do tipo Uma Cilada para Roger Rabbit ou E.T. O Extraterrestre. É revoltante! Desde que me tornei Mickey Rourke, um ator popular e respeitado, perdi infelizmente o respeito pela minha profissão o que, para mim, é muito grave’. Mickey Rourke.

Em 1990, Philip Andrew Rourke Jr. era o cara. Tinha reconhecimento profissional e financeiro, era um dos galãs de Hollywood, e sua vida particular era perfeita. Foi nessa atmosfera que ele concedeu uma série de entrevistas ao jornalista francês Philippe Durant, que já havia feito a biografia de astros do quilate de Jean Paul Belmondo, Steve McQueen e Jack Nicholson, e que escreveu no preâmbulo: ‘Não, decididamente Mickey Rourke não era da mesma fibra que os outros. Parecia não ter nada a perder e afirmar-se preparado a sacrificar tudo para permanecer fiel às suas próprias idéias’.

Abandonado pelo pai, de uma família pobre de Nova Iorque, Mickey aprendeu a se virar sozinho na rua, foi o boxe sua primeira chance de ser alguém: ‘O boxe é um truque verdadeiro. É um contra um. Não existem terceiros nesse jogo, ninguém manipulando’. Mas a vida lhe ensinou o contrário e, lutando contra um adversário mais forte que nunca deveria ter lutado, Mickey foi obrigado a abandonar o esporte a conselho médico. Foi então que se sucederam empregos; vendedor, faxineiro, e lavador de pratos, até ir para Miami trabalhar como salva-vidas e reencontrar um velho colega que procurava alguém para interpretar um pequeno papel numa peça de Jean Genet. Pronto, Rourke havia sido mordido.

De volta a NY, pediu dinheiro emprestado a irmã e se instalou num hotel imundo em Greenwich Village, bairro onde se encontram artistas de todos os gêneros. Mas seu sonho mesmo era ingressar na agora famosa Actor’s Studio, fundada em 1947 por Lee Strasberg e Elia Kazan, onde se aplicava o método de Constantin Stanislavski. Acotovelando-se a porta da escola ele conseguiu, foi admitido. Nos corredores, Rourke cruzava por vezes com Lee Strasberg ‘Que homem!’.

Philippe Durant afirma que Mickey Rourke é uma pessoa cristalina, de sensibilidade apurada. E como todas as pessoas transparentes, ele é um rebelde, não suporta os subterfúgios, e as traições.

Mickey Rourke estreou, profissionalmente, com pequenos papéis na Broadway. Depois resolveu tentar a costa californiana e os papéis na televisão, em 1978 fez A Cidade do Medo, um telefilme que não fez sucesso, mas chamou a atenção de Steven Spielberg que preparava um filme maluco chamado 1941, Uma Guerra Muito Louca (1979). O filme foi um fracasso retumbante e quase arruinou a vida de Spielberg, só Rourke conseguiu alguma coisa, foi a sua carta para participar de outra bomba, agora maior, O Portal do Paraíso (1980), num papel secundário. Sua participação que já era mínima foi reduzida ainda mais com os cortes no filme que tinha 5 horas de duração.

Começando com nomes de pesos do cinema norte-americano, mas em seus fracassos, Mickey Rourke sentiu o baque de Hollywood. Voltou a Miami e, revendo os amigos na mesma situação, decidiu entrar no jogo pesado da indústria cinematográfica. Foi quando Lawrence Kasdan o convida para um pequeno papel em Corpos Ardentes (1981), seu pequeno papel rouba o filme, apesar das brigas com o diretor.

No mesmo ano, o estreante Barry Levinson o escala para Quando Jovens se Tornam Adultos (1982) juntamente a Steve Gutemberg, Daniel Stern e Kevin Bacon. O filme se torna cult e a crítica se rasga em elogios ao novato. Veio então Eureka (1983), um ótimo filme que foi esquecido pela imprensa, e o convite do nome do momento para um papel que lhe mudaria para sempre, O Selvagem da Motocicleta (1983).

Além do convite do próprio Coppola, no set ficou evidente a confiança do cineasta no futuro astro “Francis não me falou do aspecto psicológico da personagem, nem me deu indicações cênicas, o que me incutiu bastante confiança. Deixou que tomasse as minhas próprias opções”. O titulo original do filme é uma curiosa parábola. Rumble fish é o nome de um peixe (Beta), quando se coloca outro num aquário eles tentam se matar. Então se colocar ele de frente a um espelho, atacará o reflexo até seu crânio se esmigalhar.

O Selvagem da Motocicleta foi o início do fim. Cansado das promoções e viagens e a obrigação de dar autógrafos e atender jornalistas ignorantes, Mickey estourou. Passou a falar o que vinha na cabeça e bater em tudo e todos.

Durante a turnê de lançamento de Francesco (1989) sua melhor interpretação da carreira, que foi comercializada pela imprensa e pelos festivais, Rourke passou dos limites, disse que contribuíra financeiramente para o I.R.A, causando alvoroço na realeza britânica que até cogitou lhe proibir de pisar os pés naquele país. Obrigado a se retratar, Mickey Rourke disse que o dinheiro tinha sido destinado a crianças carentes da Irlanda.

Depois disso, passou a se envolver com filmes menos comerciais, e a considerar sua volta ao boxe; se desfigurou-se, foi a falência, se envolveu com todos os tipos de gente e, por três vezes tentou se reerguer, em O Homem que Fazia Chover (1997) com seu padrinho Coppola, A Promessa (2001) do amigo Sean Penn e Sin City (2005) do também amigo Robert Rodriguez.

Comprei esse livro há 17 anos atrás (para comprar agora só em sebos), quando achava Jack Nicholson e Mickey Rourke os melhores atores do cinema mundial, assisti a todos os filmes do Rourke, de sua fase áurea a sua fase marginal, sempre torcendo para seu comeback. Não resta dúvidas de que Hollywood se tornou melhor com sua presença novamente, mas não podemos esquecer que ele não mudou, ele apenas entrou no jogo.
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O Lutador (2008) estréia amanhã nos melhores cinemas do país.

9 comentários:

Olho de Lince disse...

EXCELENTE e elucidativo post. Rourke é uma actor e uma personalidade extaordinária e "The Westler" é-o também muito por causa da sua interpretação.

Museu do Cinema disse...

Obrigado Olho de Lince, realmente The Wrestler é Mickey Rourke, não tem como negar.

Kamila disse...

Pena que os cinemas de Natal não são os melhores do país. Ficaremos de fora da rota de "O Lutador"...

Quanto à história de vida do Mickey Rourke: acho fascinante e muito bonita, apesar de toda a auto-destruição dele em certo momento. É importante mencionar a capacidade dele de superar todo o mal que ele mesmo se causou. E gosto da sinceridade dele ao falar sobre tudo isso.

Romeika disse...

Cassiano, nao conhecia a biografia do Mickey Rourke, apenas q ele, meio a la Michael Jackson teve seu rosto desfigurado por plasticas.. Tb vi poucos dos seus filmes antigos, o seu texto acendeu a vontade de ve-los. Infelizmente "The Wrestler" ainda vai demorar a estrear aqui:-S

Museu do Cinema disse...

Parece que a Kamila e a Romeika não tem bons cinemas mesmo! Pena que ainda aconteça!

Romeika disse...

Cassiano, eh que a estreia do filme na Dinamarca esta marcada pra abril, junto de outros filmes como "O Leitor". Mas eh soh o filme ser liberado q estreia bonitinho na sexta.. As salas de cinema de Copenhague sao excelentes hehehe:-)

Museu do Cinema disse...

Bom, então o problema é com o agendamento, duvido que tenha melhores filmes para virem antes!

Vinícius P. disse...

Não conheço a maioria dos filmes citados, mas não duvido que sua atuação em "O Lutador" seja o melhor trabalho de sua carreira.

Cristiano disse...

Outro texto bem construido. Incluiria na filmografia duas grandes atuações do M.R.: Johnny Handsomme (seria profético ao que aconteceu com o rosto do cara?) e Coração Satânico. Dois grandes momentos...