02 fevereiro 2009

New Hollywood

Reza a lenda que o cineasta Michael Cimino, ao terminar a segunda edição, com vários cortes, de Portal do Paraíso (1980), e vê que o filme não tinha mudado muito do original que foi arrasado pela crítica e pelo público, e por isso mesmo, voltado à sala de edição, liga para Dennis Hopper, diretor do clássico Sem Destino (1969) e lhe diz: Sepultei o que você começou Dennis.

Obviamente que essa história não passa de uma lenda, mas nem por isso é mentira. Entre os onze anos passados do clássico de Hopper ao fracasso comercial de Cimino, a história do cinema norte-americano tinha mudado integralmente. O movimento batizado new Hollywood foi o começo do que vemos hoje, o cinema dividido entre o comercial e o artístico. O blockbuster versus o filme de autor, passando por aqueles que conseguiram agregar, ou se dividir, entre ser comercial e ou artístico.

Nos anos 50 e comecinho dos anos 60, Hollywood era dominada por grandes épicos e musicais grandiosos, foi à fase de ouro do cinema estadunidense, mas o final dos anos 60 mostrou que o modelo tinha se esgotado e o público diminuíra consideravelmente. Era a época que o cinema francês dava as cartas, e filmes com apelo mais real, onde a nudez e o sexo não fossem apenas sugeridos, e tratasse de problemas do cotidiano das pessoas, atraia o público aos cinemas. Rapidamente os grandes estúdios, que estavam com os cofres cheios, entenderam que deveriam seguir esse caminho.

Foi quando a Warner deu sinal verde para Bonnie e Clyde (1967), que tentou chamar François Truffaut e Jean-Luc Godard para dirigir, naquela velha mania norte-americana de importar cultura. Como a contratação não deu certo, Arthur Penn foi escalado e o filme foi um sucesso mundial. Estava aberta a caixa registradora.


'Portal do Paraíso (1980) representou a morte do total controle artístico do cineasta sob a sua obra'.


Rapidamente os outros grandes estúdios de Hollywood abriram os olhos gananciosos e escalaram uma turma jovem vinda da Universidade da Califórnia – UCLA para fazerem seu dinheiro. Vieram A Primeira Noite de um Homem (1967), Perdidos na Noite (1969), Conexão França (1971) Sob o Domínio do Medo (1971), e o reconhecimento da academia.

A década de 70 viria reafirmar a new Hollywood, uma lista de peso de grandes cineastas: Michael Cimino, William Friedkin, Sidney Lumet, Sam Peckinpah, John Cassavetes, Paul Schrader e Mike Nichols, alguns deles gênios: Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Steven Spielberg, George Lucas, Brian De Palma, Woody Allen e Roman Polanski, se juntariam a uma das melhores safras de atores do cinema mundial: Al Pacino, Robert De Niro, Jack Nicholson, Warren Beatty, Elle Burstyn, John Cazale, Meryl Streep, Robert Redford, Barbra Streisand, Gene Hackman, Jill Clayburgh, Julie Christie, Faye Dunaway, Robert Duvall, Dustin Hoffman, Dennis Hopper, Diane Keaton, Harvey Keitel, Ryan O´Neal, Christopher Walkin e Mickey Rourke, e o método Lee Strasberg de interpretar.

Foi quando no meio da década, um jovem de 28 anos chamado Steven Spielberg lança Tubarão (1975). O sucesso comercial do filme é surpreendente, torna-se a primeira película a ultrapassar a marca de 100 milhões de dólares de bilheteria e inaugura uma nova fase no cinema norte-americano, a dos blockbusters.

O final da década de 70 e inicio dos anos 80 seria o equilíbrio entre as obras da new Hollywood e a fúria capitalista dos grandes estúdios pelos blockbusters. Até chegarmos ao fatídico dia do telefonema de Cimino a Hopper. Portal do Paraíso (1980) representou a morte do total controle artístico do cineasta sob a sua obra. Agora nada mais chegava as telas sem uma dura pressão e intervenção dos executivos, sempre visando o lucro.
É Incrível como o próprio talento do homem é capaz de sabotar suas idéias.

13 comentários:

Otavio Almeida disse...

Hmm... Melhor post que vc já fez. Um pouco tendencioso, é verdade, mas muito bom. Parabéns!

Abs!

Pedro Henrique disse...

Um ótimo texto, Cassiano. Uma pequena e interessante viagem pela New Hollywood!!!

Abraço!

Denis Torres disse...

Hahaha, eu me divirto por aqui. Cassiano, eu vi Choke na mostra de SP, não tem segredo não. Bom texto mazá gremista. Abs.

Romeika disse...

Cassiano, interessante o post! Realmente a decada de 70 eh marcada por um "cinema de diretor", sem grandes pretensoes comerciais, isso sem mencionar os interpretes talentosos q brotaram nesse processo. Preciso ver mais filmes dessa epoca. E "Tubarao" foi mesmo um divisor de aguas, o pai dos blockbusters.

Kamila disse...

Este é um dos melhores posts que já li aqui. Os diretores que você cita, em seu texto, marcaram época e são sinônimos de uma época em que o cinema era mesmo uma obra de autor, do diretor.

Marcus Vinícius disse...

Texto copero. Em 70 John Carpenter começou também, com "Assalto a 13a DP" e "Halloween", apesar que só se firmou mesmo na década de 80.

22 dias para a batalha. Abraços!

Marcus Vinícius disse...

Ah, e dá um jeito de assistir Choke, ficou bom! Se quiser lhe passo os links no msn.

Kau Oliveira disse...

Cassiano, belo texto. Senti um aprto no coração com sua frase "nos anos 50 e comecinho dos anos 60, Hollywood era dominada por grandes épicos e musicais grandiosos...". SINTO SAUDADES DE FILMES NESTE ESTILO!! Hahahahahaha.

Tem selo pra vc lá no Bit!

Abraços.

Museu do Cinema disse...

Otávio, obrigado. Mas tendencioso? É melhor vc parar de ver essas porcarias que anda vendo, tá te afetando.

Obrigado Pedro.

Denis, já consegui o link por outras formas, obrigado bambi tricolor.

Romeika, pois é, mas Tubarão é sensacional.

Kamila, obrigado!

Marcus, claro que quero!

Kau, obrigado!

Denis Torres disse...

Cassiano, bambi é o seu passado. Tome cuidado que quem gosta de ver gay em todo lugar, geralmente é enrustido! Assista Milk e vc verá que o Dan White é a sua cara.

Rogerio disse...

Nossa, que belo artigo esse teu Cassiano.Que aula!!

Museu do Cinema disse...

Denis, olha ai sua cara! Só falta agora o Otávio!

Ramon disse...

Parabéns pelo texto, Cassiano!
Não havia lido. Resumão da história do melhor cinema do mundo.

Uma história interessante é a da intervenção do estúdio na edição final de Era Uma Vez na América. Os extras do DVD especial conta tudo.
Já deves saber, é claro. Mas a história se encaixa perfeitamente com o que você conta no post.

Abs!