31 Março 2009

No Sufoco

Choke – Clark Gregg – 2008 (DVD)

O que parece ser uma sala de aula nota-se rapidamente que está sendo preparada para uma reunião, mas não uma reunião comum, de pais e professores, pela inibição e olhares perdidos parece uma reunião de alcoólicos anônimos, ou doentes de câncer. É mais ou menos isso. Bom, você lembra daquela história da dona de casa que foi surpreendida pelos amigos, na noite de seu aniversário, brincando (expressão adulta) com o cachorro da família? Ou aquela história da líder de torcida mais popular da escola que foi fazer lavagem estomacal e encontraram um litro de esperma? Ou ainda aquelas mulheres que deixam as portas dos banheiros de avião destrancadas? Essas pessoas existem e se encontram mensalmente nessa reunião de viciados em sexo. Eu só não entendo o que Victor Mancini faz ali, obviamente ele sabe controlar seus impulsos sexuais, talvez sua razão de estar ali seja outra. Afinal, qual o lugar mais fácil de se conseguir sexo se não no meio de ninfomaníacas?

A cultura pop no texto de Chuck Palahniuk funciona como inserção do leitor nos seus devaneios criativos. Assim como fez com Clube da Luta (1999), Chuck situa-nos num ambiente familiar para rapidamente nos levar a uma alegoria da realidade e finalizar pontuando com uma crítica social contundente e riquíssima.

Victor Mancini é a “espinha-dorsal da América colonial”. Ele trabalha num museu vivo representando um colono para excursões escolares. Sua outra fonte de renda são seus salvadores. Pessoas que ele escolhe em restaurantes para que lhe desengasguem. “Sou como filho deles, eles passam a ter em mim o sentimento de ter me dado à vida”. Porém não vá apenas pelas aparências. Mancini é um dedicado filho, ele sustenta e visita a mãe moribunda, Ida Mancini (Anjelica Huston), num hospital psiquiátrico, apesar da mãe nem lhe reconhecer e viver falando mal do filho. Tudo bem que ele já comeu 80% das enfermeiras do local, mas dizer que ele só vai lá para isso é injustiça. Ah, as outras que fazem parte dos 20% restantes, são novas ainda.

Seu melhor amigo Denny (Brad William Henke) é viciado em masturbação. “Quem é essa gata aqui na foto”?, “É minha mãe, quando era mais nova”. “Ela era gostosa cara”. “Porra bicho, que porra é essa? Segura essa conta em vez de ficar se masturbando toda hora”.

O californiano Sam Rockwell ganhou vida em Hollywood depois de seu papel como o psicopata Wild Bill em À Espera de um Milagre (1999). Poucas vezes um ator conseguiu interpretar um assassino frio e cruel com tamanha profundidade de loucura e normalidade como Sam conseguiu. No Sufoco é seu primeiro papel importante como protagonista, e o resultado não poderia ser mais óbvio, Rockwell é do primeiríssimo time de atores norte-americanos.

O filme é dirigido e roteirizado pelo ator Clark Gregg, que faz o gerente colonial chato e zé mané do museu. Apesar de ser sua estréia, o filme não perde ritmo. Sua direção aponta para Sam Rockwell e deixa ele nos conduzir pela parábola de Palahniuk do quanto nós somos rotuladores e rotulados. Mais uma forte critica social para refletirmos, vinda de um dos maiores autores contemporâneo.

30 Março 2009

Amigos de Cinema

O que viria a ser um post, se tornou uma trilogia, começou com Cineastas e suas Musas, agora lhes deixo com a segunda parte, Amigos de Cinema. Aguardem o desfecho!
David Fincher e Brad Pitt

Se7en (1995) e Clube da Luta (1999), quer mais ainda? O Curioso Caso de Benjamim Button (2008). E ficamos por aqui.
Jean-Luc Godard e Jean-Paul Belmondo

Acossado (1960) quer mais ainda? Uma Mulher É uma Mulher (1961). Melhor ficarmos por aqui.
Martin Scorsese e Robert De Niro

Bom, melhor nem citar né? A parceria com De Niro rendeu 8 filmes, com DiCaprio 4, já contando com o novo, com Harvey Keitel, sua primeira amizade, foram 4 também, e com Joe Pesci rendeu 3.

Luchino Visconti e Alain Delon

Rocco e seus Irmãos (1960) e O Leopardo (1963). Mais do que citar é necessário reverenciá-los.
Pedro Almodóvar e Antonio Banderas

Labirinto de Paixões (1982), Matador (1986), A Lei do Desejo (1987), Mulheres a Beira de um Ataque de Nervos (1988), e Ata-me (1990). Como o cineasta adora contar histórias femininas, o lado sensível de Banderas é bastante aguçado.
Quentin Tarantino e Samuel L. Jackson

Quando soube que Kill Bill não teria um papel para ele. Samuel L. Jackson ligou para Tarantino e ordenou: Até como pianista de igreja no meio do nada, eu topo. Bad mother Fucker.
David Lynch e Kyle MacLachlan

Dizem que MacLachlan é o alter-ego de Lynch. Veludo Azul (1986) pode ter esse significado. Porém, foi mesmo com Dale Cooper na série Twin Peaks (1990) que hoje é difícil desassociar os dois.
Paul Thomas Anderson e Philip Seymour Hoffman

Todos os filmes de PTA tem: músicas que contam história, longas tomadas sem cortes, problemas de relações humanas, e Philip Seymour Hoffman. Opa, Sangue Negro (2007) não teve participação de Hoffman, será que eles brigaram? Não. Porque também não tem a participação de Luis Guzmán. Só cansou de brincar com os mesmos coleguinhas.
Frederico Fellini e Marcello Mastroiani

Fizeram seis filmes juntos: La Dolce Vita (1960), 8 ½ (1963), Roma (1972), Cidade das Mulheres (1980), Ginger e Fred (1986) e Entrevista (1987).
John Huston e Humphrey Bogart

Parceiros de festas e filmes. Era notória as brigas do cineasta com os produtores de Hollywood para escalar seu amigo. O Tesouro de Sierra Madre (1948) e O Falcão Maltês (1941), duas de suas parcerias estão nas melhores listas de melhores filmes da humanidade.

Menções: Joel e Ethan Coen e George Clooney; Cameron Crowe e Tom Cruise; Spike Lee e John Turturro; Sergio Leone e Clint Eastwood; Akira Kurosawa e Toshirô Mifune; Christophe Honoré e Louis Garrel.

25 Março 2009

Gran Torino

Gran Torino – Clint Eastwood – 2008 (Cinemas)

Silêncio na igreja lotada. O sermão do Padre é pausado e ritmado. Todos parecem prestar atenção a ele. Porém ruídos podem ser ouvidos. Crianças conversam e riem. Close no rosto de Walt Kowalski. Vá por mim, você não gostaria nunca de receber esse olhar. É o funeral de sua amada esposa, e as crianças são seus netos.

Walt é um cara bacana. Seu melhor amigo é o barbeiro, aquele filho da puta. Seus novos vizinhos são chinas, e estão poluindo o bairro todo trazendo suas parentadas. Walt tem orgulho do seu país e por isso há uma bandeira hasteada em sua casa. Ele foi combatente da guerra do Vietnã, lutou e matou por sua pátria. Walt era funcionário da Ford e com orgulho guarda em sua garagem uma relíquia, o Gran Torino 1972. Agora, apesar de tudo isso, ele guarda uma qualidade rara, talvez até em desuso hoje em dia. Walt Kowalski, guarde isso, é integro.

Em poucos minutos de filme sabemos quem é Walt. Ele é uma espécie de Dirty Harry velho e doente, cheio de filhos e netos, e agora viúvo. Só tem uma diferença entre Harry e Kowalski, enquanto o detetive lidou a vida inteira com a violência de psicopatas, o velho Walt viu pessoas normais agindo como psicopatas no inferno. Essa diferença é crucial em Gran Torino, a grandiosa despedida de Clint “Harry” “Kowalski” Eastwood da frente das câmeras.

O roteiro de Nick Schenk prima pela inteligência do espectador. Sendo o filme do cineasta com maior bilheteria, mostra que ainda há vida inteligente nas poltronas dos cinemas. Afinal, não precisamos ver uma pessoa na cadeira de rodas para saber que ela é paralítica. Schenk utiliza nossa inteligência para deixar a sensibilidade do diretor aflorar e entrega um roteiro imprevisível e originalíssimo como há muito tempo não se via por aquelas bandas. *SPOILER* Incrível como fizeram com que a personagem de Clint só dê um único tiro, ainda assim acidentalmente, durante toda a película. *SPOILER*

A música do filme, também chamada de Gran Torino, de Jamie Cullum, Clint Eastwood, seu filho Kyle Eastwood e Michael Stevens, e interpretada por Cullum, é sensacional. Ou eu estou ficando doido, ou estão nos chamando de idiotas na academia. Deixo-lhes então com Clint Eastwood, como Sergio Leone o enxergou, porque Mr. Eastwood nunca precisou gritar, bater, xingar, esmurrar ninguém. Clint Eastwood nunca precisou ser ele mesmo para ser CLINT EASTWOOD.

24 Março 2009

A Troca

Changeling – Clint Eastwood – 2008 (Cinemas)

Nunca comece uma briga, mas sempre termine com ela.

O escritor J. Michael Straczynski ficou atônito quando ouviu a história real de Christine Collins, prestes a ser destruída juntamente a outros documentos. Em 11 dias ele escreveu o roteiro baseado no calhamaço de papéis sobre o caso. O filme seria mais um daqueles que revelam injustiças inimagináveis se não fosse à presença de uma pessoa.

Clint Eastwood não tem uma grife, uma caligrafia cinematográfica que o identifique imediatamente ao projetar o primeiro frame. Para ele o que importa é a história, seus desdobramentos, e para isso ele prefere se adaptar a cada produção singularmente, não a história se adaptar a sua genialidade.

Eu discordo um pouco dessa teoria, para mim Clint tem sim uma marca, é o silêncio, ou o pouco barulho. Músico, ele sabe o poder do silêncio, da falta de ruído e principalmente de ouvirmos algo cristalino.

E assim ele nos conta a história de Christine Collins (Angelina Jolie), mãe zelosa numa Los Angeles dos anos 20, cercada de corrupção policial, que vê sua vida ruir com o sumiço do filho.

21 Março 2009

Slumdog Millionaire


Tudo que queria escrever sobre Quem quer ser um Milionário?, mas não tive competência para dizer.
Uma criança coberta de merda.

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Quem Quer Ser Um Milionário (Slumdog Millionaire, Inglaterra, 2008), filme de Danny Boyle, oferece mais uma oportunidade interessante de sentar durante duas horas e observar essa questão antiga e persistente da representação no cinema, especialmente quando tal representação vem dos ricos (os que têm a câmera) para com os pobres (os que aparecem nas imagens, sorrindo), algo muito discutido no cinema brasileiro. Ilustra as diferenças entre riqueza e pobreza como fotos de um turista gringo recém chegado de viagem e que viu o terceiro mundo como um fotogênico lixão.

No Brasil, onde realizadores de classes abastadas filmam personagens de classes pobres (Garapa, de José Padilha, é o caso mais recente, exibido em Berlim semana passada), os resultados são sempre discutíveis. Nesse filme britânico com ganas de ganhar Hollywood e o mundo, temos personagens locais nas favelas de Mumbai, na Índia, filmados por ingleses. A questão persiste dentro de um panorama ainda mais abrangente, levando em conta que o filme em questão parece ter o desejo de remixar o cinema indiano de Bollywood, maior produtor de filmes do mundo.

Desde Indiana Jones e o Templo da Perdição (1984), de Steven Spielberg, que não víamos em Technicolor tão bonito crianças indianas raquíticas transformadas em entretenimento! É incrível. Esse filme inglês parece voltar à Índia, sua antiga colônia, para atualizar o acervo de imagens do passado, sempre compostas verticalmente na relação rico/pobre, colonizador/colonizado.

Em 2009, deixa-se de lado o tom ‘British country club’ de antigamente (Passagem Para a Índia, de David Lean, para citar um exemplo) para transformar as favelas de Mumbai no cenário perfeito para uma publicidade do Red Bull, ritmada por música pop também indicada ao Oscar. Eu achei que seqüências inteiras foram pensadas para serem vistas num Nokia.

A estética aqui é a da misteriosa ‘câmera bicho’. Dependendo da cena, pode ser o ponto de vista de uma galinha, um cachorro ou de um suíno, algo visto em primeira mão em Cidade de Deus. Essa identidade visual é fortíssima, e imagino a reação de Meirelles e César Charlone, seu fotógrafo, ao ver Boyle remixar esse look com força, já reprocessado em O Jardineiro Fiel, do mesmo Meirelles (e Charlone), Homem em Chamas, de Tony Scott, e Tropa de Elite, de Padilha.

Em Quem Quer Ser Um Milionário, fica claro que o look e a rispidez calculada da câmera é a escolha visual desta década para um certo tipo de cinema que entra nos labirintos do entulho, alvenaria vernacular, fumaça e papelão com evidente alegria, nosso proverbial pinto no lixo.

A contribuição de Boyle e seu fotógrafo proficiente Anthony Dod Mantle (acurado pesquisador da imagem digital ao lado de Lars Von Trier) consiste ainda de deixar os ângulos desnivelados de maneira esquizofrênica, garantindo a atenção constante do espectador, crente de que mais alguma coisa relevante está prestes a acontecer. São deixas visuais de um cinema que grita pela sua atenção, e que parece atingir plenamente os objetivos.

Essas imagens estão a serviço de uma historinha hollywoodiana com final super feliz. Jamal (Dev Patel) é um jovem indiano, formado na escola da vida. Está prestes a vencer um prêmio milionário na versão indiana do Quem Quer Ser um Milionário? (Show do Milhão, no Brasil), onde vem acertando perguntas escorregadias, ao vivo, para toda a nação. O apresentador do programa é um escroque.

Para aumentar artificialmente a tensão, o roteiro de Simon Beaufoy (adaptado do livro Q&A, de Vikas Swarup) insere tortura com jacarés nos dedos dos pés de Jamal, ligados a uma bateria de carro, já que o apresentador vilão acredita que ele estaria roubando. “Um ‘vira lata de favela’ não seria capaz de ir tão longe no programa”, dando ao filme ambientado no terceiro mundo sua cena obrigatória de tortura.

A estrutura narrativa, semelhante à de Os Suspeitos (The Usual Suspects, 1996), nos mostra cada pergunta feita a Jamal no programa como uma deixa para que voltemos ao seu passado, as respostas inseridas na sua dura experiência de vida. E Jamal teve uma vida difícil, que o filme mostra em detalhes espetaculares da miséria. À essa altura, o espectador poderá desconfiar que alguém teve a idéia de fazer uma versão ‘super bacana’ de Pixote, de Hector Babenco.

Há uma cena absurda com o tipo de coisa que crianças faveladas indianas fazem para conseguir um autógrafo, claramente a fossa do filme em vários níveis. Jamal viu também a mãe ser morta a pauladas num conflito entre muçulmanos e hindus que queimou gente viva. Essa seqüência, rápida como um raio, obviamente, passa sem qualquer contextualização histórica ou religiosa sobre conflitos étnicos, imagino que pelo total desinteresse de Boyle e seus colaboradores no assunto.

Mais tarde, ele e o irmão, órfãos, saem do lixão para integrar um exército de pedintes mirins, onde o patrão gente ruim manda cegar algumas crianças com chumbo quente para que ganhem mais dinheiro nas ruas. Latika, sua amiguinha de infância, vira prostituta nos bordéis de Mumbai e, mais tarde, ele vê seu irmão Salim virar Zé Pequeno junto ao crime. Latika, claro, será transformada numa belíssima garota adulta, o paraíso amoroso de Jamal, o seu objetivo na vida, seu final feliz.

Não é de se estranhar que a resposta global a Quem Quer Ser um Milionário (U$ 150 milhões nas bilheterias internacionais, até agora) venha sendo a de um filme “pra cima”, mesmo com tanto horror na trama. O cinema é a arte da dissimulação, capaz de transformar um copo quebrando num interessante longa de 90 minutos, ou levar milhões a acreditar que a dureza da vida num país pobre e distante pode ser uma diversão sensacional onde até mesmo crianças do terceiro mundo merecem - não tanto o reconhecimento pelos seus esforços no viver-, mas a sorte, pura e simplesmente.

Boyle (Cova Rasa, Trainspotting, Extermínio) co-assina a direção com a pouco divulgada profissional de elenco indiana Loveleen Tandam, num acordo não muito distante da parceria Meirelles/Kátia Lund, em CdD. A fome de Boyle (claramente um animal do cinema sem capacidade de reflexão) por imagens o leva a, seja por ignorância, ou puro cinismo, terminar tudo com um final de efeito audiovisual alegre, mas culturalmente azedo como pouca coisa que vi recentemente. Tenta dar ao todo a aura artificial de um musical de Bollywood, cujo estilo nada tem a ver com o realismo freqüente almejado por esse filme, sob o simpático pop Jay Ho, de A.R. Rahman e coreografia em plano aberto com dezenas de figurantes.

É a dança alegre da miséria, a exploração mala de uma cultura desconhecida, remixada para o gosto ocidental e que ainda corre o risco de passar a sensação edificante de que estamos vendo um outro mundo distante com olhos mais abertos e tolerantes, provável combustível para a enorme aceitação do filme, imagino que junto ao Oscar.

PS: Ainda sobre a questão da imagem, em dezembro, Anthony Dod Mantle ganhou o prestigioso Camerimage, em Lodz, na Polônia, por seu trabalho no filme. Ironicamente, o segundo lugar foi para César Charlone, por Blindness, de Fernando Meirelles.

PS2: Na citada seqüência final, o som pop de A.R Rahman me lembrou uma utilização totalmente diferente em efeito desse tipo de som indiano na abertura de Inside Man, de Spike Lee, que usa "Chaiyya Chaiyya (composta pelo mesmo A.R. Rahman) para abrir o seu filme, numa Nova York repleta de diferenças culturais incorporadas por Lee no seu panorama.

Publicado originalmente em http://cinemascopiocannes2008.blogspot.com/

19 Março 2009

Mulheres Cineastas

Como março é o mês das mulheres, o Museu resolveu homenageá-las de uma forma interessante, lembrando das cineastas que abrilhantam o cinema. Temos poucas é verdade, mas percebe-se pela listinha que a qualidade é imensa. E que venham mais, quem sabe até para fulgurar na nossa famosa Sala Vip.Sofia Coppola
Ela participou de O Poderoso Chefão (1972) ainda bebê, mas foi reconhecida mesmo competindo com o papai Francis. Alguns dizem que ela é até melhor que ele. Maria Antonieta (2006), Encontros e Desencontros (2003) e As Virgens Suicidas (1999) são seus filmes.
Carla Camurati

A atriz Carla Camurati passou para trás das câmeras com Carlota Joaquina (1995), e não parou mais, são 4 películas já, sua última incursão é a adaptação da peça teatral Irma Vap (2006).
Lina Wertmüller
Cineasta italiana, amiga de Jorge Amado, indicada ao Oscar de melhor diretora, roteirista original e filme estrangeiro por Pasqualino Sete Belezas (1975).Jane Campion

A neozelandesa se tornou conhecida com O Piano (1993) e sua Palma de Ouro em Cannes. De lá para cá fez Em Carne Viva (2003) com a polêmica cena de sexo oral.Nora Ephron

A famosa roteirista de Harry e Sally (1989), se tornou a diretora de Sintonia de Amor (1993) e Mensagem para Você (1998). Dois clássicos da sessão da tarde.Liliana Cavani

A cineasta italiana é também uma ativista política, seu ponto alto foi Francesco (1989) com Mickey Rourke, recentemente fez O Retorno do Talentoso Ripley (2002), que passou nos nossos cinemas.Anjelica Huston
Filha do lendário John Huston e ex-esposa do não menos lendário Jack Nicholson, Anjelica é uma atriz reconhecida. Os dramas Marcas do Silêncio (1996) e Agnes Browne (1999) são suas incursões atrás das câmeras.Laís Bodansky

Paulistana, Laís se formou em cinema antes de ir para trás das câmeras. Bicho de Sete Cabeças (2001) e Chega de Saudade (2008) são os resultados dos estudos.Monique Gardenberg

Assim como Glauber Rocha, nosso maior cineasta, Monique é baiana. Estudou economia antes de estrear com Jenipapo (1996) e fazer sucesso com Ó pai, ó (2007).Ana Carolina

A paulista Ana Carolina começou como assistente de direção de Walter Hugo Khoury e depois realizou Mar de Rosas (1977) e Das Tripas Coração (1982) entre outros.

Menções: Isabel Coixet, Lucrecia Martel, Claudia Llosa, Catherine Hardwicke, Niki Caro, Zoe Cassavetes e Tizuka Yamazaki . E ai faltou alguém? Qual dessas você prefere?

Natasha Richardson

“Sempre acredite em seu diretor e confie nele, isso já estava em mim desde o inicio. Também ser um profissional ético e amar estar num set de filmagens”.

Natasha Richardson
(1963 – 2009)

18 Março 2009

Valsa com Bashir

Vals Im Bashir – Ari Folman – 2008 (Cinemas)

“Eles ficam lá, latindo. 26 cachorros. E vejo a cara de mau deles. Eles vêm para matar. E dizem para meu chefe Bertold: ‘Entregue-nos Boaz Rein, ou vamos comer seus clientes. Em um minuto!’”.

Dizem que sonhos são representações da realidade, então imagine os sonhos de quem já viu o inferno de perto?

O cinema é basicamente entretenimento e cultura, essas duas vertentes podem ou não se misturar. É raro, mas acontece. Por elas passa o artístico, aquele toque que só os grandes gênios conseguem, e acabam deixando um frame familiar.

A reunião de entretenimento, cultura e arte talvez seja o grande oásis dos cineastas. Valsa com Bashir entra nesse patamar por uma escolha do diretor Ari Folman, na verdade uma adaptação de circunstâncias, visto que seria impossível transpor o belíssimo roteiro do próprio cineasta a um filme normal, com atores e cenários reais, sem o dinheiro e a aposta de um grande estúdio. E cá entre nós, vocês acham mesmo que uma Warner, a atual vencedora do Oscar, iria produzir um filme de guerra israelense, falado na língua natal, sem heróis ou bandidos?

O filme autobiográfico é proibido no Líbano, devido à lei que impede o comércio com Israel, mas seus piratas podem ser adquiridos em Hamra, Beirute, onde Valsa se passa. O título significa a aliança que Israel fez com o líder cristão libanês Bashir Gemayel para expulsar guerreiros palestinos do Líbano. Mas também é uma referência a dança. A película é uma valsa em quadros com imagens belissimamente casadas a uma trilha sonora perfeita do compositor alemão Max Richter. As músicas que compõem o restante da trilha mostram que a valsa terá rock, ópera, e até rap israelense. SOBERBA!

Porém as composições de Richter dão o tom do filme, o piano, o violino, e os instrumentos de sopros das 11 partituras têm em comum o sentimento de nos fazer refletir sobre a humanidade perante as barbáries que cometemos diariamente, e as atrocidades em nome de nada que já foram cometidas.

Ari Folman prova a força do cinema ao ser imparcial e ao colher elogios libaneses, ao final da exibição ficamos com a sensação de que por mais bestialidades que a humanidade produza, as maravilhas vem em igual escala, dessa vez ela se mostrou através das melodias de uma obra-prima da sétima arte.


17 Março 2009

Pôster da Semana

Tudo que precisamos saber sobre o filme está explícito no cartaz. Diego Luna e Gael García Bernal, os dois astros latinos do momento em hollywood. A frase, "Life is a coin toss", "A vida é um jogo de cara ou coroa", e a produção dos três cineastas mexicanos Alfonso Cuarón, Alejandro Gonzáles Iñárritu e Guillermo Del Toro. O filme é dirigido por Carlos Cuarón, irmão de Alfonso.

16 Março 2009

O Visitante

The Visitor – Thomas McCarthy – 2007 (Cinemas)

Assim como o cinema, a música tem o dom de transformar as pessoas. É esse o grande mote de O Visitante, que tem no elenco o reconhecido ator, e pela primeira vez num filme de destaque, Richard Jenkins.

Jenkins interpreta um professor viúvo desanimado e carrancudo que recebe a ordem de ir à Nova Iorque representar sua colega. Com uma residência na cidade, ele toma um susto ao se deparar com o casal de imigrantes ilegais morando no seu apartamento.

Obviamente que a película toca fundo no que virou os EUA após o 11 de setembro, mas também se divide com a mudança na vida do professor Walter Vale, a personagem de Richard Jenkins. Portanto a produção é dividida entre as aberrações cometidas pelo governo norte-americano em nome da segurança nacional, e a transformação que acontece com o amargurado e frio docente através da música.

E uma cena em especial capta todo esse momento, é quando Walter recebe lições de piano com uma professora, já bem idosa. A aula monótona e parada mostra-se aborrecida. No final, ao se despedir, ele avisa que não terão mais aulas, que ele procuraria outra pessoa para ensinar-lhe. Ela entende, mas prognóstica: quando você resolver desistir, eu quero comprar seu piano.

12 Março 2009

Free Cinema

O relógio marca cinco horas, a chuva no vidro cai grossa e lentamente, o sol ainda teima em ir embora, apesar de todas as condições meteorológicas indicarem sua saída, numa mesa redonda de mármore repousa duas xícaras de chá fazendo a fumaça subir sem pressa e ritmada. A cor cinza, predominante em Londres no inverno, compõe o cenário da pequena cafeteria. O primeiro som deferido por ele é tão enigmático quanto um dicionário, seu sotaque.

O cinema da terra da rainha tem peculiaridades que se misturam com sua própria cultura, ou seja, uma pitada de bom humor, tradicionalmente refinado e satírico, uma elegância séria, clássica e aristocrática, elementos de suspense e violência quase infantis, se comparados aos norte-americanos, e uma generosa dose de inteligência. O ícone desse cinema é sem duvida Alfred Hitchcock. Influência constante nos dias atuais, o mestre do suspense criou imagens eternas, expressões de enciclopédias e um olhar voyeur ao cotidiano das pessoas, o cinema não foi mais o mesmo depois que o conheceu.

O cinema inglês começou a ganhar status em 1960, antes disso, era considerado ultrapassado, entediante e fracassado pelo próprio povo britânico. Tudo viria a mudar com a trupe do teatro English Stage Company, Tony Richardson e o roteirista John Osborne, que se juntaram a Karel Reisz, Lindsay Anderson e Lorenza Mazzetti e o famoso manifesto que reproduzo aqui no blog, mas antes veio o documentário, com curtas-metragens dos cineastas, exibido no National Film Theatre em Londres, em 5 de fevereiro de 1956. Foi a chamada para o Free Cinema, como os próprios autores denominaram, em clara intenção da liberdade da indústria cinematográfica britânica.

- Esses filmes não foram feitos juntos; nem com a idéia de mostrá-los juntos. Mas quando eles vieram juntos nós sentimos que eles tinham uma atitude em comum. Implícito nessa atitude está a crença na liberdade, na importância das pessoas e o significado de todo dia. Como “fazedores de filmes” nós acreditamos que nenhum filme pode ser muito pessoal. A imagem fala. Som amplifica e comenta. Tamanho é irrelevante. Perfeição não é um objetivo. Uma atitude significa um estilo. Um estilo significa uma atitude -.

O filme foi um sucesso e despertou nos autores para seguirem em frente na libertação do cinema inglês. Essa vitalidade criou a perfeita junção com a cultura jovem da moda e do rock’n roll. A Inglaterra virou centro do cinema com vantagens financeiras, trazendo nomes do quilate de Stanley Kubrick, que trouxe consigo avanços tecnológicos até então desconhecidos no Reino Unido.

Filmes como As Aventuras de Tom Jones (1963), Tudo Começou no Sábado (1960), e This Sporting Life (1963) fizeram o sucesso do movimento, ganhando prêmios e sendo reconhecidos mundialmente, eles clamavam pela independência e pelo desapego às tradições do passado, e a soberania das questões humanas e cotidianas. Richard Harris e Albert Finney foram os atores mais requisitados na época.

11 Março 2009

Os Profissionais do Crime

Le Deuxième Souffle – Alain Corneau – 2007 (DVD)

Em cima de um muro, um homem assustado aguarda que o outro se jogue em sua direção, porém sua força é maior e ultrapassa o homem caindo de uma enorme altura e morrendo. O próximo a tentar é nosso protagonista, Gu, reticente, mas sem escapatória, ele se joga do telhado para o muro tentando se equilibrar.

Em nenhum momento é dito que se trata de uma fuga da prisão, mas em pouco mais de alguns minutos ficamos sabendo. Não menosprezar a inteligência do espectador é artigo cada vez mais raro, mas que ainda existe.

Volto aqui à polêmica sobre film noir, se é um gênero, ou se foi um movimento. Le Deuxième Souffle o trata como gênero, a partir da refilmagem do original do mestre francês do noir, Jean-Pierre Melville. Porém, o trata também como movimento, repetindo as cores da direção de fotografia, preferindo as cenas noturnas, e colocando uma Monica Bellucci loira de femme fatale. Enfim, essa é uma discussão de vários pontos de vista, sem que nenhum esteja totalmente correto, ou totalmente equivocado.

A trama gira em torno do gângster Gu (Daniel Auteuil) que foge da cadeia na mesma noite em que o chefe de sua namorada, Manouche (Monica), é assassinado no restaurante que gerencia. Bellucci encarnando uma loira é imperdível, sem falar na trama que lembra muito os antigos noir das décadas de 50 e 60.

10 Março 2009

Cineastas e suas Musas

Gena Rowlands e John Cassavetes

O casal do cinema independente. Se conheceram ainda quando não eram famosos, no teatro, e casaram, mas Gena Rowlands continuou sua musa nos cinemas. Uma Mulher sob Influência (1974) foi o ponto alto da dupla, e Gloria (1980) o sucesso.François Ozón e Charlotte Rampling

Uma parceria inusitada, mas bastante talentosa, não à toa, a crítica identifica em duas, das três colaborações deles, as melhores interpretações da carreira dessa experiente atriz, Sob a Areia (2000), e Swimming Pool (2003).Catherine Deneuve e Luis Buñuel

Pensar na deusa francesa sem pensar em A Bela da Tarde (1967) é quase um crime, além dessa parceria, a dupla voltaria a se reunir em Tristana (1970). O fato é que Catherine Deneuve nunca foi tão bela quanto nas lentes de Luis Buñuel.David Lynch e Laura Dern

Pegue a filmografia da excelente Laura Dern, com 50 filmes, e escolha 3 interpretações marcantes. Se duas delas, pelo menos, não forem dirigidas por David Lynch, escolha novamente. Eu escolhi INLAND EMPIRE (2006) e Coração Selvagem (1990).Pedro Almodóvar e Penelope Cruz

Além dos quatro filmes, Almodóvar está diretamente ligado a escolha de Penelope de se tornar atriz, afinal foi vendo a extraordinária Victoria Abril em Atá-me (1990), que ela decidiu se tornar atriz, ai veio Tudo sobre Minha Mãe (1999) e Volver (2006).
Uma Thurman e Quentin Tarantino

A relação dessa dupla é tão produtiva, que rendeu um filme, ou melhor, rendeu dois, ou melhor, rendeu Kill Bill Vol. 1 (2003) e Kill Bill Vol. 2 (2004). História de Q & U. E olha que antes eles tinham feito apenas Pulp Fiction (1994). Tarantino e sua fixação pelos pés de sua musa!Ingmar Bergman e Liv Ullmann

Bergman correu atrás de Liv nas filmagens de Sarabanda (2003), ele e a atriz, que foram casados de 66 a 71, começaram a brigar quando a atriz recusou a filmar nua, o cineasta então começou a atirar objetos na atriz e persegui-la até o camarim, separados por técnicos, os dois começaram a gargalhar. Frederico Fellini e Giulietta Masina

Noites de Cabíria (1957) e Ginger & Fred (1986) e tantos outros, separar o nome dos dois é pecado irreparável para cinéfilos. Nem a morte conseguiu esse façanha, porque depois de 5 meses da morte do marido, Giulietta veio a falecer. Baz Lurhmann e Nicole Kidman

Em comum só a nacionalidade e Moulin Rouge (2001) e Austrália (2008). Não seria pouco se fosse verdade. Baz e Nic até nos comerciais são parceiros, afinal foi Baz quem a dirigiu no comercial da Chanel no. 5. No casamento de Kidman teve recital de Baz. Alfred Hitchcock e Grace Kelly

Ao se decidir casar com o príncipe Rainier III, a atriz ligou para o cineasta contando a novidade e anunciando sua aposentadoria, Hitchcock lhe disse que ela poderia voltar a trabalhar com ele quando quisesse, Confissões de uma Ladra (1964) seria o filme, se o príncipe deixasse. Janela Indiscreta (1954), e Ladrão de Casaca (1955) seus maiores sucessos.

Menções: Roberto Benigni e Nicoletta Braschi / Roger Vadim e Jane Fonda / Roberto Rossellini e Ingrid Bergman / Woody Allen e Scarlett Johansson / Jean-Luc Godard e Anna Karina.

09 Março 2009

Austrália

Australia – Baz Luhrmann – 2008 (Cinemas)

O avô me ensinou a lição mais importante de todas. Contar história.

O épico Austrália se divide em três atos: Musicais hollywoodianos, Baz Luhrmann, e Nicole Kidman.

O Mágico de Oz. Na festa de entrega do Oscar, o apresentador Hugh Jackman não cansava de repetir: “os musicais não acabaram”, como se tivesse sido obrigado a entoar aquela frase. Porém, quem conhece um pouco do cinema norte-americano sabe que os musicais nunca irão se acabar, eles podem sim sofrer alterações que, aliás, já sofreram, mas é um gênero, como o policial, tipicamente estadunidenses, que tem seus altos e baixos. Ao contrário dos movimentos, que tem seu final, ou sua finalidade, o musical sempre vai ter espaço, e principalmente talentos para se produzir filmes deste gênero. Austrália não é um musical ao pé da palavra, mas é sim feito de música. E como épico que se assume, não sobrevive sem alguns acordes nas suas cenas grandiosas.Mark Anthony. Eu sou fã do cinema de Luhrmann. Dito isso, já se pode concluir que gosto de exageradas cenas com multidão de figurantes, planos abertos, interpretações musicadas, cenários clássicos, figurinos elegantes e abusando dos bordados, e edições rápidas de câmeras nervosas. Mark Anthony Luhrmann, ou Baz Luhrmann é isso, nenhuma cena de seus filmes escapam dessas alegorias e seus roteiros trazem um profundo conhecimento de cinema. Austrália é um filme história. É passado num momento histórico desse pitoresco país, mas é cinema. É cinema de Baz Luhrmann, portanto oferece os reconhecidos ingredientes com pinceladas fortes de cores.

Botox. Lady Sarah Ashley é interpretada pela atriz fetiche do cineasta, Nicole Kidman. A ex-senhora Tom Cruise está à vontade no papel, talvez disso venha à crítica negativa à sua interpretação, reconhecida até pela própria, mas acho uma performance bastante elogiável, sem amarras, sem trejeitos catedráticos, mostrando seus pontos fracos, e uma aplicação errônea de botox nos lábios (quem sabe até não foi para caracterização da personagem!?!). Kidman aceitou o papel sem ler o roteiro, o que demonstra sua confiança no diretor. Quando é assim, todos os pecados são perdoáveis.

Austrália tem um pecado. Marketing. E talvez suas quase 3 horas de duração – são 2 horas e 40 minutos. Porém é um filme belíssimo, contado através dos olhos de uma criança aborígene, interpretado por um dos casais mais charmosos do cinema mundial, dirigido pelo maior mestre vivo do gênero musical/épico, e com um roteiro que prende sua atenção do inicio ao fim.Uma homenagem ao verdadeiro espírito do cinemão norte-americano, uma homenagem ao mestres-dos-mestres, Ennio Morricone/Sergio Leone, com a “harmônica”, e uma homenagem, e aqui lê-se também declaração de amor, ao seu país de origem, Austrália.

Vou te cantar pra mim.

Somewhere, over the rainbow, skies are blue. And the dreams that you dare to dream. Really do come true.