12 março 2009

Free Cinema

O relógio marca cinco horas, a chuva no vidro cai grossa e lentamente, o sol ainda teima em ir embora, apesar de todas as condições meteorológicas indicarem sua saída, numa mesa redonda de mármore repousa duas xícaras de chá fazendo a fumaça subir sem pressa e ritmada. A cor cinza, predominante em Londres no inverno, compõe o cenário da pequena cafeteria. O primeiro som deferido por ele é tão enigmático quanto um dicionário, seu sotaque.

O cinema da terra da rainha tem peculiaridades que se misturam com sua própria cultura, ou seja, uma pitada de bom humor, tradicionalmente refinado e satírico, uma elegância séria, clássica e aristocrática, elementos de suspense e violência quase infantis, se comparados aos norte-americanos, e uma generosa dose de inteligência. O ícone desse cinema é sem duvida Alfred Hitchcock. Influência constante nos dias atuais, o mestre do suspense criou imagens eternas, expressões de enciclopédias e um olhar voyeur ao cotidiano das pessoas, o cinema não foi mais o mesmo depois que o conheceu.

O cinema inglês começou a ganhar status em 1960, antes disso, era considerado ultrapassado, entediante e fracassado pelo próprio povo britânico. Tudo viria a mudar com a trupe do teatro English Stage Company, Tony Richardson e o roteirista John Osborne, que se juntaram a Karel Reisz, Lindsay Anderson e Lorenza Mazzetti e o famoso manifesto que reproduzo aqui no blog, mas antes veio o documentário, com curtas-metragens dos cineastas, exibido no National Film Theatre em Londres, em 5 de fevereiro de 1956. Foi a chamada para o Free Cinema, como os próprios autores denominaram, em clara intenção da liberdade da indústria cinematográfica britânica.

- Esses filmes não foram feitos juntos; nem com a idéia de mostrá-los juntos. Mas quando eles vieram juntos nós sentimos que eles tinham uma atitude em comum. Implícito nessa atitude está a crença na liberdade, na importância das pessoas e o significado de todo dia. Como “fazedores de filmes” nós acreditamos que nenhum filme pode ser muito pessoal. A imagem fala. Som amplifica e comenta. Tamanho é irrelevante. Perfeição não é um objetivo. Uma atitude significa um estilo. Um estilo significa uma atitude -.

O filme foi um sucesso e despertou nos autores para seguirem em frente na libertação do cinema inglês. Essa vitalidade criou a perfeita junção com a cultura jovem da moda e do rock’n roll. A Inglaterra virou centro do cinema com vantagens financeiras, trazendo nomes do quilate de Stanley Kubrick, que trouxe consigo avanços tecnológicos até então desconhecidos no Reino Unido.

Filmes como As Aventuras de Tom Jones (1963), Tudo Começou no Sábado (1960), e This Sporting Life (1963) fizeram o sucesso do movimento, ganhando prêmios e sendo reconhecidos mundialmente, eles clamavam pela independência e pelo desapego às tradições do passado, e a soberania das questões humanas e cotidianas. Richard Harris e Albert Finney foram os atores mais requisitados na época.

4 comentários:

Kamila disse...

O que eu achei mais interessante, neste seu texto, é que a gente, geralmente, liga o cinema inglês àqueles filmes de época que são bem conhecidos. Mas, você mostrou aqui que o cinema inglês tem vitalidade, criatividade e grandes nomes.

Otavio Almeida disse...

Caraca! Que legal! Volto no fim de semana pra ler. Tô ferrado aqui no trabalho.

Abs! Bom fim de semana!

Museu do Cinema disse...

Obrigado Kamila e Otávio!

Vinícius P. disse...

Muito interessantes esses seus textos sobre os movimentos, eu mesmo não sabia quase nada deles - esse mesmo eu nem conhecia, hehehe.