30 Janeiro 2009

Foi Apenas um Sonho

Revolutionary Road – Sam Mendes – 2008 (Cinemas)

‘É preciso ter muita coragem para enxergar o desespero’.

Essa frase, dita por John Givings (Michael Shannon), a personagem mais “louca” do filme, é a essência de Revolutionary Road, uma rua no fim de um condomínio no subúrbio de Connecticut, onde o jovem casal, Frank e April Wheeler (Leonardo DiCaprio e Kate Winslet) vão morar. Adaptado do romance de mesmo nome de Richard Yates, a película retorna ao primeiro trabalho do cineasta Sam Mendes, Beleza Americana (1999), onde as aparências importavam mais que a realidade, por isso a frase acima.

Primeira colaboração de Kate Winslet com o marido Sam Mendes, a atriz mostra que é realmente acima da média entre suas colegas norte-americanas, apesar dela ser inglesa. Kate entrega uma personagem cheia de mistérios e categoricamente inexplicável. E olha que sua performance nem está entre suas melhores. Leonardo DiCaprio mostra que amadureceu, graças as suas parcerias com Martin Scorsese, sua interpretação é elogiosa, contida e cheia de veracidades. É também a segunda reunião do trio DiCaprio, Winslet e Kathy Bates, que interpreta a mãe de John Givings e corretora do casal principal.

Mesmo não sendo um grande filme de Sam Mendes, um gênio por trás das câmeras, que reconhecidamente tem seu lugar aqui na Sala Vip, Revolutionary Road mostra que sua grife é mais característica com personagens complicadas. É incrível sua capacidade de mostrar algo a mais apenas com um close no semblante do ator. A película mostra também uma coincidência ou um fixação do diretor com as ruas, antes fora Road to Perdition, agora Revolutionary.

Michael Shannon ganhou sua indicação ao Oscar por esse filme, realmente é uma interpretação vigorosa, mas é incrível como Hollywood é cheia de hipocrisia, é só pegar qualquer filme de David Lynch, qualquer um, e escolher um ator coadjuvante, que vais ver a mesma interpretação.

O músico Thomas Newman mais uma vez é o responsável pela trilha do filme de Mendes, sua canção, usando as teclas do piano com notas fortes e notas calmas, repete os trabalhos anteriores em parceria com o cineasta inglês, talvez por isso tenha sido tão gostoso ouvi-la. A direção de fotografia, ponto alto dos filmes de Sam, ficou a cargo do craque Roger Deakins, em sua segunda colaboração com o diretor, depois da morte do mestre Conrad L. Hall.

28 Janeiro 2009

O Acompanhante

The Walker – Paul Schrader – 2007 (DVD)

Mais conhecido como roteirista dos grandes filmes de Martin Scorsese Taxi Driver (1976), Touro Indomável (1980), A Última Tentação de Cristo (1988) e Vivendo no Limite (1999) – o norte-americano Paul Schrader, porém, não tem em sua filmografia como diretor, um grande sucesso. Talvez Gigôlo Americano (1980) com Richard Gere, se forçarmos muito. O fato é que seu trabalho por trás das câmeras soa limitado, sem arte, é quase um piloto automático.

O Acompanhante seria sua redenção, se seu currículo ainda fosse de principiante. O fato é que o filme é a melhor interpretação da carreira de Woody Harrelson, e olha que ele esteve perfeito em O Povo Versus Larry Flynt (1996), e a obra mais realista (seria a única?) sobre os bastidores da política de Washington, sob o olhar das esposas dos políticos.

Kristin Scott Thomas, enlouquecidamente e absurdamente esquecida pela academia este ano por Il y a Longtemps que Je T’aime (2008), (Melissa Leo? Só podem estar brincando) interpreta a infiel esposa do Senador Lockner (Willem Dafoe) que, encoberta pelo amigo e acompanhante de madames homossexual, Carter Page III (Harrelson), foi a primeira a encontrar o amante morto a facadas.

A película é bem dirigida e tem um ritmo acertado. Não traz nada novo, e está mais para a New Hollywood, do que para o momento atual do cinemão norte-americano, e ai é que está a grande técnica de Schrader, ele usa de todo seu conhecimento, porque fez parte desse movimento, para realizar um filme que tem toda a cara dos anos 70.

26 Janeiro 2009

Diálogos

Escrito por Quentin Tarantino Pulp Fiction – EUA (1994)

Um roteiro que mudou a forma de se escrever filmes em Hollywood.

JULES
Ok, e então, me fale dos bares de maconha?
VINCENT
Ok. O que você quer saber?
JULES
Bem, baseado é permitido lá, certo?
VINCENT
Sim, é permitido, mas não é 100% legal. Quero dizer, você não pode entrar num restaurante, enrolar a erva, e começar a fumar sua porra. Você supostamente só pode fumar na sua casa ou em certos lugares designados.
JULES
Esses são os bares de maconha?
VINCENT
Sim, funciona assim, ok: é legal comprar, é legal você possuir, se você for o dono do bar de maconha, é permitido vender. É permitido carregar consigo, o que não importa de qualquer maneira, porque – presta atenção nisso, se um policial parar você, é ilegal ele te revistar. Baculejar você é um direito que a policia de Amsterdam não tem.
JULES
Oh man, eu vou lá, é só o que tenho que fazer. Puta que pariu que vou.
VINCENT (rindo)
Você tem que ir! Mas sabe o que é mais curioso sobre a Europa?
JULES
O que?
VINCENT
São as pequenas diferenças. Muitas coisas que a gente tem aqui, eles tem lá, mas lá são um pouquinho diferente.
JULES
Exemplo?
VINCENT
Bem, em Amsterdam, você pode comprar uma cerveja no cinema. E eu não to falando de copos de plásticos, estou falando de copos de vidro. Em Paris, você pode pedir uma cerva no MacDonald's. Você sabe como eles chamam o Quarterião com Queijo em Paris?
JULES
Eles não chamam de Quarteirão com Queijo?
VINCENT
Não, por causa do sistema métrico deles, eles não sabem que porra é quarteirão.
JULES
Como eles chamam?
VINCENT
Eles chamam de Royale with Cheese.
JULES (repetindo)
Royale with Cheese. Como eles chamam o Big Mac?
VINCENT
Big Mac é Big Mac, mas eles afrescuram para Le Big Mac.
JULES
Le Big Mac. (risada) Como eles chamam o Whopper?
VINCENT
Não sei, não fui no Burger King. Mas você sabe o que eles põem nas batatas fritas na Holanda em vez do ketchup?
JULES
O que?
VINCENT
Maionese.
JULES
Minha nossa!
VINCENT (rindo)
É sério, eu vi. E não falo de um tiquinho no cantinho do prato, eles afogam a porra da batatinha naquela merda.
JULES
Uuccch!
Ouça aqui.

22 Janeiro 2009

Bem me Quer, Mal me Quer

À la Folie...Pas du Tout – Laetitia Colombani – 2002 (DVD)

Lançado aqui devido ao fenômeno de O Código Da Vinci (2006), que revelou ao mundo a atriz francesa Audrey Tautou, Bem me Quer, Mal me Quer é um achado do cinema que mais cresceu nos últimos cinco anos, o francês.

O filme fala sobre uma doença muito conhecida, mas pouco divulgada, a erotomania – que se explicar aqui vou acabar entregando o brilhante final – Angélique (Tautou) é uma jovem estudante e artista plástica. Apaixonada pelo médico casado Loïc (Samuel Le Bihan), ela começa a enveredar num caminho sem volta.

Optando por usar um recurso de flashback interessante e pouco utilizado, a jovem cineasta Colombani faz com que a seqüencia de volta ao inicio, já no meio do filme, sob outro ponto de vista, seja uma qualidade do longa, e, em certo ponto, o transforma.

O titulo original é uma expressão francesa equivalente a nossa brincadeira da flor, assim como do inglês He loves me...He loves me Not. Significa, ao pé da letra, Na loucura...Nada disso. Sem dúvida uma tradução complicada, mesmo assim interessante.

21 Janeiro 2009

Parábola do Mês

“O que eu penso é, nunca é tarde, ou, em meu caso, cedo, para ser quem você queira ser. Não temos tempo limite, comece qualquer hora o que queira fazer. Mude ou permaneça a mesma. Não existe nenhuma regra. Nós podemos fazer o melhor ou o pior com isso. Eu torço que você faça o melhor. Eu espero que veja coisas que te balancem. Sinta coisas que nunca sentiu antes. Torço para que encontre pessoas com diferentes pontos de vista. Eu torço que você desafie a si mesma. Torço para que caia, e se levante. Torço para que viva a vida que sempre quis viver. E se não for assim, eu espero que você recomece tudo novamente”.

* Extraída do filme O Curioso Caso de Benjamim Button (2008) de David Fincher, e interpretada por Brad Pitt. Disponível nos cinemas.

20 Janeiro 2009

Diálogos

Escrito por Eric Roth – O Curioso Caso de Benjamim Button – EUA (2008)

Mais uma nova sessão no Museu, Diálogos. Serão textos extraídos dos roteiros dos grandes filmes. É uma forma que o blog encontrou de homenagear os grandes roteiristas do cinema.

DAISY
- Você continuará me amando quando eu não puder ficar em pé direito, quando minha pele enrugar...
Benjamim ri.
DAISY (continuando)
- Você continuará me amando quando meus passos ficarem curtos, quando eu dormir demais, quando você tiver que me colocar numa cadeira.
BENJAMIM (respondendo)
- Você continuará me amando quando eu tiver espinhas. Quando eu começar a pensar que é engraçado soltar pum...
Daisy ri.
BENJAMIM (continuando)
- Você continuará me amando quando eu pensar que todas as garotas usam fraldas. Você continuará me amando quando eu molhar minha cama de noite. Você continuará me amando quando tiver medo de coisas que não são reais.

19 Janeiro 2009

Cena de Cinema

O Curioso Case de Benjamim Button (The Curious Case of Benjamim Button – David Fincher – 2008 – Cinemas)

INTERNA. ESCOLA DE BALÉ, NEW ORLEANS - NOITE, 1967.

Daisy está sozinha, a música baixa toca ao fundo. Ela dança balé, como se ainda fosse uma profissional. ‘Você continua linda de se assistir’. Ela enxerga Benjamim pelo espelho da sala de dança, que assiste quieto. Daisy, corada, muda o assunto.

Esse é um momento especial da trama. É quando as diferenças físicas entre os dois serão menores, quase iguais. ‘Eu percebi que se você nasceu em 1918, há 49 anos atrás. E eu estou com 43, nós estamos quase na mesma idade. Em três anos nos encontraremos no meio’.

O clima é de puro romantismo. Os dois se abraçam. Benjamim a olha como se ela fosse à única mulher naquela sala, naquele estabelecimento, naquele bairro, naquela cidade, naquele estado, naquele país, naquele mundo. ‘Finalmente alcançamos um ao outro’. O olhar de Daisy é de pura admiração, eles se olham no espelho, ela tenta se afastar.

‘Fique aqui. Quero me lembrar como nós somos agora’.

Essa romântica cena é do cineasta de Se7en (1995), Clube da Luta (1999), Quarto do Pânico (2002) e Zodíaco (2007). Aos que demoraram a apreciar, sejam bem vindos, o nome dele é David Fincher.

17 Janeiro 2009

O Curioso Caso de Benjamim Button

The Curious Case of Benjamim Button – David Fincher – 2008 (Cinemas)

O Monsier Gateau foi chamado para fazer o relógio da estação de Nova Orleans. Cego e devotado à família, o Sr. Bolo, como era conhecido, se dedicou exclusivamente à confecção do novo modelo que iria enfeitar a grande estação. Porém, era época da I Guerra Mundial, e seu jovem filho, Martin, partiu em nome da pátria. Meses depois ele voltava e o Monsier Gateau e sua esposa foram recepcioná-lo. Voltava dentro de uma caixa de madeira e nunca mais o Sr. Bolo foi o mesmo. Ainda assim, ele se enfurnou na sua fábrica afim de terminar o relógio que se comprometera a fazer. Dias depois foi à inauguração na estação. Muitas personalidades apareceram e o Monsier Gateau fez questão dele mesmo apresentar sua obra ao público. Atônitos a beleza do novo objeto, muitos não se concentraram no óbvio, até que um observador gritou da platéia: Ele está andando para trás. Foi então que o Sr. Bolo começou a falar: Ele anda para trás com o propósito de voltarmos no tempo, quando nossos filhos eram vivos e não havia a guerra.

Na retrospectiva que fiz aqui sobre a carreira do cineasta David Fincher, comentei que poderia parecer precoce sua escolha, O Curioso Caso de Benjamim Button é a prova cabal para muitos críticos que nada entendem de cinema, mas muito entendem de jornali$mo. Nessa revisita, comentei também do lado noir de Fincher. E aqui entra o romance de Benjamim (Brad Pitt mostrando que ao lado do diretor e amigo é um ator completo) e Elizabeth Abbott (a ótima Tilda Swinton provando que eu tinha razão dizendo que ela não mereceu o Oscar que ganhou). As cenas do casal, no hotel russo, beiram o noir, da fotografia às interpretações, passando pelo suspense sugerido.

Nos quesitos técnicos, a fotografia de Claudio Miranda, que não é brasileiro, é sublime. Camera man das outras películas do cineasta, Claudio subiu um estágio e mostrou estar pronto, é um nome a ser guardado. Outra qualidade do filme é a trilha sonora composta pelo francês Alexandre Desplat, minimalista e cuidadosa, ela ajuda a dar um toque especial na narração de Pitt. O roteiro do quase-primeiro-escalão Eric Roth anda em paralelo ao seu grande trabalho anterior Forrest Gump (1994). Rivalizará entre qual será sua obra-prima. Agora, a parte mais importante do filme é mesmo a maquiagem. A equipe de make-up já entra no patamar das grandes obras produzidas pelo cinema norte-americano.

Baseado livremente no conto de F. Scott Fitzgerald, que você lê aqui, Benjamim Button é uma obra-prima perfeita e completa sobre nossa condição como humanos. De forma leve, às vezes com humor, outras com dramaticidade e ainda com incrível sensibilidade ao teor do maravilhoso conto, o filme é uma dádiva à vida. A história do bebê que nasce velho e vai rejuvenescendo com o passar dos anos, ganhou contornos do cinemão de hollywood dos anos 50 e 60, aquele cinema que fez o mundo se apaixonar, aquele cinema que fez o mundo admirar, e principalmente, aquele cinema que fez o mundo ser melhor. São cineastas como David Fincher, que receberam o cetro mágico dessa época, que provam que hollywood não morreu, apesar de muitos (produtores, diretores e, primordialmente, jornalistas) tentarem seu assassinato diariamente.

Eu já te falei que fui atingido por um raio 7 vezes?

15 Janeiro 2009

Curious Case of Benjamin Button

Curious Case of Benjamin Button

I

As long ago as 1860 it was the proper thing to be born at home. At present, so I am told, the high gods of medicine have decreed that the first cries of the young shall be uttered upon the anaesthetic air of a hospital, preferably a fashionable one. So young Mr. and Mrs. Roger Button were fifty years ahead of style when they decided, one day in the summer of 1860, that their first baby should be born in a hospital. Whether this anachronism had any bearing upon the astonishing history I am about to set down will never be known.

I shall tell you what occurred, and let you judge for yourself.

The Roger Buttons held an enviable position, both social and financial, in Antebellum Baltimore. They were related to the This Family and the That Family, which, as every Southerner knew, entitled them to membership in that enormous peerage which largely populated the Confederacy. This was their first experience with the charming old custom of having babies--Mr. Button was naturally nervous. He hoped it would be a boy so that he could be sent to Yale College in Connecticut, at which institution Mr. Button himself had been known for four years by the somewhat obvious nickname of "Cuff."

On the September morning consecrated to the enormous event he arose nervously at six o'clock dressed himself, adjusted an impeccable stock, and hurried forth through the streets of Baltimore to the hospital, to determine whether the darkness of the night had borne in new life upon its bosom.

When he was approximately a hundred yards from the Maryland Private Hospital for Ladies and Gentlemen he saw Doctor Keene, the family physician, descending the front steps, rubbing his hands together with a washing movement--as all doctors are required to do by the unwritten ethics of their profession.

Mr. Roger Button, the president of Roger Button & Co., Wholesale Hardware, began to run toward Doctor Keene with much less dignity than was expected from a Southern gentleman of that picturesque period. "Doctor Keene!" he called. "Oh, Doctor Keene!"

The doctor heard him, faced around, and stood waiting, a curious expression settling on his harsh, medicinal face as Mr. Button drew near.

"What happened?" demanded Mr. Button, as he came up in a gasping rush.
"What was it? How is she" A boy? Who is it? What---"

"Talk sense!" said Doctor Keene sharply, He appeared somewhat
irritated.

"Is the child born?" begged Mr. Button.

Doctor Keene frowned. "Why, yes, I suppose so--after a fashion." Again he threw a curious glance at Mr. Button.

"Is my wife all right?"
"Yes."
"Is it a boy or a girl?"
"Here now!" cried Doctor Keene in a perfect passion of irritation," I'll ask you to go and see for yourself. Outrageous!" He snapped the last word out in almost one syllable, then he turned away muttering: "Do you imagine a case like this will help my professional reputation? One more would ruin me--ruin anybody."

"What's the matter?" demanded Mr. Button appalled. "Triplets?".

O Curioso Caso de Benjamim Button estréia amanhã nas melhores salas de cinema do país. Leia o resto do conto de F. Scott Fitzgerald aqui.

14 Janeiro 2009

Pôster da Semana

Esse cartaz ilustra o blog ai do lado há algum tempo já, ele é sensacional, apesar dessa cinturinha da moça desafiar a física, mas ainda acho mais sensacional o outro pôster, que foi feito logo depois do primeiro, que obviamente fora proibido nos Estados Unidos devido a bandeira norte-americana estar nos genitais. Os produtores então não tiveram dúvida após a censura, mandaram outro, vejam ai embaixo. E o melhor é que tem tudo a ver com o filme. Larry Flynt foi o cara!

13 Janeiro 2009

O Escafandro e a Borboleta

Le Scaphandre et le papillon – Julian Schnabel – 2007 (DVD)

Decidi parar de ter pena de mim. Duas outras partes do meu corpo que não meu olho, não estavam paralisadas, minha imaginação e minha memória.

Baseado no livro homônimo e autobiográfico do editor da revista Elle, o francês Jean-Dominique Bauby, O Escafandro e a Borboleta é um filme norte-americano, dirigido pelo nova-iorquino Julian Schnabel, mas todo falado em francês, em respeito ao biografado. E essa foi à decisão mais acertada de Julian, além claro de posicionar a câmera como Bauby, dando a sensação ao espectador de estar sofrendo do problema do editor.

Julian Schnabel tem uma predileção especial às biografias dos gênios que caminham a margem da sociedade. Foi assim que retratou o escritor cubano Reinaldo Arenas (show de Javier Bardem), no ótimo Antes do Anoitecer (2000), e também foi em seu début cinematográfico, Basquiat (1996) ao mostrar a vida do controverso artista Jean-Michel Basquiat. Em O Escafandro, apesar do biografado não possuir nenhuma genialidade artística reconhecida, o cineasta faz questão de desenvolver o roteiro a partir da explosão dessa genialidade, que é quando ele parte das três partes de seu corpo – e alma que não estão paralisadas.

O recurso de utilizar a câmera como personagem principal pode até parecer óbvia e correta, e é justamente ai que entra a grande sacada do diretor. Os recursos do cinema podem parecer limitados a grande maioria, porém uma pequena parte desafia os paradigmas e impulsiona a 7ª arte como a mais completa. Alguns desses nomes vocês podem conferir ai ao lado na sala vip do museu.

Ao lado de um elenco primoroso e belas locações, O Escafandro e a Borboleta consegue ser fiel ao biografado sem deixar de ser artístico e pessoal. Acho que está se construindo um nome de futuro no cinema norte-americano.

12 Janeiro 2009

Estômago – A Gastronomic Story

Estômago – Marcos Jorge – 2007 (DVD)

Cozinha é simples Nonato. É como um quadro do Picasso. Simples, mas intenso.

O roteiro do filme nasceu em 2003, quando o escritor Lusa Silvestre enviou ao fotógrafo e documentarista Marcos Jorge três contos inéditos com histórias sobre comida. Um chamou a atenção do diretor, “Presos pelo Estômago”, à história de um homem que ganhava prestígio na prisão cozinhando para seus companheiros de cela. Porém era insuficiente para uma película. Era preciso inventar mais coisas, um roteiro de antes dele ir para prisão. Lusa e Marcos então desenvolveram a história de Nonato, contando como aprendeu a cozinhar, chegando a São Paulo. O título surgiu de metáforas relacionadas ao órgão: soco no estômago, ter estômago para enfrentar uma situação, e dor de estômago.

Homenageando os grandes filmes sobre culinária, Estômago recorreu a chef curitibana Geraldine Miraglia para tornar mais real as experiências gastronômicas de Nonato, assim como buscou o ex-presidiário Luiz Mendes Jr. para consultas nas cenas de prisão. No elenco, o baiano João Miguel dá show interpretando o paraibano Nonato. Seu par romântico, a estreante nas telonas Fabíula Nascimento, mantêm o espetáculo, e o titã Paulo Miklos faz uma participação especial com o bandido Etecétera.

Roteiro inspirado + Direção descontraída = um filme bacana sem aspirações de grandes prêmios, como parece ser a intenção de 99, dos 99 filmes nacionais produzidos por ano. Estômago é dos poucos que não tem o selo de “qualidade” da Globo filmes, e talvez esse seja seu maior trunfo.

Raimundo Nonato (João Miguel) é um paraibano que, como milhões de outros, vai a São Paulo buscar oportunidade na vida. Aprende a cozinhar e percebe que tem dom para a coisa. Se enrabicha pela prostituta Íria (Fabíula Nascimento), mas sua ingenuidade faz com que não perceba a condição da moça.

- Se tiver um pouquinho de alho, pimenta, cebola, azeite pra refogar, um pouquinho de queijo ralado e alecrim... Com o que tiver, nós dá jeito.
- É mesmo? Ô, Lino?
- Fala aí.
- Vê com os caras lá da cozinha lá meu. Manda eles trazerem esses bagulhos aí. E esse tal de alegrinho...
- Não é alegrinho não, é alecrim!
- Então...Alecrim! Traz esses negócios aí pro... Qual o teu nome mesmo, paraíba?
- Nonato Canivete.
- Ô Lino, traz pro Nonato esse Alecrim, que amanhã eu quero comer bem.

07 Janeiro 2009

Melhores 2008

Finalizando 2008, temos os 5 melhores filmes. Sempre acho complicado escolher as películas, mas essas foram as que mais me agradou em todos os quesitos, direção, atuações e roteiro, principalmente. Como piores, esse ano foi um bom ano, pelo menos para mim, na maioria das lsitas que vi por ai, eu não assisti nenhum filme, mas vou escolher dois que vi de ousado, Batman - Cavaleiro das Trevas e Speed Racer. Dois filmes-clichês que estão bombando nas casas de apostas dos críticos mais especializados. Como primeiro melhor filme de 2008, obviamente, Sangue Negro. Na segunda posição Ensaio sobre a Cegueira, terceiro Gomorra, em quarto Vicky Cristina Barcelona e por último a ótima surpresa Zona do Crime.

06 Janeiro 2009

Book of Dreams

O site da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que você poderá acessar nos links ai do lado, traz uma página especial com trechos do “The Book of Dreams” de Frederico Fellini, coleção de desenhos e manuscritos dos sonhos do cineasta, feitas entre as décadas de 60 e 90. Os desenhos estão expostos, a partir de 24 de janeiro, no lobby da academia. São imagens imperdíveis para os fãs do grande mestre italiano.

05 Janeiro 2009

Cena de Cinema

Reflexos da Inocência (Flashbacks of a Fool – Baillie Walsh - 2008 - DVD)

Shake your hair girl with your ponytail
Takes me right back (when you were young)

Das principais lembranças da adolescência talvez as únicas e maiores sejam dos namoros, e da relação com o sexo oposto. É o que trata essa cena. O know-how do diretor em videoclipes ajusta a técnica à saudosa simbologia juvenil. A atriz inglesa Felicity Jones entrega o papel feminino com propriedade, apesar dela já ter passado da fase em questão, enquanto que seu companheiro é o perfeito adolescente seduzido. A música é do grupo inglês Roxy Music, banda de glam rock de Bryan Ferry e Brian Eno, If There is Something. E se há algo gostoso de relembrar é isso.

Recordar momentos como esse, em que se divide uma paixão – a música, se estreita uma relação – da amizade para o namoro, e grava na memória de duas pessoas, é de uma preciosidade forte e simbólica. Por isso, essa cena não se apaga ao final de seus quase 3 minutos. Ela volta no incrível e poético final.