25 Fevereiro 2010

Noite Branca

Nuit Blanche from Spy Films on Vimeo.

Noite Branca é um curta-metragem de Arev Manoukian, vencedor do prêmio principal do LG Film Fest Contest. Impressiona a fotografia, a trilha sonora, a edição e os efeitos, mas o roteiro é o grande espetáculo. Não é do perfil do blog postar curtas assim, mas esse merece o destaque.

24 Fevereiro 2010

Educação

An Education – Lone Scherfig – 2009 (Cinemas)

Se existe uma mulher que merecia uma indicação ao Oscar, ela chama-se Lone Scherfig.

Dinamarquesa de Copenhagem, Lone foi à única mulher do movimento liderado por Lars Von Trier, Dogma 95, com seu début cinematográfico e ótimo Italiano para Principiantes (2000).

Quando somos adolescentes nosso principal desejo é participar do círculo dos adultos de festas, viagens, namoros e bebidas. No começo dos anos 60, no frio e conservador subúrbio londrino, o sonho disso tudo se resumia a uma palavra, Paris. Para Jenny (a excelente Carey Mulligan), a cidade francesa é muito mais que isso, é uma idéologie, congregada na língua, na música, no cinema e no estilo de vida.

Seus pais (interpretados pelos ótimos Olivia Williams e Alfred Molina) são obcecados por educação, daí o título do filme. Apesar de terem educado a filha de uma maneira correta, a principal inquiétude deles agora é com a sua vida adulta, e a escolha entre ser uma profissional e ingressar numa renomada universidade, ou uma esposa dedicada.

É nessa duvida que entra o adorável, simpático e buon vivant David (Peter Sarsgaard), um jovem rico que conquista a adolescente com o mundo que ela sonhou, e os pais dela unindo as duas escolhas que os deixam receosos.

O mérito da cineasta é evidente, além das interpretações serem maravilhosas – Mulligan tem 22 anos e interpreta uma menina de 16 com fidelidade –, as imagens de época e as escolhas das tomadas remetem a nouvelle vague, numa clara homenagem ao movimento francês, isso sem perder o foco no roteiro e principalmente no mistério que ronda a personagem de Sarsgaard.

22 Fevereiro 2010

Preciosa

Precious – Lee Daniels – 2009 (Cinemas)

TUDO É UM PRESENTE DO UNIVERSO
Ken Keyes Jr.

É fácil simpatizar com Claireece Precious Jones (Gabourey Sidibe – soberba). Apesar das agruras que passa, é uma sonhadora. Estuprada freqüentemente pelo pai, ela é mãe de uma criança com deficiência e está grávida de outra menina. Sua mãe louca (Mo’Nique – show) a maltrata por julgá-la culpada das aberrações que sofre, além disso tudo, ela ainda sofre com a obesidade.

Mesmo com um tema pesado, Lee Daniels consegue transformar o livro num filme sem melodramas, uma ressalva é a síndrome-da-música-dos-créditos-finais que o diretor parece sofrer no inicio, levou muito tempo para ver acontecer. Levou muito tempo andando em círculos. , Preciosa não recorre ao sensacionalismo barato das minorias para contar a sua já trágica história. Em nenhum momento a protagonista, por ser negra e gorda, se sente melhor ou pior que os outros. Sente-se pior sim por seu abuso familiar.

Segunda película de Daniels e segunda parceria com a atriz Mo’Nique, antes haviam feito o policial Matadores de Aluguel (2005). Preciosa é produzido por Oprah Winfrey e recheado de participações especiais como as dos cantores Mariah Carey e Lenny Kravitz, e a da própria autora do livro em que se baseia.

20 Fevereiro 2010

Cena de Cinema: A Fita Branca

A Fita Branca (Das Weisse Band – Michael Haneke – 2009 – Cinemas)

Alguns cineastas precisam de um verdadeiro aparato tecnológico – trilha sonora, fotografia, maquiagem – para criar um clima de suspense. Outros, como Alfred Hitchocock, precisavam simplesmente usar nossa imaginação. A imaginação do ser humano é poderosa, ela ultrapassa as barreiras da realidade, Michael Haneke sabe disso, talvez por sua formação em psicologia, para o cineasta alemão uma porta fechada pode conter uma imagem de violência forte e pesada.

A mãe e mulher do pastor corta e enrola dois pedaços de fita branca. Parece enxugar uma lágrima. Primeiro chama Klara no andar superior e depois abre uma porta para chamar Martin, seus dois filhos mais velhos. Eles já sabem do que se trata, cabisbaixos acompanham a mãe até o fim do corredor e entram na porta em frente. A câmera de Haneke fica imóvel no começo do corredor, sua marca registrada, mostrando a porta fechada.

Passam 10 segundos de um silêncio absoluto e ela se abre. Martin sai e entra em outro cômodo da casa, a câmera o acompanha. Ele sai de lá segurando algo. A câmera se posiciona no seu lugar novamente, imóvel, e vê-se que o adolescente carrega uma vara. Ele entra novamente na porta do fim do corredor e fecha. Mais 26 segundos, mas dessa vez o silêncio absoluto é quebrado pelo som da vara batendo em algo e os gritos de dor de lá emanados.

19 Fevereiro 2010

Diálogos: A Fita Branca

Essa é uma outra cena crucial do filme, a facilidade de Michael Haneke em escrever diálogos tão pesados, mas tão verdadeiros, impressiona. Talvez seja um dos momentos mais importantes porque virou capa do pôster do filme, belíssimo por sinal. O choro do adolescente pode até parecer comédia, mas o resultado, principalmente na vida adulta, não tem nada de engraçado.

Escrito por Michael HanekeA Fita Branca – ALE (2009)

INT. ESCRITÓRIO DO PASTOR. DIA.

- ...sua mãe e eu ficamos muito preocupados com você. Pense bem. Você dormiu mal? Está muito cansado?
- Não
- Tem problemas na escola que eu não saiba?
- Não pai.
- Você não entende porque nos preocupamos. Vou lhe explicar. Como sabe, também sou o Pastor em Birkenbrunn. Um dia, uma mãe veio me ver, com um filho que tinha a mesma idade que você, e os mesmos sintomas que você vem mostrando ultimamente. O garoto, de repente, apareceu extremamente fatigado. Seus olhos tinham olheiras, estava deprimido e sem alegria. Ele evitava olhar seus pais nos olhos, e logo, ele também caiu doente. Isso continuou por meio ano. Então, tudo aconteceu muito depressa. Ele perdeu o apetite, não conseguia mais dormir, suas mãos começaram a tremer, sua memória começou a falhar, seu rosto se encheu de pústulas, e depois o corpo todo. Finalmente, ele morreu. O corpo, que eu havia abençoado, parecia o de um homem velho. Entende agora por que me preocupo? O que acha que causou aquelas mudanças que levaram o garoto a ter um fim tão miserável?
- Não sei.
- Acho que você sabe muito bem. Não vai me dizer? Não? Então vou lhe dar a resposta. O garoto tinha visto alguém, que danificou os mais delicados nervos do seu corpo, na área onde Deus levantou sagradas barreiras. O garoto repetia esse gesto. Ele não conseguia parar mais. No final, ele destruiu todos os seus nervos e morreu disso. Só quero ajudar você. Eu amo você com todo meu coração. Seja sincero, Martin. Porque ficou ruborizado ao ouvir a história do pobre garoto?
- Ruborizado? Não sei. Senti pena dele.
- Só isso? Acho que existe um outro motivo. Está escrito no seu rosto. Seja sincero, Martin! Por que está chorando? Devo poupa-lo de uma confissão? Você tem feito a mesma coisa que aquele pobre coitado?
- Sim.

11 Fevereiro 2010

A Fita Branca

Das Weisse Band – Eine Deutsche Kindergeschichte – Michael Haneke – 2009 (nos melhores cinemas do país)

Acredito que o cinema possa mudar um pensamento. Acredito que o cinema é educação, ele tem esse viés, mas para acreditar nisso, preciso também acreditar que ele pode ser usado para o mau. Temos exemplos disso, Hitler o utilizava invariavelmente para seus objetivos.

Não sei se a história que quero contar a vocês é inteiramente verdadeira. Parte dela eu só conheço por ouvir falar. Depois de muitos anos, várias coisas permanecem obscuras, e muitas perguntas continuam sem respostas. Mas acho que devo contar os estranhos acontecimentos que sucederam em nossa aldeia. Quem sabe, eles poderiam esclarecer algumas coisas que ocorreram neste país. Acho que tudo começou com o acidente ocorrido com o médico. Depois de uma sessão de adestramento na propriedade do Barão, ele se dirigia para a casa para ver se alguns pacientes haviam chegado. Ao entrar no jardim, seu cavalo tropeçou em um arame estendido entre duas árvores. Sua filha viu o acidente da janela de casa.
Não gosto de sentenças afirmativas e imperativas, mas vou usá-la na minha certeza. Nunca um cineasta discutiu a violência como Michael Haneke. Talvez Stanley Kubrick tenha chegado perto num filme, Laranja Mecânica (1971), o fato é que os dois estão num patamar superior da sétima arte, eles são gênios.A Fita Branca – Uma História de Crianças Alemãs, do título original, foi filmado inteiramente em colorido e foi descolorido em computadores, assim como apagaram detalhes modernos e expressões que não faziam parte da época retratada. Foi imaginado como uma série de TV em três partes, e seu cineasta se recusa a esclarecer qualquer ponto da película, assim como David Lynch e Lars Von Trier, para desespero de alguns jornalistas.

Não entendo a sua indicação e provável premiação do Oscar. Não é o típico filme estrangeiro que a academia costuma premiar, mas isso evidencia minha tese sobre o prêmio. Ele é influenciado por poucos jornalistas que escrevem para a Variety, a bíblia norte-americana do cinema, o resto é rebanho.

O filme discute a violência e seus vários desdobramentos, como o medo, por exemplo. Fiz paralelo com os EUA e o medo do terrorismo. Uma cena bem romântica, e que foge um pouco do teor da película, mostra um casal enamorado numa charrete na estrada, ele desvia do caminho para fazer um piquenique em surpresa para ela, mas a surpresa para ela é negativa, ela se assusta e pede que ele volte. Ele volta, mas antes diz que nada tinha em mente de errado, ela acredita e lhe dá o primeiro beijo do casal, e único do filme. Haneke prova que a couraça do medo impede que as belas coisas da vida aflorem. Como já disse Charles Chaplin, "A vida é maravilhosa se não se tem medo dela".A fita branca era amarrada no cabelo ou no braço dos meninos. A cor branca era para lembrá-los sua inocência e pureza. Haneke utiliza o cinema como psicologia olhando nos olhos dos espectadores. Ele não lhe diz o que é certo ou errado, mas coloca-nos para pensarmos o que é certo ou errado, e utiliza a fita branca para lembrarmos que um dia fomos crianças e que tudo que somos hoje não é parte da nossa natureza, e sim de nossa educação.

10 Fevereiro 2010

Títulos que não Intimidam

Existem filmes, poucos na verdade, que atraem pelo título. Geralmente ficam em nossa cabeça, atrai de uma forma inesperada. Alguns cineastas têm o dom para criar nomes de películas, Pedro Almodóvar, Os Irmãos Coen, Alfred Hitchcock. Outros até criam nomes espetaculares para suas produções, mas ai vem à distribuidora e adota outro, assassinando a obra do autor, caso de De Olhos Bem Fechados de Stanley Kubrick, que deveria ser chamado Olhos Escancaradamente Fechados.

Um título é quase uma obra. No inicio de sua carreira, o cineasta Paul Thomas Anderson brigou até o último momento com a produtora para nomear seu primeiro filme de Sydney, os executivos não queriam, pois alegavam que confundiriam com o Estado, claro que PTA perdeu a batalha e o filme foi batizado de Hard Eight, aqui se chamou Jogada de Risco, que já possui 353 filmes com esse nome.

Enfim, não estamos aqui para falar do lado negativo, viemos para mostrar os 10 melhores títulos originais de filmes, isso leva em conta o nome criado em sua língua original e traduzido literalmente para o nosso português. E aqui vai a lista:

1. Meu Irmão é Filho Único (2007) – ITA – Daniele Luchetti

2. Esse Obscuro Objeto do Desejo (1977) – FRA – Luis Buñuel

3. Perdoa-me por te Traíres (1980) – BRA – Braz Chediac

4. O Discreto Charme da Burguesia (1972) – FRA – Luis Buñuel

5. O Homem que não Estava Lá (2001) – EUA – Irmãos Coen

6. E La Nave Va (1983) – ITA – Federico Fellini

7. Laranja Mecânica (1971) – EUA – Stanley Kubrick

8. Mulheres a Beira de um Ataque de Nervos (1988) – ESP – Pedro Almodóvar

9. Singularidades de uma Rapariga Loura (2009) – POR – Manoel de Oliveira

10. O Homem que Sabia Demais (1934) – ING – Alfred Hitchcock

Ficaram de fora, mas receberam nomes originais de nossos tradutores, O Primeiro Ano do Resto de nossas Vidas (St. Elmos Fire) e Nunca te vi, Sempre te Amei (84 Charing Cross Road).
Menções dos comentários: Faça a Coisa Certa, A Insustentável Leveza do Ser (belissímo), A Última Tentação de Cristo.

* Crédito da foto que ilustra o post de Marty Hergert.

04 Fevereiro 2010

Guerra ao Terror

The Hurt Locker – Kathryn Bigelow – 2008 (DVD)

O calor da batalha é um vício freqüente, potente e letal, na guerra é uma droga.
- Chris Hedges


Kathryn Bigelow comunga com Barack Obama da mesma opinião, eles são favoráveis ao envio de mais soldados para o Iraque. Acham que só assim teremos paz por aquelas bandas. O problema é que eles “esquecem” de que não há mais inimigos no país. O problema do Iraque agora é problema dos iraquianos. Mas esse não é o grande defeito de Guerra ao Terror, pelo contrário, esse é o único ponto positivo do longa, corretamente lançado apenas em DVD, porque ao colocar essa discussão, Bigelow mostra a opinião da maioria da nação norte-americana, discutir é bem vindo e oportuno.

Guerra ao Terror, a tradução é tão boa quanto o filme, não tem profundidade, se alimenta das cenas nervosas de desarmar bombas que, de tão repetitivas tornam-se clichês, alias o que a diretora foge o tempo todo, mas acaba se tornando presa de sua própria armadilha. A ex-esposa do trilionário James Cameron mostra logo de inicio seu horror com clichês. Ela escala atores famosos só para matá-los em seguida.

Inteiramente filmado na Jordânia, a produção foi impedida de gravar no Iraque pelo exército norte-americano, segundo James Cameron é o Platoon (1986) da Guerra do Iraque, é dele a idéia de colocar a ex-mulher para dirigir esse filme, portando Cameron é o grande nome do Oscar. Possui a maior quantidade de prêmios por um filme, Titanic (1997), e na edição atual, os dois filmes que mais possuem indicações, nove ao todo, são Guerra ao Terror e Avatar. Mr. Oscar James Cameron, nada mais apropriado para um prêmio tão comercial.

Guerra ao Terror foi cortado dos lançamentos comerciais do cinema de 2008/09 por não ter apelo comercial para distribuição. Foi lançado diretamente em DVD atrás dos aficionados por filmes de guerra. É uma produção que se não desembarcar-se aqui não sentiríamos falta nenhuma.

02 Fevereiro 2010

Nine

Nine – Rob Marshall – 2009 (Cinemas)

Durante a coletiva de imprensa do filme, os jornalistas esperavam ansiosos para conhecer mais de Nine, o diretor, porém não queria passar nenhuma informação. Cada vez que falamos do filme ele morre, dizia ele num inglês carregado de sotaque italiano. Dissertando sobre o prejuízo que se tem quando o cineasta fica comentando sobre sua obra, ele é questionado sobre sua massa preferida. Enfim uma pergunta séria! Grita para todos caírem na gargalhada. A cena é a abertura de Nine, mas dá para enxergar, no imaginário cinéfilo de todos nós, a figura de Federico Fellini.

Tenho uma imensa lacuna como cinéfilo, não vi (1963). Talvez seja até imperdoável esse crime, mas a verdade é que Nine vai me fazer amenizar isso, pois meu próximo filme a ser visto será (1963) de Federico Fellini.Quem acompanha o Museu sabe de minha paixão pelo cinema italiano. Eu amo o preto e branco, eu amo as luzes e iluminação, o modo como o cineasta coloca uma imagem num prisma, e enxergo neo-realismo em tudo, eu amo o cinema italiano, como diz a letra da belíssima música “Cinema Italiano”, maravilhosamente interpretada – pra minha surpresa – por Kate Hudson. Nine é carregado de cinefilia, é uma justa homenagem ao cinema italiano, e um tributo a Federico Fellini.Nine surgiu primeiro como uma peça de teatro, já encenado por Raul Julia e Antonio Banderas, ganhou um roteiro de Anthony Minguella antes de vir a falecer. Sua sinopse segue a mesma de (1963), um cineasta em crise criativa vai enrolando produtor, equipe e atriz enquanto se refugia e tem alucinações com as mulheres de sua vida. Ou seja, uma biografia da vida de Federico Fellini.As mulheres do filme é um assunto à parte. Kate Hudson, interpretando uma jornalista secundária, nos brinda com uma performance digna de diva da música. A cantora Fergie, interpretando uma prostituta secundária, nos brinda com uma performance digna de diva do cinema. Sophia Loren, como a mãe do pequeno Guido, nos brinda com sua presença, precisa mais que isso? A Dama Judi Dench, atriz irretocável, interpreta a figurinista do diretor, imaginem vocês que ela até canta muito bem, uma atriz pra lá de completa. Penélope Cruz até parece estar num filme de Pedro Almódovar. Interpreta a amante de Guido. Já Nicole Kidman faz a musa dele, está linda e radiante, fez o filme logo após o nascimento de sua filha. E claro, Marion Cottilard, dignificando Giulietta Masina, sua presença é garantia de qualidade. Mas o filme é de Daniel Day-Lewis. Ele nos dá mais um show. Talvez a melhor de sua nada humilde carreira, Guido Contini possui a elegância, a inteligência e o drama criativo de Federico Fellini.Também não poderia deixar de falar do australiano Dion Beebe, o diretor de fotografia da pelicula. Seu trabalho é primoroso. As imagens saltam da tela, os flashes pipocam como estrelas no céu, as lantejoulas brilham como vagalumes no escuro, não sei definir o que é mais bonito, se o colorido do filme, ou o preto e branco. Um trabalho para se guardar definitivamente. De onde Gianni Di Venanzo, diretor de fotografia de (1963), estiver, estará aplaudindo. Assim como il maestro.
Video de Cinema Italiano, com imagens do filme: