11 fevereiro 2010

A Fita Branca

Das Weisse Band – Eine Deutsche Kindergeschichte – Michael Haneke – 2009 (nos melhores cinemas do país)

Acredito que o cinema possa mudar um pensamento. Acredito que o cinema é educação, ele tem esse viés, mas para acreditar nisso, preciso também acreditar que ele pode ser usado para o mau. Temos exemplos disso, Hitler o utilizava invariavelmente para seus objetivos.

Não sei se a história que quero contar a vocês é inteiramente verdadeira. Parte dela eu só conheço por ouvir falar. Depois de muitos anos, várias coisas permanecem obscuras, e muitas perguntas continuam sem respostas. Mas acho que devo contar os estranhos acontecimentos que sucederam em nossa aldeia. Quem sabe, eles poderiam esclarecer algumas coisas que ocorreram neste país. Acho que tudo começou com o acidente ocorrido com o médico. Depois de uma sessão de adestramento na propriedade do Barão, ele se dirigia para a casa para ver se alguns pacientes haviam chegado. Ao entrar no jardim, seu cavalo tropeçou em um arame estendido entre duas árvores. Sua filha viu o acidente da janela de casa.
Não gosto de sentenças afirmativas e imperativas, mas vou usá-la na minha certeza. Nunca um cineasta discutiu a violência como Michael Haneke. Talvez Stanley Kubrick tenha chegado perto num filme, Laranja Mecânica (1971), o fato é que os dois estão num patamar superior da sétima arte, eles são gênios.A Fita Branca – Uma História de Crianças Alemãs, do título original, foi filmado inteiramente em colorido e foi descolorido em computadores, assim como apagaram detalhes modernos e expressões que não faziam parte da época retratada. Foi imaginado como uma série de TV em três partes, e seu cineasta se recusa a esclarecer qualquer ponto da película, assim como David Lynch e Lars Von Trier, para desespero de alguns jornalistas.

Não entendo a sua indicação e provável premiação do Oscar. Não é o típico filme estrangeiro que a academia costuma premiar, mas isso evidencia minha tese sobre o prêmio. Ele é influenciado por poucos jornalistas que escrevem para a Variety, a bíblia norte-americana do cinema, o resto é rebanho.

O filme discute a violência e seus vários desdobramentos, como o medo, por exemplo. Fiz paralelo com os EUA e o medo do terrorismo. Uma cena bem romântica, e que foge um pouco do teor da película, mostra um casal enamorado numa charrete na estrada, ele desvia do caminho para fazer um piquenique em surpresa para ela, mas a surpresa para ela é negativa, ela se assusta e pede que ele volte. Ele volta, mas antes diz que nada tinha em mente de errado, ela acredita e lhe dá o primeiro beijo do casal, e único do filme. Haneke prova que a couraça do medo impede que as belas coisas da vida aflorem. Como já disse Charles Chaplin, "A vida é maravilhosa se não se tem medo dela".A fita branca era amarrada no cabelo ou no braço dos meninos. A cor branca era para lembrá-los sua inocência e pureza. Haneke utiliza o cinema como psicologia olhando nos olhos dos espectadores. Ele não lhe diz o que é certo ou errado, mas coloca-nos para pensarmos o que é certo ou errado, e utiliza a fita branca para lembrarmos que um dia fomos crianças e que tudo que somos hoje não é parte da nossa natureza, e sim de nossa educação.

15 comentários:

cinefilapornatureza disse...

Uma imagem vale mais que mil palavras, Cassiano??

Museu do Cinema disse...

Ainda não Kamila, ainda não vi o filme! É só uma forma de mostrar que é o filme mais esperado do ano, desde o ano passado.

Pedro Henrique disse...

É um filmaço!!! Mesmo estando no começo do ano, acredito que A Fita Branca estará na minha lá de dezembro.

Rogerio disse...

achei que era mais uma sacada como fizesse em Ensairo sobre a Cegueira.

www.cineresenhas.com disse...

Cassiano, depois dos maravilhosos elogios que li sobre o filme, o verei em breve. Gosto muito do cinema de Haneke.

Obs.: será que o senhor pode dar uma configurada nas suas opções de identidade dos visitantes que comentam, como é o meu caso? É complicado se identificar não tenho conta do Google ou um OpenID adequado.

Abraço!

Alex (www.cineresenhas.com)

Museu do Cinema disse...

Alex, vou tentar resolver isso apesar do senhor. E em breve Haneke fará parte da Sala Vip do Museu, mas antes vem um ainda melhor.

Rogerio disse...

uauu, que dizer que é tudo isso mesmo, ummm.Só pelo P&b já começa na frente.
To ansioso pra conferir.

Kamila disse...

Opa, a crítica do filme! Respondendo à pergunta do início do post: gosto de filmes abertos, gosto de pensar sobre o que o diretor nos mostra e me parece ser este o caso de "A Fita Branca". Assim como você, acho que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, para o bem e para o mal. E seu lindo texto só faz me deixar com mais vontade de conferir este filme.

PS: A indicação e provável premiação deste filme na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, no Oscar, pode ser justificada pelo fato de que houveram mudanças nos votos dessa categoria. Não somente os velhinhos votam agora. Todo mundo pode dar pitaco.

Fotograma Digital disse...

Um dos meus favoritos de 2009, sem dúvida. Poderoso, impactante e doloroso, pois os culpados não são os que governam, mas sim os que os sustentam.

Meu Bebê disse...

Cassiano, o filme é realmente muito bom. Obrigada pela indicação. Você nunca erra.

Pedro Henrique disse...

Sim e não. Mas sim!

CINECLUBE01 disse...

Esse vai ser um dos melhores filmes do ano. Não assisti mas promete. E se é um filme que nos faz pensar melhor ainda. Acesse: http://cineclube01.blogspot.com/
Podemos fazer uma parceria entre os blogs

Ramon disse...

Nossa, cara... não sou gaúcho, mas sou obrigado a falar: "Bá, trilegal!".
Parece ser um ótimo filme. Vou conferir logo que possível.

Gosto muito do Haneke.

Abs!

Otavio disse...

Sim e não. Depende do filme. Depende de como e para onde o filme me leva.

Bom, mas Michael Haneke, para mim, é o melhor diretor europeu fazendo filmes... europeus.

Abs!

Reinaldo Glioche disse...

Espero que já tenha visto o filem. É um assombro. Um dos melhores filmes do ano e um dos melhores da atual safra do Oscar. E que o Oscar é influenciado pela critica, isso é fato. Ou então Guerra ao terror permaneceria um ilustre desconhecido!
ABS