27 Janeiro 2011

Um Lugar Qualquer

Somewhere – Sofia Coppola – 2010 (Cinemas)

Sou fã da cineasta Sofia Coppola, gostei e vi todos os seus filmes. Dito isso vou abrir um espaço aqui para esculhambar seu novo filme. Sofia é uma crítica contumaz da atual geração. Todos os seus filmes, dirigidos e roteirizados por ela, tem essa vertente, o que se explica por cultuar cineastas do quilate de Federico Fellini e Michelangelo Antonioni.

Um Lugar Qualquer peca justamente pela falta de crítica. Johnny Marco (Stephen Dorff) pode ser um péssimo profissional, mas é um excelente pai, sua filha adolescente, interpretada pela irmã de Dakota Fanning, Elle, simplesmente adora o pai, e seus momentos com ela o despertam da letargia que marca as personagens de Sofia. Não existe uma crítica sequer a ser feita para Johnny, portanto seu comportamento é inverossímil.

Visualmente a película é muito bem feita. Foi filmado no famoso Hotel Chateau Marmont que fica no bairro mais chique de Hollywood, e onde as celebridades adoram aparecer, a própria diretora é habitué do hotel.

Sofia parece mais interessada nas belas tomadas, nas belas panorâmicas, ou em cenas abstratas vazias, como a do início do filme em que a Ferrari dá cinco voltas em frente à câmera estática. A cineasta só esquece que, tanto Fellini quanto Antonioni usavam o abstrato para fazer o espectador pensar. Sofia prefere o tédio.

25 Janeiro 2011

Além da Vida

Hereafter – Clint Eastwood – 2010 (Cinemas)

Todos nós iremos morrer. Dessa verdade ninguém escapa. Então mais do que curiosidade, essa atração pelo o que vem depois é absolutamente inerente ao ser-humano. E como tudo que envolve o desconhecido existem aqueles que exploram isso para ganhar dinheiro, e outros que fazem um trabalho muito bonito, principalmente em relação aos parentes do que já partiram.

Clint Eastwood está, obviamente, nos que fazem um trabalho bonito.

E numa cena em especial ele deixa isso claro, e também serve de exemplo, é quando a personagem de Matt Damon que interpreta um médium recebe o garoto Marcus que acabara de perder o irmão gêmeo. Desesperado por não mais ter o irmão do lado, Marcus procura uma resposta, o vidente perde o contato com o morto, mas acaba por lhe deixar uma mensagem positiva que o menino procurava ouvir.

E assim o cineasta também faz com seus espectadores, não tem como não deixar o cinema carregando um sentimento bom, e de quebra maravilhado com a trilha sonora, composta por ninguém menos que o próprio Clint. Se a melhor trilha do ano passado foi de Ennio Morricone em Baarìa (2009), a desse ano é de seu amigo Clint Eastwood, e o ano acabou de começar.

21 Janeiro 2011

O Turista

The Tourist – Florian Henckel Von Donnersmarck – 2010 (Cinemas)

Eu não sou e nunca serei contra o entretenimento puro e simples. O chamado filme-pipoca tipicamente hollywoodiano. Sou contra sim inflacionar o mercado impossibilitando gênios como Paul Thomas Anderson fazer um filme porque não tem orçamento. E sou contra também blockbusters vendido por críticos como arte.

O cineasta alemão Florian Henckel Von Donnersmarck ganhou um Oscar por A Vida dos Outros (2006) e um telefonema de Angelina Jolie.

O Turista é um belo filme, e o adjetivo aqui se refere às imagens da linda e charmosa Veneza, uma cidade cercada pelo mar, mas você (eu não acho) pode também usar a palavra para referir-se ao casal de protagonistas.

Henckel consegue fazer de uma trama insossa (polícia caça terrorista vigiando sua mulher), uma película que prende a atenção e foge dos clichês, apesar de em alguns momentos ser impossível escapar.

20 Janeiro 2011

Você vai conhecer o Homem de seus Sonhos

You Will Meet a Tall Dark Stranger – Woody Allen – 2010 (Cinemas)

Anthony Hopkins
Josh Brolin
Naomi Watts
Freida Pinto
Antonio Banderas

Dirigidos por
Woody Allen

“A vida é um conto, narrado por um tolo, cheia de som e fúria significando nada”. Shakespeare

Não troco essa fase européia de Woody Allen por nenhum filme anterior. Por menor que seja a película, ainda assim é um filmaço. Pode ser os ares do velho continente, mas pode também ser a maturidade artística.

Você vai conhecer o Homem de seus Sonhos traz a grife Allen renovada desde Matchpoint (2005).

Todos sabem da adoração do cineasta por Doistoievski e, em seu momento atual, ele faz questão de pincelar seus filmes com a obra mais famosa do escritor. Pode ser com traços leves como fez em Vicky Cristina Barcelona (2008), ou com traços pesados em O Sonho de Cassandra (2008), a certeza é que a influência do autor de Crime e Castigo está cada vez mais explícita e decorativa em sua filmografia. E isso está sensacional.

A história gira em torno de uma cartomante charlatã que passa a influenciar a vida de uma senhora (Gemma Jones) que foi dispensada pelo marido (Anthony Hopkins). Genial ver Allen manipulando os acontecimentos de forma a nos provar que as visões da vigarista se realizam graças à fé dos discípulos.

15 Janeiro 2011

Bravura Indômita

True Grit – Joel e Ethan Coen – 2010 (11 de fev. nos cinemas)

Os ímpios (ateus) fogem sem ninguém a persegui-los.
Provérbios 28;1

Ninguém acreditava que Joel e  Ethan Coen poderiam fazer um filme que entrasse no hall das grandes obras-primas do cinema. Mas, aconteceu;

Ninguém acreditava que Jeff Bridges conseguiria mais uma interpretação visceral e incontestável apenas alguns meses depois de Coração Louco (2009). Mas, aconteceu;

Ninguém acreditava que Carter Burwell e Roger Deakins fossem superar seus trabalhos primorosos em Fargo (1996) e O Homem que não Estava lá (2001), respectivamente. Mas, aconteceu;

Ninguém acreditava que uma menina tão nova poderia sair de casa, durante o inverno, para vingar a morte de seu pai. Mas, aconteceu.

Deve pagar por tudo nesse mundo, de uma forma ou de outra. Nada é de graça, exceto a graça de Deus.

Fora de registro. Existem mercenários que mesmo amando o dinheiro conseguem passar pela vida de cabeça erguida. Ouça aqui a bela música que encerra o filme cantada por Iris Dement,  chama-se Leaning On The Everlasting Arms.
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Diálogos de Reuben Rooster Cogburn

- O sanitário está ocupado!
- Eu sei, Sr. Cogburn. Como disse tenho negócios com você.
- Tenho que tratar desse negócio primeiro.

Não preciso comprar, posso confiscar. Sou um oficial da lei.

07 Janeiro 2011

Melhores de 2010

Enfim chegou o dia de colocarmos os pingos nos is. Nesse mês me peguei vendo muitos filmes para não cometer injustiças aqui. Eis a minha escolha em ordem decrescente:

Se o noir ainda existisse ele seria hoje como O Segredo de Seus Olhos. O filme argentino é incrível e se desenrola fácil através de sua duração de um pouco mais de 2 horas. Juan José Campanella se afirma como o maior realizador do cinema portenho e ainda produz uma cena espetacular.

O Profeta. O filme francês é arrebatador. Sua linguagem cinematográfica lembra os grandes policiais, em especial os sobre a máfia estadunidense, porém o filme ainda é um soco na política de separatismo que impera atualmente na Europa.

Esculhambei Christopher Nolan por Batman. E ainda continuo esculhambando. É clichê. Em A Origem parece que ele me leu, se contar para você o filme todo, de cabo a rabo, quando for ver será pego de surpresa. Nolan conseguiu fazer de uma trama embaralhadora, um filmão cheio de originalidade e, sinceramente, é a cara do diretor de Amnésia (2000).

Agora é que o bicho pega, mas pela primeira vez resolvi decretar empate. Baarìa e A Fita Branca são películas completamente diferentes que se igualam na perfeição técnica do que chamo de cinema. A 7ª arte para mim é a junção de emoção com conteúdo, e essas obras-primas estão carregadas disso. A emoção de Baarìa é tanta que chega a extrapolar. Ao som de Ennio Morricone e a melhor trilha do ano então. Já A Fita Branca opta pelo conteúdo. E é incrível e gostoso vê-lo como unanimidade entre críticos e blogueiros. A emoção do filme de Haneke é ver o cinema como meio de expurgar o passado (a Alemanha está mudando, é só olhar pro futebol deles), enquanto que o conteúdo da obra de Giuseppe Tornatore é a simplicidade de uma “lifetime” (me desculpem, mas não consegui achar uma tradução que se encaixe, e simplesmente adoro essa palavra).

Ano passado Mickey Rourke foi o convidado de honra do Museu para divulgar os filmes devido a sua atuação espírita em O Lutador (2009). Esse ano o destaque é o cineasta alemão Michael Haneke, além de enxergarmos a violência com o mesmo olhar, o cinema de Haneke me atrai muito pelo aspecto cinematográfico, fotográfico e técnico, ele faz cinema como se fosse simples e sua simplicidade, seu desprendimento realiza obras que só assim podem ser consideradas perfeitas.

06 Janeiro 2011

Tio Boonmme, que Pode Recordar suas Vidas Passadas

Lung Bunmi Raluek Chat – Apichatpong Weerasethakul – 2010 (Cinemas)

Vous pouvez aller travailler maintenant.

Começando pelo terror, passando pela comédia e terminando no onírico, assim podemos definir o vencedor de Cannes 2010, Tio Boonmme, que Pode Recordar suas Vidas Passadas.

Sua inesperada vitória em Cannes deve-se ao presidente do júri, o cineasta norte-americano Tim Burton, dá pra imaginar ele aliciando o resto do júri para agraciar o filme. Tio Boonmme é a cara de Burton.

Um dos grandes trunfos do diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul (ctrl+c ctrl+v) são suas câmeras estrategicamente posicionadas e estáticas, assim ele consegue assustar criativamente, fazer graça em certos momentos e imprimir um ritmo lento. Obviamente que isso vai de encontro a geração fast life, mas é muito bom saber que ainda se faz filmes assim, mesmo que na Tailândia.

Você pode ir pro trabalho agora.

04 Janeiro 2011

O Profeta

Un Prophète – Jacques Audiard – 2009 (DVD)

Atualmente a França vive uma crise de identidade assustadora. Grande parte da população não nasceu no país, uma outra grande parte são filhos de imigrantes e claro os franceses puros. Só em dizer essa frase já mostra a segregação que vive o país, e isso reflete em todos os segmentos da sociedade.

Na prisão, esse mundo não é diferente.

Malik (Tahar Rahim) é um jovem de origem árabe preso por alguma besteira que não fica claro. No cárcere, sob divisões étnicas, ele se envolve com o chefão da máfia da Córsega e flerta com o grupo de muçulmanos.

A máfia é outro ponto que o cineasta Audiard explora. Não à toa os críticos adoram comparar o filme a O Poderoso Chefão (1972). Em comum o clima de violência a qualquer segundo e o clássico da música  mafiosa Mack the Knife.

02 Janeiro 2011

Baarìa

Pietro, Pietro, Pietrozino, brincando de rodar o peão
Vai pegar cigarros para ganhar 20 liras
E vai voando, voando, voando.

Do alto se enxerga melhor, do alto a visão é mais bela
A cor creme da areia parece branco
E Bagheria é perfeita com suas vidas e vielas.

Baarìa – Giuseppe Tornatore – 2009 (Cinemas)

Giuseppe Tornatore é um poeta. Talvez os maiores poemas em homenagens ao cinema, a mulher, e aos pais foram feitos por ele, mas com a mais absoluta certeza, e quem me conhece sabe que odeio fazer afirmações como essa, o maior poema já feito para a cidade de Bagheria é dele, já que dura cerca de 2 horas e meia. Porém a certeza mais certa, desculpem a insistência do pleonasmo, é que Baarìa é o mais belo poema que a pequena cidade siciliana terá.

Compro dólares!

Assistir filmes dos grandes diretores do cinema é como ir ver um jogo de futebol de um grande craque, ai você adiciona Ennio Morricone e só vem a minha cabeça Pelé e Garrincha. Assim funciona o filme, enquanto Tornatore nos mostra imagens perfeitas como a da mãe, seus filhos e a avó se deitando no chão da sala visto por cima num perfeito quadrado, Morricone põe a orquestra para tocar mais uma melodia que entra por nossos ouvidos e permanece em nossos corações para sempre.

Compro dólares!

Baarìa que significa a porta do vento em árabe, e é como os moradores chamam a cidade de Bagheria, é cinema na sua essência mais profunda, numa cena um garoto troca figurinhas por pedaços de película, coloca-as contra o sol e vai adivinhando o filme pela cena impressa ali. É incrível a capacidade do diretor italiano em construir poesia com imagens. Eu que já achei que ele tinha feito de tudo com Cinema Paradiso (1988), voltei-me a surpreender e emocionar-me. Giuseppe Tornatore fez um filme maravilhoso, belo e simples, e quando achamos que acabou, as lágrimas escorrem do rosto feito cachoeira.

Compro dólares!

Eu quero o seu cavalo: Ola, não ouve? Acrescentou Orlando, e com furor se moveu. Trazia um bastão nodoso, espesso e forte, aquele pastor consigo, e o paladino o abateu. A raiva e a ira ultrapassaram os modos do conde e pareceu mais soberbo do que nunca fosse. Na cabeça do pastor um punho acerta que rompe o osso, e morto cai por terra. Monta o cavalo, e por diversa aleia vai percorrendo, e a muitos lhe saqueia. Não agrada o cavalo nem o feno nem aveia, tanto que em poucos dias resta fraco, mas não é que Orlando a pé siga andando pois condução quer obter matando, e quantas achou, tantas em uso pegou porque os seus proprietários assassinou.

Piada interna de cinéfilos; a mosca do filme é interpretada por Moscata Ziu, em sua filmografia o clássico Era uma Vez no Oeste (1968).