29 Janeiro 2010

Invictus

Invictus – Clint Eastwood – 2009 (Cinemas)

William Ernest Henley foi um poeta britânico do século 19. Filho de um vendedor de livros aos 18 anos teve que sustentar a mãe e seus irmãos mais novos, após a morte do pai. Dois anos antes ele escreveu um poema que o marcou para sempre. O nome do poema era Invictus (do latim invencível), e ele foi escrito na cama do hospital onde se encontrava internado para ter a perna amputada.

Invictus é o novo filme do cineasta Clint Eastwood, que tem se tornado um especialista em contar histórias reais carregadas de dramaticidade, mas coberta com o verniz de sua educação, sua personalidade ilibada e, principalmente, pelas escolhas que fez na vida.

Clint se tornou hoje em Hollywood um ícone de elegância nos gestos e nas palavras. Um homem carregado de cultura, mas forte de modéstia. Um diretor que usa o quase sussurro para dirigir. E assim são seus filmes mais recentes.

Prestes a completar 80 anos, Clint Eastwood nos traz a história de Nelson Mandela, o pacifista e ex-presidente sul africano que liderou o movimento contra o apartheid, e que possuí a força de um Ghandi ou de um Martin Luther King.

A película parte dos primeiros dias de Mandela como presidente da África do Sul, onde ele tinha duas saídas, ou governava para os negros, ou continuava governando para os brancos. Mandela encontrou uma terceira saída, o rúgbi.

É difícil deixar de fazer um paralelo entre Nelson Mandela e Barack Obama. Ambos são ganhadores do prêmio Nobel da paz, são negros e foram e são, respectivamente, lideres de seus países. Mandela fez o impossível, Obama nem a possível diminuição de emissão de poluentes. Mandela promoveu a paz fazendo os inimigos lutarem juntos, Obama quer provar que promove a paz enviando mais soldados para lutar contra os "inimigos".

INVICTUS

Da noite que me cobre,
Negra como um poço de alto abaixo,
Agradeço quaisquer Deuses que existam
Pela minha alma inconquistável.

Na garra cruel da circunstância
Eu não recuei nem gritei.
Sob os golpes do acaso
Minha cabeça está sangrenta, mas ereta.

Além deste lugar de fúria e lágrimas
Só o eminente horror matizado,
E contudo a ameaça dos anos
Encontra e encontrar-me-á, sem temor.

Não importa a estreiteza do portão, ¹
Quão cheio de castigos o pergaminho, ²
Sou o dono do meu destino:
Sou o capitão da minha alma. ³

Trad. para Português de Luís Eusébio

¹Alusão a Mateus 7:13-14; ² Referência à Biblía; ³ Declaração ateísta

26 Janeiro 2010

Amor sem Escalas

Up in the Air – Jason Reitman – 2009 (Cinemas)

Vamos ser práticos.

Ponto negativo: Previsibilidade.
Ponto positivo: Anna Kendrick.

Imagine por um segundo que você está carregando uma mochila. Coloque nela todos os DVDs de filmes que você já viu na vida. Agora tire todos os fracos e que não lhe trouxeram nada de interessante. Sente a alça pesando sobre seus ombros?

Up in the Air é um filme do gênero Cameron Crowe. Talvez o mais correto seria ele fazer esse filme, Jason, por mais esforçado que seja, nunca vai estar no primeiro escalão hollywoodiano. Porém Jason é honesto, apesar de que aqui ele se leva a sério demais, ao contrário de Juno (2007) e Obrigado por Fumar (2005).

Jason se levou a sério demais por mexer no excelente livro que deu origem ao filme, que mostra o protagonista pegando um câncer, fatalidade que se mostra encaminhada pela vida que ele leva. Jason resolveu apagar isso no seu roteiro e quebrou a finalidade.

Enquanto isso, a película se transforma em veículo para George Clooney mostrar todo seu charme que a crítica adora batizar de “Cary Grant appeal”, interpretando o executivo que vive 43 dias do ano em sua casa vazia, e nos outros 322 dias demitindo pessoas que não conhece pelo país afora. Também serve para a atriz Vera Farmiga, de Os Inflitrados (2006), mostrar curvas e bumbum que não lhe pertencem. E a quase novata, Twilight não conta, Anna Kendrick roubar o filme. Odeio estar na posição de ir a favor da maré, mas dessa vez tenho que concordar com os críticos, a menina arrasa no papel da executiva trainee boçal.

25 Janeiro 2010

O Desprezo

Le Mépris – Jean-Luc Godard – 1963 (DVD)

- Sempre que ouço a palavra cultura, eu pego meu talão de cheques. (Jeremy Prokosch – o produtor)
- Alguns anos atrás, alguns terríveis anos atrás, os nazistas usavam um revólver ao invés do talão de cheques. (Fritz Lang – o diretor)

Ao fundo se enxerga a silhueta de uma mulher lendo um livro e sendo acompanhada, no seu lado esquerdo, por uma equipe de filmagem no trilho. Os créditos iniciais começam a surgir e são narrados pela inconfundível voz do diretor Jean-Luc Godard.

Com essa introdução original Godard nos avisa que seu filme não vai seguir o protocolo. Normal, vindo de um dos criadores da nouvelle vague.

Inspirado na novela Il Disprezzo do escritor romano Alberto Moravia, O Desprezo foi aclamado pela crítica e considerado um dos grandes filmes do genial e provocativo cineasta. A película traz uma participação inusitada e especialíssima, a do diretor alemão Fritz Lang, interpretando a si mesmo.

Carregado do universo do cinema, rodado nos estúdios cinecittà, Le Mépris possui o ar de cinema já em sua trama. O roteirista Paul Javal (Michel Piccoli) vai a Roma trabalhar na adaptação de A Odisséia, do diretor Fritz Lang. Porém sua vida pessoal passa por problemas com sua esposa, a bela Camille (Brigitte Bardot). O casal se encontra numa teia de ciúmes e indiferença.

Durante as filmagens do longa, Brigitte Bardot sofreu demais com o assédio dos paparazzi italianos, que não mediam esforços para flagrar a maior diva do cinema naqueles tempos. BB teve problemas sérios com os fotógrafos de celebridade durante toda a sua vida. Recentemente a atriz afirmou que sua aproximação dos animais, ela possui uma infinidade de gatos e cachorros, foi por conta de estar sempre na posição de animal.

Uma das melhores cenas do filme se passa no set de uma produção que fora filmada nos lendários estúdios da cinecittà, se enxerga toda a frente das casas que imitam as reais, mas se trata de madeira e sem nada por dentro, é com essa moldura que Camille pega uma carona no Alfa Romeo vermelho e conversível do produtor mercenário norte-americano Jeremy Prokosch (Jack Palance), para desespero de Paul.Outro momento, esse característico do cinema de Godard, é quando o roteirista Paul Javal conversa com o diretor Fritz Lang sobre a novidade do cinemascope, dizendo que adora essa nova tecnologia, e o alemão retruca dizendo que ela não foi feita para filmar humanos e sim cobras e funerais.

O Desprezo pode ser analisado através da personagem de Brigitte Bardot, que estava no auge da beleza e sensualidade, ela representa o cinema, por isso seu encantamento com cinecittà, mas está dividida entre o marido artista, e o produtor norte-americano rico.

19 Janeiro 2010

Vício Frenético

Bad Lieutenant: Porto of Call New Orleans – Werner Herzog – 2009 (Cinemas)

Não vou assistir Avatar. É a minha decisão. A menos que apareça uma cópia pirata em minhas mãos, emprestada obviamente, não verei a maior bilheteria da humanidade e um filme que mudará a estética do cinema. Apesar de tudo isso, e das informações maravilhosas de pessoas que respeito me dizem, minha decisão é que não vou colaborar com 1 centavo, nada, para fazer desse filme o que ele já é.

Avatar não é cinema. Custou 300 milhões de dólares. E teve o retorno dessa quantia em 2 semanas de exibição.

Falam que Avatar tem um apelo mais do que bem vindo de ecologia. Ora, se ele é um dos filmes mais caros já produzido, como pode ser ecologicamente correto? Façam o que falo, mas não façam o que faço?

Comecei a falar de Avatar para justificar minha ida aos cinemas para ver Vício Frenético. Sim, se trata de uma refilmagem, apesar do diretor querer bater em quem diz isso – declara que a questão do nome foi coisa de produtores – e traz Nicolas Cage como protagonista, um ator que daria o braço esquerdo para estar em projetos como Avatar.Porém, Vício Frenético não quer, somente, arrancar seu dinheiro. É um filme de personalidade, é um filme que se arrisca – cerca de 40% do filme são com imagens de baixa qualidade – é um filme que retrata bem a personalidade do ser humano, é um filme humanista. Afora o jazz. E a primeira cena já traduz isso de forma espetacular.

New Orleans arrasada pelas conseqüências do furacão Katrina. Numa delegacia, dois detetives, Terence McDonagh (Cage – mediano, que é um elogio maravilhoso para ele) e Stevie Pruit (Val Kilmer) vão procurar provas contra um colega, e acabam encontrando um preso quase morrendo afogado. Os dois riem da situação do detento, que pede desesperado por ajuda. Terence é o mais sarcástico, diz que está usando uma cueca suíça caríssima, Stevie demora para entrar no jogo, mas agora parece adorar. O desespero do preso vai aumentando, em conseqüência as risadas dos policiais. Os dois vão se encaminhando para abandonar o local, quando Terence, numa ação frenética passa a se despir do paletó e dos sapatos e pula na água para salvar o detento.

A próxima cena é ainda melhor. Terence está no médico que lhe recomenda drogas para cuidar das dores nas costas, que serão permanentes em sua vida agora. E por isso, o detetive vai receber a condecoração de tenente (o mau tenente do título original). Conseqüentemente o roteiro nos coloca uma pulga atrás da orelha, será que o pulo na água foi o resultado do problema na coluna?

E a próxima cena então...

17 Janeiro 2010

Cena de Cinema

A Vida é Bela (La Vita è Bella – Roberto Benigni – 1997 – DVD)

INTERNA. SALÃO DO GRAND HOTEL. NOITE.

O violoncelista da orquestra pede a atenção de todos na festa e anuncia a entrada do bolo etíope. Quatro camareiros negros descem as escadarias do salão do Grand Hotel carregando o bolo colorido com um avestruz, de ovo na boca, adornando a parte de cima. Todos os convidados da festa aplaudem. Um zé ruela faz a saudação nazista. A principessa fica impassível. O bolo é colocado atrás dela e de seu noivo. O relincho de um cavalo corta o som do ambiente, e os aplausos. Guido adentra o recinto com seu inconfundível sorriso. Ele é quem está montado no cavalo. Todos, boquiabertos, não entendem nada. Ainda mais que o cavalo está pintado de verde marcador de texto. Arte de outros zé ruelas.

Um champagne prestes a ser estourado é dado a Guido (como se trata de uma fábula que mal há nessa pequena inverdade?) O zé ruela continua na saudação. Guido para com o cavalo em frente à principessa. O champagne é oferecido ao noivo. Parabéns. Grazie. Guido convida a principessa para subir com ele no cavalo enquanto o noivo tenta se lembrar de onde conhece aquela figura inesquecível. Guido percebe que em poucos momentos ele saberá de quem se trata, e apressa a principessa. Ela sobe na mesa e o novo casal sai do salão galopando num cavalo bran... quer dizer verde (chega de inverdades). Todos aplaudem. E o noivo finalmente se lembra da figura dos ovos.

EXTERNA. PÁTIO DA CASA DO TIO DE GUIDO. AMANHACER DO DIA.

Guido ajuda Dora a descer do cavalo e saem de mãos dadas rumo à entrada da casa. A chave? Ferruccio está com ela. Porca misèria. Um arame resolve. Perai. A principessa não tem pressa. Atrás dela uma estufa de flores está escancarada. Guido, e o arame, conseguem abrir a porta. Ai Nicola Piovani nos toca uma canção. Ela resolve a cena e mostra a Guido o caminho. Um grito interrompe. Giosué! E de dentro daquela estufa, onde havia entrado Dora, a principessa, e Guido, o príncipe, sai o pequeno Giosué.

07 Janeiro 2010

Melhores de 2009

Não acho que 2009 tenha sido um grande ano para o cinema. Para mim foi, não me lembro de ter visto nenhum filme ruim, ou minha memória anda fraca, ou aprendi a escolher o que ver. Mesmo assim ainda acho que a produção de 2009 deixou a desejar. Claro que muitos filmes não chegaram aqui, culpa das distribuidoras que cada vez mais tentam prever o gosto dos clientes, e culpa dos clientes que cada vez mais estão com gosto duvidoso. 2009 foi o ano das superproduções. Mas enfim, vamos falar de coisa boa.

Nessa minha lista dos cinco melhores, quase virou sete, tentei espremer o que de melhor foi feito no cinema em termos de roteiro, interpretação, direção e conseqüentemente, filme. Confesso que deixei dois de fora, porque se tornou tradição escolher apenas cinco, e convidei a melhor atuação do ano para divulgá-los. Agora nos resta escolher o melhor dos cinco.

Não tenho como fugir do óbvio, Bastardos Inglórios é o melhor filme do ano, vejo isso não só aqui como na maioria dos blogs colaboradores (se não for unanimidade entre nós). O Curioso Caso de Benjamim Button me arrebatou, é uma produção perfeita, e uma obra-prima, perdeu por pouco, muito pouco. Valsa com Bashir é a surpresa do ano. Desenho animado (odeio filmes sem gente de verdade), israelense (não lembro de ter visto outro na vida), outro filme sobre guerra, diretor desconhecido, e é um filmão, daqueles unanimidade também.

A Partida foi a segunda surpresa do ano. Com seu jeito simples e calmo conquistou a todos.

AntiCristo já me interessou pela inovação, é o alento criativo do ano e, imaginem vocês, surgiu de uma crise criativa do seu diretor Lars Von Trier.

04 Janeiro 2010

A Vida Íntima de Pippa Lee

The Private Lives of Pippa Lee – Rebecca Miller – 2009 (Cinemas)

- Acho que não deve contar isso a ninguém.
- Tentarei não contar.
- Tentará não contar?
- Um dia posso deixar escapar sem querer.
- Acho que descobri o que é tão estranho em você. Não consegue mentir, não é?

Rebecca Miller é filha do dramaturgo Arthur Miller e esposa de Daniel Day-Lewis, Pippa Lee é seu quarto filme, e foi baseado em livro de sua própria autoria. O grande trunfo do filme é Rebecca, a escritora, e o principal defeito é Rebecca, a diretora.

A autora consegue traduzir sentimentos e carrega um grande peso de forma leve e centrada, chegando até a ter traços de Pedro Almodóvar.

A cineasta usa do clichê (começar o filme no presente e ir voltando ao passado – de cada 10 filmes em Hollywood, 5 usam esse artifício), e abusa das insinuações que, em determinado momento, por repetir demais, acabam se tornando corriqueiras.

O filme, como diz o título, segue a vida de Pippa (Robin Wright Penn – sensacional) uma senhora casada com o editor Herb Lee (Alan Arkin) e mãe de dois filhos. Apesar de não se dar bem com a filha, sua vida parece perfeita. Dona de casa exemplar, boa vizinha, ótima esposa.

A Vida Íntima de Pippa Lee é recheado de grandes atrizes, Maria Bello faz o papel da mãe de Pippa quando jovem, Monica Bellucci empresta sua beleza num papel forte e mau explorado e Julianne Moore como uma fotografa lésbica são os destaques.