25 Setembro 2010

Eros

Eros –Michelangelo Antonioni, Steven Soderbergh e Kar Wai Wong – 2004 (DVD)

Já com a doença que paralisou um lado do seu corpo, Michelangelo Antonioni filmou o segmento O Fio Perigoso das Coisas (mesmo nome de seu livro) do filme Eros que ainda conta com os cineastas Steven Soderbergh e Kar Wai Wong.

Seu curta-metragem traz como abertura desenhos do artista italiano Lorenzo Mattotti ao som do brasileiro Caetano Veloso na canção-homenagem ao cineasta. O erotismo é a principal premissa do filme, mas Antonioni o eleva ao explorar a relação do casal Christopher (Christopher Buchholz) e Cloe (Regina Nemni), e um triangulo amoroso com Linda (a belíssima atriz napolitana Luisa Ranieri, alias, só ela já vale o filme). A nudez é a marca de Michelangelo Antonioni, e as imagens perfeitas.

20 Setembro 2010

Identificação de uma Mulher

Identificazione di una Donna – Michelangelo Antonioni – 1982 (DVD)

Se vê um quadro? Ou seria uma parede? A primeira imagem da película é uma incógnita a primeira vista. E antes mesmo de respirarmos, já somos colocados para pensar pelo mestre. Seria uma brincadeira? Uma pegadinha? Não acredito. Antonioni pensa alto. Ouvimos um barulho. Passa algo pela imagem. Opa, sim, estamos vendo a cena de cima, do alto, e olhávamos o chão do hall de entrada do prédio do diretor Niccolò (Thomas Milian).

Sensacional essa introdução do filme. Errado. Michelangelo Antonioni acabou de nos dar o veredicto de sua película, e que pode se aplicar a toda sua biografia.

Antonioni me deixa a impressão de ser um criador de frames, mas não tão óbvio quanto à frase parece. Ele cria tutoriais, na falta de palavra melhor, em forma de frame, cada imagem tem pelo menos dois significados, ou mais. Vamos pegar o exemplo da cena descrita acima, rapidamente podemos dizer que o cineasta pretendia falar que o que vemos depende do nosso ângulo de visão, e essa afirmação deriva milhões de outras, como a de que nossa percepção daquilo que enxergamos é baseado na nossa cultura, ou que dependendo de nosso estado de espírito nossa visão será distorcida. Ou que todas as visões são distorcidas porque partem de um só ângulo de visão. Ufa. Podemos também propor que Michelangelo falava do poder da imagem em alterar a realidade, ele já explorou isso em Blow-up (1966).

E se a visão vinda de cima é que nos dá a sensação errônea, por ser um tipo de situação rara, de um olhar inquisitivo, amedrontador, de cima pra baixo, o que nesse caso pode ser uma mensagem figurativa para não sermos orgulhosos, vaidosos, não temos esse olhar superior, pois ele engana, equivoca nossa percepção das coisas.

E isso estamos falando apenas do primeiro frame, da primeira imagem, da primeira cena de Identificação de uma Mulher. Esse foi o último longa-metragem feito por Michelangelo Antonioni antes do derrame. Não é considerado uma grande película, mas possui, como todos os outros, uma seqüência memorável, é a cena da neblina em que o casal, o diretor de cinema Niccolò (Milian) e Mavi (Daniela Silverio), discutem dentro do carro e o motorista nada consegue enxergar a frente, uma perfeita alegoria de que ambos não se entendem. Mavi é o rosto que Niccolò procura para seu novo filme, mas ele foi avisado por um estranho que ela não era só dele.Essa é a obra maravilhosa, o legado soberbo que Michelangelo Antonioni nos deixou. Um diretor que nunca precisou, ou quis, ou aceitou dar explicação sobre sua obra. Um cineasta que recebeu vaias com a mesma intensidade com que depois viria arrancar aplausos. Um mestre que transformou filme em cinema, cinema em arte, e arte em obra-prima, o mestre das obras-primas!
Um regente que ensinou ao mundo que não é a procura que interessa, e sim a descoberta da viagem.

16 Setembro 2010

Profissão: Repórter

Esse é o filme pelo qual Jack Nicholson uma vez disse: “É a melhor produção que já participei em toda a minha carreira”.

O cartaz que ilustra esse post é sua versão polonesa criada pelo artista Bartlomiej Kuznicki, mais que um pôster, o polonês Kuznicki conseguiu criar um quadro que retrata o filme melhor que qualquer texto.

Profissione: reporter – Michelangelo Antonioni – 1975 (DVD)

Tem uma cena nesse filme, que na verdade nem deveria ser chamada assim, é uma obra de arte, uma aula de cinema. É a cena final do filme, é um dos momentos mais felizes e brilhantes da sétima arte. Ela é indescritível e intraduzível. Ela une a técnica com a história num exemplo perfeito do que se trata a 7ª arte. Ela é a prova cabal da superioridade cinéfila de Michelangelo Antonioni.

David Locke (Jack Nicholson) acaba de sair do banho. Ainda um pouco molhado ele senta na mesa do pequeno e modesto quarto de hotel. A sua frente dois passaportes chamam a atenção. Close-up nas fotos dos documentos. Num deles David Locke. Noutro David Robertson (Chuck Mulvehill). A semelhança é evidente. A câmera volta-se para Locke, ele está pensativo. Toc-toc. Sua sobrancelha arqueia. Quem será? A câmera continua nele, parece sem pressa de movimentar-se. Ouvimos uma conversa ao fundo, mas aquela voz nos é familiar. Claro. É a conversa de Locke quando conheceu Robertson, seu vizinho de quarto que agora está morto.

Mas Locke tem outros planos em mente e começa a tirar com uma gilete as fotos do passaporte, enquanto isso ouvimos toda a conversa de Locke e Robertson ao fundo. Antonioni também tem outros planos para essa cena.

A câmera se posiciona estrategicamente nas costas de David Locke, sem camisa e suando, ele continua trabalhando para mudar as fotos dos passaportes. Ao lado uma cadeira descansa um gravador ligado, de onde, ao que parece, vem todo o som que ouvimos. Algo chama a atenção do jornalista que olha pro lado fixamente. A câmera, lentamente, vai investigar o que é. A janela do quarto aberta revela para onde Locke olha, a paisagem do deserto africano se abre. Mas não foi isso que chamou a atenção dele. E logo Robertson de camisa azul de botões aberta e calça marrom aparece na varanda atrás da janela. A conversa do gravador continua. Locke de camisa xadrez e calça verde caqui se aproxima, e ficam os dois apreciando aquela bela vista.

Corte para porta com cortina de flores se abrindo. Locke e Robertson entram no quarto, a conversa continua. Locke sai de quadro. A câmera fixa-se em Robertson e aos poucos vai deixando-o e volta-se para Locke, sem camisa, mais suado, continua trabalhando nos passaportes passando cola no lugar das fotos. Close no gravador. Locke aperta o stop.

A cena é quase muda. É um plano único de cerca de 10 minutos. Levou 11 dias da produção e nenhum efeito especial. Eu não me atreveria a escrevê-la, nunca, a única coisa que me atrevo a fazer é deixar o link aqui para vocês contemplarem com seus próprios olhos.

10 Setembro 2010

Zabriskie Point

Zabriskie Point – Michelangelo Antonioni – 1970 (DVD)

ZABRISKIE POINT

“esta é uma área de descanço de lagos antigos depositados há 5 ou 10 milhões de
anos. Estes jazidos foram formados e feitos, empurrados por forças terrestres e
erodidos pelo vento e a água. Contém borato e gesso. Os montes amarelos são
chamados de Manly Beacon.”

Apesar das críticas negativas, de exaltados ensaios sobre a atuação amadora da dupla de protagonistas, e do anuncio público de fracasso feito pela Metro-Goldwyn-Mayer – que havia contratado o talentoso cineasta italiano para dirigir três filmes para o estúdio – Zabriskie Point é um tratado sobre o movimento hippie, seus desdobramentos, e suas conseqüências na sociedade.Configurado em cima do chamado cinema-verdade (cinéma-verité), Antonioni escalou o elenco com a maioria de atores amadores, a exemplo do casal principal, Mark Frechette e Daria Halprin. Frechette doou tudo que recebeu com o filme pra uma comunidade de Boston dedicada a astrologia, depois participou de alguns filmes b italianos e foi detido por assalto a banco. Na prisão, condenado há 15 anos, morreu de forma acidental. Daria, que foi descoberta por Michelangelo Antonioni num documentário underground chamado Revolution (1968), manteve uma relação rápida com Frechette após as filmagens, depois casou e divorciou-se do ator Dennis Hopper, com quem tem 1 filho. Afastou-se do cinema e hoje trabalha com terapia e educação pela arte.

Pelo menos numa cena os detratores da película foram unânimes em reconhecê-la como uma preciosidade psicodélica, é a orgia no deserto encenada pela companhia open theatre, onde vários casais nus fazem sexo cobertos de areia. A narrativa mistura revolução juvenil, panteras negras, filosofia hippie, psicodelismo e capitalismo. Tudo isso passa pelo casal Mark e Daria (seus nomes reais foram utilizados nas personagens, mais um dogma do cinéma-verité). Mark participa do encontro dos estudantes, discute e sai da reunião. Mais tarde ele é visto, e suspeito de atirar num policial, durante o confronto com a policia na revolta estudantil. Daria trabalha na imobiliária Sunnydunes Enterprises. O encontro dos dois é carregado de lirismo e sub referências.

A sensacional trilha sonora psicodélica reúne os grandes nomes da música a época, Pink Floyd, The Grateful Dead, Patti Page, John Fahey e Kaleidoscope. Dizem que Antonioni deu vários palpites nas composições de Roger Waters. Falam também que o cineasta rejeitou a composição L’America de Jim Morrison do The Doors.

O hoje astro Harrison Ford teve suas cenas excluídas na sala de montagem, mas fãs do ator perceberam que na cena da cadeia é possível vê-lo encostado na parede preta perto da porta. O final imaginado por Michelangelo Antonioni era num avião que escreveria a frase no céu, “FUCK YOU, AMERICA”, mas obviamente o presidente da MGM vetou. Ficou o recado.
Zabriskie Point não possui a alma de Antonioni, até pelos problemas com os produtores, censura norte-americana, e pelo tema polêmico, afinal falar contra capitalismo na terra do tio Sam é como detratar o futebol por aqui, mas é sem duvida um filme acima da média, e gosto muito de ler artigos em que o colocam como obra-prima. É por isso que Michelangelo Antonioni era gênio, mesmo quando errava era brilhante.