16 setembro 2010

Profissão: Repórter

Esse é o filme pelo qual Jack Nicholson uma vez disse: “É a melhor produção que já participei em toda a minha carreira”.

O cartaz que ilustra esse post é sua versão polonesa criada pelo artista Bartlomiej Kuznicki, mais que um pôster, o polonês Kuznicki conseguiu criar um quadro que retrata o filme melhor que qualquer texto.

Profissione: reporter – Michelangelo Antonioni – 1975 (DVD)

Tem uma cena nesse filme, que na verdade nem deveria ser chamada assim, é uma obra de arte, uma aula de cinema. É a cena final do filme, é um dos momentos mais felizes e brilhantes da sétima arte. Ela é indescritível e intraduzível. Ela une a técnica com a história num exemplo perfeito do que se trata a 7ª arte. Ela é a prova cabal da superioridade cinéfila de Michelangelo Antonioni.

David Locke (Jack Nicholson) acaba de sair do banho. Ainda um pouco molhado ele senta na mesa do pequeno e modesto quarto de hotel. A sua frente dois passaportes chamam a atenção. Close-up nas fotos dos documentos. Num deles David Locke. Noutro David Robertson (Chuck Mulvehill). A semelhança é evidente. A câmera volta-se para Locke, ele está pensativo. Toc-toc. Sua sobrancelha arqueia. Quem será? A câmera continua nele, parece sem pressa de movimentar-se. Ouvimos uma conversa ao fundo, mas aquela voz nos é familiar. Claro. É a conversa de Locke quando conheceu Robertson, seu vizinho de quarto que agora está morto.

Mas Locke tem outros planos em mente e começa a tirar com uma gilete as fotos do passaporte, enquanto isso ouvimos toda a conversa de Locke e Robertson ao fundo. Antonioni também tem outros planos para essa cena.

A câmera se posiciona estrategicamente nas costas de David Locke, sem camisa e suando, ele continua trabalhando para mudar as fotos dos passaportes. Ao lado uma cadeira descansa um gravador ligado, de onde, ao que parece, vem todo o som que ouvimos. Algo chama a atenção do jornalista que olha pro lado fixamente. A câmera, lentamente, vai investigar o que é. A janela do quarto aberta revela para onde Locke olha, a paisagem do deserto africano se abre. Mas não foi isso que chamou a atenção dele. E logo Robertson de camisa azul de botões aberta e calça marrom aparece na varanda atrás da janela. A conversa do gravador continua. Locke de camisa xadrez e calça verde caqui se aproxima, e ficam os dois apreciando aquela bela vista.

Corte para porta com cortina de flores se abrindo. Locke e Robertson entram no quarto, a conversa continua. Locke sai de quadro. A câmera fixa-se em Robertson e aos poucos vai deixando-o e volta-se para Locke, sem camisa, mais suado, continua trabalhando nos passaportes passando cola no lugar das fotos. Close no gravador. Locke aperta o stop.

A cena é quase muda. É um plano único de cerca de 10 minutos. Levou 11 dias da produção e nenhum efeito especial. Eu não me atreveria a escrevê-la, nunca, a única coisa que me atrevo a fazer é deixar o link aqui para vocês contemplarem com seus próprios olhos.

2 comentários:

pseudo-autor disse...

E certamente Nicholson sabia do que estava falando: é maravilhoso! Só não é a maior obra-prima do Antonioni, porque é difícil algum outro que tenha feito superar Blow Up.

Cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com

cinefilapornatureza disse...

AÊ! Um filme que eu assisti, finalmente! :) A cena final é mesmo clássica, atemporal e sensacional!