29 Julho 2010

O Deserto Vermelho

Il Deserto Rosso – Michelangelo Antonioni – 1964 (DVD)

- Porque a fumaça é amarela?
- Porque é tóxica.
- Então se um passarinho voar nela morre?
- Mas os passarinhos já sabem e não passam mais nela.

O diálogo entre mãe e filho do final do filme é revelador da alma de O Deserto Vermelho, sugestivo e sensível.Giuliana (Monica Vitti – o enigma em forma de mulher) é uma mulher neurótica casada com o engenheiro industrial Ugo (Carlo Chionetti). Após sofrer um estranho acidente, ela está às voltas em abrir uma loja. Numa visita a fábrica onde o marido trabalha, ela conhece Corrado (Richard Harris), e se sente atraída por ele.

O primeiro trabalho de fotografia colorida de Michelangelo Antonioni é também o marco inicial de uma de suas principais características, o uso da cor para expressar sentimentos das personagens, e não à toa o filme usa-o até no título. O Deserto Vermelho é amarelo (perigo), verde (renovação), bege/rosa (calma, tranqüilidade), branco (artificial, mentiroso), cinza (expurgo) e, obviamente, vermelho (paixão, traição, desejo). O cineasta usa a cor como trilha sonora, como uma criança que ganhou um brinquedo que tanto queria. A cena da parábola é estarrecedoramente linda.A equipe de produção do filme precisou de trabalho extra como pintores, até as árvores foram retocadas para receber tinta branca, isso porque a película utilizada, Eastmancolor, necessita de branco puro para que possamos enxergar o cinza. Apesar dos esforços, tudo foi em vão, já que o sol estragou tudo, O Deserto Vermelho é um marco do cinema colorido.

Aqui também é o inicio do uso, pelo diretor, de teleobjetivas e zooms para passar a sensação de opressão psicológica e colocar as personagens mais perto um do outro. Em algumas cenas, a personagem de Monica Vitti parece estar agarrada as paredes.A fotografia de Carlo Di Palma, colaborador também de Woody Allen, marca o inicio da parceria com Michelangelo Antonioni, que viria se repetir em Blowup (1966) e Identificação de uma Mulher (1982). O cineasta austríaco Fritz Lang considerava a fotografia da película a mais bela de toda a história do cinema, assim como para Martin Scorsese que o listou entre as dez mais belas.
O Deserto Vermelho surgiu do choque que Antonioni teve ao visitar Ravenna, cidade vizinha a sua Ferrara natal. A paisagem natural que dava forma agora às indústrias deixou o cineasta letárgico e o inspirou para a trama do filme. A neblina e a poluição refletem o comportamento de Giuliana. É uma obra-prima ímpar do cinema mundial.

27 Julho 2010

Parábola do Mês

A menina morava numa ilha.

Ficar entre os adultos a aborrecia e dava medo. Os rapazes da sua idade não a agradavam por isso estava sempre só.

Entre as gaivotas e os coelhos selvagens.

Tinha descoberto uma pequena praia afastada onde o mar era transparente e a areia rosa.

Adorava o lugar.

A natureza tinha cores lindas e nada fazia barulho.

Ia embora ao pôr do sol.

Certa manhã surgiu um veleiro.

Os barcos que passavam por lá eram geralmente diferentes. Este era mesmo um veleiro! Dos que atravessavam os mares e tempestades do mundo todo, e talvez fora do mundo.

Visto de longe fazia efeito, de perto parecia misterioso. Não se via ninguém a bordo. Ficou perto por pouco tempo e logo começou a virar, se afastando, silenciosamente, como havia chegado. A menina estava habituada aos caprichos dos homens, nem ligou. Mas apenas chegou à margem, eis que...

Um mistério, sim, dois não. Quem cantava? A praia estava deserta. Mas a voz estava ali. Ora perto, ora longe. Houve um momento que pareceu vir do mar...

Ou de trás das pedras. Tantas pequenas pedras, não dava mais para perceber, eram como se fossem de carne a voz naquele ponto, era muito doce. Mas quem cantava? Todas cantavam. Todas.

* Extraída do filme O Deserto Vermelho (1964) de
Michelangelo Antonioni, narrado em off. Disponível em DVD.

20 Julho 2010

O Eclipse

L’eclisse – Michelangelo Antonioni – 1962 (DVD)

Gostaria de não amá-lo ou amá-lo muito melhor.

Para Antonioni, que estava obcecado filmando um documentário sobre o eclipse do sol em Florença, existe um significado importante nesse acontecimento da natureza: “Tudo o que consigo pensar é que, durante o eclipse, provavelmente até os sentimentos ficarão parados”. E, de algum modo, o filme surgiu daí.

Alguma certeza deve porém existir, se não a de amar bem, ao menos a de não amar.Depois de 3 anos de relacionamento, Vittoria (a eterna musa de Michelangelo Antonioni, Monica Vitti) e Riccardo (Francisco Rabal) decidem terminar a relação, apesar dele ainda querer alguma coisa, o esgotamento emocional da relação deixam os dois exaustos e o ponto final é a única solução.

Vittoria parte atrás da mãe, uma investidora compulsiva, na bolsa de valores, lá não conseguem conversar direito, e ela acaba conhecendo o corretor Piero (Alain Delon) e surge um interesse romântico.

O dinheiro é o elemento externo que indiretamente afeta todas as relações, inclusive a sexual.Grande parte das cenas da película foram filmadas na E.U.R. (Esposizione Universale di Roma) um bairro residencial imaginado por Mussolini com a intenção de combinar o estilo da Roma antiga com a arquitetura moderna em grande escala. A escolha dessa locação é essencial para as finalidades de Michelangelo Antonioni. Em O Eclipse o cineasta reflete sobre o impacto que a vida urbana e seus bairros planejados exercem sobre seus imperfeitos habitantes.

O filme marca o fim da chamada trilogia da incomunicabilidade, que começou com A Aventura (1960), e passou por A Noite (1961). E mais uma vez o trabalho do diretor de fotografia Gianni Di Venanzo é primoroso.

A cena final é mais uma obra-prima do mestre Antonioni, é quase uma parte fora do filme, cheia de cortes e interpretações, a última seqüência realça ainda mais o trabalho de Gianni.

Apesar das poucas músicas em sua filmografia, O Eclipse é recheado de canções e trilhas incidentais. A cantora italiana, famosa nos anos 60 e 70, Mina, gravou L’eclisse Twist, canção que abre os créditos, enquanto a película é pontuada pelas composições de Giovanni Fusco, constante colaborador do cineasta.

15 Julho 2010

A Noite

La Notte – Michelangelo Antonioni – 1961 (DVD)

- Aonde vai? Espere um pouco. Vamos conversar. Conte-me algo.
- Mais tarde venho cobri-la e contar uma linda fábula.
- Finja que já estou na cama.
- Mais tarde... Contarei a história de um eremita. Intelectual, é claro. Por anos ele se alimentou de orvalhos, e na cidade deram-lhe vinho, e ele tornou-se um alcoólatra.


Os créditos iniciais são mostrados através de um elevador que parte de fora de um grande edifício de Milão. O vidro e o concreto rodeiam a cidade abaixo, é a deixa do cineasta para mostrar que a arquitetura interferirá na sua história.Finalmente Antonioni havia alcançado um lugar de respeito dentro da indústria de cinema italiana. Em A Noite ele pôde filmar em Milão e com atores conhecidos e respeitados internacionalmente, o italiano Marcello Mastroianni, que havia finalizado La Doce Vita (1960) de Federico Fellini, e a francesa Jeanne Moreau que tinha concluído com Louis Malle, Os Amantes (1959). A história se passa em tempo real. Acompanhamos o casal Giovanni Pontano (Mastroianni), um escritor, e Lidia (Moreau), sua mulher, numa visita a um amigo enfermo, depois a uma livraria para autografar, para grandes personalidades, exemplares de seu novo livro, La Stagione. É quando se desencontram e passamos a acompanhar Lidia pelas ruas pobres da cidade, até se reencontrarem novamente, voltarem para casa, e se arrumarem para ir a um restaurante assistir a um show, e depois esticar a noite numa festa na casa de um milionário que é fã de suas publicações.O que importa é o que diz, não as intenções.

A Noite é a segunda parte da chamada trilogia da incomunicabilidade, como os críticos denominaram. O casal protagonista passa por um momento de crise. A fama e a intelectualidade dele parecem-no cegar diante da companheira, que apesar da vida que leva, busca sempre a simplicidade e os contatos mundanos, como mostra a cena em que ela ri diante de dois homens que passam e contam piada na rua, ou quando ela interrompe aos gritos uma briga entre dois jovens.Giovanni Pontano foi um poeta e humanista italiano do século XV. Michelangelo Antonioni pegou seu nome para batizar a personagem de Mastroianni que, no filme, escreveu o livro chamado La Stagione (A Estação do Ano). Mais uma vez o cineasta deixou sua eterna musa como à principal chave da trama. Monica Vitti é a responsável pelo momento de reflexão que o casal sofre. Interpretando Valentina, Monica parece atrair as imagens de Antonioni, sua presença na tela mostra o quanto essa parceria foi importante para a sétima arte.

08 Julho 2010

A Aventura

L’avventura – Michelangelo Antonioni – 1960 (DVD)

Claudia experimenta anéis. Tirando e colocando no dedo ela estica o braço para vê-lo numa perspectiva maior. Em seu colo repousa uma caixa que parece estar cheia deles. Ela os olha, mas de repente joga a caixa em cima da cama. Entediada, se levanta sem ter noção de onde ir. Ouve um barulho que a deixa curiosa. Vai até a janela, mas parece não ver direito o que é. Curiosa e rapidamente sai do quarto em direção a outro aposento com uma imensa varanda ao fundo. Ao passar pela porta, sutil e suavemente, deixa a mão se apoiar em sua extremidade. A câmera paralisa e Claudia vai até o fim da varanda ver o que a chamara a atenção. Nós, espectadores, ficamos com a visão da câmera, e quer saber? Vale muito mais a pena.

Para a British Film Institute é o segundo melhor filme da humanidade, atrás de Cidadão Kane (1941). Foi escolhido também pela prestigiosa revista Sight and Sound uma das vinte melhores películas do mundo. É considerado a primeira parte do denominado – pelos críticos – trilogia da incomunicabilidade. A Noite (1961) e O Eclipse (1962) formam os filmes restantes. A Aventura passou por um processo complicado para chegar ao sucesso. O lugarejo escolhido pela produção, Lisca Bianca, não tinha nenhuma estrutura como água quente e eletricidade, a equipe e atores passavam a maior parte do tempo no Iate, que foi confiscado pelo proprietário por falta de pagamento, devido à falência da companhia que financiava a película. Mais tarde, o Ministério da Justiça italiano resolveu classificar o filme como pornográfico, vetando a exibição em Milão. Uma ordem judicial posterior permitiu a exibição algum tempo depois. E não parou aí. Sua estréia em Cannes foi um desastre. Críticos riam e bocejavam durante a projeção, mas na manhã seguinte uma carta aberta, assinada por 37 grandes escritores, incluindo Roberto Rossellini, condenou os detratores e festejou o aparecimento de tão inovadora película como um evento cinematográfico grandioso. Ganhou o prêmio do juri, uma outorga pelas belas imagens e uma linda homenagem no cartaz do Festival de 2009.Segundo Antonioni o filme é um mistério ao contrário.

Sandro (Gabriele Ferzetti) é um arquiteto que ficou rico renunciando suas inquietações artísticas. Ele mantém uma relação com Anna (Lea Massari), filha de um milionário, mas que está sempre insatisfeita e mal-humorada. Anna é amiga de Claudia (Monica Vitti), e os três partem juntos, com mais alguns amigos, para um passeio de Iate numa ilha deserta. Durante uma parada, Anna desaparece.Em italiano, a palavra L’avventura significa muito mais que uma aventura apenas, tem a ver com arremessar, precipitar. É interessante perceber como o cineasta sempre buscou a dualidade e ela, de certo modo, sempre esteve ao seu lado. A Aventura é o filme mais característico do cinema de Michelangelo Antonioni. Podemos afirmar que aqui começa o Antonionismo. Possui toda sua grife, seu charme e sua marca estão impressas em cada frame que se vê na tela. A Aventura não é e nunca foi um filme – o pessoal que o vaiou em Cannes tinham alguma razão – A Aventura é uma obra de arte, e como tal é necessário tempo para apreciá-la.
Meu filme não é nem uma denúncia nem um sermão. É uma história contada por imagens e eu desejo que se possa ver não o nascimento de um sentimento enganador, mas o modo pelo qual podemos nos enganar nos sentimentos. Pois, repito, nós utilizamos uma moral envelhecida, mitos caducos, velhas convenções. E isso de plena consciência. Por que nós respeitamos uma tal moral?

A conclusão à qual meus personagens chegam não é a anarquia moral. Eles chegam, na verdade, a uma espécie de piedade recíproca. Isso também é velho, vocês me dirão. Mas o que nos resta se isso?

Por exemplo, o que vocês crêem que seja esse erotismo que invadiu a literatura e o espetáculo? É um sintoma, o mais fácil de perceber talvez, da doença que afeta os sentimentos.Nós não seríamos eróticos, ou seja, doentes de Eros, se Eros fosse uma boa saúde. E, dizendo boa saúde, quero dizer simples, adequada à medida e à condição do homem.

Há então uma doença. E como acontece sempre quando há uma doença, o homem reage. Mas ele reage mal e fica infeliz por conta disso.

Em A Aventura, a catástrofe é uma impulsão erótica desse gênero: barata, inútil, infeliz. E não basta saber que é assim. Pois o herói (que palavra ridícula!) de meu filme percebe inteiramente da natureza grosseira da impulsão erótica que o domina, de sua inutilidade. Mas isso não basta.

Eis um outro mito que cai, essa ilusão de que basta SE CONHECER, analisar-se minuciosamente nas dobras mais recônditas da alma.

Não, isso não basta. A cada dia se vive "A Aventura", seja uma aventura sentimental, moral ou ideológica.

Mas, se nós sabemos que as velhas tabas da lei não oferecem mais que um verbo por demais decifrado, por que permanecemos fiéis a essas tabas? Eis uma obstinação que me parece tristemente comovente.

O homem, que não tem medo do desconhecido científico, tem medo do desconhecido moral”.

Michelangelo Antonioni
(Texto publicado originalmente em Cinéma 60, nº 50. Tradução de Ruy Gardnier)