08 julho 2010

A Aventura

L’avventura – Michelangelo Antonioni – 1960 (DVD)

Claudia experimenta anéis. Tirando e colocando no dedo ela estica o braço para vê-lo numa perspectiva maior. Em seu colo repousa uma caixa que parece estar cheia deles. Ela os olha, mas de repente joga a caixa em cima da cama. Entediada, se levanta sem ter noção de onde ir. Ouve um barulho que a deixa curiosa. Vai até a janela, mas parece não ver direito o que é. Curiosa e rapidamente sai do quarto em direção a outro aposento com uma imensa varanda ao fundo. Ao passar pela porta, sutil e suavemente, deixa a mão se apoiar em sua extremidade. A câmera paralisa e Claudia vai até o fim da varanda ver o que a chamara a atenção. Nós, espectadores, ficamos com a visão da câmera, e quer saber? Vale muito mais a pena.

Para a British Film Institute é o segundo melhor filme da humanidade, atrás de Cidadão Kane (1941). Foi escolhido também pela prestigiosa revista Sight and Sound uma das vinte melhores películas do mundo. É considerado a primeira parte do denominado – pelos críticos – trilogia da incomunicabilidade. A Noite (1961) e O Eclipse (1962) formam os filmes restantes. A Aventura passou por um processo complicado para chegar ao sucesso. O lugarejo escolhido pela produção, Lisca Bianca, não tinha nenhuma estrutura como água quente e eletricidade, a equipe e atores passavam a maior parte do tempo no Iate, que foi confiscado pelo proprietário por falta de pagamento, devido à falência da companhia que financiava a película. Mais tarde, o Ministério da Justiça italiano resolveu classificar o filme como pornográfico, vetando a exibição em Milão. Uma ordem judicial posterior permitiu a exibição algum tempo depois. E não parou aí. Sua estréia em Cannes foi um desastre. Críticos riam e bocejavam durante a projeção, mas na manhã seguinte uma carta aberta, assinada por 37 grandes escritores, incluindo Roberto Rossellini, condenou os detratores e festejou o aparecimento de tão inovadora película como um evento cinematográfico grandioso. Ganhou o prêmio do juri, uma outorga pelas belas imagens e uma linda homenagem no cartaz do Festival de 2009.Segundo Antonioni o filme é um mistério ao contrário.

Sandro (Gabriele Ferzetti) é um arquiteto que ficou rico renunciando suas inquietações artísticas. Ele mantém uma relação com Anna (Lea Massari), filha de um milionário, mas que está sempre insatisfeita e mal-humorada. Anna é amiga de Claudia (Monica Vitti), e os três partem juntos, com mais alguns amigos, para um passeio de Iate numa ilha deserta. Durante uma parada, Anna desaparece.Em italiano, a palavra L’avventura significa muito mais que uma aventura apenas, tem a ver com arremessar, precipitar. É interessante perceber como o cineasta sempre buscou a dualidade e ela, de certo modo, sempre esteve ao seu lado. A Aventura é o filme mais característico do cinema de Michelangelo Antonioni. Podemos afirmar que aqui começa o Antonionismo. Possui toda sua grife, seu charme e sua marca estão impressas em cada frame que se vê na tela. A Aventura não é e nunca foi um filme – o pessoal que o vaiou em Cannes tinham alguma razão – A Aventura é uma obra de arte, e como tal é necessário tempo para apreciá-la.
Meu filme não é nem uma denúncia nem um sermão. É uma história contada por imagens e eu desejo que se possa ver não o nascimento de um sentimento enganador, mas o modo pelo qual podemos nos enganar nos sentimentos. Pois, repito, nós utilizamos uma moral envelhecida, mitos caducos, velhas convenções. E isso de plena consciência. Por que nós respeitamos uma tal moral?

A conclusão à qual meus personagens chegam não é a anarquia moral. Eles chegam, na verdade, a uma espécie de piedade recíproca. Isso também é velho, vocês me dirão. Mas o que nos resta se isso?

Por exemplo, o que vocês crêem que seja esse erotismo que invadiu a literatura e o espetáculo? É um sintoma, o mais fácil de perceber talvez, da doença que afeta os sentimentos.Nós não seríamos eróticos, ou seja, doentes de Eros, se Eros fosse uma boa saúde. E, dizendo boa saúde, quero dizer simples, adequada à medida e à condição do homem.

Há então uma doença. E como acontece sempre quando há uma doença, o homem reage. Mas ele reage mal e fica infeliz por conta disso.

Em A Aventura, a catástrofe é uma impulsão erótica desse gênero: barata, inútil, infeliz. E não basta saber que é assim. Pois o herói (que palavra ridícula!) de meu filme percebe inteiramente da natureza grosseira da impulsão erótica que o domina, de sua inutilidade. Mas isso não basta.

Eis um outro mito que cai, essa ilusão de que basta SE CONHECER, analisar-se minuciosamente nas dobras mais recônditas da alma.

Não, isso não basta. A cada dia se vive "A Aventura", seja uma aventura sentimental, moral ou ideológica.

Mas, se nós sabemos que as velhas tabas da lei não oferecem mais que um verbo por demais decifrado, por que permanecemos fiéis a essas tabas? Eis uma obstinação que me parece tristemente comovente.

O homem, que não tem medo do desconhecido científico, tem medo do desconhecido moral”.

Michelangelo Antonioni
(Texto publicado originalmente em Cinéma 60, nº 50. Tradução de Ruy Gardnier)

3 comentários:

Elton Telles disse...

FABULOSO! Curiosamente, a maioria das "trilogias" que mais dão certo são aquelas que seguem uma linha temática do mesmo diretor, e não aquela que tem os desdobramentos de uma mesma história. Claro que temos ressalvas aí ("O Poderoso Chefão, "Toy Story"...), mas Bergman, Kurosawa e Kieslowski estão aí como provas.

Gostei muito do seu blog, posso linká-lo ao meu?


abraço!

cinefilapornatureza disse...

Este clássico eu ainda não vi! Que vergonha!!

Museu do Cinema disse...

Vlw Elton, claro q pode. Abs e obrigado.