29 Julho 2009

Inimigos Públicos

Public Enemies – Michael Mann – 2009 (Cinemas)

- O que lhe tira o sono de noite, Mr. Dillinger?
- Café.

Michael Mann é uma espécie de Ronaldinho Gaúcho de Hollywood. É um cara talentoso, tem estilo próprio, mas se vende fácil demais. Porém, mesmo vendido é acima da média na mediocridade que impera nos dias atuais. Mann é especialista em sociopatas e psicopatas. Consegue como poucos traduzir todo o mistério que cercam esses marginais. O cineasta estadunidense também adora flertar com as cores, especialmente o azul e o branco, e com a arquitetura. È exímio com as músicas e a escolha do elenco.

Inimigos Públicos é Michael Mann em sua melhor forma, equilibrado e correto. Possui de Collateral (2004) a intensidade da ação e o clima de desfecho ruim recorrente, de Fogo contra Fogo (1995) os diálogos e a tabelinha da dupla protagonista abrindo espaço para os coadjuvantes, e captura de O Informante (1999) a densidade do roteiro e dos diálogos.

Johnny Depp tem uma atuação impecável em 3 atos: fanfarrão e debochado (nas cenas dos roubos ou em confrontos com a policia); seguro e niilista (nas cenas românticas e com a máfia); e infantil (nas cenas finais). É, talvez, seu melhor trabalho em sua brilhante e ampla carreira. A película brilha também nos coadjuvantes, Marion Cotillard, mostrando que realmente é uma grande atriz, Christian Bale, e Billy Crudup, irreconhecível e efeminado na medida certa como J. Edgar Hoover.

É impressionante como a atmosfera escolhida por Mann nos dá a sensação de perigo iminente e final drástico para os inimigos públicos da América do norte. John Dillinger (Depp) foi escolhido o inimigo público número 1, por sua capacidade em zombar das autoridades – fato que é mostrado logo na cena inicial – e sua fama que incomodou até a máfia de Chicago. Caçado pelo jovem agente do FBI, Melvin Purvis (Bale), Dillinger se apaixona por Billie Frechette (Cotillard).Feito com captação digital de alta definição, o filme é baseado no livro Public Enemies: America's Greatest Crime Wave and the Birth of the FBI, 1933-34, de Bryan Burrough, Inimigos Públicos tem uma trilha sonora belíssima composta por Elliot Goldenthal, e músicas de Diana Krall (Bye-Bye Blackbird cantada pela própria no filme), Billie Holiday, e do bluesman folk Otis Taylor com Ten Million Slaves, que você ouve aqui. Sensacional.

SPOILERS

● A cena em que Dillinger entra no quartel general do FBI e ainda pergunta quanto esta o jogo é baseado em relatos reais, só não aconteceu dele entrar numa sala especial de investigação com seu nome.

● J. Edgar Hoover foi um notório e polêmico chefe do FBI, que tinha mania de criar pastas nada amigáveis de personalidades. Era homossexual não-assumido.

● “Baby Face” Nelson já foi mostrado em vários filmes, inclusive em E ai meu Irmão, cadê você? (2000). Foi morto por agentes em casa, enquanto dormia, depois da morte de Dillinger. Portanto foi ficcional sua morte no filme.

● John Dillinger foi morto na noite de 22 de julho de 1934, ao sair do cinema Biograph, onde assistiu a Vencido pela Lei (1934) com Clark Gable. Inclusive o estúdio, na época, usou o fato como chamariz para o filme.

● Al Capone, o famoso mafioso de Chicago, tinha uma admiração por Dillinger, mas sua fama e a caçada que o FBI impôs ao ladrão de bancos fez com que Capone mantivesse distância dele. No filme isso é mostrado através de Frank Nitti, braço direito de Al e que já foi mostrado em Os Intocáveis (1987) e Estrada para Perdição (2002), de Sam Mendes.

27 Julho 2009

Entre o Bem e o Mal

Adams æbler - Anders Thomas Jensen – 2005 (DVD)

I know your eyes in the morning sun
I feel you touch me in the pouring rain

Diz-se que a fé remove montanhas. E também que a fé o cega. As religiões as usam como melhor lhes convêm. Entre o Bem e o Mal discute toda a questão da fé a partir do bem e do mal, personificados no vigário Ivan (Mads Mikkelsen – de Casino Royale (2006)) e no neo-nazista Adam (Ulrich Thomsen – de Duplicidade (2009)), respectivamente.

Inspirado pela bíblia, em especial ao livro de Jó, o roteiro do diretor Anders Thomas Jensen cria uma comédia de humor negro, bem ao estilo dos Irmãos Coen, evidenciando questões subliminares – Ivan é um anagrama dinamarquês para ingênuo, e Adam é Adão.

Com enorme facilidade de situar o espectador, o cineasta dinamarquês opta pela banalização da violência para mostrar a superficialidade de nossas discussões, onde o que mais interessa é a “vitória” do que a riqueza dos argumentos.

24 Julho 2009

Embaixadores do Cinema

O jornalista (diplomado) e blogueiro do Blog do Gutemberg veio com a idéia de fazer uma lista de países com cultura cinematográfica e seu maior representante. Alguns nomes foram consenso, outros não. Chegado a um acordo, eis a lista:Ingmar Bergman – Suécia
A imagem que temos da Suécia é de um país muito frio e com a maioria da população com ótima renda. Problemas financeiros não existe, mas sim crises existenciais, por isso os filmes psicanalíticos, íntimos, claustrofóbicos de Ingmar Bergman. Com vasta experiência teatral, ele levou ao cinema temas como desejo, morte e religiosidade. Essa tríade forjou toda sua imagética, dando sentido a essência de sua obra cinematográfica.Pedro Almodóvar – Espanha
Pensar na Espanha é sentir a força do desejo e da tragédia, das cores fortes e estonteantes e do ritmo da música flamenga. E é nessa mistura que temos o cinema de Pedro Almodóvar, seus filmes são quase bizarros, mas sensíveis e com finais inesperados.Steven Spielberg – EUA
Dos Estados Unidos temos a sensação que o povo norte americano tem em alta o lazer, o entretenimento, sem isso, para eles, não se vive. O lazer é fundamental. E quem traz esse recorte fílmico muito bem é Steven Spielberg. Com sensibilidade aguçada, com olhar quase infantil para as coisas adultas, ele impressiona com sua imagem cinematográfica. Um olhar muito do povo norte americano.Alfred Hitchcock – Inglaterra
A Inglaterra do Big Bang, dos segredos da espionagem transfere para os filmes de Alfred Hitchcock aquela sensação de mistério, do inusitado e, o fundamental, de uma trilha sonora de suspense cortante onde o próprio cineasta aparece rapidamente em cena para lembrar ao espectador que “tô de olho, fique atento”.Jean-Luc Godard – França
Da França tem o libertário, vanguardístico e subversivo Jean-Luc Godard que buscou em suas películas um ritmo descontínuo, registrando idéias ao invés de histórias, quebrando tabus da época, reflexo das mudanças do século XX. Um autor fundamental.Akira Kurosawa – Japão
Perfeccionista e minucioso, a linguagem cinematográfica de Akira Kurosawa está profundamente interligada ao sentimento humano. O ser humano frente às escolhas éticas e morais. A reflexão. Clássico na forma e romântico na essência. Transborda sentimentos de um Japão que não existe, mas que está guardando no íntimo de seu povo.Win Wenders – Alemanha
Depois da Segunda Guerra e da tragédia do Nazismo e do Muro de Berlim a Alemanha deixou sua população meio que desorientada, desconectada, desprovida de um sentimento de união. E é esse pensamento que perpassa a obra de Win Wenders que gosta de explorar cidades, mas sente necessidade de abandonar para refugiar nas paisagens que a civilização abandonou. São paisagens desertas da América, da Austrália e de outros países, onde ele sobrevoa nas asas do desejo. Frederico Fellini – Itália
A Itália é a terra dos sonhos oníricos, dos encontros amorosos, a cidade fantasiosa de Federico Fellini que tem em seu lema “sonhar é viver”. E através de seus sonhos filmados que conhecemos essa combinação de memória, sonhos, fantasias e desenhos numa visão profunda da sociedade, na doce vida de um povo sofrido, mas nunca desesperançado. Assim é a visão fellinesca de viver, de olhar o mundo através dos sonhos.Manoel de Oliveira – Portugal
Uma nação de fortes e firmes tradições teria que ser representada por um nome centenário. Manoel de Oliveira, 100 anos de uma vida dedicada à sétima arte. Nas suas películas o ar é carregado de tradição, de cultura, de sensibilidade.Fernando Meirelles – Brasil
Um arquiteto é o nome escolhido para nos representar. Nesse país tão misógino, tão rico culturalmente, tão cheio de diversidade, nada como um profissional de outra área para ser embaixador de uma arte tão completa. Além disso, Fernando Meirelles é especial para esse blog, não só como cineasta, mas como ser - humano, portanto ele é o cara.

21 Julho 2009

Trama Internacional

The International – Tom Tykwer – 2009 (Cinemas)

Essa é a diferença entre a realidade e a ficção. A ficção tem que fazer sentido.

Inspirado no caso real do BCCI (Bank of Credit & Commerce International), que escandalizou o mundo nos anos 80 e 90, Trama Internacional não traz nada novo ao gênero, é lento e periférico, e suas cenas de ação se resumem a um tiroteio no Museu Guggenheim.

O agente da Interpol Salinger (Clive Owen – que precisa ter uma conversa séria com seu agente) se tornou um obcecado em investigar o IBBC (International Bank of Business and Credit), um instituição envolvida em trafico de armas. Ele conta com a ajuda da promotora nova iorquina Eleanor (Naomi Watts – que precisa demitir seu agente).

Se a ficção tem que fazer sentido, como diz a frase acima tirada da película, era melhor que a produção se concentrasse na realidade e no caso em que se inspira. No final das contas, Trama Internacional é só mais um filme de ação bobo e com milhões de cópias nas locadoras, inclusive protagonizadas pelos mesmos atores. Só espero que Tom Tykwer tenha feito o trabalho de tradução dos diálogos para o alemão de Inglourious Basterds, e não tenha interferido em nada. O filme tinha tudo para decolar, pôster e enredo que Hitchcock transformaria em clássico, mas nem todos são Hitch, que bom!

16 Julho 2009

La Dolce Vita

Momento Mágico: La Dolce Vita (Frederico Fellini)

A cena foi rodada em março, quando a temperatura é muito fria. De acordo com Fellini, a atriz Anita Ekberg ficou na água fria por horas, sem reclamar, mas o astro Marcello Mastroianni precisou de roupas de banho por baixo do costume, e uma garrafa de vodka, que o fez ficar bêbado no final da gravação. Cinematografia de Otello Martelli.

14 Julho 2009

Ladrões de Bicicleta

Ladri di Biciclette – Vittorio De Sica – 1948 (DVD)

Ou a encontra logo ou não vai achá-la mais.

Nas ruas empoeiradas de Roma homens se aglomeram diante de um prédio velho, numa praça deserta e ainda cheirando às bombas da II Guerra. A abertura de uma porta lateral atrai a atenção e a correria dos transeuntes. A aglomeração agora se dá nas escadas do edifício, fica claro que aquelas pessoas buscam uma oportunidade de emprego. A questão é quem dali sairá com a vaga? A câmera do mestre De Sica aponta para dois deles, mas rapidamente ela se distancia daquela confusão, num plano aberto, bem europeu, e vai achar o protagonista. Quieto, cabisbaixo, sentado no meio fio, acordado pelo som do seu nome: Antonio Ricci.

Ladrões de Bicicleta é uma obra-prima presente em qualquer lista que se preza dos grandes clássicos do cinema mundial. È um marco do neo-realismo italiano do século XX, é uma ode ao humanismo, e um trabalho irretocável cravado eternamente em mármore.

Filmado em locações externas nos bairros populares de Roma, trazendo uma trilha sonora inesquecível de Alessandro Cicognini, e uma fotografia em preto-e-branco primorosa de Carlo Montuori, a película foi adaptada da obra literária homônima de Luigi Bartolini. Seu elenco foi formado por amadores, por decisão do cineasta, que inclusive teria recusado propostas para escalar Cary Grant ou Henry Ford como protagonista.

A história, odisséia porque não, do pai de família desempregado que consegue um emprego da prefeitura como colocador de cartazes, mas tem sua bicicleta roubada, um instrumento de trabalho indispensável, vai direto ao emocional do espectador. Porém a história nos reserva uma moral muito mais rica, muito mais sólida, e muito mais humanitária do que a nossa simples piedade ao próximo como sugere a sinopse.

Vittorio De Sica costura sua obra com maestria de alfaiate, ele não precisa explicitar a importância do trabalho que Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani) conseguiu para entendermos o significado dos estragos da guerra. Basta sua câmera passear no quarto do casal em momento de intimidade. Aliás, a foto que ilustra esse post, assim como já havia feito no especial neo-realismo, traduz muito sobre o trabalho desse mestre. Durante as filmagens de Ladrões de Bicicleta, De Sica usava da grosseira e até de pequenos tapas para arrancar lágrimas do garoto, e verdadeiro protagonista da película, Enzo Staiola (sensacional), que interpreta Bruno, filho de Antonio. Claro que a época era outra, mas essa característica do cinema de Vittorio é evidente em suas imagens, as expressões são fundamentais em sua filmografia, a forma como ele capta esse momento também, e isso é cinema, essa arte pela qual se apaixona e não mais se esquece.

10 Julho 2009

Une Famille Brésilienne

Linha de Passe – Walter Salles e Daniela Thomas – 2008 (DVD)

Não gosto do Walter Salles, acho ele um diretor medíocre (de mediano), amparado na fortuna do pai e no talento da Daniela Thomas. Também não gostei nem um pouco de sua entrevista a uma emissora russa onde ele “promove” o governo dizendo que no Brasil, de 6 anos pra cá, não há mais pobre. Nada contra sua ideologia política, afinal a maioria da população concorda com ele. O problema ai é a mentira, porque todo brasileiro sabe que ele mente. Se ele foi sarcástico, só denota sua falta de educação.

Dito isso me sinto livre pra discorrer sobre Linha de Passe, seu mais novo filme ao lado novamente de Daniela Thomas.

Como o nome diz, a analogia com o futebol foi reproduzida para evidenciar o ritmo do filme, as histórias dos 4 filhos de Cleuza (Sandra Corveloni) são contadas como numa linha de passe, ou seja, recebe-se a bola, dá uma caminhada, e toca pro lado pra depois receber novamente.No cartaz da película, a frase: A VIDA É O QUE VOCÊ FAZ DELA. E disso não se pode fugir. E a trama irá girar no centro da frase, através da vida da corintiana e doméstica Creuza, que tenta criar seus filhos na periferia de São Paulo, um é pastor de uma igreja, o outro motoboy, tem um aspirante a jogador de futebol, e o menor não se dá bem na escola.

Linha de Passe não traz nada novo. É burocrático e simplista, tem interpretações ricas e corretas – obviamente com Sandra Corveloni se destacando (ela ganhou o prêmio de melhor atriz em Cannes), mas o que peca é querer ser emotivo demais, e tentar arrancar lágrimas do espectador, repetindo a fórmula de sucesso de Central do Brasil (1998).

08 Julho 2009

Pôster da Semana

Premiado como melhor filme pelo público do Festival de Cannes de 2008, Captain Abu Raed narra à história do solitário porteiro do aeroporto internacional de Amã, o Abu Raed do título. Seu maior sonho é conhecer o mundo, mas nunca saiu do aeroporto. Sua vida se transforma ao encontrar no lixo um quepe de capitão e passar a usá-lo, com isso ele chama a atenção de um menino da sua vizinhança. Quando percebe um grupo de crianças passa a segui-lo acreditando que ele é piloto de uma companhia aérea. Feliz por ter companhia e atenção, ele conta aos garotos histórias fantásticas pelo mundo, inspirando-os a acreditar em seus próprios desejos. Paralelamente, o filme mostra a amizade de Abu com Nour, uma piloto de verdade, que divide com ele suas frustrações da vida moderna em Amã.

07 Julho 2009

A Espiã

Zwartboek – Paul Verhoeven – 2006 (DVD)

Uma excursão visita um kibutz israelense. Uma turista reencontra uma amiga dando aula às crianças no local. A guia da excursão avisa que aquela parada será de apenas 15 minutos. Um tempo longuíssimo para as duas. Ao partir o marido da turista pergunta de onde ela conhece a amiga, e ela responde, da guerra.

Após 26 anos, o cineasta holandês Paul Verhoeven volta a filmar em sua língua natal. Olhando, investigadamente, sua filmografia, percebe-se um aguçado senso de estética cinematográfica, seja filmando um policial, RoboCop (1987), seja numa ficção, O Vingador do Futuro (1990), ou até no erótico, Showgirls (1995) e, vá lá, Instinto Selvagem (1992). O fato é que Verhoeven controla esteticamente muitos gêneros, e é isso que ele demonstra mais uma vez em A Espiã.

A película segue a vida de Rachel Stein (Carice van Houten) uma judia holandesa obrigada a mudar de nome e vida por causa do nazismo. Já loira e transformada em Ellis, ela passa a ajudar a resistência do seu país durante a II Guerra Mundial.

Com um roteiro rico em detalhes cinematográficos do gênero de filme de espião, ou seja, com muitas reviravoltas, conspirações, traições e suspenses crescentes, em nenhum momento o cineasta deixa transformar A Espiã em “mais uma película de espiões”. A ambientação, os atores e principalmente o timing perfeito de direção quebram qualquer clichê.

Paul Verhoeven e Gerard Soeteman tiveram a idéia do filme durante as filmagens de Soldado de Laranja (1977), e levaram cerca de 20 anos para finalizarem, muitos dos problemas era para centralizar a história numa personagem feminina.