21 Março 2011

Parábola do Mês

E a morte devolveu esses tesouros por uma música. O rouxinol cantou. Cantou no cemitério da igreja, onde rosas brancas crescem, onde as flores antigas deixam doce o ar, onde a grama é sempre verde, molhada com as lágrimas de quem ainda vive. A morte ansiava por seu jardim. Pela janela, uma neblina fria e cinzenta como a morte partiu. “Obrigado, obrigado”, disse o imperador. "Passarinho do céu conheço-o há tempo.

Uma vez o bani da minha terra, e ainda assim você afugentou o mal da minha cama, e a morte do meu coração. Como posso recompesá-lo?" “Você já me retribuiu”, disse o rouxinol. "Eu trouxe lágrimas a seus olhos quando cantei para você. Para o coração do cantor, isso é mais valioso que qualquer pedra preciosa. Agora durma e cresça renovado e forte enquanto eu canto”.

Ele cantou até o imperador cair num profundo e renovador sono, um doce e suave descanso.

* Extraída do filme Em  um Mundo Melhor (2010) de Susanne Bier, interpretada pelo talentoso garoto William Jøhnk Nielsen

17 Março 2011

Cópia Fiel

Copie Conforme – Abbas Kiarostami – 2010 (Cinemas)

Juliette Binoche resplandece em Cópia fiel, novo filme do diretor iraniano Abbas Kiarostami. Cópia fiel constrói um admirável jogo de verdades e mentiras de um casal, formado por Juliette Binoche e o cantor lírico britânico William Shimell, estreando no cinema.

A verdadeira natureza do relacionamento desses dois é uma das chaves da descoberta da história, cheia de camadas, climas e evocações. Filmado em belíssimos cenários da Toscana, o filme é uma jóia intimista, pulsante nos rostos de seus atores e em que o uso do discurso amoroso – oscilando entre o inglês, o francês e o italiano – é movido pelas chamas, ora amortecidas, ora vibrantes, da maturidade.

Sem querer estragar o jogo da narrativa, o relacionamento entre os dois atravessa vários climas, da tentativa de sedução ao compartilhamento de lembranças e sensações. É como se estes dois tivessem vivido algumas vidas diferentes e, em algumas, se encontrado, noutras, se perdido - sem que isso acarrete nada de sobrenatural, apenas experiências diversas ao longo dos anos.

Além da natureza instável do amor, Cópia fiel toca outros temas - o primeiro deles, o que dá nome à obra, em torno da importância da discussão sobre o que é autêntico ou falsificado, e o valor, relativo ou absoluto, das muitas cópias encontradas no mundo da arte.

* Texto copiado conforme Neusa Barbosa, do Cineweb.

16 Março 2011

Partir

Partir – Catherine Corsini – 2009 (DVD)

O verbo partir tanto em francês como em português tem o mesmo significado, e incrivelmente foi reprisado pelos tradutores brasileiros. Dizem que em Portugal o filme chama-se Ir Embora. Perdoem-me a piada sem graça.

Dizem que alguns poucos vinhos ficam melhores com o tempo.

Kristin Scott Thomas aos 50 anos nunca esteve tão bela. Interpretando Suzanne, a esposa entediada e carente que se apaixona por um empregado, Kristin segura o filme através de sua plástica e de seu talento – principalmente na segunda parte do filme.

A cineasta francesa não traz nada de novo ao gênero e se apóia no carisma da atriz inglesa que fala francês fluentemente. É verdade que aqui ela quebra um pouco a imagem aristocrática que Kristin possui, mas a preguiça da diretora em fazer de uma história batida algo novo revela-se como ponto fraco do filme.

14 Março 2011

O Homem que não Amava as Mulheres

Män Som Hatar Kvinnor – Niels Arden Oplev – 2009 (DVD)

Um pacote pardo amarrado de corda diagonalmente e paralelamente é cuidadosamente aberto por um senhor usando luvas branca e um pequeno canivete. Lentamente ele tira um quadro de dentro do envelope e põe-se a analisá-lo. É uma obra em relevo de folhas secas. O senhor agora volta à atenção ao pacote, em especial ao carimbo do remetente onde se lê Hong Kong. Agora ele senta na confortável da cadeira de seu opulento escritório e, enquanto a câmera se afasta dos intensos closes, chora um choro convulsivo.

O cinema sueco para mim se resumia a Ingmar Bergman, portanto minha ignorância em relação às produções desse país se dissipou. Porém como tudo na vida existe o lado bom e o ruim... O bom é que na Suécia se faz filmes de qualidade técnica e que não se resume a ótica existencialista de Bergman, a ruim é que a influência do cinema norte-americano também globalizou a cultura deles.

Baseado no livro de sucesso mundial Millenium, na verdade uma trilogia escrita pelo sueco Stieg Larsson, O Homem que não Amava as Mulheres é a sua primeira parte, e já vai ganhar um remake hollywoodiano capitaneado por David Fincher e chamado The Girl with the Dragon Tattoo, tradução literal do livro. Atualmente está em pós-produção.

O dinamarquês Niels Arden Oplev conduz a criativa trama com ousadia, mas com estilo peculiar do cinemão norte-americano. O clima de suspense é perfeito e as reviravoltas são bem detalhadas. Um filme para ver antes da versão de Hollywood.

02 Março 2011

O Vencedor

The Fighter – David O. Russel – 2010 (Cinemas)

Os dois boxeadores travam uma luta franca, aberta, o público em pé grita pelo knock out, os corpos ao mesmo tempo em que seguem firme são maleáveis ao ponto de uma dança, as cordas ajudam a se manterem no ringue, de repente um deles cai. E cai justamente Sugar Ray Leonard. Um golpe? Um empurrão? Um tropeço?

Essa luta é o elemento principal de O Vencedor, mas não esperem vê-la no película. É a luta pela qual Dick Eklund Ward (Christian Bale) parou no tempo, seu momento de glória que permanece viva.

O Vencedor é um filme de boxe sem boxe, ou melhor dizendo, com cenas ridiculamente filmadas. Propositalmente o cineasta evidencia o outro lado das lutas, o que está por trás dela, a família Ward.