27 Maio 2010

Michelangelo Antonioni

Ferrara 29 de setembro de 1912. O choro que se ouve a distância nos é familiar. Nasce, numa família de classe-média, um pequeno italiano. Olhando ao redor é impossível não se encantar com o que os olhos enxergam. São imagens únicas, poéticas, fortes. São paisagens que fazem as pupilas dilatarem. A alegria do nascimento daquele bebê contagia a todos, que riem e se abraçam, enquanto o ator principal daquele espetáculo chora sem parar. Estamos na maravilhosa província da região de Emília-Romanha, no norte da Itália, a “primeira cidade moderna da Europa”, segundo o historiador suíço do século 19 Jacob Burkhardt. Ferrara é a cidade da Renascença, é calma e silenciosa, e isso tudo foi preponderante na vida daquele recém-nascido batizado Michelangelo Antonioni.

Já criança, o bebê se interessa por marionetes e pela arquitetura. Adolescente se fascina pela pintura e pelo tênis, o que lhe abre as portas do mundo dos milionários do clube de tênis Marfisa. Apesar das atividades, o jovem segue o caminho das ciências econômicas, se graduando na Universidade de Bolonha. Paralelamente ainda sonhava com as artes, o teatro mais especificamente, colaborando como ator, dramaturgo e cenógrafo em pequenas peças encenadas em Ferrara e Bolonha. Aos 23 anos ele escreve sua primeira obra, O Vento (Il Vento – 1935), que o leva ao mundo onde ele viria a se encontrar, o cinema.
Ravenna 1964. O barulho de uma máquina impossibilita qualquer conversa ali perto. Um homem numa escada segura uma mangueira que jorra tinta branca numa árvore. Antonioni olha com atenção o trabalho dele. Atrás se vê fábricas com suas chaminés expelindo fumaça. Aquilo tudo já está na cabeça do cineasta. Estão ali para rodar O Deserto Vermelho (1964) seu primeiro filme colorido, e as novas matizes das câmeras não captam tão bem a cor real das árvores.

Cinéfilo e estudioso começou a escrever críticas de filmes para um jornal de Ferrara. Mais tarde passou a dissertar em revistas cinematográficas renomadas como Bianco e Nero (Preto & Branco) e a famosa Cinema, que era dirigida por Vittorio, filho de Mussolini. Antonioni era apolítico, seus ensaios abordavam sempre questões relacionadas às técnicas e foi assim que o diretor entrou na sétima arte. Seu fascínio pelos processos o fez realizar seu primeiro filme, um curta-metragem, feito em uma única tomada em 1943.

1985. O ano prometia. Seria bastante produtivo para o cineasta, trabalhava numa adaptação de um conto que escrevera em 1976, mas sua saúde não era mais a mesma, um derrame o paralisou completamente seu lado direito, sua fala ficou comprometida, sua vida ameaçada, seu trabalho suspenso.

O cineasta na maioria de seus filmes foi relutante em usar música porque sentia necessidade em ser seco, de dizer o menos possível sobre as coisas, e usar o menor número de mídias. Ele tinha confiança na eficácia da sugestão das imagens, apesar disso ele adorava utilizar ruídos como instrumento de trilha. Humanista, o cinema de Michelangelo atacava em três frentes, a imagem, a psicologia das personagens e o som (ou a falta dele). Inovador à época, Antonioni mudou a história da sétima arte e se transformou no cineasta mais influente do cinema como o conhecemos hoje.

Porém o mais sensacional disso tudo é que é praticamente impossível dissociar uma coisa da outra nas películas de Michelangelo, ou seja, a fotografia, o roteiro e a trilha trabalham juntos e com o mesmo intuito, separadas não possuem marca. Quando pegamos a imagem de Monica Vitti saindo de uma porta rumo à varanda com a paisagem se abrindo lá fora ao som do barulho do seu salto, seu significado está incutido em tudo isso, o enorme vazio interior da personagem é citado pelo céu que se abre diante dela e na sua preocupação em correr para ver que barulho de carro é aquele. Por isso e muito mais é que tentaremos dissecar nessa jornada aqui no Museu o mito de Michelangelo Antonioni, o melhor cineasta de todos os tempos. E para isso dividiremos essa retrospectiva em antes e depois do colorido com os filmes:

Preto & Branco: Crimes d'Alma (1950), Amores na Cidade (1953), O Grito (1957), A Aventura (1960), A Noite (1961), e O Eclipse (1962). Colorido: O Deserto Vermelho (1964), Blow-Up (1966), Zabriskie Point (1970), Profissão: Repórter (1975), Identificação de Uma Mulher (1982) e Eros (2004). Todos eles lançados em DVD.

Fará parte também dessa revisita à filmografia de Michelangelo, alguns contos (seu processo de criação cinematográfica começava com pequenas histórias) que escrevera e que nunca foram transformados em filmes, a exemplo de O Horizonte dos Eventos, Vontade de?, e Dois Telegramas, esse último estão querendo transformar em película. Esses contos são parte do livro publicado pela editora Nova Fronteira em 1990, O Fio Perigoso das Coisas, de autoria do mestre.

Já acometido da doença que paralisou uma parte de seu corpo, o diretor deu uma entrevista a jornalista do New York Times Rick Lyman. Ao final o cineasta foi questionado: se no mundo não houvesse filmes, o que faria? Respondeu categoricamente: filmes.

Antonioni, de certa forma, assim o fez.
Michelangelo Antonioni (1912 - 2007).

23 Maio 2010

O Horizonte dos Eventos

Mesmo ignorando como o mundo teve origem, só de observar os movimentos do céu e muitas outras coisas, posso ter certeza de que o mundo não foi criado para nós por uma vontade divina: tantos são os males que contém.”
Lucrécio (séc 1 A.C), De rerum natura (Sobre a natureza das coisas), V 195-99.

O HORIZONTE DOS EVENTOS

O Horizonte de Eventos é uma fronteira imaginária ao redor de um buraco negro a
partir da qual a força da gravidade é tão forte que nem a própria luz pode
escapar de um buraco negro pois sua velocidade é inferior a velocidade de escape
do buraco negro , e onde há um paradoxo físico quando as leis da nossa física
não podem ser aplicadas pois resultam absurdos matemáticos.

"Numa manhã de novembro, alguns anos atrás, eu estava sobrevoando a Ásia central soviética. Olhava para o deserto imenso que confina a leste com o mar de Aral, esbranquiçado e inerte, e pensava em L'aquilone*, o filme que rodaria na primavera naquela região. Uma fábula, um mundo que nunca foi o meu, por isso me atraía. E eis que, enquanto me entrego a essa fábula e a observo aderir-se docilmente a paisagem sob mim, sinto-me escorregar para pensamentos distantes. É sempre assim. Todas as vezes que estou prestes a começar um filme, me vem à idéia de outro.

Esse outro nasce de uma viagem num pequeno avião em um dia tempestuoso na Itália. Nuvens imensas, chuva, vento. Um vento duro e constante, cinzento como às nuvens. Do lado de fora da janela as nuvens passam velozes. O avião sofre vibrações secas e empenadas e deslocamentos repentinos. Até ao perigo a gente se acostuma, com um pouco de paciência. Quase de súbito as nuvens param, temos a sensação de que o avião vai cair. Mas não, ele é atirado para o alto onde acabou de estrondar um raio. Antes a intensidade do cinza era determinada pela espessura das nuvens, agora pelos relâmpagos amarelos que as dilaceram.

Atravessamos cinco temporais. Na chegada fico sabendo que durante o quarto, outro avião de turismo caiu. Nenhum sobrevivente. Trazia a bordo seis passageiros e o piloto... "

E assim seria mais um filme de Michelangelo Antonioni, na minha opinião, a maior obra-prima que o cinema viria a ter. Por destino, a sétima arte ficou órfã desse projeto que misturaria filosofia, ação, mistério e ciência. Seria uma conexão de 2001 – Uma Odisséia no Espaço (1968), que Antonioni era fã, com a filmografia humanista do cineasta italiano.

Tudo que restou dessa maravilha foram rascunhos onde ele discorre sobre a vida dos passageiros daquele fatídico vôo. Um rico casal de industriais, um escritor, a sua amante, um ex-deputado, uma mulher de meia-idade, e o piloto. Antonioni traça o perfil deles e conta porque estavam reunidos ali.

Após o acidente a trama se concentra num modesto cabo do exército que não sabe o que fazer com o resto da aeronave que se espatifara no morro, enquanto isso um padre, um grupo de curiosos e jornalistas passam pelo local e são destronados pelo diretor.

No final apoteótico, Antonioni parece ninar narrando para nós como se fosse uma aula de astronomia.



* Projeto inacabado.

18 Maio 2010

Dente Canino

Kynodontas – Giorgos Lanthimos – 2009 (DVD)

“Ainda não estão preparados para entrarem no 2º nível de treinamento (...) e esperem que o ensinemos a se comportar”.
Acredito em dois tipos de cinema. O comercial e o artístico. O comercial é feito para agradar o público, é auxiliado por uma boa pesquisa de mercado e seu intuito é exclusivamente financeiro. O artístico pode ou não trazer retorno financeiro, mas nunca é seu objetivo. Então, pressupõe-se que exista outro objetivo.

Num primeiro olhar, Dente Canino não possui um objetivo que o justifique. Casal mantém seus três filhos adultos, um homem e duas mulheres, presos em casa para preservar suas inocências evitando qualquer contato com o mundo exterior.

É necessário um pouco mais de reflexão para captarmos a intenção do cineasta grego Giorgos Lanthimos (em grego Yorgos). Ele discute violência, submissão e cultura com um experimento filmado. O diretor nos faz de voyeur da experimentação do casal com os filhos, e nos pergunta qual tipo de educação pode ser considerada acertada?

Obviamente não devemos esperar respostas objetivas. A película foi eleita melhor filme da mostra A Certain Regard (Um certo olhar) de Cannes em 2009, e é o filme de estréia do cineasta. O título original, canino, é base da regra que o pai colocou aos filhos, só sair de casa quando o dente canino cair e nascer outro em seu lugar.

Acredito que um não sobreviva sem o outro. É necessário, tanto quanto prudente, termos o olhar para o cinema comercial como para o de autor. Os multiplexes foram invenções para agraciar isso. Enquanto numa sala para 300 pessoas passa Homem de Ferro 2, a do lado para 50 exibe Dente Canino. O problema é que na de 50 os exibidores preferem colocar o primeiro Homem de Ferro para ganhar mais um pouquinho.

12 Maio 2010

magnólia facts

“Se fosse num filme, eu não acreditaria”.
Conforme relatado no G1 e na Reuters, um Aribus caiu na Líbia com 104 a bordo; só criança sobrevive. Segundo a notícia, um menino holandês seria o único sobrevivente de um acidente aéreo ocorrido hoje, quarta-feira, dia 12 de maio de 2010.

Acidentes envolvendo avião são sempre chocante e, obviamente, não quero fazer disso piada. Há um certo alívio pelo sobrevivente.

O que chama a atenção é que o “plot” da notícia é o mesmo do filme Corpo Fechado (2000) do cineasta indiano radicado nos EUA, M. Night Shyamalan. Na película, o segurança David Dunn (Bruce Willis) é o único sobrevivente de um acidente de trem.

11 Maio 2010

O Preço da Traição

Chloe – Atom Egoyan – 2009 (Cinemas)

Dificilmente comento sobre as escolhas técnicas do cineasta aqui no blog porque acho muita prepotência, e ou inveja, um amador falar de um profissional. Porém é impossível comentar sobre Chloe sem alfinetar o diretor egípcio Atom Egoyan. Com um ótimo roteiro em mãos, refilmagem do francês recém-lançado aqui Nathalie (2003), uma atriz do quilate de Julianne Moore, que de quebra ainda está linda, e um ator profissional como Liam Neeson – foi durante as filmagens que sua esposa Natascha Richardson morreu, e ele voltou ao trabalho apenas alguns dias depois – Atom conseguiu estragar tudo. Isso sem falar na premissa de uma cena quente de Julianne e a jovem Amanda Seyfried, que interpreta a prostituta Chloe contratada pela ginecologista Catherine (Moore) para seduzir seu marido, David (Neeson), porque desconfia que ele lhe é infiel constantemente.

Egoyan opta por transformar a película num suspense bobo e frio ao contrário do original que prima pelo suspense gradativo e provocativo, e isso demonstra sua intenção em ser uma espécie de diretor-padrão para os estúdios hollywoodianos, desde que foi importado pela indústria norte-americana. O diretor acha que colocar sua marca é encher as cenas de espelhos.

A mania dos estadunidenses em transformar os filmes de outros países em sucessos próprios é uma idéia absurda e desnecessária de monopolizar o cinema. Sabemos que não se trata de falta de criatividade, as séries de TV estão dando show, está na hora de começarmos, nós mesmos cinéfilos, a limpar a mediocridade (de mediano) que nos trazem.

05 Maio 2010

Twenty Century Fox

Esse mês de maio marca o 75° aniversário da famosa 20th Century Fox. Para comemorar, o marketing da companhia criou alguns cartazes com o famoso logo de holofotes de luzes evidenciando alguns filmes de sucessos dos últimos 75 anos. Abaixo selecionamos 5 deles: