23 maio 2010

O Horizonte dos Eventos

Mesmo ignorando como o mundo teve origem, só de observar os movimentos do céu e muitas outras coisas, posso ter certeza de que o mundo não foi criado para nós por uma vontade divina: tantos são os males que contém.”
Lucrécio (séc 1 A.C), De rerum natura (Sobre a natureza das coisas), V 195-99.

O HORIZONTE DOS EVENTOS

O Horizonte de Eventos é uma fronteira imaginária ao redor de um buraco negro a
partir da qual a força da gravidade é tão forte que nem a própria luz pode
escapar de um buraco negro pois sua velocidade é inferior a velocidade de escape
do buraco negro , e onde há um paradoxo físico quando as leis da nossa física
não podem ser aplicadas pois resultam absurdos matemáticos.

"Numa manhã de novembro, alguns anos atrás, eu estava sobrevoando a Ásia central soviética. Olhava para o deserto imenso que confina a leste com o mar de Aral, esbranquiçado e inerte, e pensava em L'aquilone*, o filme que rodaria na primavera naquela região. Uma fábula, um mundo que nunca foi o meu, por isso me atraía. E eis que, enquanto me entrego a essa fábula e a observo aderir-se docilmente a paisagem sob mim, sinto-me escorregar para pensamentos distantes. É sempre assim. Todas as vezes que estou prestes a começar um filme, me vem à idéia de outro.

Esse outro nasce de uma viagem num pequeno avião em um dia tempestuoso na Itália. Nuvens imensas, chuva, vento. Um vento duro e constante, cinzento como às nuvens. Do lado de fora da janela as nuvens passam velozes. O avião sofre vibrações secas e empenadas e deslocamentos repentinos. Até ao perigo a gente se acostuma, com um pouco de paciência. Quase de súbito as nuvens param, temos a sensação de que o avião vai cair. Mas não, ele é atirado para o alto onde acabou de estrondar um raio. Antes a intensidade do cinza era determinada pela espessura das nuvens, agora pelos relâmpagos amarelos que as dilaceram.

Atravessamos cinco temporais. Na chegada fico sabendo que durante o quarto, outro avião de turismo caiu. Nenhum sobrevivente. Trazia a bordo seis passageiros e o piloto... "

E assim seria mais um filme de Michelangelo Antonioni, na minha opinião, a maior obra-prima que o cinema viria a ter. Por destino, a sétima arte ficou órfã desse projeto que misturaria filosofia, ação, mistério e ciência. Seria uma conexão de 2001 – Uma Odisséia no Espaço (1968), que Antonioni era fã, com a filmografia humanista do cineasta italiano.

Tudo que restou dessa maravilha foram rascunhos onde ele discorre sobre a vida dos passageiros daquele fatídico vôo. Um rico casal de industriais, um escritor, a sua amante, um ex-deputado, uma mulher de meia-idade, e o piloto. Antonioni traça o perfil deles e conta porque estavam reunidos ali.

Após o acidente a trama se concentra num modesto cabo do exército que não sabe o que fazer com o resto da aeronave que se espatifara no morro, enquanto isso um padre, um grupo de curiosos e jornalistas passam pelo local e são destronados pelo diretor.

No final apoteótico, Antonioni parece ninar narrando para nós como se fosse uma aula de astronomia.



* Projeto inacabado.

Um comentário:

cinefilapornatureza disse...

Conheço tão pouco do cinema de Antonioni que até tenho vergonha de dizer isso....