28 Outubro 2009

Musas de Tarantino

Além de ser cinéfilo, ter uma memória privilegiada, ser dono de uma coleção de discos invejável e ser amante da boa música, Quentin Tarantino é também um mulherengo e podólatra assumido, apesar de seu primeiro filme, Cães de Aluguel (1992), ser uma espécie de clube do bolinha reeditado-estilizado e emporretado.

Depois, as mulheres passaram a ganhar destaque e não se parou mais, culminando em Jackie Brown (1997), onde Tarantino não só assume seu papel de cineasta das mulheres, como se mostra um mestre na arte de dirigir as moças.

Sua grande musa é sem duvida Uma Thurman, que teve seus pés exibidos em todos os filmes, além de ter protagonizado 3 dos filmes do diretor, foi também co-autora da história de Kill Bill (2003). Atrás de Uma vem Julie Dreyfus, coadjuvante em duas das películas de Quentin, foi alvo da podolatria do cineasta em Kill Bill (2003). Tem também que ser lembrada a eterna flashdance Jennifer Beals, única mulher no segmento O Homem de Hollywood em Grande Hotel (1995). Vivica A. Fox uma das matadoras-cobra em Kill Bill (2003), e Chiaki Kuriyama a adolescente fetiche do mesmo filme, e as garotas do absurdamente inédito À Prova de Morte (2007) merecem menção.

Agora vamos às musas separadas por filme.

Pulp Fiction – Uma Thurman

Jackie Brown – Pam Grier e Bridget FondaKill Bill – Uma Thurman, Daryl Hannah, Lucy Liu e Julie DreyfusBastardos Inglórios – Diane Kruger e Mélanie Laurent

23 Outubro 2009

Diálogos

Volto a Bastardos, espero que não se importem, mas já acho que não vão se importar. Esse diálogo faz parte da cena inicial, que segundo o próprio Tarantino é sua obra-prima, juntamente com o diálogo do siciliano, que ele apenas escreveu para Amor à Queima-Roupa (1993) de Tony Scott. O livro com o roteiro do filme Inglourious Basterds já se encontra nas melhores livrarias do país.

Escrito por Quentin TarantinoBastardos Inglórios – EUA (2009)

INT. CASEBRE DE PERRIER LaPADITE. DIA.

Col. Hans Landa: Agora se for para determinar qual atributo os germânicos têm em semelhança com um animal, seria a astúcia e o instinto predatório de um falcão. Mas se for para determinar qual atributo os judeus têm em semelhança com um animal, seria a do rato. Se um rato estivesse andando aqui nesse exato momento enquanto eu falo, você colocaria um pires do seu delicioso leite?

Perrier LaPadite: Provavelmente não.

Col. Hans Landa: Eu acho que não. Você não gosta deles. Você realmente não sabe porque não gosta deles. Tudo que sabe é que os acha repulsivos. Conseqüentemente, um soldado alemão realiza uma busca numa casa suspeita de esconder judeus. Onde um falcão olharia? Ele olharia no celeiro, ele olharia no sótão, ele olharia no porão, ele olharia em todas as partes que ele mesmo se esconderia, mas teria tantos lugares que nunca ocorreria para um falcão se esconder. Entretanto, a razão para o Führer me tirar dos meus Alpes na Áustria e me colocar no interior da França hoje é porque ocorreria para mim. Porque estou ciente de que grandes seres humanos são capazes de uma vez abandonar sua dignidade.

20 Outubro 2009

Bastardos Inglórios

Inglourious Basterds – Quentin Tarantino – 2009 (Cinemas)

Era uma vez um senhor de idade já avançada que conversava com seu neto adolescente dentro do cinema enquanto os créditos finais passavam na telona. Sua corrente no pescoço trazia a Estrela de Davi, sua voz era fraca, mas firme. O neto parecia curioso e pensativo: - Então Vô, foi assim que tudo aconteceu? O velho titubeia, mas confirma: - Sim. Claro que muita coisa foi modificada para o cinema, mas foi mais ou menos assim. Ao sair do cinema ele só conseguia pensar numa antiga frase de seu pai. A história pertence aos vencedores.

CAPITULO 1 – ÊXTASE

Assistir a um filme de Quentin Tarantino requer preparo psicológico, pelo menos no meu caso. No primeiro frame de película (sim, ele ainda filma assim) uma paisagem bucólica e campestre invade a telona. Ué, nunca vi isso nos filmes dele. Ai aparece um ator, que também nunca vimos (e olha que ele adora repetir os atores) e uma casinha modesta com som de vacas ao fundo no pasto. Mas de repente, senhoras e senhores, ouvimos os primeiros acordes do piano do Mestre Ennio Morricone na música tema de Quando os Brutos se Defrontam (1967), plam plam plam plam plam plam plam... Sim, estamos em casa, sentem-se e relaxem. CAPITULO 2 – EMOÇÃO

Existe um clichê na narração de futebol que diz que quando um jogador faz uma jogada ou um gol genial, o público deve sair e comprar novamente o ingresso. Bom, se isso vale pro futebol, poderíamos fazer valer nos cinemas, e ai nesse caso, depois do capitulo 1 de Bastardos Inglórios, todos deveriam sair, comprar seus ingressos novamente, e voltar a sentar em suas poltronas para acompanhar o final.

CAPITULO 3 – ADMIRAÇÃO

Se muita gente vem dizendo que o filme é de Christoph Waltz, o sensacional general da SS Hans Landa, eu lhes digo que estão errado. O filme é de todos nós. Se Waltz barbariza, e ele faz isso com prazer sexual para nosso deleite, seus coadjuvantes não ficam pra trás. Pra começar por Brad Pitt, cheio de trejeitos e tiques de um ator de filme B, sua gangue de bastardos alias é toda tirada de um filme B de Enzo G. Castellari, que inspirou o título e a trupe. Tem também a ala francesa, Mélanie Laurent e sua Shoshanna Dreyfus é a nova Eva Green dos cinéfilos, e Denis Menochet, protagonizando a melhor cena do filme, como Perrier LaPadite. A ala germânica é a mais cheia e encabeçada por Diane Kruger, interpretando a atriz alemã Bridget Von Hammersmarck, e colocando seus pés a serviço da podolatria Tarantiniana, Til Schweiger é o Sargento Hugo Stiglitz, Martin Wuttke como Hitler e Daniel Bruhl é o soldado herói. Então podemos dividir em: a ala estadunidense tem interpretação de segunda categoria, a ala francesa uma interpretação mais rica, técnica (afinal eles respeitam os diretores) e detalhista (será que Shoshanna não se apaixona no final?) e a ala alemã mais fiel, disciplinada e culta (a maioria fala mais de uma língua).CAPITULO 4 – REVERÊNCIA

Vou ser honesto, se o filme acabasse no primeiro capitulo, batizado “Once Upon a Time … Nazi Occupied France”, homenagem óbvia a Sergio Leone, eu sairia satisfeito. Reparem também na cena em que a pequena Shoshanna escapa e a câmera de dentro da casa escura focaliza seu corpo no meio da porta se distanciando na bela paisagem. (sei que to enfurnado no cinema de Michelangelo Antonioni atualmente, mas me pareceu uma homenagem). Mas Tarantino consegue surpreender (se para ele ainda fosse necessário). Diálogos afiados, cenas de arrepiar a alma, atores mostrando o poder da bela interpretação, um cineasta em sua melhor forma, drama, comédia, ação e inteligência em níveis proporcionais, por tudo isso Monsieur Tarantino eu lhe digo: Bravo.

CAPITULO 5 – Putting out the fire, with gasoline

I think this just might be my masterpiece.Algumas curiosidades:

● Cinco títulos que inspiraram Tarantino em Bastardos Inglórios: Cinco Covas no Egito (1943) de Billy Wilder, de onde se inspirou para criar o soldado herói nazista Fredrick Zoller, Esta Noite Bombardearemos Calais (1943) de John Brahm, Action in Arabia (1944) de Leonide Moguy, Fugindo do Inferno (1963) de John Sturges, e Os Doze Condenados (1967) de Robert Aldrich.

● Apesar de não repetir a escalação de nenhum ator principal, o filme conta com Samuel L. Jackson como o narrador, a voz de Harvey Keitel como o oficial da OSS que aceita o acordo com Hans Landa e Julie Dreyfus como a namorada do ministro da propaganda de Hitler, Goebbels.

● A personagem de Til Schweiger, o Sargento sabotador dos nazistas Hugo Stiglitz, é uma homenagem ao lendário ator mexicano Hugo Stiglitz.

● O filme Nation’s Pride que passa no cine Le Gamaar, foi dirigido por Eli Roth, que interpreta Donnie Donowitz, ou Urso Judeu.● No filme Nation’s Pride, a voz do soldado que grita: "I implore you, we must destroy that tower!", é de Tarantino.

● O título do filme veio do homônimo italiano que também conta a história de soldados norte-americanos e foi dirigido por Enzo Castellari, que faz uma ponta no filme de Tarantino.

● O cachimbo que Hans Landa fuma na casa de LaPadite se chama Calabash Meerschaum, mas é conhecido como o cachimbo de Sherlock Holmes.

● No jogo das cartas na taverna um soldado leva na testa o nome da atriz Mata Hari, uma atriz e cortesã que foi espiã durante a I Guerra Mundial, e inspirou a personagem de Diane Kruger.● O primeiro soldado alemão a ser escalpelado é o cineasta Quentin Tarantino.

● A razão da enorme cicatriz no pescoço de Aldo Raine, personagem de Brad Pitt foi que ele escapou de um linchamento, o que era comum entre os anos 20 e 30.

● O título do primeiro capitulo Once Upon a Time … Nazi Occupied France, era o nome do filme. Os capítulos subseqüentes são: Inglourious Basterds (2), Noite Alemã em Paris (3), Operação Kino (4) e Vingança da Face Gigante (5).

15 Outubro 2009

À Bout de Souffle

Momento Mágico: Acossado (Jean-Luc Godard)

Em plena Champs-Élysées, a personagem de Jean Seberg, Patricia Franchini, vende, a plenos pulmões, o exemplar diário do New York Herald Tribune portando a camisa do jornal e sendo assistida pela personagem de Jean-Paul Belmondo, Michel Poiccard, se deleita com a cena e o gritinho da garota. 43 anos depois, o cineasta Bernardo Bertolucci também se deleitou com a cena, e a repetiu em seu filme-homenagem Os Sonhadores (2003). Cinematografia de Raoul Coutard.

05 Outubro 2009

Amantes

Two Lovers – James Gray – 2008 (Cinemas)

Apesar da mudança do gênero, policial para o drama, James Gray continua no mesmo tema, problemas familiares. Leonard (Joaquin Phoenix) carrega nas costas todos os problemas do mundo por ser calado e seguir regras impostas por seus pais. Abandonado pela namorada, colecionando tentativas de suicídios, ele conhece Michelle (Gwyneth Paltrow) uma vizinha com quem faz amizade.

Leonard é muito diferente de Bobby Green de Os Donos da Noite (2007), mas possuem o mesmo princípio familiar, e esse acaba sendo a principal veia de inspiração de James Gray no roteiro de Two Lovers. Tanto Leonard quanto Bobby estão na encruzilhada da vida entre seguir seus instintos ou seguir códigos familiares, mas, apesar desse dilema ser o grande trunfo de Gray, não só nos dois filhes, mas em sua filmografia, será também seu calvário, já que a repetição da fórmula acaba estragando o final.

Usando uma fotografia em technicolor, o que dá um aspecto envelhecido a película, já que a marca não é usada desde os anos 60, o cineasta intensifica seu desejo de situar o filme num período que ele não pertence, já que a história se passa nos dias atuais. O fato é que James Gray tem talento, sabe como poucos em Hollywood contar uma história densa e profunda usando como pano de fundo qualquer gênero.