20 outubro 2009

Bastardos Inglórios

Inglourious Basterds – Quentin Tarantino – 2009 (Cinemas)

Era uma vez um senhor de idade já avançada que conversava com seu neto adolescente dentro do cinema enquanto os créditos finais passavam na telona. Sua corrente no pescoço trazia a Estrela de Davi, sua voz era fraca, mas firme. O neto parecia curioso e pensativo: - Então Vô, foi assim que tudo aconteceu? O velho titubeia, mas confirma: - Sim. Claro que muita coisa foi modificada para o cinema, mas foi mais ou menos assim. Ao sair do cinema ele só conseguia pensar numa antiga frase de seu pai. A história pertence aos vencedores.

CAPITULO 1 – ÊXTASE

Assistir a um filme de Quentin Tarantino requer preparo psicológico, pelo menos no meu caso. No primeiro frame de película (sim, ele ainda filma assim) uma paisagem bucólica e campestre invade a telona. Ué, nunca vi isso nos filmes dele. Ai aparece um ator, que também nunca vimos (e olha que ele adora repetir os atores) e uma casinha modesta com som de vacas ao fundo no pasto. Mas de repente, senhoras e senhores, ouvimos os primeiros acordes do piano do Mestre Ennio Morricone na música tema de Quando os Brutos se Defrontam (1967), plam plam plam plam plam plam plam... Sim, estamos em casa, sentem-se e relaxem. CAPITULO 2 – EMOÇÃO

Existe um clichê na narração de futebol que diz que quando um jogador faz uma jogada ou um gol genial, o público deve sair e comprar novamente o ingresso. Bom, se isso vale pro futebol, poderíamos fazer valer nos cinemas, e ai nesse caso, depois do capitulo 1 de Bastardos Inglórios, todos deveriam sair, comprar seus ingressos novamente, e voltar a sentar em suas poltronas para acompanhar o final.

CAPITULO 3 – ADMIRAÇÃO

Se muita gente vem dizendo que o filme é de Christoph Waltz, o sensacional general da SS Hans Landa, eu lhes digo que estão errado. O filme é de todos nós. Se Waltz barbariza, e ele faz isso com prazer sexual para nosso deleite, seus coadjuvantes não ficam pra trás. Pra começar por Brad Pitt, cheio de trejeitos e tiques de um ator de filme B, sua gangue de bastardos alias é toda tirada de um filme B de Enzo G. Castellari, que inspirou o título e a trupe. Tem também a ala francesa, Mélanie Laurent e sua Shoshanna Dreyfus é a nova Eva Green dos cinéfilos, e Denis Menochet, protagonizando a melhor cena do filme, como Perrier LaPadite. A ala germânica é a mais cheia e encabeçada por Diane Kruger, interpretando a atriz alemã Bridget Von Hammersmarck, e colocando seus pés a serviço da podolatria Tarantiniana, Til Schweiger é o Sargento Hugo Stiglitz, Martin Wuttke como Hitler e Daniel Bruhl é o soldado herói. Então podemos dividir em: a ala estadunidense tem interpretação de segunda categoria, a ala francesa uma interpretação mais rica, técnica (afinal eles respeitam os diretores) e detalhista (será que Shoshanna não se apaixona no final?) e a ala alemã mais fiel, disciplinada e culta (a maioria fala mais de uma língua).CAPITULO 4 – REVERÊNCIA

Vou ser honesto, se o filme acabasse no primeiro capitulo, batizado “Once Upon a Time … Nazi Occupied France”, homenagem óbvia a Sergio Leone, eu sairia satisfeito. Reparem também na cena em que a pequena Shoshanna escapa e a câmera de dentro da casa escura focaliza seu corpo no meio da porta se distanciando na bela paisagem. (sei que to enfurnado no cinema de Michelangelo Antonioni atualmente, mas me pareceu uma homenagem). Mas Tarantino consegue surpreender (se para ele ainda fosse necessário). Diálogos afiados, cenas de arrepiar a alma, atores mostrando o poder da bela interpretação, um cineasta em sua melhor forma, drama, comédia, ação e inteligência em níveis proporcionais, por tudo isso Monsieur Tarantino eu lhe digo: Bravo.

CAPITULO 5 – Putting out the fire, with gasoline

I think this just might be my masterpiece.Algumas curiosidades:

● Cinco títulos que inspiraram Tarantino em Bastardos Inglórios: Cinco Covas no Egito (1943) de Billy Wilder, de onde se inspirou para criar o soldado herói nazista Fredrick Zoller, Esta Noite Bombardearemos Calais (1943) de John Brahm, Action in Arabia (1944) de Leonide Moguy, Fugindo do Inferno (1963) de John Sturges, e Os Doze Condenados (1967) de Robert Aldrich.

● Apesar de não repetir a escalação de nenhum ator principal, o filme conta com Samuel L. Jackson como o narrador, a voz de Harvey Keitel como o oficial da OSS que aceita o acordo com Hans Landa e Julie Dreyfus como a namorada do ministro da propaganda de Hitler, Goebbels.

● A personagem de Til Schweiger, o Sargento sabotador dos nazistas Hugo Stiglitz, é uma homenagem ao lendário ator mexicano Hugo Stiglitz.

● O filme Nation’s Pride que passa no cine Le Gamaar, foi dirigido por Eli Roth, que interpreta Donnie Donowitz, ou Urso Judeu.● No filme Nation’s Pride, a voz do soldado que grita: "I implore you, we must destroy that tower!", é de Tarantino.

● O título do filme veio do homônimo italiano que também conta a história de soldados norte-americanos e foi dirigido por Enzo Castellari, que faz uma ponta no filme de Tarantino.

● O cachimbo que Hans Landa fuma na casa de LaPadite se chama Calabash Meerschaum, mas é conhecido como o cachimbo de Sherlock Holmes.

● No jogo das cartas na taverna um soldado leva na testa o nome da atriz Mata Hari, uma atriz e cortesã que foi espiã durante a I Guerra Mundial, e inspirou a personagem de Diane Kruger.● O primeiro soldado alemão a ser escalpelado é o cineasta Quentin Tarantino.

● A razão da enorme cicatriz no pescoço de Aldo Raine, personagem de Brad Pitt foi que ele escapou de um linchamento, o que era comum entre os anos 20 e 30.

● O título do primeiro capitulo Once Upon a Time … Nazi Occupied France, era o nome do filme. Os capítulos subseqüentes são: Inglourious Basterds (2), Noite Alemã em Paris (3), Operação Kino (4) e Vingança da Face Gigante (5).

18 comentários:

Tina Lopes disse...

Muito boa resenha! Só não consigo aceitar q a canastrice de Brad Pitt seja atuação; não gostei dele.

cinefilapornatureza disse...

Também não consigo aceitar que a canastrice do Brad Pitt seja atuação. O tempo todo, nesse filme, eu achei que ele tentou imitar Quentin Tarantino falando!

Parabéns pela resenha, Cassiano! Excelente!

Romeika disse...

Cassiano, adorei sua resenha! Tb tomei um susto na abertura do filme, mas quando a musica comecou a tocar, dei aquele suspiro de alivio: "Ah, bom..." hehehehe Genial.

E concordo que o filme eh de todos, cada atuacao, cada personagem tem sua importancia. Me encantei com a bela Melanie, a comparacao com a Eva Green foi certeira. E AMEI a gangue de bastardos. Nossa, ha tempos que eu nao ria tanto no cinema.

Museu do Cinema disse...

Obrigado Tina, Kamila e Romeika.

Otavio Almeida disse...

Fantástico, Cassiano! Ficou muito bom! E valeu pelas referências! Não sabia da missa a metade! Cachimbo de Sherlock Holmes?? Hmm, parecido mesmo, mas nem sabia que era o mesmo.

E concordo que após o Capítulo 1, o público deveria sair e comprar outro ingresso.

Abs!

Patrícia disse...

Filme perfeito

Tina Lopes disse...

Ah, só pra mencionar, a Shoshana é a cara da Carla Camuratti nos anos 80.

Robson Santos Costa disse...

Pode parecer delírio meu mas a cena da Shoshana correndo no incíio me veio a mente o final de Os Incompreendidos...sei que não tem nada a ver mas lembrei....

Desde Cavaleiro das Trevas (que sei que o dono do blog odeia mas sou contra todos seus argumentos pra isso rsrsrsrsrrs) e Senhores do Crime não saia do cinema tão feliz de ter visto um filme tão bom, ou seja, uma obra-prima.

Otavio disse...

Cassiano,

Estou agora no www.hollywoodiano.com

Esqueça o hollywoodiano.blogspot. ok?

Abs!

Museu do Cinema disse...

Tina, parece mesmo, com a Carla das pornochanchadas.

Otávio, que hollywoodiano.blogspot?

Ramon disse...

Uau! Tô meio engasgado, tentando não me deixar levar pelas suas críticas e depois me decepcionar. É tudo isso, mesmo?
Caramba...!

Dos filmes que você citou ser referência só assisti Fugindo do Inferno, do Sturges.

Vou ter que correr atrás, sem demora!

Abs!

Dimas Oliveira disse...

A música que abre o filme é "Green Leaves of Summer" (Folhas Verdes de Verão), de Paul Francis Webster, do filme "Álamo", de e com John Wayne, 1960.

Reinaldo Glioche disse...

Estou sem palavras... Sua resenha capturou o espirito do filme brilhantemente. ( A ideia de dividir a resenha em capitulos merece um adendo)Bastardos inglórios é genial. E vc permite que atentemos para toda a genialidade da fita pela sua resenha. Parabéns!

leela disse...

Quando vi a cicatriz no pescoço do Brad Pitt achei que fosse resultado de alguma tentativa de suicídio em decorrência da convivência com Angel!!! Já a música, aquela que dá os primeiros e maravilhosos acordes, realmente foi escolhida a dedo, belíssima já ouvida em Álamo (The Green Leaves of Summer. Parabéns a você pela excelente análise.

Museu do Cinema disse...

Obrigado Reinaldo.

leela, a música que comentei é outra, é a do gênio Ennio Morricone, a de Álamo, que vc citou, é dos créditos iniciais.

Fabio Rockenbach disse...

Humn... guys...
O que Brad Pitt faz no filme está longe de ser uma imitação do Tarantino, mas sim do John Wayne com uma mescla do sotaque texano já que o filme incorpora elementos do próprio western e dos western-spaghetti

não havia me dado conta que o Taranta era o primeiro escalpelado. Vou ver bem da próxima vez
Abraço

leela disse...

Espie o pescocinho do Brad neste site e veja que coisa louca!!!
http://www.paramountpictures.com.br/bastardosinglorios/

Ramon disse...

Já comentei o filme, no lugar errado.
Agora resumo:
GOSTEI. Uma grande obra do TARANTINO. Mas não achei tão mágica como você descreve.

Abs!