30 Setembro 2009
Diálogos
24 Setembro 2009
A Partida
Okuribito – Yôjirô Takita – 2008 (Cinemas)A água é extraída do subsolo e aquecida com lenha. Isso a torna mais suave. É por isso que é quente, mas não arde.
O título em japonês significa pessoas que enviam. É uma palavra forte e raramente usada na cultura oriental.
A Partida é um filme de aguçada sensibilidade, e roteirizado com veracidade e domínio para resguardar a inteligência do espectador. Daigo (Masahiro Motoki) é um violoncelista que recebe a notícia que a orquestra que toca vai encerrar os trabalhos. Ele decide retornar a pequena cidade onde nasceu e consegue um estranho emprego. Daigo prepara as pessoas para partir. E como todos os trabalhos não comuns, ele sofre preconceitos por seu oficio. Sua esposa quer que ele arranje outro tipo de trabalho, apesar de seu chefe ser quase uma referência paterna para ele.Daigo é um homem que veio de família humilde e foi educado modestamente. Isso o tornou mais introvertido. É por isso que é meigo, mas forte.
Apesar de ser um ritual moderno, a tradição e a cultura japonesa, faz com que pensemos que se trata de uma cerimônia secular, e aí que entra a beleza do roteiro e a sensibilidade do cineasta Yôjirô Takita, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2009. Takita, um experiente cineasta nipônico, desarma qualquer reação da platéia à medida que vai mostrando o ritual do trabalho de Daigo. Esqueça as risadas, esqueça o incômodo, esqueça o estranhamento.Os diretores saem de mercados menos conhecidos e são reverberados por pequenos grupos. Isso os torna mais sensíveis, poéticos. É por isso que são gênios, mas não intocáveis.
22 Setembro 2009
L'avventura
Momento Mágico: A Aventura (Michelangelo Antonioni)
19 Setembro 2009
Inimigo Público nº 1
L’instinct de Mort – Jean-François Richet – 2008 (Cinemas)A tela se divide em duas, uma ruiva de cabelos crespos é vista numa tela de frente, e em outra, maior e widescreen, é vista de costas. A trilha provoca suspense. A garota parece agitada e nervosa, olhando pra trás é vista pelas duas telas. A imagem em plano aberto mostra que ela puxa um cachorro pela coleira. Ela passeia com o animal sempre olhando de um lado pro outro. Aparece um sujeito na tela pequena. Logo aparece também na maior, visto por outro ângulo. Corte para duas telas iguais, uma foca na mulher, com o rapaz vindo no fundo desfocado. Na outra, o contrário, ele em foco e ela nublada. O diretor divide a tela em muitas formas, e dando a nossa visão em diversos ângulos. Um close nele e percebemos que se trata de nosso protagonista, apesar do cavanhaque, dos óculos e da cabeleireira. Agora a tela é inteira de uma garagem se abrindo, mas uma tarja preta com o crédito do cenário a corta, é o cineasta brincando conosco. Um BMW da década de 70 sai. Os dois estão dentro. A trilha provoca mais suspense ganhando notas pesadas no exato momento que ele vai cruzar a pista. Bum! Um carro buzina forte. Nosso protagonista pisa o pé no frio de solavanco. Não foi nada, só o susto. Tudo se divide novamente. O carro dá ré e para no meio da pista. A garota entra num prédio, ele vai até atrás do carro, tira os óculos, coloca a mão nos olhos, vemos tudo seguidamente em 5 telas, repetindo as expressões do ator. A tela ganha mais uma divisão, agora são 6, para mostrar a ruiva saindo do apartamento segurando uma bolsa e um casaco. Tudo pra mala do carro. Agora ele entra no prédio e sai rapidamente carregando uma mala grande. Eles entram no carro e partem. O que era uma pequena tela widescreen na parte esquerda, vai aumentando com a saída do carro até ganhar ela toda. Pronto, acabaram-se os créditos. A trilha de suspense continua, o carro vai andando nas ruas entre outros veículos. Uma moto passa do lado. Um caminhão pede passagem para nosso protagonista, que cede. Todos param num semáforo vermelho, o casal parece relaxado, mas o cachorro, lembram dele, está agitado, ele dá um latido forte em direção ao caminhão, atraindo a atenção de nosso protagonista. É quando saem da parte traseira do caminhão 4 homens apontando suas armas e engatilhando-as. A garota vira o rosto e solta um grito estridente.
Jacques Mesrine se tornou o inimigo público número 1 da França em 1979, depois de diversos assassinatos, seqüestros, roubos, e até uma fuga cinematográfica da prisão, época que escreveu o livro autobiográfico Instinto de Morte, ele foi morto pela polícia numa emboscada até hoje não esclarecida.
A vida de Mesrine ganha, pela segunda vez, uma adaptação para o cinema, desta vez dois filmes narram à trajetória do mais famoso bandido francês. Inimigo Público nº 1 – Instinto de Morte, a primeira parte, explora o comportamento, os amores, e a vida do marginal tentando encontrar razões. Vincent Cassel dá vida ao personagem na melhor interpretação de sua carreira – ganhou o César de melhor ator. O marido de Monica Bellucci engordou 20kg e teve que perdê-lo durante as filmagens dos dois longas. A direção de Jean-François Richet prima em mostrar os melhores ângulos e captar as melhores situações dos atores. Numa história que Hollywood já explorou bastante, Richet consegue trazer algo novo ao gênero.
17 Setembro 2009
Clube dos Cinco
“...E as crianças que você despreza enquanto tentam mudar o mundo são imunes aos seus comentários. Elas sabem bem o que está acontecendo com elas...” David Bowie.The Breaksfast Club – John Hugues – 1985 (DVD)
Sábado, 24 de março de 1984.
Escola de segundo grau Shermer. Shermer, Illinois. 18:02 da tarde.
Prezado Sr. Vermon,
Aceitamos ter que passar o sábado de castigo pelo o que fizemos de errado. O que fizemos foi errado. Mas é loucura nos forçar a escrever uma redação sobre nós mesmos. Você não liga de qualquer maneira. Você nos ver como quer, de uma maneira simplista e que mais lhe convém. Você nos vê como o gênio, o atleta, a louca, a princesa e o marginal. Certo? É isso que achávamos de cada um de nós quando nos encontramos. Sofremos uma lavagem cerebral.
● As razões das detenções dos cinco no sábado foram: Bender: puxou o alarme de incêndio. Brian: Um sinalizador disparou em seu armário. Andy: Colocou a foto de um cara com a bunda junta no vestiário. Claire: filou aula pra ir ao shopping. Allison: não fez nada, ela não tinha nada melhor pra fazer num sábado.15 Setembro 2009
A Malandrinha
Curly Sue – John Hugues – 1991 (DVD)John Hugues ficou sentimental com o passar dos anos. Seu derradeiro filme é uma fábula moderna sobre paternidade e a educação – esse, um tema recorrente em sua filmografia.
A Malandrinha é a essência dos filmes de Hugues, algumas vezes politicamente incorreto, mas com mensagens positivas e essencialmente correto.
Curly Sue (Alisan Porter) é uma gracinha de garota, cativante, falastrona e esperta, seu maior medo é ser abandonada novamente pela figura do pai, Bill (James Belushi). A dupla ganha à vida fazendo pequenas armações, mesmo tendo um forte código de conduta – eles não roubam. Tudo muda quando eles simulam um acidente envolvendo a advogada Grey (Kelly Lynch, linda como nunca). O filme é a estréia de Steve Carell nos cinemas num pequeno papel.
13 Setembro 2009
Quem vê cara não vê Coração
Uncle Buck – John Hugues – 1989 (DVD)A música denuncia que estamos num filme de John Hugues, Uncle Buck entra na escola fumando um charuto. Ele foi conversar com a diretora sobre a sobrinha Maizy. Na sala de espera uma criancinha aguarda sua vez pacientemente e nervosamente. Não é pra menos, Anita Hoargarth parece à irmã de Hitler, e sua verruga uma bola de futebol. Abrindo a boca percebemos que a aparência não é nada, aquela mulher é uma bruxa. Educadora há 31.3 anos, ela diz, com todas as letras, que Maizy é uma “semente” ruim porque é sonhadora, bestinha e tagarela, e que não leva nada a sério em sua vida. Maizy tem 6 anos. Porém, Anita escolheu a pessoa errada para falar essas coisas, Uncle Buck vai lhe dar uma lição.
Tio Buck (John Candy) é um homem cheio de defeitos, mas assim como em todos os filmes de John Hugues, ele tem qualidades fundamentais no universo huguiniano, Buck tem princípios, não tolera gente preconceituosa e respeita as crianças.Seu irmão, Bob (Garrett M. Brown), sabe dos defeitos de Buck, vagabundo, descompromissado e enrolado, mas para desespero da esposa de Bob, Cindy, eles terão que chamar Buck para tomar conta das seus filhos (duas crianças e uma adolescente), porque terão que viajar pra Indianópolis por causa do estado de saúde do pai de Cindy.
Uncle Buck faz parte do acordo de Hugues com a Universal para a produção de 3 filmes. É a trilogia da vida adulta, Antes só do que Mal Acompanhado, e Ela vai ter um Bebê completam a série. O sucesso estrondoso e a bilheteria do filme rendeu uma telesserie homônima de 1990 a 1991 com Kevin Meaney interpretando o Tio Buck. Macaulay Culkin interpreta um dos sobrinhos de Buck.
Mais uma vez somos brindados com uma trilha emocionante e alegre de Ira Newborn.
06 Setembro 2009
AntiCristo
Uma mulher chorando é uma mulher arquitetando.
Prólogo
Ao som da ária Lascia Ch’io Pianga da Ópera Rinaldo, e em imagens lentas e em p&b, um casal toma banho. A janela da casa se abrindo denuncia a neve e a ventania lá fora. Eles começam a fazer sexo dentro do chuveiro. Close nos genitais. O casal vai pra cama. A babá eletrônica dá sinais de zoada no quarto do bebê. O casal não ouve. O bebê se encaminha perigosamente para a janela aberta. Ao fundo se vê o casal transando. A criança já está em cima da mesa em frente à janela, quando a mulher anuncia seu orgasmo. O inevitável acontece.
Cap. 1 (Pesar)
O casal de protagonistas, interpretado por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg (vencedora do Festival de Cannes), sofrem com a morte do filho. Ele, um psiquiatra, resolve ajudar a mulher, uma historiadora, que parece ter sentido mais a perda, inclusive se internando numa clínica e se entupindo de medicamentos.
Cap. 2 (Dor – O caos reina)A proposta dele é partirem para a psicoterapia cognitiva, que leva em conta as interpretações que cada um dá a si, e aos acontecimentos, pra tentar entender e modificar suas emoções e seu modo de agir, começando por elaborar uma lista de medos.
Lars Von Trier não esconde de ninguém que o filme é autobiográfico, e foi criado numa profunda depressão de criatividade que o cineasta passou.
Cap. 4 (Os três pedintes)
O filme é dividido em quatro capítulos, que reproduzi acima, além do prólogo e epílogo. Os displays que aparecem sobre imagens abstratas são do artista dinamarquês Per Kirkeby. AntiCristo é inspirado pelo livro de cabeceira de Von Trier, O Anticristo, um manifesto anti-cristianismo de Nietzsche.
Epílogo
Apesar das críticas que se lê por ai, há duas cenas polêmicas no filme que não chegam a chocar, principalmente para quem se acostumou a ver filmes violentos hollywoodianos. A fotografia em preto e branco do inicio (prólogo) e fim (epílogo) do filme são os pontos altos da direção de Anthony Dod Mantle, constante colaborador de Von Trier.
