29 dezembro 2013

A Grande Beleza


La Grande Bellezza – Paolo Sorrentino – 2013 (Nos melhores cinemas do país)

Viajar é útil, exercita a imaginação.
O resto é desilusão e fadiga.
A viagem é inteiramente imaginária.
Eis a sua força.
Vai da vida para a morte. Pessoas, animais, cidades, coisas, é tudo inventado.
É um romance, apenas uma história fictícia.
Disse Littre, e ele não erra.
Porem, qualquer um pode fazer o mesmo.
Basta fechar os olhos.
E está do outro lado da vida.
Louis Ferdinand Céline
Viagem ao Fim da Noite (1932)

Numa das cenas mais engraçadas da película, o escritor Jep Gambardella (Toni Servillo) entrevista uma artista conceitual inspirada em Marina Abramovic quando se irrita por ela não saber responder sobre vibrações. A “artista” então lhe diz que vai procurar a editora para enviar um jornalista de estatura mais elevada. Jep não se contém de graça e lhe diz: - Cuidado ao falar de estatura com minha chefe, ela é anã.

Para Paolo Sorrentino, Roma é o centro do mundo, exatamente como era na época do Império antes de Cristo. Ela guarda algumas relíquias da humanidade, e é nela que as mazelas mundanas são mais evidentes, mas, ao contrário da era de protagonismo, a Roma atual é governada por um escritor, uma espécie de Nelson Rodrigues italiano. Um crítico.

Jep é interpretado por Toni Sevillo, inspirado e arrebatador, amado desde o inicio pelo excelente cinematógrafo Luca Bigazzi – impressionante como um caso de amor entre ator e câmera fica tão evidente desde o primeiro frame ao som de Bob Sinclar mixando uma canção com Raffaella Carra, chamada Far L'Amore. Ele é um escritor de um único livro que virou uma espécie de cronista e crítico de arte. Inconformado e boêmio ele procura a grande beleza do título, seja nas mulheres – Isabella Ferrari, Fanny Ardant e Sabrina Ferilli – ou em sua cidade, uma das mais belas do mundo, e que lhe reserva uma varanda com vista para a mais famosa arquitetura do mundo, o Coliseu.

A obra-prima de Sorrentino revela-se em um emaranhado de simbolismo que remonta à época da renascença. Seria um toque de positivismo diante da crítica embasada do cineasta?

Permitam-me alongar-me um pouco mais.

Falando em análise negativa, voltemos à citação inicial do filme e que ilustra esse post. Um trecho de Viagem ao Fim da Noite, do romancista francês Louis Ferdinand Céline, um conhecido crítico da sociedade do século XX. Desesperançoso e niilista ele acha que suas previsões são verdades absolutas, porém o verso que o diretor napolitano Paolo Sorrentino escolheu é cheio de esperança, é como se ele quisesse apontar para o próprio Céline e mostrar-lhe que na sua mais famosa obra se encontra beleza. A grande beleza.

Luca Bigazzi e sua extraordinária cinematografia da película conceberam imagens que, pode apostar, farão parte de qualquer relicário cinematográfico que se preze. Podemos tirar no mínimo 5 frames que passarão a eternidade, e cenas que ganharão vida própria como a belíssima com a atriz Fanny Ardant, em que Jep, um andarilho pela noite romana, se encontra com a deusa do cinema, e ele como um fã a olha como se visse Deus, e ela o entende na hora trocando sorrisos simpáticos ao som da estupenda melodia de The Beatitudes do compositor russo, Vladimir Martynov.

Assim como Federico Fellini fez com seu filme estado da arte, La Doce Vita (1960), Sorrentino nos encanta com seu tour por Roma, junta-se a Fontana de Trevi, a Scala Santa da cena final, a Passeggiata Del Gianicolo, Terme di Caracalla, o Parco degli Acquedotti, San Pietro in Montorio e a Fontana dell’acqua Paola. Locais necessitados de curadores que, assim como no filme, são entregues as chaves para “homens de confiança”. Paolo Sorrentino e Federico Fellini são dois desses distinguíssemos senhores cicerones cujas chaves das obras da cidade estarão salvaguardadas.

(Adicionado em 3/1/2014) Quando você ver o filme ficará registrado permanentemente em algum local de sua mente lugares inesquecíveis, e isso virá relembrando cenas marcantes da película. Mesmo nunca conhecendo Roma, bastará fechar seus olhos e a grande beleza estará lá.

E o resto é blá, blá, blá e... blá.

Um comentário:

Kamila disse...

Com algumas ausências importantes da pré-lista da AMPAS para Melhor Filme Estrangeiro, me parece que esse é o grande favorito da categoria em 2014. Veremos se o favoritismo se confirma para o Oscar.