10 agosto 2012

Terra de Ninguém

Badlands – Terrence Malick – 1973 (DVD)

- Não me importo de acordar cedo, por isso trabalho recolhendo lixo. Não estou gostando disso!
- É o meu pai, tenho que ir.
- Espera, quando volto a te ver?
- Sei o que meu pai vai dizer.
- O quê?
- Posso ser honesta?
- Claro.
- Que não devo ser vista com alguém que recolhe lixo.
- Mas o que ele sabe de lixo?

O primeiro filme escrito, dirigido e produzido por Terrence Malick aparentemente nada tem a ver com sua filmografia que conhecemos hoje, porém, um olhar mais atento perceberá já sua caligrafia e principalmente a preocupação e comprometimento com sua arte autoral sem vícios ou vaidades, para isso o diretor não quis financiamento e ofertas dos grandes estúdios.

A história dos jovens Kit (Martin Sheen – papel que hoje é desempenhado por seu filho Charlie na vida real) e Holly (Sissy Spacek), baseada no casal Charles Starkweather e Caril Fugate, que em 1958 aterrorizou os EUA numa jornada de sangue e violência gratuitas (é, eles já fazem isso há décadas), é contada por Malick como uma forma de entender a psicologia dos autores desses crimes. Apesar de Starkweather ter sido executado, Fugate ainda é viva, por isso Malick, que produziu o filme, resolveu mudar os nomes e evitar processos.

A marca registrada do cineasta norte-americano é expressa quando o casal de serial killers resolve se isolar do mundo, ali Terrence exibe a majestosa natureza em planos de cortar o fôlego e que para um espectador mais desligado e urgente acha que nada tem a ver com a história. A contradição aqui é mostrar que somos da mesma natureza, tudo isso faz parte da vida. A tradicional narração em off ganha a voz quase infantil de Sissy Spacek, e a trilha sonora é assinada por George Aliceson Tipton, que mais tarde ganharia uma homenagem de Hans Zimmer em Amor à Queima Roupa (1999).
Uma curiosidade, e até perplexidade que Terra de Ninguém traz é a participação do agora recluso cineasta. A cena aconteceu depois que um ator não apareceu nas filmagens e Malick fez seu papel na intenção de depois refilmar a cena com outro.

2 comentários:

Alex Gonçalves disse...

Entre os três filmes de Malick que assisti até o momento, "Terra de Ninguém" é o meu favorito. Gosto muito da maneira intimista como o cineasta desenha seu casal de protagonistas, quebrando as expectativas dos espectadores que talvez aguardassem um road movie marcado pela violência da história real.

Museu do Cinema disse...

Ele dá a visão do casal, sem exagerar na tinta colorida.