29 Junho 2010

Crimes d’Alma

Cronaca di un Amore – Michelangelo Antonioni – 1950 (DVD)

“O universo não é nada, senão amor”. Foscolo.

Um filme de Michelangelo Antonioni é sinônimo de obra-prima. Não estou falando que todas as suas películas sejam perfeitas, mas é notável que a grande maioria de suas produções estão no topo dos maiores do cinema mundial, desconfie de qualquer lista que fuja a esta regra.

Crônica de um Amor (não vão pelo título nacional) é mais um do mestre classificado como obra-prima. Sua temática que mistura neo-realismo italiano, film noir, e Antonionismo é uma clássica história de amor mesclada nesses temas.Paola (a lindíssima miss Lucía Bosé) é uma jovem casada com um industrial que contrata um detetive para investigar o seu passado. O investigador acaba atraindo a atenção de Guido (Massimo Girotti), um ex-namorado de Paola. A exceção de Massimo, todo o elenco era desconhecido.

Sempre que penso nisso, aquela comédia me vem a mente...como se chama?... Bom, dizia que o amor de uma mulher pelo marido se mede pelas enxaquecas.Apesar de não incluir cenas de assassinato, não se alongar nas cenas de detetive, e não obter fotografia escura e predominantemente noturnas, o filme flerta a todo o momento com o noir, ao mesmo tempo em que coloca a realidade italiana do pós-guerra (o neo-realismo), principalmente na disputa entre o industrial e o ex-namorado pobre, passando pelo Plano Marshall que ajudou a Itália e a setores da indústria automobilística a se recuperarem da guerra. Reparem também como a bela trilha sonora de Giovanni Fusco sugere o clima noir.A atriz Lucía Bosé, que foi miss Itália e aqui faz seu début no cinema, é considerada musa do neo-realismo italiano, trabalhou com os grandes nomes do cinema mundial, Dino Risi, Luis Buñuel e Federico Fellini, e claro Michelangelo Antonioni. Casou-se com o toureiro espanhol Luis Miguel Dominguín com quem teve dois filhos, Paola e Miguel Bosé, famoso cantor espanhol. Há época do filme Lucía tinha apenas 19 anos.

Michelangelo Antonioni afirmou que a trama girava em torno da questão financeira numa entrevista em 1980: “O filme trata de dinheiro, e o que me recordo de mim mesmo àquela época era que não o tinha. E isto é muito importante, no que acredito que o enfoque da história tivera esse ponto de vista”.
Crônica de um Amor é o primeiro longa-metragem de Antonioni, e é uma grande mostra do que viria a ser sua filmografia como cineasta. Optando por usar tomadas únicas, movimentos coreografados e câmeras imóveis e voyeurísticas, o diretor italiano chama a atenção da bíblia cinematográfica Cahiers du Cinéma que discorre um artigo sobre uma tomada longa e sem cortes, mas altamente necessária, em uma ponte onde os protagonistas ficam em conflito quando enfrentam a realidade do plano que elaboraram. A cena é espetacular e genial. Ela traça uma tomada que começa de um ponto e num movimento de 360º termina do ponto que se originou. Vejam (ou babem) com os seus próprios olhos.

16 Junho 2010

Amores na Cidade

L’amore in Città (Tentativa de Suicídio) – Michelangelo Antonioni – 1953 (DVD)

O roteirista italiano, e um dos precursores do movimento neo-realista, Cesare Zavattini convidou os cineastas Federico Fellini, Alberto Lattuada, Carlo Lizzani, Francesco Maselli, Dino Risi e Michelangelo Antonioni, todos de alguma forma ligado ao movimento, para contarem uma história envolvendo amor na cidade Roma.

Antonioni aparece com o semi-documental segmento Tentativa de Suicídio, onde usa entrevistas com um grupo de pessoas que já tentaram tirar a própria vida por desilusões amorosas.

O grande mote de Amores na Cidade é o neo-realismo italiano, movimento que ganhava corpo e crescia no mundo. Apesar de Michelangelo Antonioni e Federico Fellini participarem do filme é notório que não são grandes nomes vinculados ao movimento. Os dois grandes diretores criaram um tipo de cinema que não se encaixam em rótulos ou estéticas cinematográficas, apesar disso fizeram do neo-realismo um aprendizado para suas carreiras, e é sensacional enxergar como isso tem uma influência enorme no trabalho e filmografia tanto de Fellini como de Antonioni. É como um pintor que desenvolve uma técnica nova, mas ainda utiliza-se de métodos que aprendeu outrora.É interessante observar as primeiras percepções de Michelangelo sobre a estética cinematográfica. Ainda insipiente, ele tinha dirigido na época apenas 3 longa-metragens, percebe-se sua preocupação com enquadramento e posicionamento de câmera.

As histórias foram retiradas de jornais e algumas personagens são interpretadas por pessoas que realmente viveram o fato. O filme nunca foi exibido no Brasil.

07 Junho 2010

O Grito

Il Grido – Michelangelo Antonioni – 1957 (DVD)

IN QUESTA DROGUERIA CHI NON PAGA TORNA VIA
NESTA MERCEARIA, QUEM NÃO PAGA VOLTA DE MÃOS VAZIAS


Um grito ecoa da tela. Uma mulher desesperada solta o barulho com o rosto atônito. Seus olhos olham para cima e parecem seguir algo que cai em sua frente. Suas mãos denunciam o desespero que o som já proporciona. A câmera continua imóvel focalizando aquela mulher, quer dizer, focalizando O Grito.

O Grito foi o primeiro sucesso de Michelangelo Antonioni. Ainda guarda resquícios do cinema conhecido como neo-realismo italiano, e pelo qual Antonioni começou a seguir nos seus primeiros passos, mas rapidamente criou identidade e personalidade própria fugindo do movimento e ao mesmo tempo criando um outro, o seu.Foi também a primeira oportunidade que o cineasta teve de dirigir atores de Hollywood, mesmo sem serem grandes estrelas do cinemão norte-americano, Steve Cochran e Betsy Blair eram famosos o bastante para serem considerados estrelas internacionais. Betsy então era casada com Gene Kelly. O Grito marca o encontro de Michelangelo com a sua eterna musa Monica Vitti, que trabalha aqui como dubladora da atriz norte-americana Dorian Gray, que tem um papel de destaque como Virginia, dona do posto de gasolina na estrada com quem Aldo mantém um relacionamento.

A película narra o fim do caso extraconjugal de Aldo (Cochran) e Irma (Alida Valli) quando ela descobre a morte do marido. Para Aldo é a oportunidade de finalmente casar com ela e legitimar a relação que já rendeu uma filha. Porém Irma confessa que ama outro homem, e Aldo resolve partir com a filha numa viagem pelo interior da Itália num típico road-movie.O belíssimo preto e branco do filme, que foi bastante elogiado e premiado na época, é de Gianni Di Venanzo, que trabalhou com Antonioni na maioria de seus filmes em P&B.

O Grito consegue expor de maneira clara os sentimentos de uma personagem que vaga sem objetivo na vida, ao mesmo tempo consegue fazer dela, a personagem, uma pessoa sem muitas aspirações, criando uma dualidade que culmina na cena final e numa grande interrogação quanto à sua verdade, e para mim é nisso que faz de O Grito ser uma obra-prima. Reparem nas imagens que ilustram esse post, são enquadramentos perfeitos e momentos congelados vívidos por interpretações.

Numa cena, Aldo explica a prostituta Andriela (Lynn Shaw) como conheceu sua amada e se apaixonou por ela. Andriela então fica indignada e pergunta como acaba? O que acontece?

01 Junho 2010

Vontade de?...

Tem total consciência de tê-lo magoado. Deixar um amante depois de seis anos de vida em comum não é brincadeira. Por isso pede aos amigos que não o deixem sozinho, que o ajudem a superar esses momentos difíceis. Não passou um dia e já estão todos em cima dela como corvos. Telefonam, querem marcar encontros, escrevem cartões, chegam até a mandar flores. É a primeira vez na vida que recebe flores. Quando pede notícias do ex-amante, dizem-lhe que está bem e ela não consegue saber se estão dizendo a verdade. Gostaria de certificar-se disso pessoalmente, mas seu gesto seria considerado por ele uma maneira de reconsiderar a decisão e teria como resultado abrir uma situação já fechada. Mas é estranho que ele não dê sinal de vida. Suspeita que os amigos estejam lhe contando sabe-se lá o que, talvez que ela o traísse. Decide falar com o filho dele, de dezessete anos. Este faz o gênero franco, explícito, e logo a interrompe.

- Por que você está atrás dele? Está com vontade de trepar?

Ela gira o corpo em sua direção. Emite uma voz azeda, que não é a sua.

- Vontade de?...

O garoto sai batendo a porta. E é aquela pancada que lhe permite entender sem possibilidade de equívocos que sua vida definitivamente mudou, que está recomeçando do zero.

Que está sozinha e não deve ter piedade. Que não é esse sentimento que irá ajudá-la na vida.

Conto integrante do livro O Fio Perigoso das coisas e outras histórias – Idéias para possíveis filmes transformadas em contos escritos com a precisão de um mestre. Lançado pela Editora Nova Fronteira 1990. Livro mais que obrigatório na estante de um cinéfilo. Na publicação, Michelangelo Antonioni divide com o leitor seu processo de criação através de pequenos contos onde, em alguns deles, faz um pequeno resumo do projeto e explica o que não deu certo.