25 Agosto 2010

Cena de Cinema

Blow-Up (Blow-Up – Michelangelo Antonioni – 1966 – DVD)

Interpretação da cena final:

O Eastmancolor realça ainda mais o verde criado por Antonioni com os cabelos loiros de David Hemmings, o fotógrafo do momento da Swinging London¹. Thomas está desolado. Não consegue encontrar no parque resquícios do corpo que fotografou sem querer. A rag week² invade a tela e o Maryon Park numa gritaria sem sentido. O fotógrafo observa. Os jovens param o jeep em frente às quadras de tênis, dois deles entram, o resto do grupo assiste à partida do lado de fora, pelo alambrado. Nos perguntamos, cadê a bola? Cadê as raquetes?

Thomas vive a vida através de suas fotos. A primeira cena dele no filme é saindo de uma mina juntamente aos trabalhadores e infiltrado lá para fotografar para seu novo livro. Depois observamos o quanto ele se leva a sério em negar fazer fotos para duas garotas que querem seguir carreira de modelo. Nos perguntamos, cadê fotógrafo? Cadê o profissional?

É engraçado notar que todos acompanham a “bola” indo com a cabeça de um lado a outro a ponto de uma espectadora se machucar com a “bola”. O que provoca sorriso irônico e incomodado de Thomas. O fotógrafo começa a perceber que ele faz parte daquele jogo. Sua vida faz parte daquilo. Afinal cadê o corpo Thomas?

A “bola” sai da quadra e vai parar atrás do fotógrafo. Todos olham para ele que sai correndo em direção ao nada, quer dizer, a “bola”, e faz o movimento de jogá-la novamente a quadra. E é justamente aqui que entra toda a grandiosidade do cinema de Michelangelo Antonioni, o soberano da simbiose imagem e roteiro, o mestre dos planos magníficos. Invés de seguir a “bola” contemplamos o rosto de David Hemmings num plano-norte-americano aberto, e para nossa surpresa ouvimos o som da “bola” indo de um lado pro outro. Agora, com um plano amplo e aberto e o fotógrafo no centro da tela, vemos seu desaparecimento sob nossos olhos. Segundo o cineasta seria o autografo de Thomas.
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¹ Swinging London é o termo usado para descrever a efervescência cultural e o modernismo de costumes da cidade de Londres, e dali para o mundo, durante a segunda metade dos anos 1960.

² A Rag Week é uma semana que ocorre em várias universidades britânicas, uma vez por ano letivo, em que os estudantes tentam angariar dinheiro, para caridade, através de várias atividades da maneira mais divertida possível.

16 Agosto 2010

Blow-Up - Depois Daquele Beijo

Blow-Up – Michelangelo Antonioni – 1966 (DVD)

Consagrado na Itália, Michelangelo Antonioni assina com a MGM e o produtor italiano Carlo Ponti para rodar três filmes. Blow-up é o primeiro deles. Para o cineasta, tanto a Londres dos anos 60, como uma sensação de “sensualidade fria e calculista” são fundamentais para o mistério de sua película. O clima erótico fez com que fosse proibido de estrear em alguns países, principalmente por causa da cena da orgia.A genialidade de Antonioni em construir cenas cinematograficamente perfeitas tem aqui seu veículo mais apropriado na história do fotógrafo-celebridade-boçal que trata as pessoas como imagens e vive no mundo materialista. Os frames são de qualidade poucas vezes vista na história do cinema, os enquadramentos perfeitos remetem a profissão do protagonista, uma cena em particular deixa isso evidente, é no momento em que o fotógrafo faz fotos para um editorial de moda em seu estúdio, várias modelos, simetricamente separadas, posam enquanto algumas paredes de vidro dividem o cenário, a câmera de Michelangelo percorre a cena com esmero, não deixando de lado o propósito dela estar ali.

O fotógrafo Thomas (o bom ator David Hemmings que hoje interpreta papéis menores em filmes como Jogos de Espiões (2001), e Gladiador (2000) entre outros), faz fotos num parque londrino quando nota a presença de um casal namorando, suas lentes passam a focar nos amantes, uma bonita jovem e um coroa. Sua insistência acaba despertando a atenção dos pombinhos, e a jovem então vai tirar satisfações e Thomas acaba argumentando que o local é público. Mais tarde, já em sua residência ele recebe a visita da jovem que se chama Jane (Vanessa Redgrave) que faz de tudo para conseguir os negativos das fotos do parque, e acaba sendo enganada por Thomas, que depois percebe que fotografou um assassinato.

Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1967 é o primeiro filme britânico que mostra nudez feminina frontal, assim como é a primeira película de Michelangelo Antonioni falada em inglês. Seu perfeccionismo com a imagem levou a produção a pintar de verde à grama do Maryon Park, pois o diretor não estava contente com a cor real.Blow-up foi baseado no conto “Las Babas Del Diablo” do belga naturalizado argentino Julio Cortázar, que faz uma ponta no filme como mendigo. O escritor já foi outras vezes adaptado para o cinema, inclusive o nosso, com o mediano Jogo Subterrâneo (2005) e A Hora Mágica (1998).

Para quem gosta de fotografias, as ótimas fotos do filme é do excelente fotógrafo londrino Don McCullin, que você conhece mais clicando aqui.

A Rag Week, que está presente em quase todos os momentos da película, inclusive na cena final é uma semana que ocorre em várias universidades britânicas, uma vez por ano letivo, em que os estudantes tentam angariar dinheiro, para caridade, através de várias atividades da maneira mais divertida possível.

A cena final é uma das mais criativas e sensacionais da história do cinema mundial.

03 Agosto 2010

As Armas Secretas

As Armas Secretas – Julio Cortázar – 2009 (Livro)

Inédito no Brasil até o ano passado, o livro de contos As Armas Secretas traz o inesquecível conto As babas do diabo, que inspirou Michelangelo Antonioni a realizar a sua obra-prima mais popular, Blow-Up (1966).

Trazido ao mundo editorial dos órfãos brasileiros pela José Olympio Editora, e vendido na saraiva por módicos R$ 13,90 (compre aqui), As Armas Secretas é publicação feita para estar em biblioteca de cinéfilos.

Cortázar celebra a fotografia no parágrafo: “Entre as muitas maneiras de se combater o nada, uma das melhores é tirar fotografias, atividade que deveria ser ensinada desde muito cedo às crianças, pois exige disciplina, educação estética, bom olho e dedos seguros. Não se trata de estar tocaiando a mentira como qualquer repórter, e agarrar a estúpida silhueta do personagem que sai do numero 10 de Downing Street, mas seja como for quando se anda com a câmara tem-se o dever de estar atento, de não perder este brusco e deliciosos rebote de um raio de sol numa velha pedra, ou a carreira, tranças ao vento, de uma menininha que volta com um pão ou uma garrafa de leite”.

O autor tece sua história sem saber em que pessoa contar, “...se na primeira ou na segunda pessoa, usando a terceira do plural, ou inventando constantemente formas que não servirão para nada”. E preocupado, a todo momento, com o tempo e o formato das nuvens (agora passa uma nuvem quase negra).

Alguns trechos do conto foram traduzidos quase instantaneamente para o filme. “A mulher disse que ninguém tinha o direito de tirar uma fotografia sem permissão, e exigiu que eu lhe entregasse o rolo do filme. Tudo isso com uma voz seca e clara, com sotaque de Paris, que ia subindo de cor e de tom a cada frase. Por mim, tanto fazia dar ou não o rolo do filme, mas qualquer um que me conheça sabe que, comigo, as coisas têm de ser pedidas com jeito. O resultado é que me limitei a formular a opinião de que a fotografia não só não estava proibida nos lugares públicos, como conta com o mais resoluto serviço social e privado”. (insistir cansa, mas acabam de passar duas nuvens desfiadas).