05 novembro 2009

Pornô+Chanchadas

Chanchada era um tipo de filme mal feito, sem qualidade técnica e visual e onde a comédia rasgada prevalecia. Predominava-se um humor ingênuo, burlesco, de caráter popular. O cinema da chanchada era tipicamente carioca, e ajudou ainda mais a celebrar a fama de malandro do povo do Rio de Janeiro. Alguns críticos datam o movimento no ínicio do século XX, outros adotam a filmografia da Atlântida como marcos iniciais e finais da Chanchada. Seguindo essa informação temos Carnaval no Fogo (1949) como a primeira chanchada e Garotas e Samba (1957) como último.

A Atlântida foi constituída por alguns intelectuais cariocas que sonhavam com um modelo de cinema nacional sério e rentável. Eles vinham de um grande sucesso, Moleque Tião (1943), um melodrama sobre a vida do ator Grande Otelo, que atuava como ele mesmo. Depois vieram dois fracassos consecutivos, e os executivos da Atlântida resolveram apelar para o musical, que vinha crescendo com a Cinédia e a Sonofilmes.

O primeiro musical carnavalesco foi Tristezas Não Pagam Dívidas (1943), com Oscarito e Jayme Costa no elenco. Um estrondoso sucesso, fazendo a companhia repetir a dose de trechos cômicos (livremente inspirados em peças teatrais), muita música, e um fiapo de roteiro. A dupla Oscarito e Grande Otelo virou celebridade. Com uma química ímpar, a dupla arrastou multidões ao cinema. Os dois filmaram a maioria dos carnavalescos da Atlântida, Oscarito no primeiro papel, e o grande Grande Otelo como faxineiro, secretário, uma escada para o sucesso do amigo. O filme mais completo dessa fase foi Este Mundo É Um Pandeiro (1947), de Watson Macedo.

As pornochanchadas vieram em seguida, aumentando o erotismo e colocando uma boa dose de nudez gratuita. David Cardoso reinou e fez fortuna com o gênero. Mais tarde o genial escritor Nelson Rodrigues, o anjo pornográfico, colocou mais lenha na fogueira com as adaptações de suas obras cults, A Dama do Lotação (1978), Bonitinha, mas Ordinária (1980) e Perdoa-me por me traíres (1983). Era também a época da ditadura e da censura, muitas obras acabavam incompreensíveis devido aos cortes, e a exploração da sensualidade era a forma de fazer um cinema para o povo, cada vez mais levado à cultura norte-americana.

Enquanto as estrelas globais iam desfilando seus corpos nus ao grande diretor da época, Walter Hugo Khoury, que juntamente a Arnaldo Jabor passaram sem arranhões dessa fase. Era na boca do lixo onde a maioria dos filmes do movimento era feito. Reduto dos bordeis e das prostitutas de São Paulo.

Alguns cineastas nacionais ficaram estigmatizados pelo período, como o próprio Hugo Khoury de Amor Estranho Amor (1979) famoso pelas cenas quentes com Xuxa, Braz Chediak de Navalha na Carne (1970) e Neville D’Almeida de Rio Babilônia (1982), uma espécie de Cidade de Deus (2002) erótico. Foi o movimento mais popular do cinema brasileiro, e foi também o maior sucesso de público. A Dama do Lotação (1978) também dirigido por Neville é a quarta maior bilheteria da história do país.

7 comentários:

cineresenhas.wordpress.com disse...

Infelizmente, vi quase nada (ou nada mesmo) do cinema da Boca de Lixo, embora eu esteja familiarizado com este movimento do cinema nacional pelos vastos artigos que leio até hoje. Como a Internet disponibiliza um vasto acervo de pérolas deste período, certamente vou caçar alguns títulos em breve. Ah, e eu tenho uma cópia em DVD de "Amor, Estranho Amor". Mas não fala para a Xuxa, senão ela me processa! ;-)

Ramon disse...

Seu texto é como orelha de livro. A gente lê e usa como referência para mostrar para alguém que entende do assunto. Coisa de malandro! Hehe!
Tô zoando, é claro!
Quero dizer que seu texto é muito bom, e dá uma dimensão legal do movimento para quem entende muito pouco do assunto, como eu.

Abs!

godvsgodard disse...

Essas sim eram musas! Belo artigo!

cinefilapornatureza disse...

O meu primeiro contato com o cinema brasileiro, fora os filmes dos Trapalhões e da Xuxa, era com as obras da pornochanchada. Cresci vendo filmes desse tipo, especialmente os que passavam nas noites de segunda, na Band!

Pedro Henrique disse...

A Dama do Lotação é um dos meus filmes prediletos da chanchada.

Cintia Carvalho disse...

Oi!

Muito bem redigido e contextualizado seu texto. Vc falou de duas fases de nosso cinema, citando diretores e atores que se destacaram nos respectivos períodos.

As chanchadas foram criadas com o obejtivo de conquistar público aqui no Brasil. Utilizando a comédia como referencial. No entanto, a formúla de sucesso durou pouquíssimo tempo. Então, eles passaram a investir em musicais imitando os filmes "hollywodianos" deste período. Infelizmente aqui não deu certo.

Quanto as pornochanchadas, esta fizeram um relativo sucesso. Desconsiderando suas qualidades artísticas e técnicas, o que importava era o desfile de mulheres e homens nus em histórias recheadas de sexo, muitas das vezes explícito, como: "Bonitinha, mas ordinária", "A dama do lotação" e principalmente "Rio Babilônia".

Parabéns pelo seu texto e pelo tema. Muito bom mesmo. Gostei.

Quando puder faça uma visita ao meu blog: cintia-carvalho.blogspot.com (cinecabeça).

Um avbraço.

Museu do Cinema disse...

Vlw Cintia, vou olhar sim! Obrigado.