03 março 2009

Diálogos

Escrito por Joel e Ethan CoenOnde os Fracos não tem VezEUA (2007)

POSTO DE GASOLINA / CONVENIÊNCIAS SHEFFIELD

Numa encruzilhada poeirenta e isolada. É entardecer. O Ford sedan que Chigurh parou está estacionado perto da bomba de combustível.

DENTRO DO ESTABELECIMENTO

Chigurh para no balcão de frente ao idoso proprietário. Ele carrega um saco de castanha de caju.
Chigurh
Quanto custa?
Proprietário
Sessenta e nove centavos.
Chigurh
Isso. E a gasolina.
Proprietário
E ai, pegando muita chuva pelo seu caminho?
Chigurh
E que caminho seria esse?
Proprietário
Eu vi que você é de Dallas.
Chigurh abre o saco de castanhas e derrama um pouquinho em sua mão.
Chigurh
Que negocio é esse de você vê de onde eu sou, amigão?
Proprietário
Eu não quis dizer nada com isso.
Chigurh
Não quis dizer nada.
Proprietário
Eu só quis puxar conversa.
Chigurh
Então você acha que puxar conversa é ser educado segundo seu distorcido ponto de vista.
Um barulho.
Proprietário
Bom Sr. Eu peço desculpas. Se você não aceitar, então não sei mais o que posso fazer para você.
Chigurh coloca uma castanha na boca, encarando o velho, que abre a caixa registradora e registra o salgado.
...Tem mais alguma coisa?
Chigurh
Eu não sei. Tem?
Barulho.
O proprietário se vira e tosse. Chigurh lhe encara.
Proprietário
Tem alguma coisa errada?
Chigurh
Com isso?
Proprietário
Com qualquer coisa?
Chigurh
É isso que você está me perguntando? Se tem alguma coisa errada com qualquer coisa?
O proprietário olha para ele, inconfortável, olha pro lado.
Proprietário
Teria mais alguma coisa?
Chigurh
Você já me perguntou isso.
Proprietário
Bom... Eu preciso saber porque já vou fechar.
Chigurh
Já vou fechar.
Proprietário
Sim senhor.
Chigurh
Que horas você fecha?
Proprietário
Agora. Nós fechamos agora.
Chigurh
Agora não é uma hora. Que horas você fecha?
Proprietário
Geralmente ao anoitecer. Ao anoitecer.
Chigurh encara, mascando as castanhas devagar.
Chigurh
Você não sabe o que está conversando, não é mesmo?
Proprietário
Senhor?
Chigurh
Eu disse que você não sabe o que está conversando.
Chigurh masca
...Que horas você vai pra cama.
Proprietário
Senhor?
Chigurh
Você é meio surdo, não? Eu disse que horas você vai pra cama.
Proprietário
Bem...
Uma pausa.
...Eu diria que por volta das nove e meia. Algo em torno das nove e meia.
Chigurh
Eu poderia voltar nesse horário.
Proprietário
Porque você voltaria? Estariamos fechados.
Chigurh
Você disse isso.
Ele continua encarando, mascando.
Proprietário
Bom... Eu preciso fechar agora.
Chigurh
Você mora nessa casa atrás da loja?
Proprietário
Sim eu moro.
Chigurh
Você vive ai toda sua vida?
Um barulho.
Proprietário
Essa foi a casa do pai de minha esposa. Originalmente.
Chigurh
Você se casou nela.
Proprietário
Nós moravamos em Temple Texas por muitos anos. Fizemos uma família lá. Em Temple.Nós viemos para cá há cerca de quatro anos.
Chigurh
Você se casou nela.
Proprietário
...Se você quer colocar assim.
Chigurh
Eu não tenho que colocar nada. Essa é a forma como ela é.
Ele termina as castanhas de cajú, amassa o pacote e coloca em cima do balcão, onde se desenrola. Os olhos do proprietário segue o pacotinho. Os olhos de Chigurh continuam encarando o velho.
...O que você já perdeu de maior valor no cara e coroa?
Proprietário
Senhor?
Chigurh
O maior valor. Que você já perdeu. No cara e coroa.
Proprietário
Eu não sei. Eu não saberia responder.
Chigurh procura algo no bolso. Uma moeda: ele a joga pra cima. Ele a pega e coloca no outro braço e a encobre.
Chigurh
Escolha.
Proprietário
Escolher?
Chigurh
Sim.
Proprietário
Para quê?
Chigurh
Apenas escolha.
Proprietário
Bom – precisamos saber do que se trata para escolher.
Chigurh
Você precisa escolher. Não posso escolher por você. Não seria justo. Não seria nem correto.
Proprietário
Eu não apostei nada.
Chigurh
Sim, você apostou. Você colocou toda sua vida nisso. Você apenas não sabia. Você sabe de quando é a data dessa moeda?
Proprietário
Não.
Chigurh
1958. Ela tá viajando 38 anos para chegar aqui. E agora está aqui. E será ou cara ou coroa, e você tem que dizer. Escolha.
Um barulho longo.
Proprietário
Olhe... Eu preciso saber o que eu estou a ganhar.
Chigurh
Tudo.
Proprietário
Como assim?
Chigurh
Você está para ganhar tudo. Escolha.
Proprietário
Tudo bem. Cara então.
Chigurh tira a mão de cima da moeda e vira o braço para ver.
Chigurh
Muito bem.
Ele estende a mão
...Não coloque isso no seu bolso.
Proprietário
Senhor?
Chigurh
Não coloque isso no seu bolso. É sua moeda da sorte.
Proprietário
...Onde você quer que eu coloque?
Chigurh
Em qualquer lugar menos no seu bolso. Ou irá misturar com as outras e irá se tornar apenas uma moeda. O que ela é.
Ele se vira e vai embora.
O proprietário olha-o indo.

11 comentários:

Marcus Vinícius disse...

FORA ROTH!

Marcus Vinícius disse...

Ah, e No Country é simplesmente sensacional, revi esses dias no telecine.

Ramon disse...

Para mim, que não sou um grande fã dessa obra dos Coen, Onde os Fracos Não Têm Vez se resume a essa cena.
Boa demais! E rendeu o Oscar ao Bardem.

Abs!

Museu do Cinema disse...

FORA ROTH! VOA!

Olho de Lince disse...

Este diálogo e esta cena são fantásticos =)

Kamila disse...

Para mim, esta é a melhor cena de "Onde os Fracos não Têm Vez".

Victor Nassar disse...

Essa cena é fantástica! Javier Bardem dá um medo danado. E os Coens são uns insanos mesmo!!

Sérgio Déda disse...

A melhor cena desta quase obra-prima dos irmãos Coen.

Vinícius P. disse...

Diálogo brilhante que por si só já valeu o filme - e, na realidade, é a primeira coisa que me vem à mente quando lembro de "No Country for Old Men".

Museu do Cinema disse...

Sérgio, concordo contigo, quase obra-prima!

É incrivel como Javier tá assustador com esse cabelo e esse olhar psicopata!

E esse dialogo é muito bem feito, ele dá o arrepio necessário a cena. E olha que o Oscar copiou o Museu nas entregas das estatuetas de roteiro!

Pedro Henrique disse...

Grande cena de um filme monstro! No livro o diálogo é ainda melhor!!!

Abs!!!