04 setembro 2008

Elizabethtown

Elizabethtown – Cameron Crowe – 2005 (DVD)

"Quero que você mergulhe fundo na linda melancolia de tudo que aconteceu!"

O cineasta Cameron Crowe não é de agradar a todos. Seus filmes possuem alma, possuem a sua arte, a pequena parcela de cinéfilos e apreciadores que gostam de seus filmes são intensos. E desde o inicio ele sabia que seria assim. Duas películas do diretor são obras-primas – há quem diga que são três ou quatro – uma é Vanilla Sky (2001) e a outra é Elizabethtown*. Esses filmes são muito mais que filmes, são lições de vida.

Como alguém disse um dia, há uma diferença entre fracasso e fiasco. Um fracasso é meramente a ausência de sucesso. Qualquer babaca pode conquistar um fracasso. Mas fiasco não, um fiasco é um desastre de proporções épicas. Um fiasco é um conto que as pessoas dizem as outras para fazerem elas sentirem-se mais aliviadas por aquilo não ter acontecido com elas.

A Sapatos Mercury Internacional, que na verdade é o Phil, contém algumas das obras dos melhores artistas norte-americanos vistas apenas por quem vai a reuniões muito importantes, uma promoção, ou o contrário. Não somos só funcionários, como Phil (Alec Baldwin) disse certa vez. Somos cidadãos de excelência.

Um sapato não é só um "sapato". Ele nos conecta a terra. O sapato certo pode nos transportar, nos fazer acreditar que somos capazes de mais. Mas há sacrifícios por um objetivo como a excelência pura, como aniversários ou o último Natal com a minha família.


Cameron Crowe tem algo mais além de ser um excelente cineasta. Ele é um caçador de canções maravilhosas. E encaixa elas perfeitamente em suas películas. Porque, pode acreditar, elas não estão ali para vender CD da trilha sonora. A mistura entre as letras e as melodias com as imagens e cenas é algo artístico, sensível e tocante.

Aqui a busca do protagonista pela sua verdadeira identidade, que, em algum lugar do passado foi deixada, passa pelo jovem Drew Baylor (Orlando Bloom no melhor papel da carreira). Executivo da grande Sapatos Mercury Internacional, Drew foi domesticado pelo presidente da companhia, Phil, um daqueles milhões de palhaços que se iludem achando que possuem todos os segredos do mundo dos negócios, e adoram propagandear suas teorias de boteco. Mas Phil sabe da importância dos funcionários, que é a demissão no caso de erro.

Baylor largou praticamente tudo pela Sapatos Mercury Internacional, sua vida é a empresa, então ao ser demitido só lhe resta uma opção, suicidar-se. É quando o celular toca e a irmã lhe dá a triste notícia, seu pai morreu. Drew Baylor embarca na viagem desintoxicante do chefe Phil para conhecer a vida.

Algumas cenas marcantes, uma rotina no trabalho de Crowe, fazem desse filme uma obra-prima completa. O monólogo de Hollie Baylor (Susan Sarandon valendo por essa cena) é daquelas filmagens que acompanhará para sempre a atriz. Sua performance margeia a perfeição, é o equivalente ao tango de Al Pacino. Outra é a conversa de mais de 7 horas pelo telefone celular de Drew e Claire (Kirsten Dunst) é outro momento delicioso, que qualquer publicitário de telefonia móvel gostaria de “chupar”. E mais outras e outras e outras.

Personagens inesquecíveis e cinema puro, e de qualidade artística, ainda mais vistosas com a fotografia do sempre competente John Toll, que já mostrou ser gênio em O Homem que Fazia Chover (1997). Confesso que uma cena “menor” é a minha preferida. É quando Baylor sai da casa da família do pai para respirar um pouco, depois do turbilhão de gente lhe abraçando e beijando. Na varanda, buscando o ar, ele se entreolha rapidamente para o pequeno e pestinha Samson, obviamente aprontando uma, é o tempo apenas de correr, já que Samson engata a ré do carro e solta o freio. Drew consegue entrar pela janela e frear.

A película não é um drama, mas ta longe de ser uma comédia. É bastante realístico, mas com muitas doses de fantasias e um pouco de absurdo. Já classificaram como musical, mas em nenhum momento a música se torna mais importante – a simbiose entre canções e imagens é o que interessa aqui. Estou falando de Elizabethtown*, mas para quem acompanhou a revisita a obra do cineasta aqui no blog, sabe que poderia estar falando de qualquer um dos filmes dele. Isso é ter grife, isso é ser gênio. Bem vindo.

A partir desse dia eu terei a arma do meu pai. / Nós escavamos sua sepultura sob o sol. / Eu deitei seu corpo cansado debaixo da terra do sul. / Eu não o enterraria onde qualquer Yankee está! / Eu irei pegar o meu cavalo e cavalgar nas planícies do norte. / Para vestir as cores acinzentadas e voltar à luta. / Eu não irei descansar até saber se a causa está ganha. / A partir desse dia e, até a minha morte, eu vestirei a arma do meu pai. / Eu gostaria de saber onde os barcos velejam essa noite. / Para New Orleans bom, isso ta bom demais. / Porque há brigas por lá e a companhia precisa de homens. / Então nos passe uma corda e veleje até vergar. / Assim que isso terminar nós iremos para casa. / Para plantar as sementes da justiça em nossos ossos. / Para assistir as crianças crescendo e ver a mulher costurando. / Haverá muitas risadas quando os sinos da liberdade tocarem.

My Father’s Gun - A Arma do meu Pai (Elton John – Melodia e Bernie Taupin – Letra)

* Elizabethtown é uma pequena cidade do Kentucky, conheça mais aqui.

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PENSAMENTOS DO GRANDE PHIL (ou qualquer outro idiota que o valha)

Para começar Phil tem duas secretárias, dois seguranças, sempre dois quadros em cada parede. Phil é obcecado pelo número 2.
"O mundo é cheio dos que se dão bem pela negatividade ou roubo".
"Nós obtemos sucesso pelo pensamento original".

10 comentários:

Pedro Henrique disse...

Eu não gostei tanto de Elizabethtown. Mas está longe de ser um filme ruim.

Abraço!!!

Ramon disse...

Não conferi a obra. Mas isso porque nunca tinha lido nada tão bom sobre o filme. Se você o coloca ao lado de Vannila Sky, é impossível não conferi-lo em breve.
Parece ser muito bom!

Abs!

Museu do Cinema disse...

Sim Ramon, é muito bom, se gostou de Vanilla vai adorar esse.

Kamila disse...

Cassiano, já disse, no início de sua retrospectiva sobre o Cameron Crowe, que achava os dois últimos filmes dele os mais fracos de sua carreira. Orlando Bloom é um ator totalmente inexpressivo e, mesmo no melhor papel da carreira, pouco consegue fazer. Para não dizer que não gostei de nada no filme, eu acho que a Kirsten Dunst esteve muito bem!

Denis Torres disse...

Sport, a alegria do ano! Acaba com os gambás e humilha os porcos! Agora o Edmundo no gol do Vasco foi demais, eu não para de rir...kkkkk

Vinícius P. disse...

Filme ruim o Cameron Crowe não faz, mas esse "Elizabethtown" deixou um pouco a desejar para mim. Bom filme, nada mais. E olha o comentário sobre o Palmeiras aí acima, respeito é bom e todo mundo gosta.

Marcus Vinícius disse...

Bela retrospectiva do Crowe. Conheço só uma obra, mas ganhou minha total simpatia com Quase Famosos.

E Sandro Goiano, mito, mandou o recado. Quem ouviu, ouviu, hehe.

Saudação do Líder. Abraço!

Sérgio Déda disse...

Nunca assisti.. já ouvi bons e maus comentários deste filme do Crowe.. acho que tenho que conferir pra ver..

vlws

Museu do Cinema disse...

Pronto agora é briga de Palmeiras contra São Paulo, briga de intermediária não é comigo. Alias, atualmente não tenho ninguém para brigar e todo mundo quer brigar comigo.

Marcus Vinícius disse...

Hehehehehe.