29 julho 2008

Cena de Cinema

Kill Bill Vol. 2 (Kill Bill Vol. 2 – Quentin Tarantino – 2004 – DVD)

Existe uma famosa regra nos filmes de ação em Hollywood. Eu chamo de clichê, os produtores devem chamar de dinheiro, e o grande público chama de “clímax”. Eu nem preciso assistir o novo Batman – The Dark Kinght (2008) para saber que o filme é dividido em três atos. O inicio, a apresentação do vilão da vez e o herói super poderoso, geralmente usando uma cena impactante (leia muitas explosões e violência); o meio, é onde se desenvolve a trama, menos ação; e o fim, ou popularmente conhecida como clímax, é onde o herói e o bandido se enfrentarão numa batalha de vida e morte, onde só um sairá vivo, e cheio de hematomas e arranhões, obviamente o herói.

Você pode chamar Sam Raimi, Christopher Nolan ou Bryan Singer, que são diretores regulares, com bons filmes no currículo, que a regra permanecerá a mesma. Alguns jornalistas elevam o status quo destes diretores, eu elevo a conta bancária, mas não com o meu dinheiro.

Quentin Tarantino já afirmou diversas vezes sua intenção em filmar Superman, ou até mesmo um filme do James Bond. Se eu sei disso, os donos dos estúdios sabem, mas largar uma regra “preciosa” como essa na mão de um cineasta de mão cheia não está nos planos dos figurões da industria cinematográfica norte-americana. Ficamos então no terreno das suposições, ou viagens, em imaginar Tarantino dirigindo Batman por exemplo. Iria ao cinema sem a certeza que o homem morcego sairia vivo de mais essa, afinal ele já matou John Travolta no começo de Pulp Fiction (1994), talvez até teríamos um dialogo interessante sobre as roupas justinhas do herói, mas a única coisa certa nessa película imaginária é que a famosa regra de ação iria para a puta que a pariu. Isso sim é cineasta, o resto é confeiteiro.

Essa introdução toda, com direito a palavras de baixo calão, é para apresentar a cena final de Kill Bill Vol.2 (2004). A sanguinária saga da Noiva (Uma Thurman) terá seu desfecho, isso já é mostrado na cena inicial em P&B com direito a cabelo esvoaçando e a frase: “É como os cartazes dos filmes anunciam: Uma fúria descontrolada por vingança. Eu me vinguei, e com fúria, mas só vou parar quando conseguir satisfação”. Alias, o próprio nome do filme é o final, mais clichê impossível.

Porém meus caros, estamos num filme de Tarantino, e ele nos trata logo de lembrar quando a Noiva chega na Hacienda que Bill se hospeda (David Carradine), armada até os dentes e como uma policial ela aponta finalmente para Bill, só um detalhe, o sanguinário Bill brinca de policia e bandido com a filhota de 4 anos B.B (Perla Haney-Jardine). Ainda não foi desta vez.

Após todos os protocolos do reencontro da mãe com a filha, afinal ela estava em coma num hospital, o herói (a heroína) e o bandido se sentam a mesa de um delicioso jardim mexicano. Para os fãs de pancadaria ainda existe uma esperança, ambos estão com suas espadas, B.B dorme no quarto, e ainda existe uma conta para ser acertada. É verdade que uma mesa ainda os separa, mas nada que um pezada não resolva, é quando Bill finalmente dá a deixa para a pancadaria. A espada voa para um lado e para outro, e a dança da cadeira da Noiva que termina com singelos toques no corpo do seu adversário. Pronto, alguns segundos de “clímax”, e a saga de 4 horas termina no 5 pontos que Explodem o Coração e Ennio Morricone. É por isso que ainda existem pessoas apaixonadas por cinema.

13 comentários:

Pedro Henrique disse...

Ótimo texto!

Tarantino é a síntese do cinema moderno. Uma pena que ele faça filmes com um intervalo tão grande. Mas, talvez aí é que resida sua genialidade.

Sérgio Déda disse...

Não acho Nolan um diretor regular.. adorei todos seus filmes até agora... incluindo um que fascinou-me como Amnésia... interessante seu ponto de vista sobre os finais clichês dos filmes... e realmente algo que exalta-se muiito em Kill Bil vol.2 é o rápido duelo entre ambos.. embora este perca muito de qualidade em relação ao seu primeiro..

vlws

Museu do Cinema disse...

Pedro, acho que é dai sim que vem a criatividade dele.

Sérgio, eu gostei muito de Amnésia tb, e por isso mesmo classifico ele como regular, pq se por um lado ele fez o ótimo Amnésia, ele fez o péssimo Batman, o resultado é regular.

A qualidade que se refere é a luta!? Então é exatamente o que disse no post. Se fosse prolongada e sem a genialidade de Tarantino, seria um Batman e os cinéfilos odiariam o final. O grande lance do Tarantino, é que vc pode até detonar o cara, mas nunca vc poderá chamá-lo de previsivel, enquanto Nolan...

Vinícius P. disse...

Particularmente prefiro o primeiro filme, mas se fosse para escolher uma cena memorável dessa saga da Noiva vingativa, sem dúvida seria essa. E não sei se você está certo quanto a "The Dark Knight" (em relação a isso que escreveu), mas é uma boa teoria e que geralmente é seguida nesse tipo de filme de 'super-herói' - mas não especialmente em "O Cavaleiro das Trevas". Abraço!

Marcel Gois disse...

Difícil escolher uma cena favorita nos filmes de Kill Bill, adoro os dois! =) Mas essa é de extremo bom gosto e muitíssimo bem executada. Concordo com você quanto a genialidade do Tarantino, o cara é muito bom e sabe disso. =)
btw, muito bom o seu texto.

e não recomendo "Tell Me You Love Me", até escrevi no meu blog que não gostei, vi algumas pessoas falando bem, mas eu vi os dois primeiros episódios e no segundo eu já tava lutando contra a minha paciência. anyway, se for assistir dps me fala o que achou. =)

Museu do Cinema disse...

Vinicius, nem eu sei, nunca assisti a The Dark... mas sou capaz de apostar que existe a regra, Nolan é confeiteiro dos bons, por isso engana muita gente.

Marcel, obrigado, depois vou dar uma procurada no seu comentário de Tell Me You Love Me.

Kamila disse...

Cassiano, parabéns pelo texto! Esta cena final do encontro entre Noiva e Bill é o meu momento favorito dos dois volumes de "Kill Bill". Tudo nos preparou para este momento e, quando ele acontece, Quentin Tarantino não nos decepciona.

PS: Eu adoraria ver o que o diretor faria com personagens clássicos como Superman ou James Bond.

Otavio Almeida disse...

Ótimo texto! KILL BILL é maravilhoso! Tarantino é genial. Essa cena é a melhor e mais emocionante.

Porém, discordo sobre THE DARK KNIGHT. Até porque você disse que não viu e acho que, desta vez, meu caro amigo gremista, você vai gostar.

Abs!

Rogerio disse...

Que massa esse texto. A meu ver, Kil Bill é climax durante o filme todo, por isso é colirio aos cinéfilos.

Sei que o Nolan foi citado, apenas para falar do "The Dark Knight", cujo filme compartilho de sua opiniao. Porém, nao acho que ele seja esse confeiteiro nao.
Eh a primeira escorregada dele, pois Batman Begins eh mto bom.
Nolan quer é ganhar dinheiro pra seus proximos projetos. Tá certo ele.

Museu do Cinema disse...

Kamila, obrigado. Nós já tivemos um pouco do que seria Tarantino dirigindo Superman em Kill Bill Vol.2, veja em Parabolas.

Otávio, como gostar de um filme que já sei como é.

Rogério, Scorsese ganha muito dinheiro, Tarantino idem, PTA tb, os irmãos Coen. Esses cineastas são ricos fazendo arte, Nolan é rico fazendo bolo. É só a diferença!

Rogerio disse...

Ahh, mas pera lá! Tem muito filme desse time aí que nao fez o menor sucesso e deu pouca grana. Nem sei se o Nolan um dia vai ser oque esses aí já foram e são.
Apenas acho que o Nolan ainda tem muito a render, apesar desse tropeço com o Morcegão.

Museu do Cinema disse...

Rogério, que heresia, comparar Nolan a esses caras!

Mas já que tá discutindo, vamos lá, o pior dos filmes do Scorsese ou Tarantino se pecou, pelo menos foi pela arte. O Nolan peca como confeiteiro. E Vamos esquecer esse cara, ele nem vale a discussão e com certeza tá com o ... cheio de dinheiro para tá se lixando para arte.

Kamila disse...

Cassiano, vou dar uma olhada!