24 fevereiro 2008

Cena de Cinema

Sangue Negro (There Will Be Blood - Paul Thomas Anderson - 2007 - Cinemas)
Seria mais um dia normal de pregação para o pastor Eli Sunday (Paul Dano), se não houvesse entre a platéia um espectador no mínimo inusitado, Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis).

Ora, todos nós sabemos que Plainview não quer ser salvo, muito menos pelas mãos de Eli, porém seus motivos para estar ali são outros, e a câmera de Paul Thomas Anderson trata logo de nos mostrar, sentado ao lado de Daniel está o dono das únicas terras que ele ainda não comprou, e sua venda será facilitada com seu batizado.

Mas, se você pensa que a cena já foi caracterizada, procure outro filme por favor. Por trás de todo esse quadro podemos notar a carga de vingança nos olhos, e principalmente na voz de Eli Sunday. A surra que tomou de Plainview alguns dias atrás, o “esquecimento” do prospector na hora do batismo da torre de perfuração pelo jovem pastor, e o dinheiro prometido para as obras da igreja, são boas dicas para esse sentimento.

Daniel Plainview está visivelmente desconfortável sentado na pequena igreja entre fiéis, o close do seu rosto não nega. Eli, pele de cordeiro e coração de leão está visivelmente confortável anunciando o novo membro para seus seguidores, por isso mesmo seu tom de voz muda, baixinho ele pergunta se tem alguém buscando salvação, nem a falta de resposta muda seu tom, e ele pergunta novamente, sendo interrompido por um afirmativo súbito de Plainview, ah se ele realmente quisesse ser salvo, mas nós sabemos que ele apenas encheu o saco do show.

E o show estava apenas começando.

Conformado e com aquele ar de “vamos acabar logo com isso”, Daniel é levado até o altar com o recorte da cruz para ser o coadjuvante do pastor. Se Paul Dano interpreta Eli Sunday, podemos pensar também que Eli Sunday interpreta o algoz de Plainview responsável por sua salvação. E, do mesmo modo, o prospector interpreta o rico e auto-suficiente arrependido que busca naquele jovem predestinado o caminho para a paz de espírito, porém por mais teatro que Daniel ache que aquilo será, ele ainda não viu nada.

Ajoelhado e pego pela cabeça pelo pastor, Plainview é convocado para se pronunciar um pecador, e obrigado a ouvir que abandonou o próprio filho por ele ter ficado doente. Pronto, a peça começa a pegar forma. Eu sou um pecador! Podemos ouvir de Daniel duas vezes. Eu abandonei meu filho. Outra frase. Eu estava perdido, mas agora me achei. Outra frase. Eu abandonei meu filho. De novo Daniel repete. Eli, entrando em êxtase manda repetir, só que agora mais alto. Eu abandonei meu filho! Eu abandonei meu filho! Eu abandonei meu garoto! Essa terceira até o pequeno H. W. ouviu, esteja ele onde estiver.

Entre os gritos dos pecados de Plainview, podemos ouvir um tímido: Eli me tire logo daqui. Se o jovem pastor se contentasse com pouco, o show estaria terminado, mas, infelizmente para Daniel...

O show está apenas esquentando.

A cena principal é um tapa estalado no rosto de um Plainview incrédulo. E outro, e mais outro, e mais três. Ah, nós já vimos essa cena antes, mas mudando os lados. Podemos simplesmente chamar esse ato de A Revanche de Eli.

No final, Daniel Plainview aperta a mão de Eli Sunday e fala algo que só os dois saberão o que foi, nem mesmo Paul Thomas Anderson sabe o que foi dito. É a obra se tornando maior que seu autor.
Veja aqui.

3 comentários:

Kamila disse...

Cassiano, você está totalmente imerso no universo de "Sangue Negro", hein? Vou passar a oportunidade de ver a cena, já que eu quero assistir ao filme na telona. Ainda mantenho as minhas esperanças!

Rogerio disse...

Nosssa mãe, vi ontem o filme.Ainda estou pensando nele.Absolutamente fantástico!! Oq era aquela trila sonora Kubrickiana??Cade a indicaçao pro Oscar??

A cena descrita é de outro mundo.
Só espero reconhecimento hoje a noite.

Abs e boa cerimonia!!

Museu do Cinema disse...

Kamila, lhe corrigindo, estou imerso no maravilhoso mundo de Sangue Negro. Torço para que assista o mais rápido possivel.

Rogério, ainda mantenho minhas esperanças, mas acho que ele não vence.