15 janeiro 2008

Desejo e Reparação

Atonement – Joe Wright – 2007 (Cinemas)

A história pode recomeçar.

Um grito histérico vindo do jardim atrai a atenção da adolescente aspirante à escritora Briony Tallis sozinha no seu quarto no palácio da família. Ela corre para a janela ver o que é, e encontra a irmã mais velha, Cecília, e o jovem jardineiro e filho da governanta, Robbie, na fonte em frente à mansão. Parecem discutir e de repente Cecília tira a roupa, ao que parece ser uma ordem de Robbie, ficando apenas com as roupas de baixo e entrando na fonte...

Reparação (o desejo do titulo nacional é gratuito) é um filme feito para ganhar o Oscar. Esteticamente impecável, com um roteiro enxuto e maravilhosamente bem adaptado do romance homônimo do escritor britânico Ian McEwan, bons atores, escolhidos a dedo, uma trilha bastante original do italiano Dario Marianelli, onde ele usa elementos dos efeitos sonoros do próprio filme (como a máquina de escrever), uma fotografia bastante ajudada pelos cenários, um figurino impecável, e uma direção inteligente e, para um espectador menos atento, original, mas é só procurar o maravilhoso Fim De Caso (1999) para ver de onde ele “inovou” – o que merecia uma homenagem, mas Wright prefere se homenagear, realizando cenas piegas para entrar nos futuros musicais do Oscar.

Reparação fala em restauração, em perdão, mas fala dos nossos julgamentos precipitados e desnecessários, e da falta de comunicação. Um ato que muda o destino de três vidas, interpretado fielmente pelas atrizes Keira Knightley, no papel de Cecília e Saoirse Ronan, no papel de Briony, e pelo ator James McAvoy, que parou de imitar o Tom Cruise e mostrou ter talento.

Apesar de não ter gostado do final do filme, uma manipulação desnecessária e gratuita que só faz aumentar o sentimento de frustração, é uma bela história de amor, que acredito que o principal algoz ajudou-a a moldar.

...Cecília e Robbie se encontram no jardim, os dois parecem nutrir uma paixão um pelo outro, Cecília resolve provocar ciúmes com um jarro de flores, Robbie resolve ajudar para não demonstrar o sentimento, mas ele acaba quebrando a alça do objeto, provocando um grito histérico de Cecília. Irritada e nervosa pela frieza do amado e pelo vaso quebrado, Cecília resolve entrar na água para pegar a alça que caiu no fundo da fonte, se despindo freneticamente. Ao voltar, com o corpo molhado e as roupas de baixo transparecendo, o jovem casal percebe a situação constrangedora. Robbie cavalheiramente olha para o lado, enquanto Cecília ainda irritada lhe toma a outra parte da alça.

27 comentários:

Romeika disse...

Cassiano, essa cena da fonte é maravilhosamente descrita no livro, é a única cena que vi do filme (vasou no youtube há alguns meses). Deve ser bem interessante ver essa cena e a da biblioteca sob duas perspectivas, a da Briony e a dos amantes.. O livro é excelente, muito longe de ser piegas, que pena que o filme deu essa impressão em vc em alguns momentos..:-S Quero só ver o que vou achar, melhor ir baixando um pouco as expectativas..

Museu do Cinema disse...

Oi Romeika, conversando com algumas pessoas que leram o livro e viram o filme, elas comentaram bastante dessas duas cenas que coloquei no post, e mais essa da biblioteca que comentou.

Achei piegas algumas cenas, como falei no comentário do blog da Kamila. Alias, piegas é pq usei um eufemismo.

Felipe Nobrega disse...

Taí, um filme feito, implorando para ganhar um Oscar... ele se resume a isso. Como já comentei em outro espaço, o diretor é de um esquematismo irritante - já viusto em seu trabalho anterior. Um filme burocrático e que tem tudo para agradar aos tiozinhos da academia... infelizmente!

Otavio Almeida disse...

Eu não achei o filme piegas não. Acho que emoção ainda cabe no cinema atual. Não gosto de dramas secos. Mas também não precisa ser um LAÇOS DE TERNURA, né...

Na verdade, não sei se gostei desse filme pq o cinema anda muito mal das pernas e não reparei nas falhas... Aliás é o que eu acho que acontece nos prêmios atualmente: eles se conformam com qualquer coisinha acima da média.

Abs!

Museu do Cinema disse...

Pois é Felipe, achei que em pleno século 21 e depois de ver filmes como O Senhor dos Aneis e Os Infiltrados, que são completamente sem cartilhas (mas nem por isso bons, que se ressalte) ainda veriamos exemplares como esse.

Aquelas duas cenas do ônibus e do cinema me deixaram com vergonha de gostar de cinema pela sua artificialidade.

Museu do Cinema disse...

Não Otávio, o filme não é piegas, algumas cenas é que são e demais. Não gosto nem de comenta-las por vergonha, mas deixa para lá.

Concordo contigo no segundo paragrafo.

Rogerio disse...

Filme feito pra ganhar Oscar, ii, ja vi esse filme antes.
Foi bom ler tua resenha pq faz esse friso nas pieguices artificiais. Agora acho que entrarei no cinema mais vacinado, ja que só tinha ouvido o máximo desse filme.

Meu medo é a academia entrar no embalo e premia-lo. Apesar de nao ter visto ainda nenhum deles, vai ser dificil bater o PTA e os Coen - isso claro para o meu gosto.

Museu do Cinema disse...

Os críticos estrangeiros de Hollywood já premiaram, até ai nenhuma novidade né? Mas acho que o Oscar dará o prêmio aos Coen, pelo menos torço, ou eles ou o PTA e o mundo cinéfilo agradece.

Quanto ao filme indico que veja sim, mas com esse sentimento crítico.

Alex Gonçalves disse...

Cassiano, pelo visto o senhor detestava as "imitações" de James McAvoy com Tom Cruise, rs. Sempre achei que filmes feitos aos moldes do Oscar bem decepcionantes, mas minhas esperanças enquanto a este "Desejo e Reparação" são outras. Aguardo por um grande filme.

Vinícius P. disse...

Não acho piegas não, aliás acho que está longe disso. Claro que para quem conferiu o livro pode ter sido decepcionante, mas como não li, achei um romance maravilhoso do começo ao fim. E acho um absurdo dizerem que é um trabalho feito para Oscar. Como um filme é feito especialmente para o Oscar? O Diretor diz 'vamos fazer um filme para o Oscar'? Acho que não. Basta ver "Orgulho de Preconceito" para perceber que o Joe Wright tem a MESMA atenção com detalhes técnicos que em "Desejo e Reparação". É algo particular do diretor, se isso vai de acordo com o gosto da Academia é outra história - e, aliás, ele nem deve ser indicado ao Oscar no fim das contas, o que comprova tudo isso que comentei. Bem, é o que eu acho...

Desculpa, é que às vezes eu fico meio encucado como tudo no cinema tem que ser em torno do Oscar. Vendo "Atonement", não lembrei em nenhum momento algo relacionado à premiação ou o que ela supostamente representa.

Museu do Cinema disse...

Puts Alex, senhor? Qualé!

Apesar do filme ser receita de bolo do Oscar, é interessante sim, espero que não se decepcione, mas já temo por sua decepção.

Olha Vinicius, é a minha opinião, deixo claro, se outras pessoas estão falando a mesma coisa, a mim só significa congruências de pensamento só isso. Não me sinto melhor nem pior. Já tive várias vezes ideias que a maioria era contra.

O piegas é em relação a duas cenas em questão, a do ônibus e a do cinema com os soldados cantando, que vc pode classificar tb como cenas feitas para o Oscar.

Quanto a receita de bolo do Oscar é fácil explicar. A academia gosta de premiar esse tipo de produção, que enumerei no post, ou seja, um filme tecnicamente perfeito, ao contrário de outros prêmios como Cannes por exemplo.

Por isso não é absurdo, um diretor, um produtor ou até um ator chegar e falar a frase que destacou, alias, acho que já vi isso em algum filme de Hollywood, será O Jogador? Robert Altman, o gênio!

Kamila disse...

Cassiano, não acho que o filme é uma obra manipuladora, mas concordo que esta é uma obra feita especialmente para o Oscar, por ter todos esses elementos que você citou.

Acho que, mais do que uma história de amor, "Desejo e Reparação" retrata a jornada de Briony. A história é dela e é ela quem dá as cartas.

Enfim, adorei esse filme e AMO "Fim de Caso".

Museu do Cinema disse...

Fim de Caso é filmão, e esse sim merecia o Oscar. Vc viu como o diretor imita esse filme?

Eu discordo do seu ponto de vista, até acho que ela é o centro, mas para algo maior que é o amor dos outros dois.

Ela serve como estopim, não só para história, como para o amor dos dois, se não fosse ela, capaz de nem ter rolado o amor, talvez ela viraria uma aristocrata e ele um médico.

Romeika disse...

Cassiano, uma coisa que eu temia na adaptação do filme era justamente isso, que o amor de Cecilia e Robbie virasse o centro da história em detrimento da personagem principal, que na minha opinião é a Briony.

E que isso tornasse o filme hollywoodiano demais, principalmente na parte da guerra, "volte pra mim".. etc. Vc não gostou muito, mas Kamila aprovou a adaptação, e eu sei o quanto ela aprecia o livro, então ainda tenho certas expectativas. Bom, vai demorar uma pouquinho pra estrear aqui, no futuro comento a minha impressão do filme:-)

Ah, e tb ADORO "Fim de Caso". ^^

Vinícius P. disse...

Cassiano. Em nenhum momento estava falando que não existem filmes 'feitos' para o Oscar, muito pelo contrário, só acredito que o fato de alguém querer fazer um não quer dizer que será reconhecido. Me referi apenas ao caso de "Atonement" e do diretor Joe Wright, pois acho que deve ter um desempenho (em indicações) semelhante a "Orgulho e Preconceito", que seguindo essa lógica não seria um filme feito para Oscar. Gosto muito do trabalho do Wright, não acredito que tenha sido sua intenção - ou posso ter sido enganado, mas prefiro ficar com a primeira opção. Só discordei dessa colocação em sua crítica, pois será muito difícil entrar nos 'futuros musicais do Oscar' (mas torço para isso).

Vinícius P. disse...

E outra: não entendi porque comentou que era 'sua opinião'. Sei disso, não duvido, e sei que nesse sentido sou um dos únicos que discorda dela.

Pedro Henrique disse...

Confesso que esperava muito mais desse filme, mas não me decepcionou, foi até muito bom. Irá para o Oscar mas não vencerá, acho também que o prêmio deve ir para os irmãos Coen.


Obs: Vou add o Museu do Cinema na minha lista de links.

Abraços

Museu do Cinema disse...

É Vinicius, é pq vc falou que "acho um absurdo dizerem..." Eu disse! Cada um fala por si.

Então vc escreveu errado Vinicius, vc disse: "Como um filme é feito especialmente para o Oscar? O Diretor diz 'vamos fazer um filme para o Oscar'?" Portanto...

Agora eu tb torço para que as cenas entrem nos futuros musicais do Oscar, pelo andar das coisas lá, cenas piegas eles adoram. Só vai confirmar minha teoria. Desculpe, mas essas cenas me deixarem envergonhados demais, e quando a gente gosta do filme (como parece ser o seu caso) isso pode se tornar algo maior do que é.

Pedro, minha opinião é mais ou menos a sua, o filme é bom, mas eu não esperava mais dele. Quanto ao Oscar tenho medo que ele ganhe e não os Coen ou até o PTA que torço só para ser indicado. Obrigado!

Vinícius P. disse...

Sim, Cassiano, escrevi errado, mas estava defendendo apenas o caso de "Atonement". É claro que há filmes 'feitos' para o Oscar (e quanto digo 'feitos', quero dizer 'aos moldes do Oscar'), mas acredito que não há como um diretor saber que seu filme será reconhecido pela premiação enquanto ele está em fase de produção. Ele pode até FAZER um filme para o Oscar, mas nunca vai SABER se os votantes irão comprá-lo, entende? Foi mais ou menos isso que quis comentar, mas me expressei errado.

E sobre o comment lá no blog, se há um filme a bater "No Country for Old Men" nesse Oscar esse é "Sangue Negro" - e como fã do PTA, well, torço por isso!

Marcus Vinícius disse...

Ta na lista das obrigações de 2008. Amigo, tenho 2 MEME's pra ti, confere lá no CN do que se tratam.

E que achou do Roger hein? Sei lá, jogar ele joga, mas tem que se puxar e parar de ficar saindo em "Caras" e tal.

Abraçoo!

Museu do Cinema disse...

Até pq eles não tem bola de cristal né Vinicius.

E se vc acha isso, tomara que esteja com a razão, eu confesso q não sou muito otimista em relação ao Oscar, acho que por me frustrar demais já.

Marcus, sinceramente? Eu acho o Roger, o Amoroso de 2007. Esses caras quando chegam a esse patamar, estão preocupados com outras coisas, menos futebol, a não ser quando o aspecto financeiro aperta. Temo por esse ano, e já me contento em figurar apenas para não cair.

Kamila disse...

Cassiano, então. Tudo que acontece deriva dos atos de Briony. Ela é a personagem mais importante da história.

Não consigo enxergar, a princípio, essa tentativa do Joe Wright de emular "Fim de Caso". Até porque, a história de amor do filme do Neil Jordan me comove mais.

Museu do Cinema disse...

Ele copia Fim de Caso. Lembra que a mesma cena era mostrada de vários angulos para mudar completamente o sentido dela?

Até acho que Wright foi bom em lembrar do filme e fazer do mesmo jeito, o problema é que ele deveria homenagear. Mas o ego falou mais alto.

Kamila disse...

Cassiano, agora sim entendi suas comparações entre "Atonement" e "Fim de Caso". O negócio é o seguinte: esse recurso das múltiplas perspectivas sobre o mesmo tema é algo que está presente no livro de Ian McEwan. Ele nos mostra tudo aquilo da forma que vemos na tela. Por isso, acho que os paralelos entre os dois filmes foi somente uma coincidência.

Museu do Cinema disse...

Kamila, pode até ser, mas ainda desconfio dos interesses do escritor e do diretor.

Alex Gonçalves disse...

Cassiano, não ligue! Chamo até mesmo pessoas com dez anos de idade de “senhor”, rs.

Então, realmente não gosto de filmes que fazem todos os “enfeites” para conquistar a Academia, como aconteceu com “O Aviador”, mas tenho bons presságios enquanto a “Desejo e Reparação”

Museu do Cinema disse...

Bom Alex, tomara que não tenha surpresas desagradaveis, mas acho que as terá. Tem cenas ridiculas, q vc mesmo identificará.