20 dezembro 2007

A Vida como Ela É

Uma senhora honesta

Era muito virtuosa e, mais do que isso, tinha orgulho, tinha vaidade dessa virtude. Casada há seis meses com Valverde (Márcio Valverde), ouvia muita novela de rádio. E se, por coincidência, a heroína da novela prevaricava, ela não podia conter sua indignação. Dizia logo:
- Esse negócio de trair marido não é comigo!
Fazia uma pausa rancorosa. E concluía:
- Acho muito feio!
Vigiava as colegas, as vizinhas, sobretudo as casadas. Quando surpreendia um olhar suspeito, um sorriso duvidoso, vinha para casa em brasas. Perdia a compostura:
- Fulana devia ter mais vergonha naquela cara! Então, isso é papel? Uma mulher casada, com filhos! E até me admira!
Durante horas, não falava noutra coisa. Na sua irritação, acabava implicando com o marido. Valverde, metido num pijama listrado, tremia diante dessa virtude agressiva e esbravejante. Refugiava-se detrás da última edição, como se fosse uma barricada; ciciava:- Fala baixo, Luci! Fala baixo!
- Fala baixo, por quê? Ora essa é muito boa! Afinal, estou ou não na minha casa?
- A vizinhança pode ouvir.
- Bolas para você! Bolas para vizinhança!
Valverde sorria de asma. Bastava o tempo esfriar um pouquinho; a umidade era um veneno para ele. E, então, passava mal, tudo quanto era brônquio chiando e o acometia o pavor da asfixia iminente. Sendo tímido, talvez a timidez decorresse de sua condição melancólica de asmático. Mirrado, com um peito de criança, uns bracinhos finos e longos de Olívia Palito – o pobre-diabo não tinha a base física da coragem. Por vezes, nas suas meditações, imaginava a hipótese de uma luta corporal entre ele e a esposa. Embora mulher, Luci era bem mais alentada. E não há dúvida de que levaria vantagem esmagadora. A superioridade da moça, porém, não era apenas física. Não. O que a tornava intolerável e agressiva era justamente a virtude que a encouraçava. Como se sentia uma esposa corretissima, acima de qualquer suspeita, vivia esfregando na cara do marido essa fidelidade, Não passava um santo dia que não alegasse:
- Mulher igual a mim, pode haver! Mais séria, não! E duvido!
- Eu disse o contrário, disse?
- Não disse, mas insinuou!
- Oh, Luci!
Ela espetava o dedo no peito magro do marido; e explodia:
- Os homens são muito burros! Não sabem dar valor a uma mulher honesta. Só te digo uma coisa: devias dar graças a Deus de teres uma esposa como eu!
Não há duvida: ela o tratava mal, muito mal mesmo; desacatava-o, inclusive na frente de visitas. Justificava-se porém:
- Não sou de muito chamego, de muito agarramento, mesmo porque tudo isso é bobagem. Mas nunca te traí? Compreendeste?

O trote

Era funcionária pública, já que o marido ganhava pouco. Ia para a repartição cedinho. Para evitar equívocos, amarrava a cara. Andar de cara amarrada era uma de suas normas de mulher séria. Fosse por essa ferocidade fisionômica ou por outro motivo qualquer, não tinha maiores aborrecimentos na rua. E não que fosse feia. Podia não ser bonita, mas era cheia de corpo. E há, indubitavelmente há, conquistadores que se especializam em senhoras robustas. Por outro lado, enfurecia-se contra um simples olhar. Certa vez, no ônibus, um senhor, de meia-idade, que ia no banco da frente, virou-se, umas duas ou três vezes, durante os quarenta minutos da viagem. Luci perguntou, então, bem alto, para que todos ouvissem:
- Nunca me viu, não?
O cavalheiro, com as orelhas em fogo, só faltou se afundar no banco. Uns rapazolas, sem compostura, riram. E quando Luci chegou na repartição esbravejava:
- A gente encontra cada sem-vergonha que só dando com a bolsa na cara!
Não saberia viver sem essa honestidade profunda. Um dia a vizinha veio bater na porta:
- D. Luci! D. Luci!
Apareceu de quimono. Era o telefone. Admirou-se:
- Pra mim?
Veio atender assim mesmo. Era uma voz de homem, disse mais ou menos o seguinte:
- Aqui fala um seu admirador.
Antes da indignação, houve o pasmo:
- Como?
- Tenho pela senhora uma grande simpatia.Era demais! Apesar de estar na casa dos outros ou por isso mesmo, fez tremendo escândalo:
- Olha seu cachorro, seu sem-vergonha! Eu não sou, ouviu?, quem você está pensando! E fique sabendo que meu marido é bastante homem para lhe partir a cara!
O anônimo, do outro lado, não perdeu a calma. Eliminou o tratamento de senhora e declarou simplesmente o seguinte, fazendo uso de expressões, as mais desagradáveis e chulas:
- Tu deixa de ser besta, porque tudo isso é conversa fiada, etc., etc., etc.

o explorador

A família do vizinho, maravilhada, regalava-se com tamanha virtude. Luci voltou para casa transpirando, mas na euforia de sua fidelidade. Nunca, como durante o telefonema, sentira tão inequivocadamente a sua condição de senhora honesta. De noite, quando o marido chegou contou-lhe tudo. Valverde estava constipado e, pois, no pânico da asma. Ouviu, sem um comentário. Luci soltou a bomba, afinal:
- Desconfio de um cara.
- Quem?
- Primeiro, vou apurar direitinho. Mas se for quem suponho, vou te pedir um favor.
- Qual?
E ela:
- Você vai me dar um tiro nesse camarada!
- Eu? Logo eu?! Tem dó!
- Porque se você não der o tiro, te garanto que eu dou!
Sim, ela desconfiava de alguém. Há seis meses que, ao sair de manhã e ao voltar de tarde, um vizinho vinha para a janela assistir à sua partida e à sua chegada. Ora, desde que se capacitara da própria honestidade, um simples olhar bastava para a conspurcar. Ela própria sustentava a teoria de que nada é tão imoral no homem quanto o olhar. E o vizinho em apreço, sem dizer uma palavra, sem esboçar um sorriso, dardejava sobre ela os olhares mais atentatórios. A coisa era de tal forma tenaz, obstinada e impudica que Luci acabou pedindo informações sobre o camarada. Soube de coisas incríveis, inclusive uma que a arrepiou: embora moço (teria seus trinta e poucos anos) vivia às custas de uma velha rica. Sofria desfeitas, humilhações da megera que chorava cada tostão. Mas o rapaz, com um estoicismo e um descaro impressionantes, suportava tudo, para não morrer de fome. E Luci, apesar de achar feio, horrível, esse negocio de homem sustentado por mulher, teve uma pena relativa das desconsiderações infligidas ao sem-vergonha. Reagiu, porém, contra essa debilidade sentimental, porque enfim o rapaz estava nutrindo a seu respeito intenções desonestas, embora não expressas. Posteriormente, soube do nome do conquistador: Adriano. Era, como se vê, nome de vinho e, ao mesmo tempo, nome de fogos de São João. À noite, antes de dormir, e já na espessa camisola, fazia comentários enigmáticos, cujo sentido Valverde não captava:
- Hoje em dia os homens não respeitam nem mulher casada!
Dizia isso diante do espelho, repassando no rosto um remédio para espinha, que lhe tinham recomendado. O marido, quieto e esquálido na cama, no pavor permanente da asma, olhava de esguelha para a mulher. E calado fazia sua reflexões. Tinha um amigo que era traído da maneira mais miserável. Apesar disso ou por isso mesmo a mulher o tratava como um príncipe. E sempre que voltava de uma entrevista com o outro, trazia para o esposo uma lembrancinha. Valverde quase invejava o colega. Ainda diante do espelho, Luci prosseguia, indireta e sutil:
- Mas comigo estão muito enganados! Eu não sou dessas!
Calava-se, porque, evidentemente, não podia pôr o marido a par de suas atribulações.
No dia seguinte, ao passar, a caminho do ponto de ônibus, lá estava o conquistador de velhas. Foi ilusão de Luci ou ele entreabrira para ela um meio-sorriso sintomático. Ficou indignada, disse, entredentes:
- Que desaforo!
No ônibus, viajou preocupadíssima. Era óbvio que o miserável já não se limitava a uma admiração distante, quase respeitosa. Não. Apertava o cerco. Durante todo o dia, no trabalho, ela se sentiu acuada. O pior foi na volta, à tarde: o Fulano estava, na calçada, numa camisa esporte, verde-claro, de mangas curtas. Pela primeira vez, Luci constatou que tinha braços fortes e bonitos, o que não era de admirar, dado que, aos domingos, o cínico jogava voleibol de praia. Esta exibição deslavada de braços tornava mais patentes do que nunca as intenções de conquista. E só faltava, agora, uma coisa: que o rapaz lhe dirigisse a palavra. Se fizesse isso, Luci seria bastante mulher para lhe quebrar o guarda-chuva na cara. Finalmente, a moça apanhou uma gripe e resolveu ficar em casa.

orquídeas

O marido saiu, muito alegre, dizendo que ia jogar no bicho; sonhara com não sei que animal e planejava o jogo. Muito imaginativa, ela ficou cultivando as piores hipóteses, sobretudo uma particularmente eletrizante: de que o vizinho, aproveitando a ausência de Valverde, invadisse a casa. Podia ter passado a tranca na porta, mas não ousou. Às quatro horas da tarde, explodiu o inconcebível: um mensageiro veio trazer uma caixa de orquídeas. Nenhuma indicação de remetente. Luci tremeu. Pela primeira vez, em sua vida, compreendia toda a patética fragilidade do sexo feminino, todo o imenso desamparo da mulher. Diria ao marido? Não, nunca! Valverde, apesar da asma, do peito de menino, podia dar um tiro no Casanova. Por outro lado, já admitia que o vizinho nutrisse Poe ela mais que simples entusiasmo material. Quem sabe se não seria um amor? Grande, invencível, fatal? De noite, chegou Valverde, eufórico. Ao vê-lo, Luci teve um choque como se o visse pela primeira vez: que figurinha lamentável! E não pôde deixar de estabelecer o contraste entre os bracinhos do marido e os do “outro”. Valverde quis beijá-la; ela fugiu com o rosto, azeda:- Sossega!
O pobre esfregou as mãos:
- Ganhei no bicho!
Ela, nem confiança. Ligou o rádio; mas o seu pensamento estava cheio de orquídeas. De repente. Valverde, que fora lá dentro, reapareceu de calça de pijama e a camisa rubro-negra, sem mangas, que usava na intimidade. Fez, então, a pergunta:
- Recebeste as flores?
- Que flores?
- Que eu mandei?
Empalideceu:
- Ah, foi você?
E ele:
- Claro! Ganhei no bicho e já sabe!
A alma de Luci caiu-lhe aos pés, rolou no chão. Fora de si, não queria se convencer:
- Foi então você? Mas não é possível, não acredito! Onde já se viu marido mandar flores!
Ele com os bracinhos de fora, os bracinhos de Olívia Palito, insistia que fora ele, sim, e explicou o anonimato das flores como uma piada. Quando Luci se convenceu por fim, deixou-se tomar de fúria. Cresceu para o marido, já acovardado, e o descompôs:
- Seu idiota! Seu cretino! Espirro de gente!Acabou numa tremenda crise de pranto. Sem compreender, ele pensou na esposa do colega, que era infiel e, ao mesmo tempo, tão cordial com o marido!Conto de autoria do genial Nelson Rodrigues, parte do livro A Vida como Ela É, uma compilação de alguns de seus contos que escrevia para um jornal carioca, e que faz parte da série A Vida como Ela É, interpretada por Débora Bloch.

5 comentários:

Kamila disse...

Cassiano, adorei esse conto. O Nelson Rodrigues é um baita autor. E a Deborah Bloch também uma ótima atriz.

O que eu gostei mais foi que esperava que fosse o admirador mandando as orquídeas. Bela tirada, a do Nelson Rodrigues.

Museu do Cinema disse...

Pois é Kamila, esse conto tem aquilo que acho que, nós brasileiros, temos muito, a hipocrisia.

Kamila disse...

É verdade, Cassiano. A hipocrisia está no conto, a começar pela sua personagem principal.

Museu do Cinema disse...

A personagem que fala das outras, mas quando tem a oportunidade faz igual, e o marido que, apesar de invejar o amigo corno, mantem seu relacionamento.

Geórgia Damatis disse...

Olá, adoro esse texto. Estou gravando os contos no estilo "Novela de rádio" e o primeiro, claro foi "Uma Senhora Honesta". Ouça...

http://www.mp3tube.net/musics/Novela-de-radio-Uma-Senhora-Honesta-de-Nelson-Rodrigues/284007/