23 outubro 2007

Sob Suspeita

Find Me Guilty – Sidney Lumet – 2006 (DVD)

FIAT JUSTICA ET RUAT CAELUM – FAÇA-SE JUSTIÇA MESMO QUE O CÉU DESABE

Sujeito engraçado esse mafioso Jackie DiNorscio. Claro que ele tem seus defeitos, esse carcamano. Mas ele é muito engraçado. Faz piada de tudo. Imagina que ele, mesmo preso, condenado a 30 anos de prisão, ri do promotor que deseja que ele entregue o chefão da família Lucchese, Nick Calabrese, para diminuir sua pena. Ele é sim um carcamano da velha escola. Não delata seus amigos, seu sangue, por nada, mas ele tá fora de moda é verdade. Graças a essa lei RICO ele e seus companheiros foram réus no mais longo julgamento da história dos EUA. Todo mundo tinha seus advogados. Jackie apareceu sem ninguém, iria se defender. Imagine vocês meus amigos, um italianinho que mal concluiu o segundo grau, advogando em causa própria no maior julgamento da história! Pois o cara de pau fez isso mesmo, e fez mais, contou piada na frente dos jurados, usou chapéu para fazer figura de gângster de cinema. Conseguiu com que todos passassem a odiá-lo, da promotoria, a seus colegas e o juiz. Outro dia um dos réus, Tommy Napoli, um idoso com problemas no coração, teve que ir ao tribunal de maca e entubado. Na hora em que o juiz adentrou o tribunal, o meirinho fez o anúncio: Todos de pé. Jackie não perdeu a piada: O Tommy também?

Dirigido pelo mestre dos filmes de tribunais Sidney Lumet, de O Veredicto (1982) e 12 Homens e Uma Sentença (1957), Find Me Guilty (me recuso a falar novamente o título nacional) é mais uma obra-prima de Lumet que fracassou nas bilheterias norte-americanas, e nem teve sua estréia nos cinemas daqui, saindo diretamente em DVD. O filme é baseado na história verídica de Giacomo DiNorscio, conhecido como Jack Dee, e também no mais longo julgamento dos EUA, que os roteiristas tiveram acesso às transcrições oficiais do julgamento e adicionaram aos diálogos. Por mais surpreendente que seja, e é, tudo tem um fundo de verdade por trás.

O brucutu Vin Diesel está perfeito no papel de DiNorscio. Ele engordou 30 quilos para o papel e o interpreta de corpo, naturalmente, e alma. Outra interpretação que merece elogios é o do ator Peter Dinklage, que faz o papel do inteligente advogado de defesa Ben Klandis, que, apesar do mundo não ser feito para ele – já que é anão – ele não se queixa disso, e faz com que seu problema seja menor aos olhos da sociedade.

Find Me Guilty merecia mais tempo para discussão, que Lumet acertadamente decidiu não promover. Primeiro para não desvirtuar a história, e segundo pelo tempo. De qualquer maneira acho que em nenhum momento há julgamento por parte do cineasta, seu trabalho foi o de apresentar da maneira mais verídica possível a personalidade de Giacomo DiNorscio, um sujeito que sabe que quando você ri, o mundo todo ri com você, como já disse o sensacional Louis Prima.

14 comentários:

Kamila disse...

Este filme é um daqueles que passou completamente despercebido em qualquer lugar aonde estreou. Me lembro de ter visto cenas dele quando o Lumet ganhou o Oscar Honorário. Achei interessante ver o Vin Diesel de um jeito completamente diferente do que a gente está acostumado. Mas, confesso que nunca encontrei esse filme, nem no cinema, nem nas locadoras... Obrigada pelo post e vou adicionar o filme à minha lista.

Museu do Cinema disse...

É Kamila, o Sidney Lumet é um cineasta que provoca esse tipo de desinteresse, seu alge foi nos anos 70, juntamente a Scorsese, Coppola e DePalma, mas ele acabou indo no caminho do Coppola.

Esse filme ser relegado a segundo plano só mostra o quanto estamos bitolados.

Kamila disse...

Ainda bem, Cassiano, que "Before the Devil Knows You're Dead", o mais novo filme do Lumet, tem sido mais do que esperado e bem comentado pela imprensa.

Otavio Almeida disse...

O filme é muito bom, Cassiano! Parabéns! O Sidney Lumet é o cara!

Abs!

Otavio Almeida disse...

E comentei lá no blog sobre "O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford", "À Prova de Morte" e "Desejo e Reparação".

Abs!

Museu do Cinema disse...

É isso que me deixa chateado Kamila, pq a imprensa é quem escolhe os filmes que vamos ver nos cinemas?

Valeu Otávio, eu acho esse nome do filme do Brad Pitt bizarro, mas veio do original né, e alias, é original, com trocadilhos.

Ramon Scheidemantel disse...

Grande post. Quero ver o filme. Sob Suspeita é o deplorável título em português? Vou procurá-lo nas locadoras.
Penso que o filme seja interessante pela sua veracidade, não é?!

Ah, a frase sobre o riso também foi dita por Oh Dae-su no Old Boy, hehe!

Valeu pela dica!

Dewonny disse...

Tbm gostei desse filme de tribunal, Vin Diesel (com cabelo) está muito bem no papel entregando sua melhor atuação da carreira.

Obs: Primeira vez q comento aqui, se quiser, indico seu blog no meu visite = www.cinedewonny.blogspot.com

Abs!

Museu do Cinema disse...

Valeu Ramon, Sob Suspeita deve ser o 54º título usado para vários filmes.

Dewonny, valeu pela indicação!

Kamila disse...

Cassiano, também fico meio besta com esse negócio de a imprensa ter que ditar os filmes que iremos assistir ou ditar os filmes que merecem a nossa atenção. Tem tanto filme bom querendo ser descoberto.

Museu do Cinema disse...

Pois é Kamila, uma coisa que sempre me irritou, não só dos filmes, mas como de música tb.

Acho que na música a imprensa tem menos influência, mas no cinema é notória.

Os filmes que a mídia esculhamba nos EUA vem direto em DVD aqui. Fora milhares de outros filmes que nem por aqui aterrisam, fico mais ou menos como Neo em Matrix!

Vinícius P. disse...

Até queria ver "Find Me Guilty", mas não encontei em DVD por aqui. Muitos acham que esse filme foi responsável pela volta do Lumet, que há um bom tempo não fazia um trabalho digno de nota - e recebeu alguns elogios da crítica com esse longa. "Sob Suspeita" funcionou da mesma forma que "Melinda e Melinda" para o Woody Allen - deu uma nova força à carreira do diretor, que depois fez o excelente "Match Point" (e Lumet, o elogiado "Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto").

Kamila disse...

Na música, em tempos de Internet, com certeza a imprensa tem menos influência. Mas, a gente ainda tem uma influência muito forte nos filmes que iremos assistir. É só ver a quantidade enorme de gente que vai assistir a um determinado filme só porque a crítica a ele foi ótima.

Sutil Como um Elefante disse...

É impressionante como este filme passa desapercebido por qualquer ser humano...
mas, sem a menor pretensão dei sorte de alugá-lo e não me arrependo.. um dos filmes mais perspicazes sobre tribunais que já vi..Tá, a história é verídica e isso ajuda. Mas as interpretações estão magníficas..
Ótimo filme!