15 outubro 2007

magnólia

magnólia – Paul Thomas Anderson – 1999 (DVD)

No New York Herald do dia 26 de novembro de 1911 há o relato do enforcamento de três homens. Morreram pelo assassinato de Sir Edmund William Godfrey, marido, pai, farmacêutico e um versátil cavalheiro que residia em Greenberry Hill, Londres. Foi morto por três vadios cujo motivo era simples assalto. Foram identificados como: Joseph Green, Stanley Berry e Daniel Hill. Green, Berry, Hill. E quero pensar que foi apenas uma coincidência.

Conforme relatado no Reno Gazette de junho de 1983 tem a história de um incêndio, a água necessária para contê-lo, e um mergulhador chamado Delmer Darion. Funcionário do Hotel e Cassino Nugget, Reno, Nevada, contratado como carteador de vinte-e-um. Benquisto e estimado como uma pessoa ativa, um esportista, a verdadeira paixão de Delmer era o lago. Segundo o médico legista, Darion morreu de ataque cardíaco em algum lugar entre o lago e a árvore. Mas o mais curioso foi o suicídio no dia seguinte de Craig Hansen, bombeiro voluntário, alienado pai de quatro crianças, com forte tendência a se embriagar. Ele era o piloto do avião que casualmente puxou Delmer Darion da água. Além disso, o Sr. Hansen havia conhecido Delmer Darion duas noites antes. O peso da culpa e a enorme coincidência levaram Craig Hansen a cometer suicídio. Estou tentando pensar que tudo não passou de uma coincidência.

A história contada em 1961, num jantar para a Associação Americana de Ciência Forense pelo Dr. John Harper, presidente da associação começou com uma simples tentativa de suicídio. Sydney Barringer, de 17 anos na cidade de Los Angeles, no dia 23 de março de 1958. Segundo o legista, o suicídio fracassado, de repente, se tornara um homicídio bem sucedido. Ou seja, o suicídio foi confirmado por um bilhete no bolso direito da calça de Barringer. Ao mesmo tempo em que estava na beira do terraço de um prédio, uma briga acontecia três andares abaixo. Os vizinhos ouviram, como sempre, a discussão dos inquilinos. Era comum ameaçarem um ao outro com uma espingarda ou uma das várias pistolas que tinham em casa. Quando a espingarda acidentalmente disparou Sydney estava passando. Além disso, os dois inquilinos eram Fay e Arthur Barringer, a mãe e o pai de Sydney. Quando confrontados pela acusação que demorou para os policiais desvendarem a cena do crime. Fay Barringer jurou que não sabia que a arma estava carregada. Um garoto que morava no prédio e que as vezes ia visitar Sydney Barringer disse que tinha visto, seis dias antes, a arma ser carregada. Parece que a briga, a discussão, tanta violência era demais para Sydney Barringer. Sabendo da tendência dos pais para brigar resolveu fazer algo. Sydney pula do nono andar. Seus pais discutem três andares abaixo. O tiro acidental atinge o estômago de Sydney, quando ele passa pela janela do sexto andar. Ele morre instantaneamente, mas continua a cair deparando, cinco andares abaixo, com uma rede instalada três dias antes por lavadores de janelas e que lhe teria salvado a vida se não fosse pelo buraco no estômago. Assim, Fay foi acusada do assassinato de seu filho e Sydney Barringer ficou conhecido como cúmplice de sua própria morte.

É como os livros nos ensinam: “O passado já era para nós, mas não nós para o passado.” Bebendo da fonte de Robert Altman ao retratar várias histórias paralelas que se entrelaçam, Paul Thomas Anderson, marca seu nome na história do cinema no seu terceiro longa-metragem. São nove personagens centrais, Frank T. J. Mackey (Tom Cruise), um guru que ensina os homens a conquistar as mulheres e “domá-las” ao seu estilo. Claudia (Melora Walters) uma prostituta viciada em cocaína que sofreu abuso na infância de seu próprio pai, o famoso apresentador do programa What do kids know? (O que as crianças sabem?) Jimmy Gator (Philip Baker Hall). Stanley Spector (Jeremy Blackman) um menino gênio que vive com o pai e divide seu horário em ir as aulas e responder perguntas no famoso programa de TV. Donnie Smith (William H. Macy), que quando garoto ficou famoso no programa e hoje, adulto, tem dificuldade em assumir sua homossexualidade e ser competente no que faz. Phil Pharma (Philip Seymour Hoffman), enfermeiro que trabalha para o doente terminal Earl Partridge (Jason Robards) e se envolve com a história do paciente de procurar o filho. Linda Partridge (Julianne Moore) a esposa de Earl que casou por dinheiro e hoje, apaixonada pelo marido, se sente mal por estar por receber toda a herança dele. E Jim Kurring (John C. Reilly) um policial que busca andar sempre na linha e uma companhia feminina para estar ao seu lado.

Segundo o diretor, roteirista e produtor Paul Thomas Anderson, o filme nasceu da adaptação das músicas de Aimee Mann, portanto é normal que o filme se entrelace com suas canções e que frases sejam ditas iguais às estrofes das músicas, como a que é dita por Claudia - “agora que nos conhecemos, você se importaria de não nos vermos mais?” - da música Deathly. Ou, ainda, no momento em que os personagens principais do filme cantam a música “Wise Up”, cujo refrão diz: “Isso não vai parar, até você se levantar”.

Como de hábito, a direção de PTA abusa dos movimentos sincronizados e ensaiados da steadycam, os close-up’s à Scorsese, e as longas tomadas sem corte, como a inicial nos bastidores do programa de televisão. O roteiro, de uma complexidade poucas vezes vista na história do cinema, ganhou muitas interpretações ao longo dos anos, tentaremos esmiuçá-las aqui:

♦ Relação entre pais e filhos. Jimmy e Claudia e o estupro incestuoso que afetou definitivamente a vida dos dois e da família; Frank e Earl e o desgaste da relação com a ausência do pai diante da doença da mãe, afastando e criando um ódio do filho ao pai; Stanley e Rick e o processo da falta de carinho na relação de pai e filho.

♦ Êxodo 8:2. É o que mostra um cartaz no show What do kids know? Os números 8 e 2 são uma constante no filme (no avião, nas cartas do cassino, `probabilidades de chuva: 82%`, caixa postal e placa do carro de Jim Kurring). Na Bíblia o versículo do êxodo 8:2 diz: `Mas se recusares a deixá-lo ir, eis que ferirei com rãs todos os teus termos`.

♦ O garotinho do rap. Ele também é o trombadinha que rouba Linda, a personagem de Julianne Moore, e a salva chamando a ambulância, e é também quem acha a arma de Jim Kurring e sai correndo com ela. Para o crítico de cinema Pablo Villaça, o garotinho é o `Profeta` que dizia ser no rap.

♦ Muitos dizem que ocorre devido a um fenômeno causado por furacões, que pegam os sapos, em virtude da sua falta de mobilidade, e depois os jogam em outros locais. Existem publicações a esse respeito.

♦ Para mim, o filme é uma fábula moderna e a melhor forma de explicar o fato é feita pelo personagem mais “sábio” da história, Stanley Spector, que lê o livro sobre Charles Frost, estudioso de fenômenos estranhos, e em quem Anderson se inspirou: “essas coisas acontecem”. Ou no quadro da casa da personagem Claudia, onde está escrito: “but it did happen” – mas isso aconteceu.

Coisas estranhas acontecem o tempo todo, é só olharmos um pouco ou buscarmos nos jornais as notícias mais absurdas para as vermos lá, mas, “se fosse num filme, eu não acreditaria”.

14 comentários:

Ramon Scheidemantel disse...

Parabéns Cassiano!
Nunca analisei tão afundo essa obra. Assisti na época de seu lançamento e apesar de ter gostado não tinha nenhuma idéia de sua profundidade.
Ótimas compilações de análise, ótimas lembranças. Depois de ler esse post a obra merece uma revisão de minha parte.

Museu do Cinema disse...

Poxa Ramon, obrigado, a intenção foi justamente essa, Magnólia é uma obra riquissima e que sempre merece uma revisita, seja para pegar os detalhes, seja apenas para rever e relembrar! Obrigado!

Rogerio Scheidemantel disse...

Ahh, como é bom relembrar das "coincidencias" fantasticas desse filme, a chuva de sapo, e as performances do William Macy(sempre ótimo) e do curioso John Reilly(pra mim um de seus melhores desempenhos).
Belo post!

Kamila disse...

Belíssimo post, Cassiano.

"Magnolia" passou nesta última sexta-feira no Warner Channel e eu assisti algumas cenas e é incrível como o filme continuava fresco em minha mente.

Lendo seu texto, a descrição de acontecimentos e personagens; eu me vi pensando em todos eles. E acho que esse é o maior ponto positivo deste filme do PT Anderson: ele fez com que a gente se importasse com os personagens.

Sei da inspiração da música da Aimee Mann para o roteiro do filme, mas acho que, mais do que "Wise Up", a música que é perfeita para esse filme e para todos os personagens é "Save Me".

De novo, Cassiano, parabéns pelo belo texto!

Museu do Cinema disse...

Rogério, obrigado, William H. Macy é demais mesmo, é impressionante como essa personagem dele é totalmente diferente do de Boogie Nights e ambos dificies.

Kamila, se não me engano Save Me encerra o filme, vc tem razão, mas wise up é precisa no ponto do filme em que toca! Obrigado!

Romeika disse...

Nossa, que análise profunda! Acho os personagens desse filme muito complexos, são dificéis de entender. E só vi o filme uma vez... E o interessante é que tudo não é entregue ao espectador de mão beijada, apesar de alguma idéia, temos que imaginar o porquê do ódio daquele filho, do comportamento daquela mulher que se sente culpada e agora ama o marido intensamente, mas é tarde demais... e tantos outros. Um filme que merece releituras.

Museu do Cinema disse...

O menino gênio que deseja ser mais amado, e o ex-menino gênio que tb precisa ser amado, o policial solitário. Sem duvida Romeika! Alias, parece o trailer do filme, que é o melhor que já vi na vida.

Vulgo Dudu disse...

Eu vi esse filme no cinema e lembro que metade da audiência foi embora na metade, não sei como. E eu, movido por um impulso, aplaudi sozinho (paguei mico?), com força. Inclusive, do grupo que me acompanhou, só eu gostei.

A cena dos sapos é linda, mesmo que o espectador não saiba da sua ligação com o tal salmo. Chove o filme inteiro, sempre nublado. E é preciso chover sapos para que todos parem para refletir sobre suas vidas. Aí vem a exuberante sequência em que todos os personagens cantam "Wise up", também incrivelmente lírica.

O poster do filme é sensacional. Se você prestar bem atenção na magnólia e nas bordas do desenho, vai identificar várias passagens da trama.

Um filmão! De novo, belo post! Tá arrebentando nessa série do PTA!

Abs.

Museu do Cinema disse...

Valeu Dudu, a foto que vc menciona ilustra o post.

E acho que não pagou mico nenhum! Só não aplaudi no cinema pq estava em extase!

A chuva de sapos é mesmo um capitulo a parte, todos acham o filme bom, mas q fica ruim pelos sapos.

Eu acho que é um filme maravilhoso, que vira obra-prima pelos sapos!

Otavio Almeida disse...

Belo texto, Cassiano! Mas ainda fico com Nelson Rodrigues :-)

Abs!

Museu do Cinema disse...

Obrigado Otávio, Nelson Rodrigues é gênio, e vc prova a genialidade do PTA!

Vinícius P. disse...

Já tinha lido esse texto há uns dias atrás, mas só comento agora. Na verdade não há muito o que falar. "Magnólia" é meu filme preferido e até agora não vi outro blog comentar com tamanha propriedade como você fez. Realmente perfeito, como o filme também é.

Museu do Cinema disse...

Poxa, obrigado Vinícius, é também meu filme preferido e um dos melhores que já vi!

monica da silva mesquita disse...

eu vi o filme a anos, em 2006 vi novamente para poder entender melhor e foi o que aconteceu,sei que desde da primeira vez que vi adorei,e depois de ler o texto so ratifica o meu pesamento a respeito do filme e maravilhoso, eu amo filmes.