25 agosto 2007

Bob Dylan: No Direction Home

No Direction Home: Bob Dylan – Martin Scorsese – 2005 (DVD)

Por Marcus Freitas*

Não é difícil perceber que Scorsese sempre teve uma relação especial com a música. Desde o começo de sua carreira como diretor, ele sempre deu atenção especial à trilha sonora de seus filmes. Essa paixão recíproca viria a ser confirmada com New York, New York, o musical The Last Waltz e atualmente com uma série sobre as raízes do Blues, que conta com a participação de diretores como Clint Eastwood e Win Wenders. Faltava apenas algo sobre algum ícone da música americana. Isso terminou quando ele resolveu rodar um documentário desmistificando a vida de um dos maiores, senão o maior poeta que a música viu existir: Robert Allan Zimmerman, ou simplesmente Bob Dylan.

Década de 1960. O mundo assiste a invasão americana no Vietnã, além da guerra fria. O movimento dos direitos humanos está crescendo cada vez mais, a contracultura entra em efervescência, principalmente por causa do movimento beatnik. Mas o foco do filme é Nova York, mais especificamente no boêmio bairro Greenwich Village, coração cultural da cidade na época, onde Dylan começou sua carreira. Com 20 anos ele deixou sua terra natal, Duluth, em Minnessota, para ir conhecer toda essa cena que rolava em NY, em meio a músicos, artistas, poetas, pintores e escritores de todo o país.

A principal influência musical do começo de sua carreira foi Woody Guthrie, tanto que compôs Song to Woody em homenagem a ele. Passado algum tempo, logo se destacou entre os demais que tocavam em Greenwich em gravou seu primeiro LP em 1962. Porém foi no segundo álbum, The Freewheeling' Bob Dylan, que o jovem cantor de folk estourou de vez. Canções com letras fortes e contextos atuais como Blowin’ in the Wind, que virou uma espécie de hino daquela geração, A Hard Rain’s A-Gonna Fall (que fez o poeta Allen Ginsberg chorar ao ouvi-la pela primeira vez, como o próprio conta no filme) e Masters of War dariam a ele a fama de porta-voz de uma geração. E aí Scorsese começa o processo de desmistificação.

Tal como no livro Crônicas Vol. I, Dylan reafirma que ele não esperava ser porta-voz de coisa nenhuma, muito pelo contrário: queria apenas compor e cantar, por mais políticas ou ‘de protesto’ (rótulo que ele sempre odiou) que suas músicas soassem. A forma ácida e irônica e o tom de deboche com que respondia as entrevistas deixam esse sentimento bem claro. Outro grande ponto do documentário é a sua relação com a cantora Joan Baez. Ambos cresceram juntos no cenário musical, mas enquanto ela era engajada nas causas da época, totalmente ativista, ele queria apenas tocar. O próprio faz um pedido de desculpas pra ela, dizendo que “não dá para ser esperto e amar ao mesmo tempo”. Um pedido de desculpas meio implícito, bem do jeitão dele.

Depois veio a fase elétrica, trocando os violões por guitarras. Isso causaria a fúria nos folks mais puristas (e porque não xiitas). Ao entrar com uma banda completa e portando uma guitarra no festival de Newport no dia 25 de julho de 1965, ele tomou a maior vaia de sua vida. O acusavam de abandonar o folk, de renegar seu passado e suas raízes, causando até uma rixa entre os próprios músicos, os que defendiam o ‘purismo’ e os que gostaram da inovação. Seus shows nessa época eram metade acústico e metade elétrico (normalmente cheio de vaias também). São mostrados alguns momentos dos shows que ele fez na Inglaterra e uma seqüência interessante: passam vários depoimentos, uns elogiando, mas a grande maioria xingando muito essa ‘traição’ e tal, e logo após aparece Dylan no palco cantando um belíssimo trecho de Mr. Tambourine Man. Alguém não percebeu a maldade de Scorsese aqui?

Quando se juntam dois nomes com a qualidade, a grife, o quilate de Bob Dylan e Martin Scorsese, é difícil que saia alguma coisa errada. Uma viagem musical pela década de 60. Uma obra dirigida por um mestre na arte do cinema que narra parte da vida de uma lenda musical. Mesmo para os que não conhecem ou não são fãs do músico, vale a pena assistir esse documentário. Mas pra funcionar tem que ser como o próprio cantor diz pra sua banda, próximo do término do filme: play it fucking loud! Baixe o cd 1 da trilha aqui, e o cd 2 aqui.

* Marcus Freitas é blogueiro e gremista, escreve no blog Caminhante Noturno.

6 comentários:

Romeika disse...

Muito bom o texto do Marcus. Eu já tive oportunidade de ver esse documentário no telecine, mas sempre perdi as exibições. Conheço pouquíssimo da carreira do Bob Dylan, ele pode até ser uma lenda musical, ter composto letras memoráveis de músicas, mas no palco é frio como gelo. Carisma zero, o que na minha opinião confirma a sua genialidade musical.

Museu do Cinema disse...

Beleza de texto Marcus, acho que vc conseguiu decifrar muito da imagem do Bob Dylan, assim como o Scorsese.

Ele faz letras críticas, mas nem por isso significa q ele é engajado.

Kamila disse...

Um excelente texto do Marcus, e eu nunca tive a oportunidade de assistir ao filme. Mas, sou uma admiradora do Bob Dylan e gosto do Scorsese também. E acho muito legal esse tipo de filme que ele dirige entre um longa metragem e outro.

Marcus Vinícius disse...

Pessoal, obrigado pelos elogios. Valeu mesmo.

É meio estranho falar do Dylan, pra mim é meio como falar do Grêmio, hahaha. Aliás, segundo o querido Eduardo Bueno, o Dylan ficou maravilhado com o hino escrito pelo também genial Lupicínio Rodrigues.

=P

Ramon Scheidemantel disse...

Não assisti o filme, mas parece retratar bem alguns importantes momentos da carreira do cantor, igualmente bem descritos no post.

Gosto de Bob Dylan, mesmo sem conhecer, a fundo, seu trabalho, e quando tiver oportunidade assistirei o filme.
Mas garanto: Nunca irei cantar o hino do grêmio. kkkkk!
Ótimo post!

Museu do Cinema disse...

Marcus, o Dylan tem bom gosto, isso é indiscutivel.