16 março 2007

Entrevista: Ettore Scola

O senhor tem uma carreira longa...

ETTORE SCOLADemasiadamente longa! ...Não apenas como realizador, mas também como roteirista, atravessou praticamente todo o cinema italiano do pós-II Guerra Mundial.

Como olha hoje para o seu percurso, e para todo esse tempo?

Penso que serviu para qualquer coisa, pelo menos em Itália. O cinema neo-realista, primeiro, e a comédia italiana, depois, contaram a história do meu país. O cinema não pode mudar o mundo nem a realidade, mas pode ajudar a refletir. E o cinema ajudou muito os italianos a refletir. Em questões como o divórcio, o aborto, o cinema foi uma contribuição importante para a reflexão.

O neo-realismo foi um pouco o caldo de onde nasceu o cinema italiano do pós-guerra. Para o senhor, a que ponto foi importante? Que influência teve Cesare Zavattini, por exemplo?

Trabalhei com (Cesare) Zavattini, (Sergio) Amidei, (Vittorio) De Sica. A minha geração partiu do neo-realismo. O neo-realismo contava a Itália do pós-guerra, a Itália em ruínas, a Itália destruída, a miséria, o desemprego...Depois, com a comédia italiana, usamos o mesmo espírito para continuar a falar de uma Itália menos trágica. Os problemas continuavam lá, a tragédia também, mas havia uma grande necessidade de rir, uma grande vontade de viver. Zavattini dizia que não se devia inventar histórias, mas apenas "seguir o homem". E o homem é feito de tragédia, mas também é feito de comédia, vontade de se divertir, amar. A comédia italiana esteve sempre muito próxima do povo.

Ao mesmo tempo, nos seus filmes a História esteve sempre presente.

Sim, essa é um pouco a característica principal dos meus filmes. Muitas vezes aproveitei as histórias que contava para falar da História do meu país - em Nós que nos amávamos Tanto (1974), O Baile (1982), Mario, Maria e Mario (1993). A memória é importante para se pensar no futuro.

O senhor não filmou só a História italiana, um dos seus filmes, Casanova e a Revolução (1982), é sobre a Revolução Francesa...

É uma memória mais indireta, mas da Revolução Francesa nasceu todo o mundo moderno. E os grandes temas estabelecidos pela Revolução Francesa, a igualdade, a solidariedade, estão ainda na ordem do dia, não são assuntos resolvidos.

Há quem diga que Casanova e a Revolução (1982) foi, precisamente, o seu projeto mais ambicioso. É verdade?

Não sei medir a ambição que ponho em cada filme. Julgo que a ambição é sempre a mesma, mas depois há filmes que são mais estimados e respeitados do que outros. Casanova e a Revolução (1982) era importante, pelas razões que já disse. E a França foi muito importante na minha educação cultural. Era o filme sobre a Revolução Francesa que Mitterrand mais apreciava. Quando foram as celebrações do bicentenário, o filme foi projetado na Place Vendôme. Isto quando há centenas de filmes franceses sobre a Revolução.

Juntamente com a História há sempre uma dimensão política nos seus filmes, nem que seja na sombra, como um comentário.

Sim, sim. Nos anos 70, na Itália, chamava-se "cinema impegnato" aos filmes que lidavam com questões políticas, uma expressão que vinha do francês "cinéma engagé". Nunca gostei da expressão, pois penso que qualquer filme é "engagé", mesmo negativamente, mesmo para o pior. Não gosto do "engagement", não me interessa a política partidária. Interessa-me a política no sentido grego do termo, a "polis", a maneira de viver em comunidade. Essa política está em todos os meus filmes, a política que se ocupa de problemas reais, que se preocupa com os cidadãos.

Essa presença da política é uma constante na história do cinema italiano. E, hoje, é uma presença muito forte no cinema do mais célebre realizador italiano contemporâneo, Nanni Moretti. Acha que Moretti se integra na tradição que também foi a sua?

Sim, para mais. Acho que ele faz uma espécie de "nova comédia italiana" que parte dos mesmos princípios da comédia italiana tradicional. A realidade, o divertimento, não tenho dúvida. Há outros realizadores mais jovens, como Gabriele Muccino, que teve algum sucesso, mas que falta essa dimensão. Os seus filmes são sobre pessoas em situações reais, quotidianas, pessoas que amam e que têm problemas, mas nunca sabemos o que pensam, o que desejam, por isso, julgo que no caso de Muccino já não se trata de comédia italiana, mas de comédia simplesmente.

Gosta do cinema de alguém que, em termos de geração, está entre o senhor e Moretti, como Bernardo Bertolucci?

Sim, mas ele gosta de ir filmar na África, no Oriente, e nessas alturas perde as coordenadas. Mas ele tem filmes que se inserem na grande comédia política.

Dos cineastas com quem trabalhou como roteirista, na sua juventude, quais foram os que mais o impressionaram e influenciaram?

De Sica, seguramente. É o meu realizador preferido, é alguém que eu conheci, com quem trabalhei. Escrevi vários argumentos para ele. E ele tinha o dom, a graça da "souplesse" que outros não tiveram. Exprimia na perfeição a articulação entre o neo-realismo e a comédia italiana. Aproximava-se do homem com uma enorme capacidade de compreensão, qualquer personagem dele era uma grande personagem, emblemática e totalizante. Foi o meu modelo, mesmo que não me possa comparar com ele. Outro realizador que me marcou muito foi Antonio Pietrangeli, para quem escrevi dez filmes.

Ia perguntar-lhe por ele. É pouco conhecido, mas surpreendente.

La Parmiggiana (1963) e La Visita (1963), escrevi todos. Pietrangeli era um realizador que se preocupava quase exclusivamente com as mulheres. A situação social da mulher em Itália, nos anos 50 e 60, era muito problemática, e ele se interessou muito em refleti-la. Me marcou muito.
Morreu muito novo.
Sim, se afogou durante um banho de mar.

Qual é a sua principal preocupação quando filma, hoje?

Para um cineasta italiano, é obrigatoriamente a Itália, é Berlusconi. Um homem que é dono de quase todos os canais de televisão italianos e que os usa para fazer passar a sua mensagem, uma mensagem de egoísmo e de falta de solidariedade.

Moretti à parte, de quem gosta hoje no cinema italiano?

Moretti já faz parte dos veteranos, dos consagrados. Os jovens sentem-se compelidos a se auto-censurar, fazem filmes que podem ser divertidos mas são inócuos. De modo que o panorama não é muito positivo.
Ainda assim, há algumas correntes, como a do cinema napolitano. Julgo que eles também acabaram por fracassar, mesmo que o movimento parecesse ao princípio possuir uma certa força.
* Entrevista concedida ao site português cine cartaz.

6 comentários:

Túlio Moreira disse...

Bertolucci perdendo as coordenadas... Ettore esnobou legal!

"A memória é importante para se pensar no futuro." Acho que essa frase resume o papel do cinema - o mais ágil objeto da memória do mundo de hoje? Scola acertou em cheio.

abs!

Museu do Cinema disse...

Tb achei que ele deu uma esnobada legal Túlio.

Eu gosto muito da frase: "Nunca gostei da expressão, pois penso que qualquer filme é "engagé", mesmo negativamente, mesmo para o pior."

Kamila disse...

Adorei a entrevista e, especialmente, esta frase: "O cinema não pode mudar o mundo nem a realidade, mas pode ajudar a refletir."

Concordo plenamente com essa afirmação do Ettore Scola.

Bom final de semana!

Museu do Cinema disse...

Tb concordo Kamila, concordo e me sinto bem com ela, como cinéfilo.

Kamila disse...

Eu também me sinto muito bem com essa frase, pois o cinema me faz refletir muito sobre as coisas, sobre o mundo em que vivemos.

Museu do Cinema disse...

Eu acho que o cinema tem esse poder de reflexão Kamila, uma pena que a sociedade ainda ache o cinema apenas entretenimento.