Conheço um homem que era cego. Com quase 40 anos, fez uma cirurgia e recobrou a visão. Primeiro foi o êxtase. Ele se sentiu muito bem. Rostos, cores, paisagens. Mas depois, tudo começou a mudar.O mundo era muito mais pobre do que imaginava. Ninguém tinha contado quanta sujeira havia nele, Quanta feiúra. Ele via feiúra em toda a parte.
Quando era cego atravessava a rua sozinho com uma bengala. Depois de recobrar a visão passou a sentir medo. Começou a viver na escuridão. Não saia do quarto. Depois de três anos, ele se matou.
* Extraída do filme Profissão: Repórter (1975), de Michelangelo Antonioni e interpretado por Jack Nicholson. Disponível em DVD.
4 comentários:
O filme é de 1975, mas a frase continua atualíssima.
Principalmente para nós brasileiros Kamila.
Lembro de quando escrevi a crítica do filme e registrei: "Ou ele (David Locke) é um cego. Não aquele que recuperou a visão, aos 40, tornando-se depressivo e solitário à medida em que descobria a sujeira do mundo. David Locke é um cego condicionado à escuridão. Seu destino é um só, com ou sem cirurgia corretora."
Somos todos David Lockes, não há cirurgias curadoras para nós e tampouco precisamos de cirurgia para morrer.
P.S.: Cassiano, peço para vc ler minha resenha sobre "Nascido em 4 de Julho", a obra-prima de Oliver Stone, lá no Cinema Kabuki. Obrigado e abs!
Vou ler sim, com certeza, mas vou cobrar mais uma vez sua caixa de comentário amigo.
Outra coisa, esse post foi vc quem me recordou essa parabola!
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