16 agosto 2006

Coração Selvagem

Wild at Heart – David Lynch – 1990

Palma de Ouro do Festival de Cannes de 1990. Baseado no livro Wild at Heart: The Story of Sailor and Lula, escrito pelo poeta e novelista norte-americano Barry Gifford.

A história gira em torno do casal Lula (Laura Dern) e Saylor (Nicolas Cage), e nos mostra o limite da loucura humana com a perseguição da mãe de Lula, Marietta (Diane Ladd – indicada ao Oscar) a Saylor, que começa com o episódio em que o capanga de Marietta tenta esfaquear Saylor, depois de muita violência e sangue, o capanga é morto pelas mãos do namorado de Lula.

Depois de cumprir pena de dois anos, Saylor é posto em liberdade condicional e, para tormento da mãe de Lula, foge com a filha embarcando numa viagem pelas estradas do interior dos EUA, com muito sexo, música e Elvis Presley, até o momento que passam a ser perseguidos por Johnnie Farragut (Harry Dean Stanton), namorado de Marietta, que também contrata o matador de aluguel Santos (J. E. Freeman). Fugindo de Farragut e com a cabeça a prêmio, Saylor se vê sem dinheiro e resolve juntar-se a um bandido para roubar um banco.

O filme reserva a cena antológica, do quase estupro consentido de Lula pelo bandido Bobby Peru (Willem Dafoe – com lábios repugnantes) e a presença de Perdita (Isabella Rossellini), onde Lynch faz sua analogia loira/morena. Porque, apesar dela usar peruca loira, notamos propositadamente seu cabelo negro. Para Lynch a mulher morena representa o mistério.

Se pegarmos o roteiro do filme e passarmos para qualquer outro diretor é bem provável que o filme fosse classificado como um romance, mas nas mãos de Lynch a história é outra, literalmente. Saylor & Lula, pode e deve ser comparado a Romeo & Julieta, o amor deles é impossível e ainda encontram uma antagonista que além de vilã possui personalidade esquizofrênica. O que difere os casais é que enquanto Romeo tinha um amor quase infantil por Julieta, Saylor & Lula representam também o amor carnal, o desejo sexual, contida sempre na filmografia do diretor, que faz aqui o seu filme com mais apelo sexual.

6 comentários:

antônio josé disse...

não sou muito fã da carreira do cineasta david lynch, assisti a poucos filmes dele, mas precisamente, coração selvagem, estrada perdida e cidade dos sonhos, e para mim, apenas coração selvagem possui um roteiro. o resto é puro visual, alias muito bem feito, o senso de estética e caracterização são perfeitos, não sou fã, mas é uma homenagem merecida.

Museu do Cinema disse...

Concordo contigo Antônio. Só acho que os filmes de Lynch tem sim um roteiro, só que esse script não é linear. Não devemos esperar dele que no final tudo se esclareça porque não vai acontecer. Aguarde post sobre Angelo Badalamenti.

Túlio Moreira disse...

Tenho que confessar: não assisti a Coração Selvagem (geralmente tenho mania de comentar alguns filmes que não vi), mas acredito na força autoral de LYNCH e aproveito o espaço para fazer uma observação:

Depois de Coração Selvagem, apenas Barton Fink, Pulp Fiction e Elephant, filmes legitimamente americanos, conseguiram levar a Palma de Ouro (não vou citar Fahrenheit 9/11, que é um caso particular). Isso mostra o quanto o Cinema americano precisa de autores e nos leva a uma certa preocupação com o sucateamento do melhor e mais completo Cinema do mundo (ver um artigo que escrevi no meu blog chamado S.O.S. EUA).

Museu do Cinema disse...

Vou ler sim Túlio e acho a discussão válida e importante. Realmente o cinema norte-americano sente falta desse processo autoral mesmo, vários diretores que começam independentes logo se rendem aos grandes estúdios e cineastas como Lynch, Todd Solondz, entre outros que me fogem a memória, sofrem com a distribuição de seus filmes.

Túlio Moreira disse...

Acho Christopher Nolan o ápice negativo desse processo (é difícil acreditar que o diretor do nojento Batman Begins é o mesmo de Amnésia). Sem mais comentários.

Museu do Cinema disse...

Bryan Singer também participa desse processo! Ou até mesmo o Doug Liman.