11 março 2006

Crash - No Limite

Crash – Paul Haggis – 2004

“Isso é o senso do toque. Numa cidade real, você anda, sabe? Você esbarra nas pessoas, as pessoas esbarram em você. Em L.A, ninguém toca você. Estamos sempre atrás de metal e vidro. Eu penso que perdemos tanto esse toque, que batemos uns nos outros, só para sentirmos alguma coisa”.

Crash, vencedor do Oscar de melhor filme, deveria se chamar Magnólia 2, assim resolveria dois problemas numa cajadada só. Primeiro, diz-se que Haggis resolveu colocar o nome por uma briga com o conterrâneo Cronenberg, que teve seu filme lançado em 1996. E segundo porque foi acusado de ser uma cópia do filme de Paul Thomas Anderson. Haggis também faz parte da famigerada cientologia, uma religião polêmica, que mistura ciência e tem grandes astros como seguidores, John Travolta e Tom Cruise.

O filme é um mosaico de histórias que se entrelaçam. Sua história é contada de forma simples e objetivamente, em comum, a cidade de Los Angeles, com seus preconceitos raciais em ebulição, alias, outro filme que também é “lembrado” é “Grand-Canyon – Ansiedades de uma geração”. A película-mosaico tem: o policial branco e preconceituoso, mas de ótima conduta (Matt Dillon), o diretor de TV negro, educado e que evita entrar em brigas raciais (Terrence Howard), a esposa do promotor carente e racista (Sandra Bullock), um jovem delinqüente negro e que só enxerga racismo a sua volta (Ludacris) e o detetive negro (Don Cheadle), que tem problemas com a mãe drogada e o irmão assaltante. O racismo é o tema principal de toda a violência que invade a tela.

Não se pode chamar Haggis de maniqueísta. O filme foi concebido depois do autor passar por um seqüestro relâmpago. O diretor foi extremamente cuidadoso em colocar no roteiro personagens reais, alguns poucos desenvolvidos é verdade, como no caso das personagens de Sandra Bullock e Brendan Fraser, mas todos se encaixam de alguma maneira aos nossos sentimentos preconceituosos e racistas. Seu filme é uma grande homenagem a Magnólia – como no momento em que todos os personagens são mostrados num “clip” com a belíssima música “In the deep” de Kathleen “Bird” York, injustiçada em não ter ganho o Oscar de melhor canção. Por falar em Oscar, a surpresa da sua vitória acabou tirando um pouco o brilho do filme. Se é melhor que Brokeback Mountain ou não, dependerá da opinião de cada um, mas, ninguém poderá negar, a sua vitória deixou a estatueta em boas mãos.

“Você pensa que sabe quem você é?”

* Vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original (Paul Haggis e Bobby Moresco) e Montagem (Hughes Winborne)

3 comentários:

Kamila disse...

"Crash - No Limite" foi o meu filme favorito de 2005. Por isso mesmo, fui uma das pessoas que achou justa a sua vitória no Oscar. Não que eu não tenha gostado de "Brokeback Mountain", mas, no conjunto geral, "Crash" consegue ser um melhor filme por várias razões. A principal delas é que o filme tem como tema principal um assunto que é bastante atual: a intolerância entre as pessoas e a noção de que vivemos a nossa vida de acordo com os nossos pré-conceitos a respeito de muita coisa. "Crash" coloca abaixo o conceito de politicamente correto.

Paul Haggis é um dos grandes roteiristas do cinema atual e, com "Crash", ele toca em várias feridas da sociedade. Pensem o que quiser desse filme, mas ele é muito verdadeiro e essa é uma qualidade que falta e muito no cinema que é produzido atualmente.

antônio josé disse...

Concordo com o que disse sobre se o filme é ou não melhor que Brokeback Mountain, mas acho que, por várias razões: filme de estréia do diretor, excesso de superficialidade, péssima fotografia e temática "chupada" de Magnólia e Short Cuts, Brokeback é muito mais filme, ou Munique e Boa Noite e Boa Sorte. De resto são as experiencias de cada um.

Museu do Cinema disse...

Só o cinema mesmo pra fazer as pessoas escreverem comentários tão apaixonados. O que temos que pensar é que, na academia, os eleitores são, em sua maioria, atores e, nem sempre, apaixonados por cinema como nós.