23 janeiro 2006

Sam Mendes

Um é pouco, dois é bom, três é demais. Mendes entra no seleto time dos grandes diretores de cinema com seu terceiro longa. Imprimindo algumas características, o cineasta que veio do teatro londrino, mostra-se um ótimo “interprete” dos textos escolhidos. Dono de uma estética invejável, surpreendente pra quem veio dos palcos, Sam foi descoberto por Steven Spielberg, que bateu pé firme para escalá-lo como comandante do “independente” Beleza Americana.

Outro ponto sempre forte nos filmes do cineasta são as trilhas sonoras, compostas pelo parceiro Thomas Newman, seus três filmes reservam lugar especial para suas composições, que dão o tom do filme.

Uma curiosidade do seu trabalho, que vem apararecendo em suas realizações é o aparecimento de água toda vez que uma morte se aproxima. Um detalhe típico de um cinéfilo.

Beleza Americana – 1999

O tom sarcástico do filme recebe a alma de Kevin Spacey: “Meu nome é Lester Burnham. Esta é minha vizinhança e esta é minha casa. Tenho 42 anos de idade. Em menos de um ano estarei morto. É claro que ainda não sei disso. De certa maneira, eu já morri”.

Casado com Carolyn (Annette Bening), as únicas diversões de Lester é paquerar a amiga de sua filha adolescente, Ângela Hayes (Mena Suvari) e fumar baseado com o filho do novo vizinho, Ricky Fitts (Wes Bentley), cujo pai o Coronel aposentado Frank Fitts (Chris Cooper), faz testes de urina para ver se o filho se droga. Aos poucos, Lester vai adquirindo o sarcasmo que a vida de aparências, criada pela esposa obcecada e por ele mesmo, na sua submissão a aquele estilo de vida, lhe proporcionaram.

A crítica de Mendes à sociedade norte-americana, ganhou o Oscar, sua forma de mostrar que nos EUA, a aparência é mais importante que o conteúdo, adquiriu substância. Ali, na vizinhança suburbana do filme, o casal mais ajustado, são dois homossexuais.
Estrada para Perdição – 2002

Nenhum de nós irá para o Céu”.

Baseado numa HQ, a história de Estrada para Perdição gira em torno da máfia, a irlandesa, que toma conta de uma cidadezinha de Chicago e a italiana, de Al Capone, que manda na metrópole. Michael Sullivan (Tom Hanks) é o matador profissional perfeito, frio, calculista, honrado, ele sabe que perdeu sua alma há muito tempo, mas tenta manter as últimas dignidades que lhe restam, a sua família. Para isso ele esconde seu modo de vida a todo o custo de seus filhos. Sua relação com seu chefe, John Rooney (Paul Newman) é quase de filho para pai, a maneira que se respeitam e se admiram causa ciúmes no verdadeiro filho, Connor Rooney (Daniel Craig – o novo James Bond), que carrega esse sentimento e frustação. Despertando a curiosidade do filho mais velho, também chamado de Michael (Tyler Hoechlin), ele segue o pai e acaba presenciando um assassinato.

Mais uma vez, Mendes utiliza o mestre da fotografia de películas, Conrad L. Hall, no seu último trabalho cinematográfico. As imagens do cineasta com a fotografia de Hall são o ponto alto do filme, que antes já havia feito Beleza Americana. Para Soldado Anônimo, Mendes escalou Roger Deakins, constante diretor de fotografia dos filmes do Irmãos Coen e o resultado foi dos melhores.
Soldado Anônimo – 2006

Acostumados às criticas sociais de seus primeiros filmes, principalmente Beleza Americana, Soldado Anônimo foi percebido como um filme apolítico, e para alguns um filme pró-Bush, que vem a justificar a nova invasão do Iraque. Cenas que justifiquem as tendências tem aos montes, mas o tom do filme, baseado no livro homônimo, escrito pela personagem principal, Anthony Swofford, é mais pretensioso, ele elabora uma tese sobre a cultura estadunidense, onde a guerra é muito próxima, ou seu pai já foi, ou seu tio, algum parente mais próximo ou distante, o militarismo é um poder forte, respeitado. Daí surge esse patriotismo exacerbado. E Swofford (Jake Gyllenhaal) é a terceira geração da família a seguir essa tradição, alistado nos marines (o exercito) ele recebe treinamento pesado e se torna um atirador de elite.

A rotina de exercícios, treinamentos e nas horas vagas assistir clássicos de guerra, como Apocalipse Now, é interrompida com a invasão das tropas de Sadam Hussein no Kwait. Viajando em aviões comerciais da TWA, os marines desembarcam no deserto a espera de uma guerra que fora resolvida pela tecnologia de mísseis inteligentes.

Mendes retrata a angustia, que se torna monotonia, e depois vira anarquia para soldados, cujo objetivo era tirar a tropa de Sadam do território invadido, treinamento demais para guerra de menos.

A cena onde a tese é comprovada mostra um ex-combatente do Vietnã pegando carona no ônibus que traz os soldados.

Jarhead significa literalmente, cabeça de jarro.

Foi Apenas um Sonho - 2008

‘É preciso ter muita coragem para enxergar o desespero’.

Essa frase, dita por John Givings (Michael Shannon), a personagem mais “louca” do filme, é a essência de Revolutionary Road, uma rua no fim de um condomínio no subúrbio de Connecticut, onde o jovem casal, Frank e April Wheeler (Leonardo DiCaprio e Kate Winslet) vão morar. Adaptado do romance de mesmo nome de Richard Yates, a película retorna ao primeiro trabalho do cineasta Sam Mendes, Beleza Americana (1999), onde as aparências importavam mais que a realidade, por isso a frase acima.

Primeira colaboração de Kate Winslet com o marido Sam Mendes, a atriz mostra que é realmente acima da média entre suas colegas norte-americanas, apesar dela ser inglesa. Kate entrega uma personagem cheia de mistérios e categoricamente inexplicável. E olha que sua performance nem está entre suas melhores. Leonardo DiCaprio mostra que amadureceu, graças as suas parcerias com Martin Scorsese, sua interpretação é elogiosa, contida e cheia de veracidades. É também a segunda reunião do trio DiCaprio, Winslet e Kathy Bates, que interpreta a mãe de John Givings e corretora do casal principal.

Mesmo não sendo um grande filme de Sam Mendes, um gênio por trás das câmeras, que reconhecidamente tem seu lugar aqui na Sala Vip, Revolutionary Road mostra que sua grife é mais característica com personagens complicadas. É incrível sua capacidade de mostrar algo a mais apenas com um close no semblante do ator. A película mostra também uma coincidência ou um fixação do diretor com as ruas, antes fora Road to Perdition, agora Revolutionary.

Michael Shannon ganhou sua indicação ao Oscar por esse filme, realmente é uma interpretação vigorosa, mas é incrível como Hollywood é cheia de hipocrisia, é só pegar qualquer filme de David Lynch, qualquer um, e escolher um ator coadjuvante, que vais ver a mesma interpretação.

O músico Thomas Newman mais uma vez é o responsável pela trilha do filme de Mendes, sua canção, usando as teclas do piano com notas fortes e notas calmas, repete os trabalhos anteriores em parceria com o cineasta inglês, talvez por isso tenha sido tão gostoso ouvi-la. A direção de fotografia, ponto alto dos filmes de Mendes, ficou a cargo do craque Roger Deakins, em sua segunda colaboração com o diretor, depois da morte do mestre Conrad L. Hall.

8 comentários:

Hilton disse...

Sam Mendes é um diretor de primeira linha, parabéns pela escolhe e pelo post.

Anônimo disse...

O filme é pró-Bush !!!!!

novas formas disse...

Soldado Anônimo é o mais inregular dos 3 filmes de Sam Mendes, mesmo assim, vale a pena conferir.

Lindemberg disse...

Conrad Hall foi o cinematografo do belo Butch Cassidy and the Sundance Kid. Vale a pena relembrar

Anônimo disse...

UM DIRETOR A SERVIÇO DO PODER DOS EUA!!!

Anônimo disse...

Sam Mendes é um diretor Excelente!!

Pedro Henrique disse...

Do Sam Mendes eu só conferi Soldado Anônimo e Beleza Americana. Gostei de Soldado Anônimo e adorei Beleza Americana. Não sabia que Mendes "nasceu" de Spielberg.

Abraço!

Museu do Cinema disse...

Pois é Pedro, o Spielberg viu uma peça de teatro dirigida por ele, e escalou-o para Beleza Americana.