06 novembro 2019

O Poderoso Chefão


The Godfather – Francis Ford Coppola – 1972

No fundo preto, após os acordes de um trompete da inesquecível melodia, vem a frase lapidar na história do cinema: “Eu acredito na América. América fez minha fortuna”. Ainda sem revelar o rosto de Bonasera (Salvatore Corsitto), um sujeito sem convicções e que sempre buscou distância dos problemas da vida, mesmo que isso afetasse sua vida social. A câmera de Coppola ouve sua queixa pacientemente, se distanciando aos poucos, ele procura por justiça pra sua filha espancada, o governo não lhe deu e ele não tem coragem de fazer. Sua última esperança é justamente o homem a quem ele fugiu a vida inteira. O homem que a câmera revela aos poucos, de costas, pelo lado, para depois cortar pro seu rosto em 1° plano. Don Vito Corleone (Marlon Brando), um homem de fala mansa, gestos lentos, longas pausas, e que acaricia um gato no seu colo com a naturalidade de uma criança. Apesar disso, Bonasera ali que parece o infantil. É ele quem beija a mão do Don deixando claro que o poder é algo abstrato. No fim, o Don, ainda segura a lapela de seu smoking e cheira candidamente a rosa vermelha enquanto manda seu Consigliere e filho adotivo, Tom Hagen (Robert Duvall), passar esse serviço ao Caporegime Clemenza (Richard Castellano).

"Eu vou fazer uma proposta que ele não poderá recusar".

A trama se desenvolve após uma reunião da famiglia Corleone com Sollozzo (o saudoso e ótimo Al Lettieri), um mafioso ligado aos Tattaglia, que deseja o envolvimento dos Corleones em seus negócios de narcóticos, por causa do poder e conexões politicas de Don Corleone. A negativa do velho Don é educado, mas seu filho mais velho, e provável sucessor, Sonny Corleone (James Caan), acaba mostrando que é contra o não envolvimento da família com drogas. É a faísca que Sollozzo precisava para convencer seus superiores a tirar Vito da jogada e tratar de negócios com Sonny.

"Deixe a arma, pegue o canoli".

Porém, a tentativa de assassinato não sai como planejado e o Don sobrevive. Isso acaba trazendo para o mundo da máfia o até então avesso aos negócios da família, Michael Corleone (Al Pacino), um militar que se mostra frio e calculista surpreendendo todo mundo, dos 5 filhos de Vito, o mais velho e abobado Fredo (John Cazale), o impulsivo Sonny, o adotivo Tom Hagen, Michael e Connie (Talia Shire), ele era o mais protegido da família.

"Um homem que não se dedica a família, jamais será um homem de verdade".

O Poderoso Chefão é uma obra-prima clássica, será comentado, revisto e adorado daqui há 100 anos. É também um estudo sobre essa organização tão comentada quanto temida, que nasceu no Velho Mundo e encontrou na terra da liberdade um local ideal para prosperar. A direção de Francis Ford Coppola se não é perfeita, beira ela. A forma como desenvolve a trama, baseada no livro do genial Mario Puzo, com sutileza e violência é dinga de aplausos. A influência dos grandes nomes do cinema italiano é evidente em cada cena, e a trilha assinada por Nino Rota só vem carimbar isso. É também genial. Pra completar a fotografia de Gordon Willis, um escuro que brilha, e tons que ajudam a desenhar o ritmo da história. Juntar todos esses gênios: Coppola, Puzo, Rota e Willis só poderia resultar nessa odisseia em forma de ópera que encanta a todos que o assistem.

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