12 junho 2019

Aqui em Casa Tudo Bem


A Casa Tutti Bene - Gabriele Muccino - 2018

Filmes sobre encontros e reencontros num só ambiente já virou quase um gênero dentro do cinema. Desde o maravilhoso O Reencontro (1983) ao mais recente Sete Dias sem Fim (2014), aos clássicos Clube dos Cinco (1985) e Flores de Aço (1989), e ainda passando pelo nacional e repleto de clichês, Entre Nós (2013).

O atrativo de Aqui em Casa Tudo Bem é a cultura italiana, se os filme acima citados tratam da cultura norte-americana, com exceção do brasileiro, o filme de Muccino amplia todos os conflitos a enésima potencia com a tradicional reverberação italiana.

A película é sobre o aniversário de casamento de 50 anos de Alba (Stefania Sandrelli), e Pietro (Ivano Marescotti), numa ilha em Nápoles onde residem numa maravilhosa casa. Juntando filhos, netos, parentes e amigos, a festa ocorre como planejado, mas no fim do dia, devido a uma tempestade, o catamarã que trouxe os convidados não pode voltar a cidade. Arrumando alguns na casa, e outros em pequenas pousadas, a festa acaba se prolongando mais que o necessário.

Gabriele Muccino possui uma carreira bastante singular. O cineasta italiano fez sucesso com O Último Beijo (2001) e logo depois veio À Procura da Felicidade (2006), um estrondoso êxito mundial, mas ai a parceria com o astro Will Smith trouxe Sete Vidas (2008) que não repetiu a glória do filme anterior. Aqui em Casa Tudo Bem marca o retorno do diretor as suas raízes italianas.

30 maio 2019

Rocco e seus Irmãos

Rocco i Sui Fratelli - Luchino Visconti - 1960

"Rocco é a cultura italiana. É um dos mais suntuosos filmes em preto e branco que já vi. As imagens, fotografadas pelo grande Giuseppe Rotunno, são peroladas, elegantes e brilhantes. Está na lista dos 39 filmes para ver antes de morrer". Palavras do Mestre Martin Scorsese na época da restauração da película, através da sua The Film Foundation.

A história dos irmãos que saem da pequena cidade de Lucania, para a metrópole Milão, atrás do primogênito que acabara de ficar noivo, é o ponto inicial da saga dos Parondi. A viúva Rosaria (Katina Paxinou) e seus filhos, Vincenzo (Spyros Fokas), Simone (Renato Salvatori), Rocco (Alain Delon), Ciro (Max Cartier) e Luca (Rocco Vidolazzi).

Luchino Visconti consegue criar uma obra clássica, mas sem ficar datada, mesmo quase 60 anos após sua estreia. A qualidade da história, a suntuosidade da fotografia, como já disse Scorsese, e o talento do elenco fazem desse filme impecável. Porém são os enquadramentos do cineasta, e as locações, em especial a mais famosa, no terraço da Catedral de Milão (Duomo di Milano), que tornam Rocco e seus Irmãos um ícone do cinema italiano.

Escrito por 7 roteiristas, inclusive o próprio Visconti, inspirado na novela de Giovanni Testori, Il Ponte Della Ghisolfa, a película se aproxima de uma ópera, contando com várias personagens que dividem o protagonismo, e uma sequência que deságua numa tragédia. É pontuada pela belíssima trilha sonora do gênio Nino Rota que inspirou Francis Ford Coppola a convida-lo para criar a inesquecível música de O Poderoso Chefão (1972).

13 maio 2019

Cinema Italiano


O Cinema Italiano é Divino, ele busca, como diz a célebre frase de Fellini, ser sagrado em todos os frames. Seja na estátua pendurada no céu em A Doce Vida (1960), seja na freira santa de A Grande Beleza (2013).

O Cinema Italiano é o preferido do Museu do Cinema. Do clássico Roma: Cidade Aberta (1945) de Roberto Rossellini, ao maravilhoso A Grande Beleza de Paolo Sorrentino. Passando por (1963), de Fellini, e A Aventura (1960) de Antonioni. Nomes consagrados do cinema mundial como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Brian De Palma e Quentin Tarantino (todos eles descendentes de italianos), foram fortemente influenciados por esse cinema como ficará claro no vídeo.

É claro que muito da cultura do país é levado às telas. E talvez seja isso que sublima o cinema italiano, mas você colocar na terra, na mesma geração, Michelangelo Antonioni e Federico Fellini, sombreados por um polêmico, mas talentoso Pier Paolo Pasolini, não ficará esquecido. Se Antonioni celebrava a perfeição das imagens, Fellini construía cenas mágicas através de seus sonhos.

08 maio 2019

Happy End

Happy End -  Michael Haneke - 2017

Na câmera de segurança de uma obra, vemos uma encosta cair. É o gatilho para o inicio da reunião da família Laurent, donos da empresa que tocava a construção.

O patriarca Georges Laurent (Jean-Louis Trintignant) é um octogenário que não tem mais pretensões na vida, e pensa diariamente em suicídio.

Anne (Isabelle Huppert) é a filha mais velha, e CEO da empresa. Pierre (Franz Rogowski) é seu filho, era o responsável pela obra que teve o acidente, sofre com problemas de alcoolismo.

Thomas Laurent (Mathieu Kassovitz) é o outro filho. Não liga muito para a empresa, mas está de volta porque seu casamento acabou, e ainda vive atormentado pela filha pré-adolescente Ève (Fantine Harduin), que precisa cuidar, mas não tem a menor ideia de como faz isso.

Criado o núcleo central do filme, Michael Haneke começa a elaborar seu jogo que envolve psicanálise,  relações familiares, e redes sociais.

O ator Jean-Louis Trintignant volta a trabalhar com o cineasta austríaco, alias, ele só trabalha agora, já que tá aposentado, com o diretor. É também a 4ª colaboração de Huppert e Haneke.

17 abril 2019

A Mula


The Mule - Clint Eastwood - 2018 (Cinemas)

Em pouco mais de 5 minutos, o cineasta Clint Eastwood apresenta Earl Stone (o próprio Clint), um horticultor dedicado, mas que negligência a própria família e não percebe a importante mudança no mercado de flores - a internet. 12 anos depois, falido e sem parentes, tudo que lhe resta é a neta, que ainda acredita nele.

O filme é baseado na história verídica de Leo Sharp, um veterano da II Guerra que se tornou, aos 80 anos, o mais velho, e produtiva "mula" (o atravessador da droga), para o tráfico nas fronteiras norte-americanas. Um artigo escrito no jornal The New York Times por Sam Dolnick serviu de base pro sensacional roteiro de Nick Schenk, que já tinha trabalhado com o diretor em Gran Torino (2008).

Aos 88 anos, Clint Eastwood nos presenteia com sua capacidade de contar uma história com seu conservadorismo característico. Bradley Cooper, que interpreta um policial, parece querer ser seu pupilo, a afinidade entre os dois explode na tela.

15 fevereiro 2019

Psicopatas do Cinema

Segundo o dicionário, psicopata é um indivíduo clinicamente perverso, que tem distúrbios mentais graves. Uma pessoa que sofre de uma condição que afeta a sua forma de interação social, muitas vezes se comportando de forma irregular e anti-social. A 7ª arte ajudou a explorar esse universo de várias maneiras, desenhando personalidades díspares, mas semelhantes em seu objetivo.

Dr. Hannibal Lecter, de Anthony Hopkins em O Silêncio dos Inocentes (1991), é o que tem mais aprofundamento psicológico, também pelo fato, dele próprio, ser um Psiquiatra. Ao contrário dos outros, é uma pessoa que tem relações sociais, até se afeiçoando, como foi com Clarice. Criado por Thomas Harris em 1981.

Anton Chigurh, de Javier Bardem em Onde os Fracos Não tem Vez (2007), possuía um senso egoísta. Se era para realizar determinada missão, não importava o que iria passar, mesmo que se prejudicasse, iria cumpri-la. Falta de humor e uma moeda completavam suas características, criada pelo escritor Cormac McCarthy.

Coringa, de Heath Ledger em Batman: Cavaleiro das Trevas (2008), traz pro mundo real a psicopatia de uma personagem dos quadrinhos. Com humor negro e uma dose de sarcasmo revelou-se o maior vilão enfrentado pelo Homem Morcego.

John Doe, de Kevin Spacey em Seven: Os Sete Crimes Capitais (1995), outro inteligente, devorador de livros e que planeja sua atividade psicopata com maestria. Frio e calculista.

Patrick Bateman, de Christian Bale em Psicopata Americano (2000), é rico, materialista, investidor financeiro de Wall Street, vida social agitada, e um ensandecido psicopata. Criado por Bret Easton Ellis.

Jack Torrence, de Jack Nicholson em O Iluminado (1980), um escritor com bloqueio criativo, que passa a perseguir a esposa e o filho dentro de um hotel abandonado no meio da neve. Criado por Stephen King, um Mestre nessa área.


Billy The Kid, de Sam Rockwell em A Espera de um Milagre (1999), também originário da cabeça de Stephen King, Billy é um psicopata que flerta com o humor e a inconsequência.


Norman Bates, de Anthony Perkins em Psicose (1960), traz as características e o diagnostico em si. Criado com a mãe, desenvolve o Transtorno Dissociativo de Identidade. Criado por Robert Bloch.


Mickey e Mallory Knox, de Woody Harrelson e Juliette Lewis em Assassinos por Natureza (1994), são os psicopatas da TV, gostam da carnificina, mas deixam sempre um sobrevivente para contar a história. Criado por Quentin Tarantino quando ainda trabalhava como atendente numa locadora de vídeos.

21 janeiro 2019

Green Book - O Guia


Green Book - Peter Farrelly - 2018 (Cinemas)

Numa suntuosa mansão norte-americana, a alta sociedade local prepara um jantar e uma apresentação magnífica para o "virtuoso", como eles o apresentam, Dr. Don Shirley (Mahershala Ali). No intervalo da performance, conversando com o anfitrião, o músico pergunta onde é o banheiro, o dono da mansão então aponta para um pequeno cubículo de madeira instalado na área externa da casa. O virtuoso - e agora paciente e educado, volta ao seu hotel para usar um banheiro, e retorna a mansão para terminar o espetáculo.

Além de "virtuoso", o negro Donald Walbridge Shirley aprendeu a tocar piano aos 2 anos, e tinha doutorado em música, psicologia e Artes Litúrgicas, de onde vinha o Doutor Shirley.

Já o leão de chácara, o italiano Tony Lip (Viggo Mortensen) é daqueles caras fanfarrões. Talvez tenha o ginásio completo, mas sabe se virar como ninguém nas ruas.

A improvável amizade entre o culto e fino e o proceloso e bruto acaba rendendo várias situações engraçadas, e uma história belíssima e dignificante de dois seres humanos que apesar dos preconceitos que tinham se respeitavam.

E essa simbiose entre drama e comédia só pode ser creditada a Peter Farrelly, o inesperado (olha o preconceito) diretor de comédias do tipo Quem Vai Ficar com Mary (1998) e Debi & Lóide (1994), é o grande responsável por Green Book ser um filmão.

O titulo original é uma referência a The Negro Travelers Green Book, publicação que guiava os viajantes negros norte-americanos por hotéis, paradas de estradas e restaurantes que iriam servi-lhes durante a viagem de carro.

O verdadeiro Tony Lip é mais famoso pelo seu papel como Carmine Lupertazzi em Família Soprano (1999) e algumas pontas em filmes de Martin Scorsese.

Durante a viagem, Tony, um comilão frenético, compra o famoso balde de frango frito do Kentucky, mas, para seu espanto, Doc Shirley diz que nunca comeu, Tony não acredita, afinal, diz ele, o frango frito é do "seu povo". Doc Shirley, fica injuriado pelo comentário, mas Tony completa: "espere um pouco, se você dissesse que todos os carcamanos comem pizza, espaguete e almôndegas eu não vou me insultar". O músico acaba experimentando, mas reclama da falta de talheres.

08 janeiro 2019

Melhores de 2018

Em 2018, a política tomou conta do cinema. Nos EUA, apesar de Trump ter avançado na economia, e na geração de emprego, Hollywood continua culpando o Presidente de todos os males da humanidade. No Brasil não foi muito diferente, a eleição presidencial foi mais importante que a copa do mundo (e isso é bom). Bolsonaro carrega agora em suas costas a responsabilidade de salvar um país que caiu do precipício, apesar dos atores globais achar o contrário.

Na Hungria, a política também trava batalhas contra o socialismo, mas Corpo e Alma explora os aspectos de uma paixão pouco provável entre uma inspetora tímida demais e um diretor mais maduro.

Na Republica Tcheca, o cineasta David Mrnka resolve trazer a luz a vida de Milada Horáková, uma politica e ativista social que conseguiu vencer o nazismo, mas não ultrapassou o comunismo. Em Milada, a vida dessa guerreira de importância mundial, fica registrada o passado tão autoritário de quem não aceita a liberdade de pensamento.

Na Inglaterra, o político mais amado da direita conservadora, Winston Churchill (a primeira entrevista do presidente eleito Bolsonaro foi numa mesa onde uma biografia dele estava a mostra), finalmente ganhou um filme a altura de sua pessoa. O Destino de uma Nação é uma obra-prima política que retrata os dias em que o mundo quase perdeu a eterna guerra entre socialismo e democracia.

Na Polônia, a política serve de pano de fundo, e principal antagonista, ao romance do músico com sua musa e cantora em Guerra Fria. O socialismo separou, por diversas vezes, esse romance baseado na vida de parentes do cineasta e roteirista, quando a Polônia vivia dividida entre o socialismo nazista e o socialismo comunista da Alemanha e Rússia por um pacto perverso chamado Molotov-Ribbentrop.

Nos Eua, eu dou um tempo na política para reverenciar um ídolo em seu esplendor. Paul Thomas Anderson, também a personalidade do ano no cinema, conseguiu, no seu oitavo filme longa-metragem, atingir o ápice dos grandes nomes da história da sétima arte. Trama Fantasma é uma junção excepcional de condução cinematográfica com direção de atores e roteiro perfeito.

29 dezembro 2018

Guerra Fria

Zimna Wojna - Pawel Pawlikowski - 2018

Num enorme salão, uma festa ocorre animada, um casal conversa num canto, encostados num grande espelho que reflete toda a festa num ângulo inusitado. Ela parece entediada, ele um pouco mais entusiasmado. Dividem um cigarro e uma conversa íntima até que se aproxima um homem, pelas costas, porque estamos de frente a um espelho. Seu diálogo é direto ao casal, ele está maravilhado com o espetáculo que acabara de assistir.

O cineasta polonês Pawel Pawlikowski parece ter atingido a maturidade cinematográfica. Seu filme anterior, Ida (2013), já trazia essa fotografia preta e branca e uma energia para os enquadramentos ousados. Cold War - Guerra Fria além desse vértice, é sublime na história de amor de uma cantora, Zula (Joanna Kulig) e um músico, Wiktor (Tomasz Kot), durante a ocupação comunista/nazista da Polônia, no chamado Pacto Molotov-Ribbentrop (quase sempre ignorado por "historiadores").

Voltando ao 1° parágrafo, o homem maravilhado se trata de Kaczmarek (Borys Szyc),o gerente administrativo do conservatório de música, dança e artes. A arte folclórica polonesa ganhou a atenção dos comunistas/nazistas que agora pretendem adicionar elementos como reforma agrária, paz global e o líder Stalin nas interpretações. É chocante ver uma apresentação do grupo enquanto um cartaz do ditador, e maior genocida da humanidade, Stalin, sobe por trás deles, e ainda obrigados a cantarem música em seu louvor.

O talento de Wiktor, também descobridor do talento de sua musa, Zula, acaba servindo de propaganda do socialismo, para sua tristeza e amargura. A interpretação do ator polonês é um dos maiores trunfos de Pawel. Impossibilitado de dizer não (quem combate o comunismo geralmente paga com sua vida), sua performance começa a ser contida, cabisbaixa, envergonhada.

O filme é baseado nas lembranças do diretor de seus parentes que passearam o mundo para reencontrar o amor, Tadeusz Sygietynski e Mira Ziminska, fundadores do grupo folclórico Mazowske.

26 novembro 2018

Antes do Anoitecer


Before Night Falls - Julian Schnabel - 2000

"Eu lhes pergunto, pode uma Nação que tantos heróis sacrificou, na procura pela liberdade, uma Nação que cedeu as vidas de tantos jovens valorosos, tolerar tal irreverência? Comportamentos como esses (homossexualismo) são, obviamente, inspirados pelo capitalismo, perpetrado por um pequeno grupo cuja única intenção é de contagiar aos outros. Mas não permitiremos que divulguem suas viciosas mentiras e propaguem certas modas. E é da responsabilidade de todo cubano desmascarar todos os elementos anti-sociais que ameaçam nossa liberdade e conduzem suas vidas de maneira a corromper nossa juventude".

A vida real do mais famoso poeta cubano Reinaldo Arenas, foi o primeiro filme de Javier Bardem falando inglês, ator famoso e reconhecido pela versatilidade e talento. Arenas (Bardem, impecável) narra sua vida desde o nascimento, passando por sua participação, e apoio, a revolução de Fidel Castro e Che Guevara, seu posterior sucesso com seus livros e prêmios, sua perseguição pela ditadura cubana por sua opção sexual, suas prisões e torturas, até seu pedido de exílio, na verdade uma deportação dos homossexuais, junto com ladrões, e opositores ao regime socialista/progressista.

O filme do norte-americano Julian Schnabel é adaptado da obra homônima de Reinaldo Arenas, escrita como epílogo da sua vida já morando nos EUA. Recheado de participações especiais, e bastante intrigantes, como de Sean Penn, amigo de Chavéz, e Johnny Depp, que recentemente propôs matar o presidente de seus país. O que nos leva a crer que atores são para serem levados a sério mesmo só atuando.

07 novembro 2018

Bohemian Rhapsody


Bohemian Rhapsody - Bryan Singer - 2018 (Cinemas)

Numa entrevista que ficou famosa de Freddie Mercury, a global Gloria Maria lhe pergunta se a música I Want to Break Free é uma homenagem a comunidade gay, Freddie lhe responde que não, que essa música nem foi ele quem escreveu, é de John Deacon, casado e com 4 filhos. A repórter ainda insiste na pergunta e o astro responde novamente lhe provocando.

Numa das cenas do filme, os 4 Queens dão uma entrevista coletiva para o lançamento do novo álbum da banda. Os jornalistas sequer sabem disso. As perguntas giram em torno dos dentes de Freddie Mercury, seu envolvimento com drogas e álcool, e,claro, sua sexualidade.

Mercury nunca levantou bandeiras, aliás, levantou, a bandeira da música, essa coisa maravilhosa que é capaz de nos fazer eternizar seu nome e sua vida. É frustrante ver um crítico de cinema veterano, Marco Petrucelli, dizendo que o filme é mequetrefe por não explorar a homossexualidade do cantor da banda. O filme tem cerca de 2 horas e 10  minutos, e é uma condensação da vida e das músicas de Freddie, tanto que muitas delas nem uma nota sequer tem. Gostaria de saber o quanto da sexualidade de uma pessoa importa durante sua vida toda. Nem as pessoas que vivem do sexo teria tanta fixação.

Bohemian Rhapsody é, mais que uma homenagem a um artista completo, é um tributo a um cara que morreu jovem demais e que teria uma vida ainda mais produtiva nas novidades musicais. E o título já evidencia isso, escolher uma música do Queen é como preferência entre pai e mãe, mas os produtores do filme, os remanescentes da banda, mostram que Bohemian traz algo mais, essa veia criativa de Mercury de ir além das possibilidades, essência do Queen.

Apesar de caricatural nas cenas fora do palco, Rami Malek não compromete. A maquiagem e o corpo colaboram na personificação da personagem, talvez o Sacha Baron - que abandonou as filmagens por não concordar com o roteiro - de 1,91m ficaria estranho na pele de uma pessoa que tinha 1,77m.

O filme toma algumas liberdades no roteiro, ele traça a vida do músico com tudo que já é bastante conhecido do público: seu temperamento forte, e as vezes egocêntrico, seu amor por Mary Austin (love of my life), seu show no rock in rio aqui no Brasil, suas brigas e atrasos na banda derivado de seu envolvimento com drogas e álcool, sua família, a traição de seu empresário, amigo e amante, o show do Live Aid, considerado o melhor da banda, e, para desespero do estandarte Petrucelli, o filme só reserva alguns minutos sobre sua homossexualidade e seu relacionamento mais sério com Jim Hutton, mas Bohemian Rhapsody é feito para você que já chorou e se emocionou ao ouvir as batidas do Roger Taylor, os graves de John Deacon, os agudos de Brian May, e tudo isso junto na voz desse gênio chamado Farrokh Bulsara.

14 agosto 2018

Amistad


Amistad - Steven Spielberg - 1997

Nos deixem livres! Grita Cinque - ao som da soberba melodia principal de John Williams - se levantando com dificuldade, cheio de correntes, dos bancos dos réus onde se encontra amarrado a mais 41 conterrâneos depois de uma rebelião no barco La Amistad onde se encontravam amarrados nos porões. As pessoas que lotam o fórum ficam estupefatos. A liberdade que Cinque implora vai muito além daquelas algemas em seus pulsos e tornozelos. O seu grito ainda ecoa no século 21, quase 200 anos depois. A verdadeira liberdade se estende a verdade sufocada, ao livre pensamento, as amarras ideológicas, ela ultrapassa a barreira do corpo.

A história da humanidade, tão escrita e reescrita de acordo com a ideologia do autor, é rica em detalhes. Esse quebra-cabeças em busca da verdade deve passar pelos detalhes, o usurpador não se preocupa com eles. A escravidão é uma delas, todas as nações passaram ou ainda passam por isso. Nativos escraviza refugiados em troca de emprego, reis escravizaram súditos no Egito, religiões violentas fizeram escravos nas pacificas, e tribos inimigas escravizavam uns aos outros em troca de armas como desenha Steven Spielberg aos inúmeros jornalistas brasileiros que escravizam as mentes de seus leitores diariamente.

Colorir essa história apenas com uma cor é apagar informações essenciais para o crescimento do indivíduo. Cinque era tão forte, talvez o mais forte de sua tribo, que matou um leão que o atacou. Mesmo assim se tornou escravo, porque o poder e não outros elementos subentendidos é o responsável pela escravidão. A quem interessa não querer divulgar essa verdade? Como diria o filósofo Edmund Burke: "é um erro popular muito comum acreditar que aqueles que fazem mais barulho a lamentar-se a favor do público, sejam os mais preocupados com o seu bem-estar".

Essa história verídica, como diz a certa altura o ex-Presidente norte-americano, o republicano e abolicionista John Quincy Adams (Anthony Hopkins) nos mostra a importância das tradições, de ouvirmos nossos antepassados, e ter a compreensão de que quem somos é o que nós fomos.

10 julho 2018

Milada

Milada - David Mrnka - 2017 (Netflix)

O comunismo matou mais de 120 milhões de pessoas no mundo, para se ter uma ideia o nazismo matou cerca de 6 milhões de judeus. E isso em contas posteriores porque é muito difícil obter dados desses regimes, mas hoje, em pleno século 21, convivemos perfeitamente bem com ele, são partidos políticos, um deles inclusive usa o nome, ideologias que seguem o pensamento do doutrinador-fundador Karl Marx, e ícones gráficos como o famoso foice e martelo (imagina ver a suástica - símbolo nazista - nas ruas em camisetas).

Uma das explicações para essa aberração acontecer aqui no Brasil é a ignorância, não temos um Steven Spielberg com A Lista de Schindler (1993) mostrando os campos de concentração e trabalho forçado soviéticos como Kolimá e as gulags. Outra justificativa, e essa mais grave, foi o negacionismo do holodomor (holocausto ucraniano) promovido pelo governo soviético entre os grandes nomes do jornalismo mundial como Walter Duranty (Prêmio Pulitzer/New York Times) e George Bernard Shaw (Prêmio Nobel de Literatura).

Milada vem jogar luz nessa escuridão perigosa que nos encontramos. A escuridão da intolerância, das divergências políticas transformadas em guerra contra um nome fora desse mainstream, dos pensamentos igualitários e totalitários que excluem e difamam quem ousa ir contra.

Até os nazistas permitiam visitas.

A vida de Milada Horáková é um documento político importante para qualquer país que invista na democracia. Começa com a defesa dela pela igualdade entre homens e mulheres, passa então a lutar contra o nazismo que a Tchecoslováquia, sua pátria, abraça, e ela e seu marido são presos. Após a importantíssima vitória dos aliados, se transforma numa influente política defendendo as liberdades e os direitos individuais, é quando o país começa a flertar com o comunismo soviético. Os grandes lideres queriam Milada entre eles, mas logo ela percebeu que suas ideias não eram compatíveis com essa ideologia sanguinária,  ditatorial e absolutista.

Ayelet Zurer, soberba no papel titulo, nos dá a alma de Milada, sua resignação, sua firmeza, seus gestos nos trazem quase um documentário sobre esse período que muitos querem esconder debaixo do tapete.

18 maio 2018

15h17 para Paris

15:17 To Paris - Clint Eastwood - 2018 (Cinemas)

"Senhor, fazei de mim um instrumento da vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde há ofensa, que eu leve o perdão. Onde há discórdia, que eu leve a união. Onde há dúvida, que eu leve a fé. Onde há erro, que eu leve a verdade. Onde há desespero, que eu leve a esperança. Onde há tristeza, que eu leve a alegria. Onde há trevas, que eu leve a luz. Ó Mestre, Fazei que eu procure mais consolar que ser consolado; compreender que ser compreendido; amar que ser amado. Pois é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado, e é morrendo que se vive para a vida eterna."

Na oração da paz de São Francisco de Assis ele pede a Deus que o transforme num objeto de sua paz. Essa era a oração que Spencer Stone rezava quando criança, era nela que ele buscava a tranquilidade quando as coisas saiam errado na sua vida.

É baseada neste oração que o cineasta e lenda viva do cinema, Clint Eastwood, dita o ritmo de seu filme sobre os 3 heróis norte-americanos do Trem de Bruxelas para Paris. Clint, aos 87 anos, parece procurar anônimos capazes de atos de heroísmo. Já houveram SniperAmericano (2014) e Sully (2016). Logo ele que muitas vezes foi chamado de anti-herói pela mídia, e que até em sua vida pessoal foi capaz de atos de bravura quando salvou um sujeito que morria engasgado com queijo. O fato é que se tem algum diretor que entende de heroísmo e sempre esteve do lado correto da história, essa pessoa chama-se Clinton Eastwood Jr.

Na pré-produção do filme, o cineasta testou vários atores para interpretar os "meninos", até que, numa das melhores ideias de sua carreira - e olha que foram muitas em quase 40 películas - Eastwood decidiu transformar os heróis em atores. E eles parecem prontos para a coisa (dedo do diretor?). O roteiro foi baseado no livro que eles escreveram.

Mas 15h17 para Paris é muito mais que um filme de super-heróis, ta na moda né, ele se debruça também sobre educação, sobre sentimentalismos, sobre como educamos nossas crianças atualmente. A história se volta à infância dos 3 garotos e vai descrevendo como suas índoles foram formadas. Família presente, educação religiosa, respeito, amizade, disciplina e patriotismo. O que funcionava em 1930, parece, num estalar de algum dedo, não funcionar mais nos dias atuais.

Não temos como não fazer um paralelo com o caso da mãe policial que matou o bandido no dia das mães da escola. A PM Kátia Sastre, é digna de ser comparada a esses rapazes norte-americanos, digna de receber as maiores honrarias que esse país tenha e digna de ser reverenciada como heroína. Pode acreditar que a grande maioria da sociedade pensa assim, mas a voz de alguns poucos imbecis ganharem microfone só mostra o quanto a nossa sociedade está doente e matando seus filhos diariamente.

Pare de ler aqui se ainda não viu o filme e pretende fazê-lo.

Para terminar, não costumo me alongar muito, queria voltar a uma cena do filme que talvez passe despercebida. É quando os 3, Spencer Stone, Alek Skarlatos e Anthony Sadler esperam o trem chegar, e, ao se encaminharem para entrar, uma francesa pede ajuda dos rapazes para levar seu pai para dentro. Solícitos e preocupados, eles levam o senhor com tranquilidade para seu assento. Quando a confusão estoura, Alek, armado da arma do bandido e ensanguentado volta até o vagão onde ajudou os franceses pedindo que não saiam dali, as pessoas se assustam achando que ele é o terrorista, mas a filha do senhor logo fala: - Não, está tudo bem, ele é um bom homem.

20 março 2018

A Força do Destino

An Officer and a Gentleman - Taylor Hackford - 1982 (DVD)

Somente duas coisas vem de Oklahoma corno e viado. Qual dos dois é você? Não tô vendo chifre então deve ser viado.

Na década de 80 os jovens se comportavam com as regras que as mídias espalhavam. Era o auge do rock, das drogas e do hippie, e claro do sexo livre. Impor limites de direitos, colocar disciplina, ditar rotina e uma linha de conduta baseada na ética, na competitividade, na meritocracia e no estudo parecia coisa da era medieval.

Sargento Emil Foley (Louis Gossett Jr.) é o Officer do título, mas também pode ser o Gentleman, é o responsável em treinar os novos pilotos da aeronáutica. Zack Mayo (Richard Gere) é um jovem abandonado pelo pai e orfão de mãe que enxerga no exército sua única chance de ser alguém na vida. Ele é o Gentleman, mas também poderá ser o Officer.

O titulo original traz essa ambiguidade que foi ignorada por nossos tradutores. Enxergar em ambas personagens o oficial, e o cavalheiro é o que Taylor Hackford faz em toda a película.

Louis Gossett Jr. é uma força incontrolável em cena. Um dos grandes momentos da história do cinema é a sua cena final. Richard Gere também tem atuação marcante, mas suas brigas no set com Debra Winger, uma grande atriz de hollywood relegada ao segundo escalão, acabaram ganhando mais atenção que suas cenas. Ainda tem a belíssima canção Up Where We Belong personificada na voz inesquecível do grande Joe Cocker (uma das cinco melhores trilhas em qualquer lista).

A Força do Destino é uma relíquia. Uma fotografia de um momento marcante da humanidade. É também um filme conservador que nos prova que determinadas características necessitam serem preservadas, passadas e perpetuadas por todas as gerações.