07 novembro 2018

Bohemian Rhapsody


Bohemian Rhapsody - Bryan Singer - 2018 (Cinemas)

Numa entrevista que ficou famosa de Freddie Mercury, a global Gloria Maria lhe pergunta se a música I Want to Break Free é uma homenagem a comunidade gay, Freddie lhe responde que não, que essa música nem foi ele quem escreveu, é de John Deacon, casado e com 4 filhos. A repórter ainda insiste na pergunta e o astro responde novamente lhe provocando.

Numa das cenas do filme, os 4 Queens dão uma entrevista coletiva para o lançamento do novo álbum da banda. Os jornalistas sequer sabem disso. As perguntas giram em torno dos dentes de Freddie Mercury, seu envolvimento com drogas e álcool, e,claro, sua sexualidade.

Mercury nunca levantou bandeiras, aliás, levantou, a bandeira da música, essa coisa maravilhosa que é capaz de nos fazer eternizar seu nome e sua vida. É frustrante ver um crítico de cinema veterano, Marco Petrucelli, dizendo que o filme é mequetrefe por não explorar a homossexualidade do cantor da banda. O filme tem cerca de 2 horas e 10  minutos, e é uma condensação da vida e das músicas de Freddie, tanto que muitas delas nem uma nota sequer tem. Gostaria de saber o quanto da sexualidade de uma pessoa importa durante sua vida toda. Nem as pessoas que vivem do sexo teria tanta fixação.

Bohemian Rhapsody é, mais que uma homenagem a um artista completo, é um tributo a um cara que morreu jovem demais e que teria uma vida ainda mais produtiva nas novidades musicais. E o título já evidencia isso, escolher uma música do Queen é como preferência entre pai e mãe, mas os produtores do filme, os remanescentes da banda, mostram que Bohemian traz algo mais, essa veia criativa de Mercury de ir além das possibilidades, essência do Queen.

Apesar de caricatural nas cenas fora do palco, Rami Malek não compromete. A maquiagem e o corpo colaboram na personificação da personagem, talvez o Sacha Baron - que abandonou as filmagens por não concordar com o roteiro - de 1,91m ficaria estranho na pele de uma pessoa que tinha 1,77m.

O filme toma algumas liberdades no roteiro, ele traça a vida do músico com tudo que já é bastante conhecido do público: seu temperamento forte, e as vezes egocêntrico, seu amor por Mary Austin (love of my life), seu show no rock in rio aqui no Brasil, suas brigas e atrasos na banda derivado de seu envolvimento com drogas e álcool, sua família, a traição de seu empresário, amigo e amante, o show do Live Aid, considerado o melhor da banda, e, para desespero do estandarte Petrucelli, o filme só reserva alguns minutos sobre sua homossexualidade e seu relacionamento mais sério com Jim Hutton, mas Bohemian Rhapsody é feito para você que já chorou e se emocionou ao ouvir as batidas do Roger Taylor, os graves de John Deacon, os agudos de Brian May, e tudo isso junto na voz desse gênio chamado Farrokh Bulsara.

14 agosto 2018

Amistad


Amistad - Steven Spielberg - 1997

Nos deixem livres! Grita Cinque - ao som da soberba melodia principal de John Williams - se levantando com dificuldade, cheio de correntes, dos bancos dos réus onde se encontra amarrado a mais 41 conterrâneos depois de uma rebelião no barco La Amistad onde se encontravam amarrados nos porões. As pessoas que lotam o fórum ficam estupefatos. A liberdade que Cinque implora vai muito além daquelas algemas em seus pulsos e tornozelos. O seu grito ainda ecoa no século 21, quase 200 anos depois. A verdadeira liberdade se estende a verdade sufocada, ao livre pensamento, as amarras ideológicas, ela ultrapassa a barreira do corpo.

A história da humanidade, tão escrita e reescrita de acordo com a ideologia do autor, é rica em detalhes. Esse quebra-cabeças em busca da verdade deve passar pelos detalhes, o usurpador não se preocupa com eles. A escravidão é uma delas, todas as nações passaram ou ainda passam por isso. Nativos escraviza refugiados em troca de emprego, reis escravizaram súditos no Egito, religiões violentas fizeram escravos nas pacificas, e tribos inimigas escravizavam uns aos outros em troca de armas como desenha Steven Spielberg aos inúmeros jornalistas brasileiros que escravizam as mentes de seus leitores diariamente.

Colorir essa história apenas com uma cor é apagar informações essenciais para o crescimento do indivíduo. Cinque era tão forte, talvez o mais forte de sua tribo, que matou um leão que o atacou. Mesmo assim se tornou escravo, porque o poder e não outros elementos subentendidos é o responsável pela escravidão. A quem interessa não querer divulgar essa verdade? Como diria o filósofo Edmund Burke: "é um erro popular muito comum acreditar que aqueles que fazem mais barulho a lamentar-se a favor do público, sejam os mais preocupados com o seu bem-estar".

Essa história verídica, como diz a certa altura o ex-Presidente norte-americano, o republicano e abolicionista John Quincy Adams (Anthony Hopkins) nos mostra a importância das tradições, de ouvirmos nossos antepassados, e ter a compreensão de que quem somos é o que nós fomos.

10 julho 2018

Milada

Milada - David Mrnka - 2017 (Netflix)

O comunismo matou mais de 120 milhões de pessoas no mundo, para se ter uma ideia o nazismo matou cerca de 6 milhões de judeus. E isso em contas posteriores porque é muito difícil obter dados desses regimes, mas hoje, em pleno século 21, convivemos perfeitamente bem com ele, são partidos políticos, um deles inclusive usa o nome, ideologias que seguem o pensamento do doutrinador-fundador Karl Marx, e ícones gráficos como o famoso foice e martelo (imagina ver a suástica - símbolo nazista - nas ruas em camisetas).

Uma das explicações para essa aberração acontecer aqui no Brasil é a ignorância, não temos um Steven Spielberg com A Lista de Schindler (1993) mostrando os campos de concentração e trabalho forçado soviéticos como Kolimá e as gulags. Outra justificativa, e essa mais grave, foi o negacionismo do holodomor (holocausto ucraniano) promovido pelo governo soviético entre os grandes nomes do jornalismo mundial como Walter Duranty (Prêmio Pulitzer/New York Times) e George Bernard Shaw (Prêmio Nobel de Literatura).

Milada vem jogar luz nessa escuridão perigosa que nos encontramos. A escuridão da intolerância, das divergências políticas transformadas em guerra contra um nome fora desse mainstream, dos pensamentos igualitários e totalitários que excluem e difamam quem ousa ir contra.

Até os nazistas permitiam visitas.

A vida de Milada Horáková é um documento político importante para qualquer país que invista na democracia. Começa com a defesa dela pela igualdade entre homens e mulheres, passa então a lutar contra o nazismo que a Tchecoslováquia, sua pátria, abraça, e ela e seu marido são presos. Após a importantíssima vitória dos aliados, se transforma numa influente política defendendo as liberdades e os direitos individuais, é quando o país começa a flertar com o comunismo soviético. Os grandes lideres queriam Milada entre eles, mas logo ela percebeu que suas ideias não eram compatíveis com essa ideologia sanguinária,  ditatorial e absolutista.

Ayelet Zurer, soberba no papel titulo, nos dá a alma de Milada, sua resignação, sua firmeza, seus gestos nos trazem quase um documentário sobre esse período que muitos querem esconder debaixo do tapete.

18 maio 2018

15h17 para Paris

15:17 To Paris - Clint Eastwood - 2018 (Cinemas)

"Senhor, fazei de mim um instrumento da vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde há ofensa, que eu leve o perdão. Onde há discórdia, que eu leve a união. Onde há dúvida, que eu leve a fé. Onde há erro, que eu leve a verdade. Onde há desespero, que eu leve a esperança. Onde há tristeza, que eu leve a alegria. Onde há trevas, que eu leve a luz. Ó Mestre, Fazei que eu procure mais consolar que ser consolado; compreender que ser compreendido; amar que ser amado. Pois é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado, e é morrendo que se vive para a vida eterna."

Na oração da paz de São Francisco de Assis ele pede a Deus que o transforme num objeto de sua paz. Essa era a oração que Spencer Stone rezava quando criança, era nela que ele buscava a tranquilidade quando as coisas saiam errado na sua vida.

É baseada neste oração que o cineasta e lenda viva do cinema, Clint Eastwood, dita o ritmo de seu filme sobre os 3 heróis norte-americanos do Trem de Bruxelas para Paris. Clint, aos 87 anos, parece procurar anônimos capazes de atos de heroísmo. Já houveram SniperAmericano (2014) e Sully (2016). Logo ele que muitas vezes foi chamado de anti-herói pela mídia, e que até em sua vida pessoal foi capaz de atos de bravura quando salvou um sujeito que morria engasgado com queijo. O fato é que se tem algum diretor que entende de heroísmo e sempre esteve do lado correto da história, essa pessoa chama-se Clinton Eastwood Jr.

Na pré-produção do filme, o cineasta testou vários atores para interpretar os "meninos", até que, numa das melhores ideias de sua carreira - e olha que foram muitas em quase 40 películas - Eastwood decidiu transformar os heróis em atores. E eles parecem prontos para a coisa (dedo do diretor?). O roteiro foi baseado no livro que eles escreveram.

Mas 15h17 para Paris é muito mais que um filme de super-heróis, ta na moda né, ele se debruça também sobre educação, sobre sentimentalismos, sobre como educamos nossas crianças atualmente. A história se volta à infância dos 3 garotos e vai descrevendo como suas índoles foram formadas. Família presente, educação religiosa, respeito, amizade, disciplina e patriotismo. O que funcionava em 1930, parece, num estalar de algum dedo, não funcionar mais nos dias atuais.

Não temos como não fazer um paralelo com o caso da mãe policial que matou o bandido no dia das mães da escola. A PM Kátia Sastre, é digna de ser comparada a esses rapazes norte-americanos, digna de receber as maiores honrarias que esse país tenha e digna de ser reverenciada como heroína. Pode acreditar que a grande maioria da sociedade pensa assim, mas a voz de alguns poucos imbecis ganharem microfone só mostra o quanto a nossa sociedade está doente e matando seus filhos diariamente.

Pare de ler aqui se ainda não viu o filme e pretende fazê-lo.

Para terminar, não costumo me alongar muito, queria voltar a uma cena do filme que talvez passe despercebida. É quando os 3, Spencer Stone, Alek Skarlatos e Anthony Sadler esperam o trem chegar, e, ao se encaminharem para entrar, uma francesa pede ajuda dos rapazes para levar seu pai para dentro. Solícitos e preocupados, eles levam o senhor com tranquilidade para seu assento. Quando a confusão estoura, Alek, armado da arma do bandido e ensanguentado volta até o vagão onde ajudou os franceses pedindo que não saiam dali, as pessoas se assustam achando que ele é o terrorista, mas a filha do senhor logo fala: - Não, está tudo bem, ele é um bom homem.

20 março 2018

A Força do Destino

An Officer and a Gentleman - Taylor Hackford - 1982 (DVD)

Somente duas coisas vem de Oklahoma corno e viado. Qual dos dois é você? Não tô vendo chifre então deve ser viado.

Na década de 80 os jovens se comportavam com as regras que as mídias espalhavam. Era o auge do rock, das drogas e do hippie, e claro do sexo livre. Impor limites de direitos, colocar disciplina, ditar rotina e uma linha de conduta baseada na ética, na competitividade, na meritocracia e no estudo parecia coisa da era medieval.

Sargento Emil Foley (Louis Gossett Jr.) é o Officer do título, mas também pode ser o Gentleman, é o responsável em treinar os novos pilotos da aeronáutica. Zack Mayo (Richard Gere) é um jovem abandonado pelo pai e orfão de mãe que enxerga no exército sua única chance de ser alguém na vida. Ele é o Gentleman, mas também poderá ser o Officer.

O titulo original traz essa ambiguidade que foi ignorada por nossos tradutores. Enxergar em ambas personagens o oficial, e o cavalheiro é o que Taylor Hackford faz em toda a película.

Louis Gossett Jr. é uma força incontrolável em cena. Um dos grandes momentos da história do cinema é a sua cena final. Richard Gere também tem atuação marcante, mas suas brigas no set com Debra Winger, uma grande atriz de hollywood relegada ao segundo escalão, acabaram ganhando mais atenção que suas cenas. Ainda tem a belíssima canção Up Where We Belong personificada na voz inesquecível do grande Joe Cocker (uma das cinco melhores trilhas em qualquer lista).

A Força do Destino é uma relíquia. Uma fotografia de um momento marcante da humanidade. É também um filme conservador que nos prova que determinadas características necessitam serem preservadas, passadas e perpetuadas por todas as gerações.

22 fevereiro 2018

Trama Fantasma

Phantom Thread - Paul Thomas Anderson - 2017 (Cinemas)

Me beije, minha garota, antes que eu fique doente.

Enquanto estava enfermo na cama, sua esposa, a atriz Maya Rudolph, cuidou dele com tanto carinho e atenção que o fez perceber o quanto de amor ela sentia por ele. A partir desse dia, Paul Thomas Anderson começou a escrever o roteiro de Trama Fantasma.

O casamento me transformará num falso e eu não quero isso.

Daniel Day-Lewis é um ícone do insólito. É um ator extraordinário, e não há quem discorde, fez pouquíssimos filmes em sua carreira - menos de 25, raramente faz aparições públicas quando não está divulgando um filme, e aos 60 anos acaba de anunciar sua aposentadoria. Além do trabalho de pesquisa para o filme, Day-Lewis colaborou com o roteiro.

O chá está saindo, mas a interrupção permanece aqui comigo.

Da última vez que estiveram juntos, Daniel Day-Lewis e Paul Thomas Anderson entregaram ao mundo Sangue Negro (2007), em Trama Fantasma a narrativa se muda para Londres na década de 50 e o petróleo é trocado pelos tecidos, porém a grande mudança é que agora é um filme de amor ao se debruçar no relacionamento do singular Reynolds Woodcock (Lewis), levemente baseado na vida do estilista espanhol Cristóbal Balenciaga (1895 - 1972), com a garçonete Alma (Vicky Krieps).

E quem é essa adorável criatura fazendo a casa cheirar tão bem.

E quem é Lesley Manville? Que atriz esplêndida, eu não via uma interpretação feminina assim desde Louise Fletcher em Um Estranho no Ninho (1975). Sua presença em cena é como um raio que cai, por menos tempo, mesmo que seja no fundo, atrás de coadjuvantes, ela se sobressai. É daquelas performances que entram na história da 7ª arte, aliás, como Louise.

É reconfortante pensar que os mortos estão vigiando a vida. Eu não acho isso assustador de maneira alguma.

Acompanhar a carreira de um cineasta do quilate de Paul Thomas Anderson é um privilégio que só nós poderemos ter. Seu auge, agora aos 47 anos, demonstra um diretor contido, extremamente sensível, que privilegia os atores e suas performances, que não necessita exibir suas habilidades e conhecimentos cinematográficos, ele simplesmente põe a história no centro e deixa a câmera rolar, e isso nos presenteia com 2 horas e 10 minutos de um filme delicioso, linear, inteligente e, com o perdão do trocadilho, com Alma.

19 fevereiro 2018

Corpo e Alma


Teströl és lélekröl - Ildikó Enyedi - 2017 (Cinemas)

Numa floresta coberta de neve dois veados se acariciam, parecem tímidos, o macho (com chifres) toma a iniciativa, enquanto a fêmea (sem os chifres), mais recatada, demora em deixar-se seduzir pelo macho, que usa suas galhas para atrair a fêmea.

Não se trata de nenhum documentário sobre vida animal, é uma analogia e também um sonho que serão explorados no ótimo Corpo e Alma.

Mária (Alexandra Borbély) é a nova inspetora de qualidade num abatedouro, rígida e bastante tímida, ela começa uma amizade com o diretor financeiro Endre (o ótimo Géza Morcsányi). Essa amizade fica maior quando descobrem que partilham do mesmo sonho, constantemente.

Assistir a um filme de um outro país nos traz a mesma sensação que viajar a esse lugar. A língua, a cultura, a comida e o modo de agir dificilmente não fazem parte de uma película, nesse caso, a Hungria, suscita uma imagem muito positiva sobre essa nação.

06 fevereiro 2018

The Post

The Post - Steven Spielberg - 2017 (Cinemas)

10% foi ajuda dos vietnamitas do sul. 20% foi para deter os comunistas. 70% foi para evitar a humilhação de uma derrota norte-americana.

O mais distraído dos espectadores sabe que esse filme se trata de jornalismo, sobre o famoso jornal The Washington Post, apelidado de The Post, e sobre a relação entre mídia e políticos, mas Spielberg resolveu abrir o filme com uma cena de guerra - onde ele é mestre - mas a cena é tão superficial, tão manipulativa e com uma luz horrorosa que percebe-se logo se tratar de um estúdio. Depois disso, e atuando como charcuteiro, Steven Spielberg desata em querer contar a pré história da dona do Washignton Post, Kay Graham (Meryl Streep), e seu editor-chefe Ben Bradlee (Tom Hanks) e isso nos leva quase 40 minutos.

Mas quando o filme finalmente entra no enredo principal, vislumbra-se o cineasta que é quase uma unanimidade. A agilidade, os cortes rápidos, os selecionados locais onde a câmera nos mostra as cenas, tudo isso contribui para essa segunda parte - o resto da película - ser ágil a ponto de no final acharmos que passou rápido (imagina se deletassem os outros 40 minutos).

O fio que separa a ética da ideologia é transparente. É humanamente impossível você opinar sem defender suas crenças. A diferença no jornalismo são que as noticias não deve seguir ideologias, é como o próprio Ben, personagem de Tom Hanks, relata seu erro à sua chefe da amizade que nutria pelo democrata Kennedy. Para o Editor do Washington Post, o presidente nunca foi uma fonte, e isso JFK sabia o tempo todo.

The Post termina com uma cena bastante parecida com a abertura de Todos os Homens do Presidente (1976), filme que narra o escândalo watergate que finalmente derrubou o presidente.

26 janeiro 2018

Fortunata

Fortunata - Sergio Castellitto - 2017 (Cinemas)

Um rapaz africano está caminhando no deserto, ele está exausto, desidratado, então, na areia, vê a lâmpada do Aladim. Ele a pega, a esfrega, e então o gênio sai da lâmpada e diz: "Eu realizarei seus 3 desejos". Então ele diz: "Gênio, eu quero ser branco, quero muita água e também muitas vaginas." O gênio então o transforma numa latrina.

Fortunata em bom italiano significa sortudo. É também o nome da protagonista vivida por Jasmine Trinca, uma cabeleireira separada, mãe da pequena Barbara (Nicole Centanni) de 8 anos. Devido a separação turbulenta - o marido se nega a assinar o divórcio, e é violento, a pequena começa a cuspir e desobedecer a mãe sendo obrigada a levá-la a um psicólogo (Stefano Accorsi).

Fortunata é um filme leve, apesar da densidade da história, é uma poesia à vida e principalmente a aventura que é viver com os problemas que fazemos, e os percalços cotidianos que nos foge do controle. É uma película italiana em sua essência com todos os clichês que conhecemos e adoramos. Vale também pela trilha sonora.

Sabe porque gosto quando estou com um bilhete de loteria no bolso? Porque posso sonhar!

17 janeiro 2018

O Destino de uma Nação

Darkest Hour - Joe Wright - 2017 (Cinemas)

Após discutir com um amigo parlamentar sobre a escolha do novo primeiro ministro, o Rei George VI (Ben Mendelsohn - extraordinário no papel) recebe no palácio o novo chefe da nação inglesa. Um pouco antes da hora marcada, Winston Churchill (Gary Oldman) é anunciado para o Monarca. A figura do político logo se sobressai e o Rei tenta marcar uma reunião semanal com seu novo primeiro ministro como é praxe. Às 16hs então? Não. A essa hora estou dormindo. George, encabulado, pergunta: E pode? Não, mas é necessário. Responde Churchill.

A figura roliça, sempre com um charuto, poucos e ralos cabelos, branco, parecido com um bebê, rabugento, piadista, que acorda tomando um uísque, almoça com champagne e janta com um vinho não atrai a mínima confiança sobre sua pessoa, muitas vezes parece bêbado, e, em certos momentos, perdido, mas, arrisco-me a dizer, é o maior estadista que o mundo já conheceu.

Há uma máxima entre o funcionalismo público, principalmente o brasileiro, que é necessário tomar medidas que não agradam o povo. Essa é uma das maiores falácias do sistema político. Tratar os verdadeiros donos do poder como crianças é uma forma de manipulá-las e criar um Estado gigante que lhes tira a liberdade. Churchill era um conservador, aquele político que olha o passado e procura conservar o que esse trouxe de sucesso e melhoria à sociedade como um todo. O que tiver que mudar, mudará a partir dessa análise.

E isso foi essencial para o império britânico, enquanto a Europa se rendia a Hitler. Alguns em batalhas sangrentas, outros negociando tratados, e ainda outros sendo traídos, como foi o caso da Rússia de Stalin. Na Inglaterra, assustados com o poderio bélico dos nazistas, alguns poucos achavam que o melhor era a negociação. Churchill foi fundamental, mesmo quando tudo mostrava o contrário, em conservar a história britânica de não tolerar invasões, visto na 1ª guerra mundial. Dois filmes obrigatórios que corroboram isso é Círculo de Fogo (2001) e Dunkirk (2017), esse último é quase uma parte dentro do filme. Os ingleses venceram os alemães com a determinante participação dos civis como desenhou Winston Churchill.

Para finalizar é injuntivo, obrigatório, tecer alguns comentários sobre Gary Oldman e Kristin Scott Thomas. Oldman é a personificação de Churchill, além da maquiagem perfeita, sua voz, e maneirismos trazem ao filme uma reconstituição de época que nenhum cenário seria capaz de fornecer. Thomas é a antagonista à altura, apesar das poucas cenas, é impossível não enxergar no conservador a figura de Clementine que dá pito, reclama das bebidas e acarinha o marido com dedicação. Muitos atos do primeiro ministro são visíveis à esposa, mesmo ela não estando presente na cena.  

12 janeiro 2018

Melhores 2017

2017 foi um ano atípico para o cinema. Enquanto que para hollywood o ano ainda não terminou com denúncias de assédio, no cinema mundial poucas produções chamaram a atenção, uma delas estará em nossa lista. O festival de cannes continua sendo o principal holofote para filmes de fora dos EUA, duas películas que passaram por lá entraram em nossa relação. E por último outros dois filmes norte-americanos, um de uma lenda viva e outro de um cineasta que se encaminha nessa direção, finalizam nossos melhores de 2017.

Silêncio de Martin Scorsese apaga um pouco as características do diretor para nos contar uma história forte, real e sem lados. Uma aula de como transmitir uma verdade sem tomar partido, os professores "engajados" deveriam tomar nota.

Dunkirk de Christopher Nolan tem as mesmas características, é também um documento histórico. A ressalva é que Nolan parece cada vez mais impor seu estilo sem cair na armadilha de ser maior que a história que vai contar.

A Criada de Chan-wook Park é uma obra de detalhes, desde sua adaptação de um livro ocidental para a cultura oriental, às suas imagens e iconografia que parecem reviver um aspecto maravilhoso do cinema do oriente.

O Cidadão Ilustre de Gastón Duprat e Mariano Cohn foi o burburinho do ano, uma produção que alçou voo exclusivamente por causa de seus admiradores. Tem muitos aspectos do cinema argentino, a exceção de Ricardo Darín.

Toni Erdmann de Maren Ade é o filme de 2017. Cru, direto, objetivo, com performances que parecem ocorrer ao nosso lado, misturando humor, seriedade, crítica social sem ser chata ou apontando o dedo, Maren Ade também é a personalidade do ano. Que cineasta! 

30 dezembro 2017

A Criada


Ah-ga-ssi - Chan-wook Park - 2016

Baseado no livro Na Ponta dos Dedos, da britânica Sarah Waters, conhecida por seus romances da era vitoriana e protagonistas lésbicas. Em A Criada o tempo é levado para 1930 durante a ocupação japonesa da Coreia do Sul.

O filme começa mostrando o tio Kouzuki (Jin-woong Choo), que mantém uma biblioteca erótica nos porões de sua mansão. Ele faz a jovem sobrinha, ainda uma menina, ler o conteúdo dos livros a velhos tarados no intuito de ganhar a amizade dos japoneses. Acaba atraindo o inescrupuloso Conde Fujiwara (Jung-woo Ha) que elabora um plano para infiltrar uma criada, a trambiqueira Sookee (Tae-ri Kim) e roubar a herdeira Hideko (Min-hee Kim) fazendo ela se apaixonar pelo falso Conde. O plano começa a dar errado quando Sookee e Hideko começam uma relação além da amizade.

O clima constante de traição e ninguém sendo sincero, um detalhe característico do cinema de Chan-wook Park, cineasta do famoso Oldboy (2003), contrasta com cenas líricas, imagens deslumbrantes e cores fortes, que traz a paixão do diretor pelo grande Akira Kurosawa.

26 dezembro 2017

Dunkirk

Dunkirk - Christopher Nolan - 2017 (Cinemas)

Seis soldados vasculham uma rua reta com pequenas casas enquanto dos céus caem folhas de papel.

O INIMIGO IMPELIU OS EXÉRCITOS BRITÂNICO E FRANCÊS PARA O MAR.

Um deles resolve pegar um desses folhetos e ler. Nele há um desenho de um mapa com a descrição bem grande: VOCÊ, mostrando que estão encurralados e dando aviso: RENDER-SE é SOBREVIVER.

ENCURRALADOS EM DUNKIRK, ELES AGUARDAM SEU DESTINO.

Outro soldado busca água com certo desespero. Bebe o resto de uma mangueira abandonada na rua.

NA ESPERANÇA DE SEREM LIBERTADOS.

Outro soldado, Tommy (o novato Fionn Whitehead) recolhe algumas folhas que ainda voam com o objetivo de fazê-las de papel higiênico. Um outro recolhe cigarros em cinzeiros dentro das casas vazias quando vários tiros são disparados, rapidamente eles saem correndo pela rua buscando proteção. Um a um são mortos pelas costas durante a correria, apenas Tommy consegue pular um portão e fugir. Do outro lado da casa, ele passa a receber tiros vindos de uma barricada e começa a gritar: SOU INGLÊS. Os tiros cessam e ele é chamado para trás da barricada. O exército francês o recolhe com olhar pouco amistoso. Os tiros voltam a ecoar e Tommy foge em direção ao mar.

Na praia, uma multidão espera barcos e navios para fugirem daquele inferno.

Utilizando atores novatos e jovens, assim como foi nesse episódio da  2ª guerra conhecido como Batalha de Dunquerque, Nolan acerta em cheio em mostrar uma realidade, principalmente dos soldados, nua e crua. É possível enxergar em seus semblantes o medo que os verdadeiros militares sentiram.

(RISCO DE SPOILER) Christopher Nolan, que também escreveu o roteiro do filme, alega que essa batalha foi essencial para a vitória dos aliados contra o nazismo. Talvez o cineasta tenha razão, mas nesse caso não foram as estratégias, os soldados, ou o poder bélico que decidiram o triunfo. O patriotismo, a contribuição, e as decisões civis foram decisivas justificando a máxima que o poder emana do povo e deles saem as responsabilidades sociais, você concorde ou não.

27 novembro 2017

As Faces de Toni Erdmann

Toni Erdmann - Maren Ade - 2016 (iTunes)

Na 1ª cena do filme, um entregador de uma empresa de correio alemão leva uma caixa para Winfried (Peter Simonischek) e trava-se o seguinte diálogo:

- O que será que meu irmão comprou dessa vez? Toni! Você fez algum pedido? (gritando para dentro de casa). Ele acabou de sair da prisão, faz coisas estranhas. Foi preso por mandar um pacote-bomba. Ontem ele comeu uma lata de ração de cachorro. Espere um momento.

Ele entra na casa deixando a porta aberta e começa a falar com o "irmão", alto o bastante para o carteiro ouvir:

- Toni, venha aqui. Tire a bunda dessa rede. Vou te pôr para fora se continuar assim. Pediu outro catálogo de biquíni?
- Eu não, não seja tão maldoso.
- Ande, o carteiro está esperando.
- Onde?
- Na porta, claro!

E ai volta o "irmão", de óculos escuros, um roupão aberto, algemas e comendo uma banana:

- Meu irmão mente, não pedi nada de erótico.
- O conteúdo não me diz respeito. Responde o entregador.
- Ainda bem. Me dê aqui, estou louco para desmontar essa bomba.

Enquanto ele assina, chega um garoto, Lukkas, a quem ele apresenta como colega caçador de minas, para piorar o medidor de pressão apita assustando o carteiro desnorteado. Ai Winfried revela a sua brincadeira tirando o óculos e dizendo que não existe o "irmão".

Em tempos de politicamente correto, o professor de piano que adora se fantasiar e inventar histórias não é muito didático, mas o filme da cineasta alemã Maren Ade é de uma sensibilidade sem cair na pieguice que nos deixa atônitos.

O filme ainda guarda uma cena que demonstra toda habilidade artística de  Sandra Hüller - que interpreta a filha de Winfried, perseguida por ele durante toda a película - cantando Whitney Houston.

O figurino do animal, que também ilustra esse post, chama-se Kukeri, é uma fantasia comum na Bulgária onde acredita-se afasta espíritos ruins. 

27 setembro 2017

Mãe!

Mother! - Darren Aronofsky - 2017 (Cinemas)

Eu quero fazer um paraíso.

A estrutura de Mãe! é baseada na bíblia, a mãe do titulo refere-se a mãe natureza, representada pela atriz Jennifer Lawrence, Javier Bardem é creditado como Ele, em maiúsculo, Deus. Ed Harris é Adão e Michelle Pfeiffer Eva, portanto seus filhos são Caim e Abel.

Enquanto o filme vai se desenrolando num compasso gradual, vamos imaginando versões, tanto teatral como psicologicamente. E esse jogo de dicas e adivinhações é ignorado pelo cineasta, que prefere a poesia à manipulação. E talvez seja aqui, na metade da película, que há uma ruptura da proposição, e isso acaba gerando insatisfação em parte dos espectadores.

Porém toda essa analogia é criada por nós mesmos, nossa cultura cinematográfica de procurar as dicas, descobrir intenções, dialogar com o cineasta. Mas a arte não dialoga, a arte abre espaços, a arte gera questionamentos.

Darren Aronofsky escreveu o roteiro em menos de 5 dias numa visão pessimista do mundo. Foi durante as filmagens que ele e a atriz Jennifer Lawrence começaram a namorar. Uma das inspirações do diretor foi a artista plástica escocesa Jessica Harrison cuja obra foi copiada no pôster que ilustra essa matéria.