11 dezembro 2019

Parasita


Gisaengchung - Bong Joon Ho - 2019 (Cinemas)

Houve um incidente. Da-song viu um fantasma na casa quando estava na 1ª série. Foi o aniversário dele naquele dia. Tarde da noite, quando todos estavam dormindo, Da-song veio escondido até a cozinha e pegou o bolo. O chantilly daquele bolo era incrível. Mesmo na cama, ele não conseguia parar de pensar nele. Então, Da-song estava sentado, comendo seu bolo. Ele gritou e eu desci as escadas! E ele estava todo... Os olhos tinham rolado pra trás, estava em convulsão, e havia espuma na boca dele.

O sucesso de Parasita - e a importação de talentos de outros mercados - deriva muito da falta de criatividade e banalização da arte, que assola o ocidente. Outro dia, uma banana pregada na parede com uma fita adesiva, elaborada pelo italiano Maurizio Cattelan, e exposta na Galeria Perrotin, em Miami, foi vendida por 120 mil dólares. O que diria Da Vinci quando fosse chamado de artista junto a Cattelan? Se tudo é arte, nada é arte.

Bong Joon Ho é o novo queridinho de Hollywood, após o êxito de Mother - A Busca pela Verdade (2009), a Netflix o convidou para dirigir seu filme mais cheio de expectativas, e que de certa forma inaugurou a era da procura pela empresa por premiações, o regular e esquecível Okja (2017). Parasita é, sem medo de errar, seu melhor filme. A criatividade do roteiro e as tomadas inspiradas no mestre do suspense, Alfred Hitchcock, conferem a película uma qualidade que realça na telona. A escolha dos cenários, enquadramentos e ritmo costuram, junto com os atores, uma sequência de cena e acontecimentos impossível do espectador não se envolver.

Primeiro filme sul-coreano a ganhar a Palma de Ouro em Cannes. O país que vive ao lado de seu irmão socialista, pobre e ditatorial, Coreia do Norte, vive sua pujança econômica. No filme fica claro a abertura de mercado e a liberdade que seus habitantes vivem: garrafas de água norueguesas Voss, computadores da norte-americana Apple e carros alemães Mercedes, são vistos em tomadas planejadas.

O título refere-se à família de Kim Ko-woo (Woo-sik Choi), um jovem que aceita substituir o amigo para dar aulas particulares a uma estudante rica, e que, rapidamente, leva todos seus parentes para trabalhar com ele na casa.

29 novembro 2019

O Irlandês


The Irishman - Martin Scorsese - 2019 (Netflix)

Quem matou JFK? Quem matou o Papa João Paulo I? Quem matou Benjamin Siegel? E quem matou Jimmy Hoffa? Essas perguntas sempre estiveram em aberto, muitas teorias, poucos resultados, em comum só o fato de sempre a máfia estar envolvida nelas.

A Omertà, código de honra e silêncio siciliano, segundo o livro pizzo - história e administração da máfia, é algo tão enraizado na cultura que foi utilizado pela máfia como método administrativo de manter segredos dos atos fora da lei.

Na última vez que Joe Pesci, Martin Scorsese e Robert De Niro estiveram juntos na telona, o Brasil conhecia a internet, o Ebola dizimava populações na África e FHC governava o país em meio a escândalos, como do SIVAM. O mundo e o Brasil mudaram, mas esses três continuam os mesmos, o velho Scorsa rápido, certeiro, musical e usando e abusando da narração de fundo, aqui ele até brinca com essa característica colocando o narrador falando em frente à câmera. Robert De Niro sempre comedido, técnico, preciso. E Joe Pesci, que ator, um holofote ambulante, roubando e iluminando todas as cenas que aparece. São três profissionais exemplares, com carreiras impecáveis e que sabem contar uma história como poucos. É a 4ª vez que trabalham juntos, Touro Indomável (1980), Os Bons Companheiros (1990) e Cassino (1995) completam a nada modesta lista.

Além dessa reunião maravilhosa, O Irlandês traz também outro ator tarimbado que fazia tempo não trabalhava com o cineasta, Harvey Keitel, que desde A Última Tentação de Cristo (1988) não estava no mesmo set que Martin Scorsese. Porém, o esperado encontro é mesmo com Al Pacino, cineasta e ator nunca trabalharam juntos, apesar de uma filmografia bastante semelhante e a descendência italiana, de ambos.

Baseado no livro homônimo O Irlandês - Soube que pinta casas, de Charles Brandt, o filme atravessa a vida do irlandês motorista de caminhão, Frank Sheeran (Robert De Niro), que faz amizade com o poderoso mafioso Russell Bufalino (Joe Pesci) que o apresenta ao lendário sindicalista Jimmy Hoffa (Al Pacino).

19 novembro 2019

O Poderoso Chefão III


The Godfather III - Francis Ford Coppola - 1990

O mais esnobado filme da trilogia, talvez possua uma das mais fortes cenas da história do cinema.

O Poderoso Chefão III mostra a sequencia da vida de Michael Corleone e sua luta em legitimar os negócios da família, uma obsessão que durou a trilogia e que aqui terá seu desfecho final. Quando no 2°, o filme começa com a honraria e a doação da Vito Corleone Foundation, no 3° é uma honraria papal que abre a festa que tornou-se clássica nas aberturas dos longas.

Como não poderia deixar de fazer, fã de óperas, Coppola termina sua trilogia nela, a Cavalleria Rusticana de Pietro Mascagni é responsável por terminar a mais importante saga da história da 7ª arte, um filme de máxima importância dentro da história do cinema, uma obra-prima rica, cheia de significados e com uma cinematografia perfeita.

Num domingo de Páscoa numa pequena cidade siciliana, a população se reúne na cantina de Mamma Lucia, ao lado da capela, para esperar o início da procissão que sairá da igreja. Santuzza pergunta pelo seu prometido, o soldado Turiddu, filho da Mamma Lucia, e ela lhe diz que foi comprar vinho. Alfio, marido de Lola, pede uma taça de vinho a Santuzza que responde que Turiddu foi buscar. Alfio fica sem entender, porque viu Turiddu próximo de sua casa.

A procissão começa e todos entram na capela. Ainda do lado de fora, Santuzza revela a Mamma Lucia seu sofrimento em saber que Turiddu amava Lola antes de ir para o exército, e que ao voltar, Lola já tinha se casado com Alfio, e que ela seria apenas uma substituta, e que Lola não parava de seduzir Turiddu.

Quando Turiddu chega, Santuzza suplica que ele não a abandone jamais, mas Turiddu não a leva a sério. Santuzza então, enlouquecida de ciúmes, conta a Alfio sobre suas suspeitas. Terminada a procissão, todos vão a cantina comemorar. Turiddu segue servindo todos, mas Alfio recusa, insinuando que seu copo estaria envenenado. Turiddu, irritado, lhe morde a orelha tirando-lhe sangue - um gesto siciliano que desafia o outro para um duelo.

Antes de enfrentar Alfio, Turiddu pede a Mamma Lucia que cuide de Santuzza, o amor da sua vida, e vai encontrar Alfio para o duelo. Pouco depois, uma mulher entra desesperada gritando para Mamma Lucia que Turiddu fora morto no duelo.

17 novembro 2019

O Poderoso Chefão II

The Godfather II - Francis Ford Coppola - 1974

No dia da comemoração do aniversário do velho Don, a família se reúne para jantar. O primogênito, Sonny, traz um convidado, Carlo, para apresenta-lo a irmã, Connie. Enquanto isso, Tessio traz o bolo. Todos sentam e conversam animadamente, quando Sonny puxa o assunto do dia - o covarde ataque dos japoneses a Pearl Harbor -, Tessio diz que 30 milhões se alistaram. É o mote para Sonny esculachar os militares, Michael provoca dizendo que aquele discurso é do pai, e solta a bomba dizendo que se alistou na Marinha. O clima fica pesado, Sonny quase bate em Michael, Tom Hagen tenta dissuadi-lo dizendo que o pai tem muitos planos para o jovem, porém Michael está mesmo decidido. O ambiente só melhora quando Connie chama todos para recepcionar o pai que acabara de chegar. Todos vão, exceto Michael Corleone, que fica sozinho na sala que até poucos segundos antes estava cheia.

O maravilhoso livro de Mario Puzo que serve de tapete para o filme, só abrange as cenas do jovem Vito Corleone (Robert DeNiro) nessa sequencia. Toda história, a partir do comando de Michael Corleone (Al Pacino), é uma história original criada pelo mesmo autor do livro.

Após concluir uma obra-prima o que fazer? Francis Ford Coppola fez essa pergunta diversas vezes, sabia ele que a Paramount iria querer uma continuação, indicou o amigo Martin Scorsese, mas não quiseram, estavam decididos a ceder todas as vontades de Coppola, que tinha várias no papel.

E assim nasceu a 2ª obra-prima, O Poderoso Chefão Parte 2, uma sequencia que muitos acham melhor que o primeiro. Dividido entre contar a história de Vito Andolini, um garoto de 9 anos que vê a mãe assassinada, foge da Sicília e vai aos EUA (lá lhe dão o sobrenome de Corleone, sua cidade), forma família e um império, para depois voltar e se vingar. E a história de Michael Corleone, herói de guerra que se recusava a entrar nos negócios da família, até ver seu pai no hospital vítima de uma tentativa de assassinato.

A saga de Vito e Michael possuem estradas semelhantes. Ambos só começam a serem respeitados após matarem um homem, tentam manter os negócios o máximo possível dentro da lei e usam a frieza como arma. Contudo essas estradas tomarão rumos diferentes.

06 novembro 2019

O Poderoso Chefão


The Godfather – Francis Ford Coppola – 1972

No fundo preto, após os acordes de um trompete da inesquecível melodia, vem a frase lapidar na história do cinema: “Eu acredito na América. América fez minha fortuna”. Ainda sem revelar o rosto de Bonasera (Salvatore Corsitto), um sujeito sem convicções e que sempre buscou distância dos problemas da vida, mesmo que isso afetasse sua vida social. A câmera de Coppola ouve sua queixa pacientemente, se distanciando aos poucos, ele procura por justiça pra sua filha espancada, o governo não lhe deu e ele não tem coragem de fazer. Sua última esperança é justamente o homem a quem ele fugiu a vida inteira. O homem que a câmera revela aos poucos, de costas, pelo lado, para depois cortar pro seu rosto em 1° plano. Don Vito Corleone (Marlon Brando), um homem de fala mansa, gestos lentos, longas pausas, e que acaricia um gato no seu colo com a naturalidade de uma criança. Apesar disso, Bonasera ali que parece o infantil. É ele quem beija a mão do Don deixando claro que o poder é algo abstrato. No fim, o Don, ainda segura a lapela de seu smoking e cheira candidamente a rosa vermelha enquanto manda seu Consigliere e filho adotivo, Tom Hagen (Robert Duvall), passar esse serviço ao Caporegime Clemenza (Richard Castellano).

"Eu vou fazer uma proposta que ele não poderá recusar".

A trama se desenvolve após uma reunião da famiglia Corleone com Sollozzo (o saudoso e ótimo Al Lettieri), um mafioso ligado aos Tattaglia, que deseja o envolvimento dos Corleones em seus negócios de narcóticos, por causa do poder e conexões politicas de Don Corleone. A negativa do velho Don é educado, mas seu filho mais velho, e provável sucessor, Sonny Corleone (James Caan), acaba mostrando que é contra o não envolvimento da família com drogas. É a faísca que Sollozzo precisava para convencer seus superiores a tirar Vito da jogada e tratar de negócios com Sonny.

"Deixe a arma, pegue o canoli".

Porém, a tentativa de assassinato não sai como planejado e o Don sobrevive. Isso acaba trazendo para o mundo da máfia o até então avesso aos negócios da família, Michael Corleone (Al Pacino), um militar que se mostra frio e calculista surpreendendo todo mundo, dos 5 filhos de Vito, o mais velho e abobado Fredo (John Cazale), o impulsivo Sonny, o adotivo Tom Hagen, Michael e Connie (Talia Shire), ele era o mais protegido da família.

"Um homem que não se dedica a família, jamais será um homem de verdade".

O Poderoso Chefão é uma obra-prima clássica, será comentado, revisto e adorado daqui há 100 anos. É também um estudo sobre essa organização tão comentada quanto temida, que nasceu no Velho Mundo e encontrou na terra da liberdade um local ideal para prosperar. A direção de Francis Ford Coppola se não é perfeita, beira ela. A forma como desenvolve a trama, baseada no livro do genial Mario Puzo, com sutileza e violência é dinga de aplausos. A influência dos grandes nomes do cinema italiano é evidente em cada cena, e a trilha assinada por Nino Rota só vem carimbar isso. É também genial. Pra completar a fotografia de Gordon Willis, um escuro que brilha, e tons que ajudam a desenhar o ritmo da história. Juntar todos esses gênios: Coppola, Puzo, Rota e Willis só poderia resultar nessa odisseia em forma de ópera que encanta a todos que o assistem.

12 agosto 2019

Era uma Vez em... Hollywood


Once Upon a Time in... Hollywood - Quentin Tarantino - 2019 (Cinemas)

"Eu vou fazer filmes italianos, esse é  problema! Droga, é uma merda. Ninguém vai lembrar dessa merda depois, exceto alguns esquisitos".

Em 2003, durante uma entrevista na TV, o cineasta Quentin Tarantino acabou discutindo com uma repórter sobre a possibilidade de crianças assistirem Kill Bill Vol. 1 (2003). O cineasta deixou claro que cinema é cinema, e vida real é vida real. Enquanto a jornalista repetia seu mantra de que a violência gerava espectadores assassinos.

Era uma Vez em...Hollywood é a brilhante resposta do diretor aos repetidores de mantras.

A trágica história real da vida da atriz Sharon Tate (Margot Robbie) serve como pano de fundo para Tarantino explorar tudo que controla como ninguém: diálogos sensacionais, imagens estupendas, atuações inspiradas, roteiro brilhante e um diretor no auge de sua notável carreira. Acreditem, estamos vivenciando a história de um cineasta que estará sendo apreciada, estudada e reverenciada daqui há 100 anos.

Amparada na atuação da dupla Leonardo DiCaprio e Brad Pitt, que Quentin Tarantino descreveu como: "a dupla dinâmica de astros mais excitante desde Robert Redford e Paul Newman", o filme se divide entre os dois, o astro em declínio Rick Dalton (DiCaprio) e seu dublê Cliff Booth (Pitt). Juntos fazem as melhores cenas da película, separados, protagonizam cenas inesquecíveis, como exemplo a cena de luta de Cliff com Bruce Lee (Mike Moh), ou a conversa emocionante de Rick com a atriz mirim Trudi (Julia Butters).

Era uma Vez em...Hollywood é uma homenagem a um punhado de diretores, Sergio Leone entre outros, e é o filme mais pessoal de Tarantino, segundo o próprio. Porém, ouso dizer, só abrilhanta e homenageia uma filmografia perfeita de um cineasta que está no panteão dos grandes nomes da história da 7ª arte.

28 julho 2019

Os 10 melhores filmes italianos

Há algum tempo me pedem uma lista dos melhores filmes italianos. Como fã do cinema da terra de Michelangelo Antonioni, não poderia deixar de elencar esse desafio. Deixo claro que para elaborar essa serie, como regra, resolvi apenas colocar filmes 100% italianos, ou seja, falados e produzidos na Itália. O que de saída já descarta alguns filmes de Antonioni, Sergio Leone e Paolo Sorrentino, três grandes Mestres, e que sou fã.

10. Começo por Monica Bellucci e o evento que lhe fez jus a sua beleza. Malèna (2000), dirigido por Giuseppe Tornatore, é uma ode a mulher, e uma ode ao cinema italiano.

09. O Carteiro e o Poeta é uma obra-prima italiana do começo ao fim, mesmo narrando uma parte da vida do poeta chileno, Pablo Neruda. E o responsável por isso, dentro e fora das telas é o saudoso Massimo Troisi, o ator que deu a vida pelo filme que o imortalizou.

08. não poderia deixar de estar nessa lista e nessa posição, apesar de, prometo, ter sido uma grande coincidência. O filme de Fellini é uma obra que segue com sua aura e permanecerá assim pra sempre.

07. A Grande Beleza é o A Doce Vida da nova geração. Paolo Sorrentino conseguiu transformar sua grande obra-prima em mais que uma homenagem ao seu maior ídolo, Fellini, mas também em fazer um raio cair no mesmo lugar duas vezes.

06. A Doce Vida é um daqueles filmes que ficarão eternamente guardado nas mentes dos cinéfilos espalhados pelo mundo. Talvez seja o filme italiano mais famoso do mundo.

05. Cinema Paradiso define o cinema italiano. Talvez defina o cinema. Giuseppe Tornatore consegue passar à imagem em movimento seu amor por essa coisa encantadora que é chamada de 7ª arte.

04. Rocco e Seus Irmãos de Luchino Visconti é atemporal, belo e precioso. Consegue transformar um roteiro perfeito, num show de imagens. É o perfeito encontro do rio com o mar.

03. Ladrões de Bicicleta tem todos os elementos que fazem uma obra-prima, um grande cineasta Vittorio De Sica, grandes atores, uma criança protagonista, e uma história edificante e atemporal.

02. A Vida é Bela, aqui todo os créditos vão ao maluco e genial Roberto Benigni. Desconfie daquele que não ama esse filme.

01. Pode parecer obvia a escolha de Michelangelo Antonioni e seu A Aventura como primeiro, mas não, sou mais fã dos filmes já em língua inglesa e coloridos do meu cineasta favorito, mas A Aventura é um divisor de águas. É a obra-prima mais completa e importante cinema italiano.

01 julho 2019

Chernobyl

Chernobyl - Johan Renck - 2019 (HBO)

Qual o custo de uma mentira?

Em 1986, o mundo foi sabendo, aos poucos, de uma explosão numa usina nuclear em Pripyat, na Ucrânia, onde grande quantidade de radiação havia sido liberada. Essa usina tinha o nome do ditador sanguinário Vladimir Lênin, mas era mais famosa pela alcunha de Chernobyl.

A série, em 5 capítulos, é o maior sucesso da HBO, batendo a recém terminada Game of Thrones (2011), e faz todo sentido, esse episódio da história recente da humanidade, ficou, durante muitos anos, escondido na gaveta, e o resultado desse obscurantismo podemos ver na nossa vizinha Venezuela, é imperativo começarmos a discutir sobre o poder tão endeusado de um Estado sobre seu povo.

Chernobyl, dirigida pelo sueco Johan Renck, tem uma estrutura de série sensacional, é quase impossível não vê-la toda, o 1° episódio serve como aperitivo pro próximo, e assim sucessivamente, até culminar no 5° e último que deságua numa explicação de todo o horror que o mundo passou durantes os meses que se estenderam após a explosão. Talvez seja a maior proximidade que o mundo esteve da extinção, ou, ao menos, o continente europeu.

O socialismo soviético dessa época guarda muitas semelhanças com o petista brasileiro, o modus operandi de fabricar mentiras e usá-las como ganho politico, repetindo-as até criar uma verdade pela normalidade, ministros completamente despreparados para o cargo, como o próprio Vice-Presidente do Conselhos de Ministros, Boris Shcherbina (Stellan Skarsgård), e uma máquina enorme usada para permanência do poder do mesmo grupo político, inclusive com a imprensa que só divulgava o que eles queriam. Imaginem que existia até um Ministro do Carvão, apadrinhado político que pouco sabia sobre o mineral.

Não é que podemos confundi-la com a verdade. O perigo real é que se ouvirmos mentiras o bastante, não reconheceremos mais a verdade. E o que poderemos fazer? O que restará além de esquecer até a esperança da verdade, e nos contentarmos em vez disso com histórias.

12 junho 2019

Aqui em Casa Tudo Bem


A Casa Tutti Bene - Gabriele Muccino - 2018

Filmes sobre encontros e reencontros num só ambiente já virou quase um gênero dentro do cinema. Desde o maravilhoso O Reencontro (1983) ao mais recente Sete Dias sem Fim (2014), aos clássicos Clube dos Cinco (1985) e Flores de Aço (1989), e ainda passando pelo nacional e repleto de clichês, Entre Nós (2013).

O atrativo de Aqui em Casa Tudo Bem é a cultura italiana, se os filme acima citados tratam da cultura norte-americana, com exceção do brasileiro, o filme de Muccino amplia todos os conflitos a enésima potencia com a tradicional reverberação italiana.

A película é sobre o aniversário de casamento de 50 anos de Alba (Stefania Sandrelli), e Pietro (Ivano Marescotti), numa ilha em Nápoles onde residem numa maravilhosa casa. Juntando filhos, netos, parentes e amigos, a festa ocorre como planejado, mas no fim do dia, devido a uma tempestade, o catamarã que trouxe os convidados não pode voltar a cidade. Arrumando alguns na casa, e outros em pequenas pousadas, a festa acaba se prolongando mais que o necessário.

Gabriele Muccino possui uma carreira bastante singular. O cineasta italiano fez sucesso com O Último Beijo (2001) e logo depois veio À Procura da Felicidade (2006), um estrondoso êxito mundial, mas ai a parceria com o astro Will Smith trouxe Sete Vidas (2008) que não repetiu a glória do filme anterior. Aqui em Casa Tudo Bem marca o retorno do diretor as suas raízes italianas.

30 maio 2019

Rocco e seus Irmãos

Rocco i Sui Fratelli - Luchino Visconti - 1960

"Rocco é a cultura italiana. É um dos mais suntuosos filmes em preto e branco que já vi. As imagens, fotografadas pelo grande Giuseppe Rotunno, são peroladas, elegantes e brilhantes. Está na lista dos 39 filmes para ver antes de morrer". Palavras do Mestre Martin Scorsese na época da restauração da película, através da sua The Film Foundation.

A história dos irmãos que saem da pequena cidade de Lucania, para a metrópole Milão, atrás do primogênito que acabara de ficar noivo, é o ponto inicial da saga dos Parondi. A viúva Rosaria (Katina Paxinou) e seus filhos, Vincenzo (Spyros Fokas), Simone (Renato Salvatori), Rocco (Alain Delon), Ciro (Max Cartier) e Luca (Rocco Vidolazzi).

Luchino Visconti consegue criar uma obra clássica, mas sem ficar datada, mesmo quase 60 anos após sua estreia. A qualidade da história, a suntuosidade da fotografia, como já disse Scorsese, e o talento do elenco fazem desse filme impecável. Porém são os enquadramentos do cineasta, e as locações, em especial a mais famosa, no terraço da Catedral de Milão (Duomo di Milano), que tornam Rocco e seus Irmãos um ícone do cinema italiano.

Escrito por 7 roteiristas, inclusive o próprio Visconti, inspirado na novela de Giovanni Testori, Il Ponte Della Ghisolfa, a película se aproxima de uma ópera, contando com várias personagens que dividem o protagonismo, e uma sequência que deságua numa tragédia. É pontuada pela belíssima trilha sonora do gênio Nino Rota que inspirou Francis Ford Coppola a convida-lo para criar a inesquecível música de O Poderoso Chefão (1972).

13 maio 2019

Cinema Italiano


O Cinema Italiano é Divino, ele busca, como diz a célebre frase de Fellini, ser sagrado em todos os frames. Seja na estátua pendurada no céu em A Doce Vida (1960), seja na freira santa de A Grande Beleza (2013).

O Cinema Italiano é o preferido do Museu do Cinema. Do clássico Roma: Cidade Aberta (1945) de Roberto Rossellini, ao maravilhoso A Grande Beleza de Paolo Sorrentino. Passando por (1963), de Fellini, e A Aventura (1960) de Antonioni. Nomes consagrados do cinema mundial como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Brian De Palma e Quentin Tarantino (todos eles descendentes de italianos), foram fortemente influenciados por esse cinema como ficará claro no vídeo.

É claro que muito da cultura do país é levado às telas. E talvez seja isso que sublima o cinema italiano, mas você colocar na terra, na mesma geração, Michelangelo Antonioni e Federico Fellini, sombreados por um polêmico, mas talentoso Pier Paolo Pasolini, não ficará esquecido. Se Antonioni celebrava a perfeição das imagens, Fellini construía cenas mágicas através de seus sonhos.

08 maio 2019

Happy End

Happy End -  Michael Haneke - 2017

Na câmera de segurança de uma obra, vemos uma encosta cair. É o gatilho para o inicio da reunião da família Laurent, donos da empresa que tocava a construção.

O patriarca Georges Laurent (Jean-Louis Trintignant) é um octogenário que não tem mais pretensões na vida, e pensa diariamente em suicídio.

Anne (Isabelle Huppert) é a filha mais velha, e CEO da empresa. Pierre (Franz Rogowski) é seu filho, era o responsável pela obra que teve o acidente, sofre com problemas de alcoolismo.

Thomas Laurent (Mathieu Kassovitz) é o outro filho. Não liga muito para a empresa, mas está de volta porque seu casamento acabou, e ainda vive atormentado pela filha pré-adolescente Ève (Fantine Harduin), que precisa cuidar, mas não tem a menor ideia de como faz isso.

Criado o núcleo central do filme, Michael Haneke começa a elaborar seu jogo que envolve psicanálise,  relações familiares, e redes sociais.

O ator Jean-Louis Trintignant volta a trabalhar com o cineasta austríaco, alias, ele só trabalha agora, já que tá aposentado, com o diretor. É também a 4ª colaboração de Huppert e Haneke.

17 abril 2019

A Mula


The Mule - Clint Eastwood - 2018 (Cinemas)

Em pouco mais de 5 minutos, o cineasta Clint Eastwood apresenta Earl Stone (o próprio Clint), um horticultor dedicado, mas que negligência a própria família e não percebe a importante mudança no mercado de flores - a internet. 12 anos depois, falido e sem parentes, tudo que lhe resta é a neta, que ainda acredita nele.

O filme é baseado na história verídica de Leo Sharp, um veterano da II Guerra que se tornou, aos 80 anos, o mais velho, e produtiva "mula" (o atravessador da droga), para o tráfico nas fronteiras norte-americanas. Um artigo escrito no jornal The New York Times por Sam Dolnick serviu de base pro sensacional roteiro de Nick Schenk, que já tinha trabalhado com o diretor em Gran Torino (2008).

Aos 88 anos, Clint Eastwood nos presenteia com sua capacidade de contar uma história com seu conservadorismo característico. Bradley Cooper, que interpreta um policial, parece querer ser seu pupilo, a afinidade entre os dois explode na tela.

15 fevereiro 2019

Psicopatas do Cinema

Segundo o dicionário, psicopata é um indivíduo clinicamente perverso, que tem distúrbios mentais graves. Uma pessoa que sofre de uma condição que afeta a sua forma de interação social, muitas vezes se comportando de forma irregular e anti-social. A 7ª arte ajudou a explorar esse universo de várias maneiras, desenhando personalidades díspares, mas semelhantes em seu objetivo.

Dr. Hannibal Lecter, de Anthony Hopkins em O Silêncio dos Inocentes (1991), é o que tem mais aprofundamento psicológico, também pelo fato, dele próprio, ser um Psiquiatra. Ao contrário dos outros, é uma pessoa que tem relações sociais, até se afeiçoando, como foi com Clarice. Criado por Thomas Harris em 1981.

Anton Chigurh, de Javier Bardem em Onde os Fracos Não tem Vez (2007), possuía um senso egoísta. Se era para realizar determinada missão, não importava o que iria passar, mesmo que se prejudicasse, iria cumpri-la. Falta de humor e uma moeda completavam suas características, criada pelo escritor Cormac McCarthy.

Coringa, de Heath Ledger em Batman: Cavaleiro das Trevas (2008), traz pro mundo real a psicopatia de uma personagem dos quadrinhos. Com humor negro e uma dose de sarcasmo revelou-se o maior vilão enfrentado pelo Homem Morcego.

John Doe, de Kevin Spacey em Seven: Os Sete Crimes Capitais (1995), outro inteligente, devorador de livros e que planeja sua atividade psicopata com maestria. Frio e calculista.

Patrick Bateman, de Christian Bale em Psicopata Americano (2000), é rico, materialista, investidor financeiro de Wall Street, vida social agitada, e um ensandecido psicopata. Criado por Bret Easton Ellis.

Jack Torrence, de Jack Nicholson em O Iluminado (1980), um escritor com bloqueio criativo, que passa a perseguir a esposa e o filho dentro de um hotel abandonado no meio da neve. Criado por Stephen King, um Mestre nessa área.


Billy The Kid, de Sam Rockwell em A Espera de um Milagre (1999), também originário da cabeça de Stephen King, Billy é um psicopata que flerta com o humor e a inconsequência.


Norman Bates, de Anthony Perkins em Psicose (1960), traz as características e o diagnostico em si. Criado com a mãe, desenvolve o Transtorno Dissociativo de Identidade. Criado por Robert Bloch.


Mickey e Mallory Knox, de Woody Harrelson e Juliette Lewis em Assassinos por Natureza (1994), são os psicopatas da TV, gostam da carnificina, mas deixam sempre um sobrevivente para contar a história. Criado por Quentin Tarantino quando ainda trabalhava como atendente numa locadora de vídeos.

21 janeiro 2019

Green Book - O Guia


Green Book - Peter Farrelly - 2018 (Cinemas)

Numa suntuosa mansão norte-americana, a alta sociedade local prepara um jantar e uma apresentação magnífica para o "virtuoso", como eles o apresentam, Dr. Don Shirley (Mahershala Ali). No intervalo da performance, conversando com o anfitrião, o músico pergunta onde é o banheiro, o dono da mansão então aponta para um pequeno cubículo de madeira instalado na área externa da casa. O virtuoso - e agora paciente e educado, volta ao seu hotel para usar um banheiro, e retorna a mansão para terminar o espetáculo.

Além de "virtuoso", o negro Donald Walbridge Shirley aprendeu a tocar piano aos 2 anos, e tinha doutorado em música, psicologia e Artes Litúrgicas, de onde vinha o Doutor Shirley.

Já o leão de chácara, o italiano Tony Lip (Viggo Mortensen) é daqueles caras fanfarrões. Talvez tenha o ginásio completo, mas sabe se virar como ninguém nas ruas.

A improvável amizade entre o culto e fino e o proceloso e bruto acaba rendendo várias situações engraçadas, e uma história belíssima e dignificante de dois seres humanos que apesar dos preconceitos que tinham se respeitavam.

E essa simbiose entre drama e comédia só pode ser creditada a Peter Farrelly, o inesperado (olha o preconceito) diretor de comédias do tipo Quem Vai Ficar com Mary (1998) e Debi & Lóide (1994), é o grande responsável por Green Book ser um filmão.

O titulo original é uma referência a The Negro Travelers Green Book, publicação que guiava os viajantes negros norte-americanos por hotéis, paradas de estradas e restaurantes que iriam servi-lhes durante a viagem de carro.

O verdadeiro Tony Lip é mais famoso pelo seu papel como Carmine Lupertazzi em Família Soprano (1999) e algumas pontas em filmes de Martin Scorsese.

Durante a viagem, Tony, um comilão frenético, compra o famoso balde de frango frito do Kentucky, mas, para seu espanto, Doc Shirley diz que nunca comeu, Tony não acredita, afinal, diz ele, o frango frito é do "seu povo". Doc Shirley, fica injuriado pelo comentário, mas Tony completa: "espere um pouco, se você dissesse que todos os carcamanos comem pizza, espaguete e almôndegas eu não vou me insultar". O músico acaba experimentando, mas reclama da falta de talheres.