20 janeiro 2020

Federico Fellini

Um homem elegante de gravata e óculos escuros persol, passeia no que parece ser um jardim. O sol escaldante não muda a graciosidade dele. Ao seu lado, um grupo de palhaços faz algazarra com o pessoal que passa por ali. O caminhar do homem é reto, ritmado e totalmente alheio a sua volta. Francesco! Ouve ao longe numa voz feminina. O homem para. A câmera por trás dele, subitamente, acelera em sua direção, no exato momento em que ele vira para trás.

Essa simples cena, se filmada por Fellini, viraria um ícone do cinema mundial.

Federico Fellini nasceu em Rimini, na região de Emilia-Romagna, Itália, em 20 de janeiro de 1920. Aos 20 anos, mudou-se para Roma e foi trabalhar como cartunista em alguns jornais da cidade. Em 1944, com 24 anos, abre a loja Funny Face Shop, onde faz caricaturas dos moradores e turistas, principalmente soldados norte-americanos. Rostos de traços fortes e cercados de figuras grotescas. Cria-se assim uma das expressões mais famosas da história da 7ª arte: "Fellinianos" ou "Felliniescos". Graças a essa habilidade, o cineasta ficou amigo do comediante Aldo Fabrizi, que chamara a atenção de Roberto Rossellini para participar de Roma, Cidade Aberta (1945), através de Fellini, Rossellini convidou Aldo e ganhou um novo roteirista para seu filme.

Em sua nova atividade, Fellini começa a se interessar pela direção, várias vezes visitava sets de filmagens das películas que roteirizava, cinco anos depois codirigiu Mulheres e Luzes (1950). Mas foi o amigo Michelangelo Antonioni quem deu a primeira oportunidade para Federico. Antonioni desenvolveu e criou a história de Abismo de um Sonho (1952) e deu ao produtor Carlo Ponti, que chamou Fellini para roteirizar. Michelangelo, porém, saiu da produção e Ponti deu ao novato a direção do filme.

No inicio dos anos 1960, Fellini descobre os estudos do psicanalista Carl Gustav Jung, e logo se familiariza com suas ideias sobre significados dos sonhos e o inconsciente coletivo. Federico passa a criar um método: ao acordar, senta numa mesa e desenha seus sonhos. Assim nasceram grandes clássicos do cinema que serão revisitados nessa retrospectiva que o Museu do Cinema fará a partir de hoje, dia que Federico Fellini completaria 100 anos. O cineasta passa assim a fulgurar na Sala Vip do Museu.

Farão parte dessa revisita a obra de Fellini os filmes: A Doce Vida (1960),  (1963), Roma de Fellini (1972), Amarcord (1973), E La Nave Va (1983), Ginger e Fred (1986).

14 janeiro 2020

The Edge of Democracy

Democracia em Vertigem - Petra Andrade - 2018 (Netflix)

Quando estourou a corrupção petista, provada depois como a maior da história da humanidade - foram quase 60 bilhões só em devoluções ao erário publico -, ficou óbvio que aquilo já vinha antecedida pelos governos FHC, Collor e Sarney, ficou claro também que não era monopólio somente dos políticos. Além das maiores empreiteiras do país, outros segmentos estavam envolvidos, entre eles: mídias, grandes empresas como JBS e AMBEV e jornalistas. Ou seja, era um sistema muito bem azeitado feito não só para roubar o povo, principalmente os mais pobres, principais atingidos, como também manipulá-lo num círculo vicioso onde se trocavam as peças do tabuleiro, mas o sistema continuava dando as cartas. Dos 8 principais candidatos a Presidência na última eleição, apenas 1 não participou desses governos, sendo ele o que possuía menos tempo de TV e uma candidatura amadora feita em casa pelo filho. Todos tinham certeza que ele não seria eleito, mas a campanha mostrou o contrário, foi quando o sistema tratou de cortá-lo.

O sistema tem vários nomes, mecanismo, máquina, e ele funciona com dinheiro, do público. Não se engane com as doações "privadas".

Andrade Gutierrez, que é o principal caso aqui nesse doc, é uma empreiteira das mais envolvidas com políticos. Desde sua inauguração, a empresa não sabe o que é viver sem o dinheiro do Estado e ter representantes, seja familiares ou indicados financeiramente, no Congresso nacional.

Petra Costa, Petra Andrade Costa, diretora, roteirista e responsável pelo pseudo-documentário, é filha de Marília Andrade, herdeira da Andrade Gutierrez, afiliada ao PT desde 1997 e uma das principais colaboradoras físicas das campanhas bilionárias derrotadas de Haddad. No documentário, Petra confunde seu espectador querendo mostrar os pais como neutros da empreiteira, negando o fato de que os dois trabalharam lá e a mãe, acionista, recebe dividendos que sustentam o estilo de vida milionário da família e banca o hobby da menina rica.

O documentário serve como amostra de como vivem de distorcer a realidade as revolucionárias chiques, a esquerda caviar, as socialistas de iPhone. É incrível como Pietra nem fica corada em negar a ligação da sua fortuna com os governos nacionais. A certa altura do documentário Pietra, em voz off, diz: "Eu vejo que a história dessa crise, desse muro, atravessa minha família. De um lado, a elite da qual meus avós faziam parte, do outro a história dos meus pais e da esquerda que eles sonharam, que está desmoronando”. O pai de Pietra, Manoel Costa Junior, ex-deputado do PMDB, ex-guerrilheiro, foi secretário de Aécio Neves no governo de Minas Gerais, exonerado por irregularidades.

Democracia é mais uma tentativa - manipulação da mídia, facada e guerra cultural - de manter o status quo entre os idiotas úteis do mecanismo que "já sente a ferrugem lhe comer".

10 janeiro 2020

O Caso de Richard Jewell


Richard Jewell - Clint Eastwood - 2019 (nos melhores cinemas do país)

Na sensacional minissérie Chernobyl, o protagonista pergunta: qual o custo de uma mentira? O filme de Clint Eastwood é a resposta dessa pergunta.

Após perder a eleição para o Senado, Renan Calheiros, sem querer, expôs toda a podridão da relação jornalística com políticos. No twitter, o senador, respondendo uma agressão verbal da jornalista Dora Kramer, disse que sempre fugiu do assédio dela, até porque empregava seu marido como assessor, e que encorajava outros colegas, como o presidiário Geddel Vieira Lima, a namorá-la. Renan já tinha um histórico de relações promíscuas com pessoas da mídia, como a amante Mônica Veloso. Essa conexão é mais comum que pensamos. É dela que as pessoas do alto escalão se valem para continuarem no topo, num sistema que não desinforma, manipula.

Atuações acima da média fazem do filme do herói da vida real, Clint Eastwood, uma ode ao conselho do genial Pedro Almodóvar: "o melhor ator não é aquele que chora, e sim o que luta para conter as lágrimas". Paul Walter Hauser, Kathy Bates e Olivia Wilde aprenderam direitinho. Sam Rockwell soberbo e Jon Hamm, surpreendendo, completam o time de Clint.

O Caso de Richard Jewell, o segurança herói que virou segurança extremista, a imprensa ama essa expressão, expõe a sociedade da mediocridade, da importância de habilidades menores. O final do filme é uma aula, uma lição de Richard, que será lembrada por séculos.

07 janeiro 2020

Melhores 2019


Engana-se quem acha que me deixa feliz escolher cineastas que adoro, com seus filmes sendo os melhores do ano. Na minha visão, essa "coincidência" só evidencia a crise criativa que passa o cinema mundial. Seja aqui no Brasil, onde os diretores viraram, abertamente agora, publicitários de uma ideologia que mais matou gente na história da humanidade. Seja nos Estados Unidos, onde os filmes de heróis tem mais densidade de roteiro que um independente. Mesmo assim, são 5 filmes que mostram bem a qualidade técnica e artística desses cineastas.

Parasita de Bong Joon ho é uma novidade que arrebatou o cinema em 2019. Com roteiro criativo e uma direção inteligente, o filme fez sucesso no mundo todo, algo raro pra um filme sul-coreano, mas que demonstra como os tradicionais mercados estão se afogando.

O Irlandês é Martin Scorsese na veia. Reunindo, pela 1ª vez, Robert De Niro, Al Pacino, Joe Pesci e Harvey Keitel, o filme mostra a biografia de um mafioso, que se envolveu com a alta cúpula do crime organizado norte-americano, por causa de uma amizade poderosa.

Dor & Glória, a autobiografia de Pedro Almodóvar, é uma terapia na telona. Capitaneado por um Antonio Banderas no papel de sua carreira, interpretando justamente o amigo Almodóvar, a película traz as cores, as dores e a genialidade do mais famoso espanhol atualmente.

O Traidor põe Marco Bellocchio em evidência novamente, 10 anos depois de Vincere. A história do maior traidor da máfia, Tommaso Buscetta, ganha traços épicos com a direção de Bellocchio. É uma produção espetacular e grandiosa, uma verdadeira ópera italiana.

Era uma Vez em... Hollywood reafirma Quentin Tarantino como o cineasta mais criativo hoje, e talvez, da história do cinema norte-americano. Com um roteiro belíssimo que homenageia a bela atriz Sharon Tate, Quentin transforma seu filme numa vingança épica.

02 janeiro 2020

Dor e Glória

Dolor y Gloria - Pedro Almodóvar - 2019 (Cinemas)

- É um texto confessional. Não quero que ninguém me identifique.
- Claro.
- Sobre a encenação, eu sugiro um palco vazio. Uma tela. Uma cadeira se não souber o que fazer com os braços e as mãos.
- Sei perfeitamente o que fazer com os braços e com as mãos.
- Depois de corrigi-lo, reconheço que o texto ficou um pouco melodramático.
- Não se preocupe, também domino o melodrama. Para algo me serviram meus anos mexicanos.
- Por isso que te digo, você tem que fugir dos sentimentalismos. Controle a emoção. Não chore. Os atores aproveitam qualquer pretexto para chorar. O melhor ator não é aquele que chora, e sim o que luta para conter as lágrimas.

Pedro Almodóvar filma sua autobiografia com Dor e Glória, cheio de cores, repleto de mulheres fortes e homens inseguros, com Antonio Banderas e Penélope Cruz protagonizando e um Asier Etxeandia roubando a cena, mas com um clima menos tenso que o usual de seus filmes. Inspirado no clássico 8½ de Federico Fellini O diálogo acima é um bom retrato do que é a película. 

31 dezembro 2019

Dois Papas


















Two Popes - Fernando Meirelles - 2019 (Netflix)

Assistir Dois Papas é uma experiência fabulosa para saber como funciona a guerra cultural. A começar por diálogos tirados da cabeça de uma criança fazendo sua primeira peça teatral da escola, um diretor abertamente agnóstico e socialista praticante (foi responsável pela campanha pífia da ex-ministra comunista Marina Silva) e uma incrível capacidade em falsear a realidade em época que a verdade está disponível na palma da mão.

É mais uma estória para agradar a opinião pública manipulada por uma mídia mainstream progressista, principais responsáveis pela queda de Bento XVI. É mais um revisionismo da esquerda para continuar moldando a sociedade.

O filme é editado em várias mentiras, ditas, espertamente, como baseado em fatos reais para aumentar o numero de espectadores. 1° mentira: os Papas nunca foram amigos, portanto o filme já é 70% fantasia. 2° mentira: Bento XVI era um Papa extremamente popular, é só ver fotos da época e comprovar como levava multidões as ruas, veja aqui em Madrid. 3° mentira: Bento XVI foi muito a fundo na questão de pedofilia dentro da igreja, aliás, Bergoglio atualmente continua tendo os mesmos problemas.

Pra encerrar, é só lamentar e corar de vergonha com duas cenas, a do Múleo, o sapato vermelho do Papa, que foi um ato de humildade de Bento XVI, alemão, com a adoção da tradição italiana. E a forçação de barra de Meirelles em colocar a imagem da ex-presidente impichada na tela.

"Quem assume um ministério Petrino não tem mais nenhuma privacidade, ele pertencerá sempre, e totalmente, a todos, a toda a Igreja. Sempre, significa também para sempre, não a mais como voltar à vida privada. Minha decisão de renunciar ao exercício ativo do ministério não revoga isso. Não voltarei à vida privada. Não abandonarei a cruz, mas permanecerei de uma maneira nova perto do Senhor crucificado. Não carregarei mais o poder do ofício no governo da Igreja, mas no serviço da oração eu permanecerei".

Discurso de renuncia do Papa Bento XVI.

29 dezembro 2019

O Traidor

Il Traditore - Marco Bellocchio - 2019 (Cinemas)

Eu quero te contar uma coisa. Eu era muito novo, devia ter uns 16 anos. Tinha acabado de me filiar e o chefe de minha família ordenou que eu matasse uma pessoa. Era o dia do batismo do filho dessa pessoa. E eu o esperava na frente da igreja. Assim que me viu, ele me conhecia de vista, entendeu que havia sido condenado à morte e que era eu que deveria matá-lo. Imediatamente ele arrancou a criança dos braços da mãe e o segurou junto ao peito. E não pude atirar nele, não podia correr o risco de assustar a criança. Depois desse dia, aquele homem saiu de casa sempre, e somente, acompanhado pelo filho. Eles eram inseparáveis. Ele o levou para a creche, para o ensino fundamental, ensino médio, para a comunhão, crisma, até o ensino superior. Depois o filho casou. É que, naquela época, não se tocava nas crianças. Nem em mulheres, juízes, a Cosa Nostra tinha valores. Princípios conhecidos e compartilhados por todos.

Tommaso Buscetta (interpretado magistralmente por Pierfrancesco Favino, um Ricardo Darín italiano) talvez seja o principal, e mais famoso, nome da máfia. Foi um soldado dentro da organização, mas com poder de capo (chefe), porém não foi isso que elevou seu nome. Buscetta foi o pioneiro, em grau de importância, a quebrar o código mafioso omertà e revelar ao mundo uma das instituições mais poderosa, bilionária e misteriosa que já existiu.

O Traidor detalha sua vida, focando no momento das delações (sem elas seriam impossível descobrirmos como a organização funciona já que se baseia em queima de arquivos e estrutura piramidal que dificulta chegar ao topo), que devastou a máfia siciliana num dos julgamentos mais famoso da história. A imagem dos mafiosos gritando e trancados em gaiolas no tribunal correu o mundo.

Para nós brasileiros ainda tem a curiosidade de saber como foram seus dias morando no Rio de Janeiro - Buscetta foi preso aqui e deportado pelo governo brasileiro da época - e a atriz Maria Fernanda Cândido, que interpreta a esposa do mafioso pentito (arrependido).

Segundo o livro pizzo - História e Administraçãoda Máfia, as sessões de conversa entre Tommaso e o Juiz Giovanni Falcone foi a maior colaboração que o magistrado teve para lançar o Maxi Processo que resultou em 344 condenações.

11 dezembro 2019

Parasita


Gisaengchung - Bong Joon Ho - 2019 (Cinemas)

Houve um incidente. Da-song viu um fantasma na casa quando estava na 1ª série. Foi o aniversário dele naquele dia. Tarde da noite, quando todos estavam dormindo, Da-song veio escondido até a cozinha e pegou o bolo. O chantilly daquele bolo era incrível. Mesmo na cama, ele não conseguia parar de pensar nele. Então, Da-song estava sentado, comendo seu bolo. Ele gritou e eu desci as escadas! E ele estava todo... Os olhos tinham rolado pra trás, estava em convulsão, e havia espuma na boca dele.

O sucesso de Parasita - e a importação de talentos de outros mercados - deriva muito da falta de criatividade e banalização da arte, que assola o ocidente. Outro dia, uma banana pregada na parede com uma fita adesiva, elaborada pelo italiano Maurizio Cattelan, e exposta na Galeria Perrotin, em Miami, foi vendida por 120 mil dólares. O que diria Da Vinci quando fosse chamado de artista junto a Cattelan? Se tudo é arte, nada é arte.

Bong Joon Ho é o novo queridinho de Hollywood, após o êxito de Mother - A Busca pela Verdade (2009), a Netflix o convidou para dirigir seu filme mais cheio de expectativas, e que de certa forma inaugurou a era da procura pela empresa por premiações, o regular e esquecível Okja (2017). Parasita é, sem medo de errar, seu melhor filme. A criatividade do roteiro e as tomadas inspiradas no mestre do suspense, Alfred Hitchcock, conferem a película uma qualidade que realça na telona. A escolha dos cenários, enquadramentos e ritmo costuram, junto com os atores, uma sequência de cena e acontecimentos impossível do espectador não se envolver.

Primeiro filme sul-coreano a ganhar a Palma de Ouro em Cannes. O país que vive ao lado de seu irmão socialista, pobre e ditatorial, Coreia do Norte, vive sua pujança econômica. No filme fica claro a abertura de mercado e a liberdade que seus habitantes vivem: garrafas de água norueguesas Voss, computadores da norte-americana Apple e carros alemães Mercedes, são vistos em tomadas planejadas.

O título refere-se à família de Kim Ko-woo (Woo-sik Choi), um jovem que aceita substituir o amigo para dar aulas particulares a uma estudante rica, e que, rapidamente, leva todos seus parentes para trabalhar com ele na casa.

29 novembro 2019

O Irlandês


The Irishman - Martin Scorsese - 2019 (Netflix)

Quem matou JFK? Quem matou o Papa João Paulo I? Quem matou Benjamin Siegel? E quem matou Jimmy Hoffa? Essas perguntas sempre estiveram em aberto, muitas teorias, poucos resultados, em comum só o fato de sempre a máfia estar envolvida nelas.

A Omertà, código de honra e silêncio siciliano, segundo o livro pizzo - história e administração da máfia, é algo tão enraizado na cultura que foi utilizado pela máfia como método administrativo de manter segredos dos atos fora da lei.

Na última vez que Joe Pesci, Martin Scorsese e Robert De Niro estiveram juntos na telona, o Brasil conhecia a internet, o Ebola dizimava populações na África e FHC governava o país em meio a escândalos, como do SIVAM. O mundo e o Brasil mudaram, mas esses três continuam os mesmos, o velho Scorsa rápido, certeiro, musical e usando e abusando da narração de fundo, aqui ele até brinca com essa característica colocando o narrador falando em frente à câmera. Robert De Niro sempre comedido, técnico, preciso. E Joe Pesci, que ator, um holofote ambulante, roubando e iluminando todas as cenas que aparece. São três profissionais exemplares, com carreiras impecáveis e que sabem contar uma história como poucos. É a 4ª vez que trabalham juntos, Touro Indomável (1980), Os Bons Companheiros (1990) e Cassino (1995) completam a nada modesta lista.

Além dessa reunião maravilhosa, O Irlandês traz também outro ator tarimbado que fazia tempo não trabalhava com o cineasta, Harvey Keitel, que desde A Última Tentação de Cristo (1988) não estava no mesmo set que Martin Scorsese. Porém, o esperado encontro é mesmo com Al Pacino, cineasta e ator nunca trabalharam juntos, apesar de uma filmografia bastante semelhante e a descendência italiana, de ambos.

Baseado no livro homônimo O Irlandês - Soube que pinta casas, de Charles Brandt, o filme atravessa a vida do irlandês motorista de caminhão, Frank Sheeran (Robert De Niro), que faz amizade com o poderoso mafioso Russell Bufalino (Joe Pesci) que o apresenta ao lendário sindicalista Jimmy Hoffa (Al Pacino).

19 novembro 2019

O Poderoso Chefão III


The Godfather III - Francis Ford Coppola - 1990

O mais esnobado filme da trilogia, talvez possua uma das mais fortes cenas da história do cinema.

O Poderoso Chefão III mostra a sequencia da vida de Michael Corleone e sua luta em legitimar os negócios da família, uma obsessão que durou a trilogia e que aqui terá seu desfecho final. Quando no 2°, o filme começa com a honraria e a doação da Vito Corleone Foundation, no 3° é uma honraria papal que abre a festa que tornou-se clássica nas aberturas dos longas.

Como não poderia deixar de fazer, fã de óperas, Coppola termina sua trilogia nela, a Cavalleria Rusticana de Pietro Mascagni é responsável por terminar a mais importante saga da história da 7ª arte, um filme de máxima importância dentro da história do cinema, uma obra-prima rica, cheia de significados e com uma cinematografia perfeita.

Num domingo de Páscoa numa pequena cidade siciliana, a população se reúne na cantina de Mamma Lucia, ao lado da capela, para esperar o início da procissão que sairá da igreja. Santuzza pergunta pelo seu prometido, o soldado Turiddu, filho da Mamma Lucia, e ela lhe diz que foi comprar vinho. Alfio, marido de Lola, pede uma taça de vinho a Santuzza que responde que Turiddu foi buscar. Alfio fica sem entender, porque viu Turiddu próximo de sua casa.

A procissão começa e todos entram na capela. Ainda do lado de fora, Santuzza revela a Mamma Lucia seu sofrimento em saber que Turiddu amava Lola antes de ir para o exército, e que ao voltar, Lola já tinha se casado com Alfio, e que ela seria apenas uma substituta, e que Lola não parava de seduzir Turiddu.

Quando Turiddu chega, Santuzza suplica que ele não a abandone jamais, mas Turiddu não a leva a sério. Santuzza então, enlouquecida de ciúmes, conta a Alfio sobre suas suspeitas. Terminada a procissão, todos vão a cantina comemorar. Turiddu segue servindo todos, mas Alfio recusa, insinuando que seu copo estaria envenenado. Turiddu, irritado, lhe morde a orelha tirando-lhe sangue - um gesto siciliano que desafia o outro para um duelo.

Antes de enfrentar Alfio, Turiddu pede a Mamma Lucia que cuide de Santuzza, o amor da sua vida, e vai encontrar Alfio para o duelo. Pouco depois, uma mulher entra desesperada gritando para Mamma Lucia que Turiddu fora morto no duelo.

17 novembro 2019

O Poderoso Chefão II

The Godfather II - Francis Ford Coppola - 1974

No dia da comemoração do aniversário do velho Don, a família se reúne para jantar. O primogênito, Sonny, traz um convidado, Carlo, para apresenta-lo a irmã, Connie. Enquanto isso, Tessio traz o bolo. Todos sentam e conversam animadamente, quando Sonny puxa o assunto do dia - o covarde ataque dos japoneses a Pearl Harbor -, Tessio diz que 30 milhões se alistaram. É o mote para Sonny esculachar os militares, Michael provoca dizendo que aquele discurso é do pai, e solta a bomba dizendo que se alistou na Marinha. O clima fica pesado, Sonny quase bate em Michael, Tom Hagen tenta dissuadi-lo dizendo que o pai tem muitos planos para o jovem, porém Michael está mesmo decidido. O ambiente só melhora quando Connie chama todos para recepcionar o pai que acabara de chegar. Todos vão, exceto Michael Corleone, que fica sozinho na sala que até poucos segundos antes estava cheia.

O maravilhoso livro de Mario Puzo que serve de tapete para o filme, só abrange as cenas do jovem Vito Corleone (Robert DeNiro) nessa sequencia. Toda história, a partir do comando de Michael Corleone (Al Pacino), é uma história original criada pelo mesmo autor do livro.

Após concluir uma obra-prima o que fazer? Francis Ford Coppola fez essa pergunta diversas vezes, sabia ele que a Paramount iria querer uma continuação, indicou o amigo Martin Scorsese, mas não quiseram, estavam decididos a ceder todas as vontades de Coppola, que tinha várias no papel.

E assim nasceu a 2ª obra-prima, O Poderoso Chefão Parte 2, uma sequencia que muitos acham melhor que o primeiro. Dividido entre contar a história de Vito Andolini, um garoto de 9 anos que vê a mãe assassinada, foge da Sicília e vai aos EUA (lá lhe dão o sobrenome de Corleone, sua cidade), forma família e um império, para depois voltar e se vingar. E a história de Michael Corleone, herói de guerra que se recusava a entrar nos negócios da família, até ver seu pai no hospital vítima de uma tentativa de assassinato.

A saga de Vito e Michael possuem estradas semelhantes. Ambos só começam a serem respeitados após matarem um homem, tentam manter os negócios o máximo possível dentro da lei e usam a frieza como arma. Contudo essas estradas tomarão rumos diferentes.

06 novembro 2019

O Poderoso Chefão


The Godfather – Francis Ford Coppola – 1972

No fundo preto, após os acordes de um trompete da inesquecível melodia, vem a frase lapidar na história do cinema: “Eu acredito na América. América fez minha fortuna”. Ainda sem revelar o rosto de Bonasera (Salvatore Corsitto), um sujeito sem convicções e que sempre buscou distância dos problemas da vida, mesmo que isso afetasse sua vida social. A câmera de Coppola ouve sua queixa pacientemente, se distanciando aos poucos, ele procura por justiça pra sua filha espancada, o governo não lhe deu e ele não tem coragem de fazer. Sua última esperança é justamente o homem a quem ele fugiu a vida inteira. O homem que a câmera revela aos poucos, de costas, pelo lado, para depois cortar pro seu rosto em 1° plano. Don Vito Corleone (Marlon Brando), um homem de fala mansa, gestos lentos, longas pausas, e que acaricia um gato no seu colo com a naturalidade de uma criança. Apesar disso, Bonasera ali que parece o infantil. É ele quem beija a mão do Don deixando claro que o poder é algo abstrato. No fim, o Don, ainda segura a lapela de seu smoking e cheira candidamente a rosa vermelha enquanto manda seu Consigliere e filho adotivo, Tom Hagen (Robert Duvall), passar esse serviço ao Caporegime Clemenza (Richard Castellano).

"Eu vou fazer uma proposta que ele não poderá recusar".

A trama se desenvolve após uma reunião da famiglia Corleone com Sollozzo (o saudoso e ótimo Al Lettieri), um mafioso ligado aos Tattaglia, que deseja o envolvimento dos Corleones em seus negócios de narcóticos, por causa do poder e conexões politicas de Don Corleone. A negativa do velho Don é educado, mas seu filho mais velho, e provável sucessor, Sonny Corleone (James Caan), acaba mostrando que é contra o não envolvimento da família com drogas. É a faísca que Sollozzo precisava para convencer seus superiores a tirar Vito da jogada e tratar de negócios com Sonny.

"Deixe a arma, pegue o canoli".

Porém, a tentativa de assassinato não sai como planejado e o Don sobrevive. Isso acaba trazendo para o mundo da máfia o até então avesso aos negócios da família, Michael Corleone (Al Pacino), um militar que se mostra frio e calculista surpreendendo todo mundo, dos 5 filhos de Vito, o mais velho e abobado Fredo (John Cazale), o impulsivo Sonny, o adotivo Tom Hagen, Michael e Connie (Talia Shire), ele era o mais protegido da família.

"Um homem que não se dedica a família, jamais será um homem de verdade".

O Poderoso Chefão é uma obra-prima clássica, será comentado, revisto e adorado daqui há 100 anos. É também um estudo sobre essa organização tão comentada quanto temida, que nasceu no Velho Mundo e encontrou na terra da liberdade um local ideal para prosperar. A direção de Francis Ford Coppola se não é perfeita, beira ela. A forma como desenvolve a trama, baseada no livro do genial Mario Puzo, com sutileza e violência é dinga de aplausos. A influência dos grandes nomes do cinema italiano é evidente em cada cena, e a trilha assinada por Nino Rota só vem carimbar isso. É também genial. Pra completar a fotografia de Gordon Willis, um escuro que brilha, e tons que ajudam a desenhar o ritmo da história. Juntar todos esses gênios: Coppola, Puzo, Rota e Willis só poderia resultar nessa odisseia em forma de ópera que encanta a todos que o assistem.

12 agosto 2019

Era uma Vez em... Hollywood


Once Upon a Time in... Hollywood - Quentin Tarantino - 2019 (Cinemas)

"Eu vou fazer filmes italianos, esse é  problema! Droga, é uma merda. Ninguém vai lembrar dessa merda depois, exceto alguns esquisitos".

Em 2003, durante uma entrevista na TV, o cineasta Quentin Tarantino acabou discutindo com uma repórter sobre a possibilidade de crianças assistirem Kill Bill Vol. 1 (2003). O cineasta deixou claro que cinema é cinema, e vida real é vida real. Enquanto a jornalista repetia seu mantra de que a violência gerava espectadores assassinos.

Era uma Vez em...Hollywood é a brilhante resposta do diretor aos repetidores de mantras.

A trágica história real da vida da atriz Sharon Tate (Margot Robbie) serve como pano de fundo para Tarantino explorar tudo que controla como ninguém: diálogos sensacionais, imagens estupendas, atuações inspiradas, roteiro brilhante e um diretor no auge de sua notável carreira. Acreditem, estamos vivenciando a história de um cineasta que estará sendo apreciada, estudada e reverenciada daqui há 100 anos.

Amparada na atuação da dupla Leonardo DiCaprio e Brad Pitt, que Quentin Tarantino descreveu como: "a dupla dinâmica de astros mais excitante desde Robert Redford e Paul Newman", o filme se divide entre os dois, o astro em declínio Rick Dalton (DiCaprio) e seu dublê Cliff Booth (Pitt). Juntos fazem as melhores cenas da película, separados, protagonizam cenas inesquecíveis, como exemplo a cena de luta de Cliff com Bruce Lee (Mike Moh), ou a conversa emocionante de Rick com a atriz mirim Trudi (Julia Butters).

Era uma Vez em...Hollywood é uma homenagem a um punhado de diretores, Sergio Leone entre outros, e é o filme mais pessoal de Tarantino, segundo o próprio. Porém, ouso dizer, só abrilhanta e homenageia uma filmografia perfeita de um cineasta que está no panteão dos grandes nomes da história da 7ª arte.

28 julho 2019

Os 10 melhores filmes italianos

Há algum tempo me pedem uma lista dos melhores filmes italianos. Como fã do cinema da terra de Michelangelo Antonioni, não poderia deixar de elencar esse desafio. Deixo claro que para elaborar essa serie, como regra, resolvi apenas colocar filmes 100% italianos, ou seja, falados e produzidos na Itália. O que de saída já descarta alguns filmes de Antonioni, Sergio Leone e Paolo Sorrentino, três grandes Mestres, e que sou fã.

10. Começo por Monica Bellucci e o evento que lhe fez jus a sua beleza. Malèna (2000), dirigido por Giuseppe Tornatore, é uma ode a mulher, e uma ode ao cinema italiano.

09. O Carteiro e o Poeta é uma obra-prima italiana do começo ao fim, mesmo narrando uma parte da vida do poeta chileno, Pablo Neruda. E o responsável por isso, dentro e fora das telas é o saudoso Massimo Troisi, o ator que deu a vida pelo filme que o imortalizou.

08. não poderia deixar de estar nessa lista e nessa posição, apesar de, prometo, ter sido uma grande coincidência. O filme de Fellini é uma obra que segue com sua aura e permanecerá assim pra sempre.

07. A Grande Beleza é o A Doce Vida da nova geração. Paolo Sorrentino conseguiu transformar sua grande obra-prima em mais que uma homenagem ao seu maior ídolo, Fellini, mas também em fazer um raio cair no mesmo lugar duas vezes.

06. A Doce Vida é um daqueles filmes que ficarão eternamente guardado nas mentes dos cinéfilos espalhados pelo mundo. Talvez seja o filme italiano mais famoso do mundo.

05. Cinema Paradiso define o cinema italiano. Talvez defina o cinema. Giuseppe Tornatore consegue passar à imagem em movimento seu amor por essa coisa encantadora que é chamada de 7ª arte.

04. Rocco e Seus Irmãos de Luchino Visconti é atemporal, belo e precioso. Consegue transformar um roteiro perfeito, num show de imagens. É o perfeito encontro do rio com o mar.

03. Ladrões de Bicicleta tem todos os elementos que fazem uma obra-prima, um grande cineasta Vittorio De Sica, grandes atores, uma criança protagonista, e uma história edificante e atemporal.

02. A Vida é Bela, aqui todo os créditos vão ao maluco e genial Roberto Benigni. Desconfie daquele que não ama esse filme.

01. Pode parecer obvia a escolha de Michelangelo Antonioni e seu A Aventura como primeiro, mas não, sou mais fã dos filmes já em língua inglesa e coloridos do meu cineasta favorito, mas A Aventura é um divisor de águas. É a obra-prima mais completa e importante cinema italiano.

01 julho 2019

Chernobyl

Chernobyl - Johan Renck - 2019 (HBO)

Qual o custo de uma mentira?

Em 1986, o mundo foi sabendo, aos poucos, de uma explosão numa usina nuclear em Pripyat, na Ucrânia, onde grande quantidade de radiação havia sido liberada. Essa usina tinha o nome do ditador sanguinário Vladimir Lênin, mas era mais famosa pela alcunha de Chernobyl.

A série, em 5 capítulos, é o maior sucesso da HBO, batendo a recém terminada Game of Thrones (2011), e faz todo sentido, esse episódio da história recente da humanidade, ficou, durante muitos anos, escondido na gaveta, e o resultado desse obscurantismo podemos ver na nossa vizinha Venezuela, é imperativo começarmos a discutir sobre o poder tão endeusado de um Estado sobre seu povo.

Chernobyl, dirigida pelo sueco Johan Renck, tem uma estrutura de série sensacional, é quase impossível não vê-la toda, o 1° episódio serve como aperitivo pro próximo, e assim sucessivamente, até culminar no 5° e último que deságua numa explicação de todo o horror que o mundo passou durantes os meses que se estenderam após a explosão. Talvez seja a maior proximidade que o mundo esteve da extinção, ou, ao menos, o continente europeu.

O socialismo soviético dessa época guarda muitas semelhanças com o petista brasileiro, o modus operandi de fabricar mentiras e usá-las como ganho politico, repetindo-as até criar uma verdade pela normalidade, ministros completamente despreparados para o cargo, como o próprio Vice-Presidente do Conselhos de Ministros, Boris Shcherbina (Stellan Skarsgård), e uma máquina enorme usada para permanência do poder do mesmo grupo político, inclusive com a imprensa que só divulgava o que eles queriam. Imaginem que existia até um Ministro do Carvão, apadrinhado político que pouco sabia sobre o mineral.

Não é que podemos confundi-la com a verdade. O perigo real é que se ouvirmos mentiras o bastante, não reconheceremos mais a verdade. E o que poderemos fazer? O que restará além de esquecer até a esperança da verdade, e nos contentarmos em vez disso com histórias.